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Ulisse Caglioni, um dos pioneiros do diálogo entre as duas religiões na Argélia.

Uma experiência singular destacou-se na crônica desses dias: no dia 13 de setembro 2003, cristãos e muçulmanos se reuniram em Argel com o arcebispo Teissier, para homenagear a pessoa de Ulisse Caglioni, focolarino, um dos pioneiros do diálogo entre as duas religiões na Argélia. Este encontro repetiu-se em Tlemcen, na conclusão do Ramadan e, no dia 14 de outubro, em Orano, com o bispo Alphonse Georger.

“Foi a fidelidade de Ulisses ao amor ao próximo evangélico, que permitiu descobrir e vivenciar profundas amizades islâmico-cristãs, colocando um sinal de Deus neste caminho”. Assim escreveu o arcebispo da Argéria, Henri Teissier, após a morte de Ulisse, no dia 1º. de setembro.

Ulisses nasceu em 5 de março de 1943, na cidade de Pedrengo (Bérgamo – Itália), numa família numerosa, com 10 filhos, profundamente cristã. Com 21 anos encontrou o Movimento dos Focolares e sentiu o chamado para uma escolha radical.

Em 1966, foi doada ao Movimento uma pequena abadia beneditina, de estilo árabe, que estava em desuso, localizada em Tlemcen, na região ocidental da Argélia. Juntamente com dois outros companheiros, Ulisses, com apenas 24 anos, abriu a primeira comunidade focolarina num país muçulmano. “Para eles era um mundo totalmente desconhecido, estavam preparados somente para amar o próximo”, disse Giorgio Antoniazzi, atual responsável pelo Movimento na Argélia. Nasceu com os muçulmanos um diálogo espontâneo, construído dia após dia.

Nos primeiros passos neste mundo tão diferente, em 1970, Ulisses escreveu: “…Procuro viver o momento presente do melhor modo possível, desfrutando bem dos momentos mais difíceis, que me dão a possibilidade de viver um pouco mais no Amor puro”.

Uma característica de Ulisses – como escreveu ainda Dom Teissier – era “uma disponibilidade que perpassava todos aqueles pequenos gestos concretos que a sua engenhosidade inventava”. E Maria Teresa Sala, co-responsável com ele pelo Movimento na Argélia, o definiu como gigante da caridade: “O relacionamento com os irmãos era o que havia de mais importante para ele, diria sagrado. Sabia ‘perder tempo’. Ulisses ‘perdeu tempo’ e ‘ganhou tempo’. Ele me ajudou a penetrar no coração e na alma desse povo.”

Ulisses sustentava-se unicamente na fé que ‘o Amor vence tudo’. Numa carta de 1993, escreveu: “Experimento, a cada dia, em contato com uma cultura tão diferente, que somente a presença de Jesus, onde ‘dois ou mais estão reunidos no seu amor’, pode abrir uma brecha e fazer com que floresça também o deserto”.

Tlemcen tornou-se “um lugar de encontro, de diálogo e de espiritualidade, um oásis de paz”, como disse Sidi Ahmed Benchouk, muçulmano, ex-prefeito da região de Tlemcen (Orano), que esteve presente na última saudação a Ulisses, no Centro Mariápolis de Castelgandolfo (Roma). Dirigiu-se a ele num diálogo pessoal: “Você foi um exemplo magnífico de coerência entre o que dizia e o que fazia. Veio em nossa direção, dissolvendo um mar de gelo e derrubando os muros que nos separavam, para construir uma ponte indestrutível”.

Ao longo dos anos, foi se formando uma comunidade composta por centenas de jovens, famílias, pessoas de várias categorias, inclusive vários Imãs.
Este ‘fenômeno’ não se deteve ao âmbito dos cristãos e muçulmanos, mas repetiu-se entre judeus, hindus, aministas e muitas outras religiões, nos países de diferentes culturas nos quais, durante anos, difundiu-se o Movimento dos Focolares, com o único objetivo de suscitar por toda a parte ‘porções de fraternidade’. Era o desenvolvimento imprevisível do diálogo da vida, construído dia após dia.

“Ulisses foi para nós o vínculo entre o cristianismo e islamismo” escreveram a Chiara os amigos muçulmanos, logo após a morte de Ulisses. Acrescentaram: “Aprendemos a escutar, sem preconceitos. Ele nos ensinou a fazer tudo por amor, nos ensinou a sermos o amor. Sempre testemunhou a sua fé em Deus. Foi para nós o modelo daquele que crê. A unidade que construía, ultrapassava as diferenças, a tal ponto que muitos diziam: ‘Ulisses: eis o verdadeiro muçulmano’, não porque não conhecessem a sua fé e a sua vocação, mas porque a sua vida na fé, o tinha transformado num homem de Deus”.

Em 1985, foi ordenado sacerdote pelo bispo de Orano, Dom Claverie, testemunha extraordinária que, dez anos depois, foi vítima de um atentado. Ulisses não se distanciou da Argélia nem mesmo durante a onda de violência, iniciada nos anos ’70. Permaneceu ali por mais de 30 anos, até 2000. Deixou o país somente em virtude de uma grave doença, provocada pelo pó de amianto, que tinha respirado numa fábrica em Bruxelas, na qual trabalhou quarenta anos atrás. Mas o seu testemunho continua a ‘viver’ naquela terra muito amada por ele.

(Fonte: movimentodefocolares.org)