{"id":299002,"date":"2002-10-15T22:00:00","date_gmt":"2002-10-15T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/rosarium-virginis-mariae\/"},"modified":"2024-05-13T21:05:53","modified_gmt":"2024-05-13T19:05:53","slug":"rosarium-virginis-mariae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/rosarium-virginis-mariae\/","title":{"rendered":"Rosarium Virginis Mariae"},"content":{"rendered":"<p>INTRODU\u00c7\u00c3O  1. O Ros\u00e1rio da Virgem Maria (Rosarium Virginis Mariae), que ao sopro do Esp\u00edrito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Mil\u00e9nio, \u00e9 ora\u00e7\u00e3o amada por numerosos Santos e estimulada pelo Magist\u00e9rio. Na sua simplicidade e profundidade, permanece, mesmo no terceiro Mil\u00eanio rec\u00e9m iniciado, uma ora\u00e7\u00e3o de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade. Ela enquadra-se perfeitamente no caminho espiritual de um cristianismo que, passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Esp\u00edrito de Deus a \u00ab fazer-se ao largo \u00bb (duc in altum!) para reafirmar, melhor \u00ab gritar \u00bb Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como \u00ab caminho, verdade e vida \u00bb (Jo 14, 6), como \u00ab o fim da hist\u00f3ria humana, o ponto para onde tendem os desejos da hist\u00f3ria e da civiliza\u00e7\u00e3o \u00bb.1 O Ros\u00e1rio, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu \u00e2mago \u00e9 ora\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evang\u00e9lica,da qual \u00e9 quase um comp\u00eandio.2 Nele ecoa a ora\u00e7\u00e3o de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarna\u00e7\u00e3o redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo crist\u00e3o freq\u00fcenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contempla\u00e7\u00e3o da beleza do rosto de Cristo e na experi\u00eancia da profundidade do seu amor. Mediante o Ros\u00e1rio, o crente alcan\u00e7a a gra\u00e7a em abund\u00e2ncia, como se a recebesse das mesmas m\u00e3os da M\u00e3e do Redentor.  Os Romanos Pont\u00edfices e o Ros\u00e1rio 2. Muitos dos meus Predecessores atribu\u00edram grande import\u00e2ncia a esta ora\u00e7\u00e3o. Merecimento particular teve, a prop\u00f3sito, Le\u00e3o XIII que, no dia 1 de Setembro de 1883, promulgava a Enc\u00edclica Supremi apostolatus officio,3 alto pronunciamento com o qual inaugurava numerosas outras declara\u00e7\u00f5es sobre esta ora\u00e7\u00e3o, indicando-a como instrumento espiritual eficaz contra os males da sociedade. Entre os Papas mais recentes, j\u00e1 na \u00e9poca conciliar, que se distinguiram na promo\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio, desejo recordar o Beato Jo\u00e3o XXIII4 e sobretudo Paulo VI que, na Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Marialis cultus, destacou, em harmonia com a inspira\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II, o car\u00e1ter evang\u00e9lico do Ros\u00e1rio e a sua orienta\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica. Eu mesmo n\u00e3o descurei ocasi\u00e3o para exortar \u00e0 freq\u00fcente recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio. Desde a minha juventude, esta ora\u00e7\u00e3o teve um lugar importante na minha vida espiritual. Trouxe-mo \u00e0 mem\u00f3ria a minha recente viagem \u00e0 Pol\u00f4nia, sobretudo a visita ao Santu\u00e1rio de Kalwaria. O Ros\u00e1rio acompanhou-me nos momentos de alegria e nas prova\u00e7\u00f5es. A ele confiei tantas preocupa\u00e7\u00f5es; nele encontrei sempre conforto. Vinte e quatro anos atr\u00e1s, no dia 29 de Outubro de 1978, apenas duas semanas depois da minha elei\u00e7\u00e3o para a S\u00e9 de Pedro, quase numa confid\u00eancia, assim me exprimia: \u00ab O Ros\u00e1rio \u00e9 a minha ora\u00e7\u00e3o predileta. Ora\u00e7\u00e3o maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade. [&#8230;] Pode dizer-se que o Ros\u00e1rio \u00e9, em certo modo, um coment\u00e1rio-prece do \u00faltimo cap\u00edtulo da Constitui\u00e7\u00e3o Lumen gentium do Vaticano II, cap\u00edtulo que trata da admir\u00e1vel presen\u00e7a da M\u00e3e de Deus no mist\u00e9rio de Cristo e da Igreja. De fato, sobre o fundo das palavras da &#8220;Ave Maria&#8221; passam diante dos olhos da alma os principais epis\u00f3dios da vida de Jesus Cristo. Eles disp\u00f5em-se no conjunto dos mist\u00e9rios gozosos, dolorosos e gloriosos, e p\u00f5em-nos em comunh\u00e3o viva com Jesus &#8211; poder\u00edamos dizer- atrav\u00e9s do Cora\u00e7\u00e3o de Sua M\u00e3e. Ao mesmo tempo o nosso cora\u00e7\u00e3o pode incluir nestas dezenas do Ros\u00e1rio todos os fatos que formam a vida do indiv\u00edduo, da fam\u00edlia, da na\u00e7\u00e3o, da Igreja e da humanidade. Acontecimentos pessoais e do pr\u00f3ximo, e de modo particular daqueles que nos s\u00e3o mais familiares e que mais estimamos. Assim a simples ora\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio marca o ritmo da vida humana\u00bb.5 Com estas palavras, meus caros Irm\u00e3os e Irm\u00e3s, inseria no ritmo quotidiano do Ros\u00e1rio o meu primeiro ano de Pontificado. Hoje, no in\u00edcio do vig\u00e9simo quinto ano de servi\u00e7o como Sucessor de Pedro, desejo fazer o mesmo. Quantas gra\u00e7as recebi nestes anos da Virgem Santa atrav\u00e9s do Ros\u00e1rio: Magnificat anima mea Dominum! Desejo elevar ao Senhor o meu agradecimento com as palavras da sua M\u00e3e Sant\u00edssima, sob cuja prote\u00e7\u00e3o coloquei o meu minist\u00e9rio petrino: Totus tuus!  Outubro 2002 &#8211; Outubro 2003 3. Por isso, na esteira da reflex\u00e3o oferecida na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte na qual convidei o Povo de Deus, ap\u00f3s a experi\u00eancia jubilar, a \u00ab partir de Cristo \u00bb,6 senti a necessidade de desenvolver uma reflex\u00e3o sobre o Ros\u00e1rio, uma esp\u00e9cie de coroa\u00e7\u00e3o marrana da referida Carta apost\u00f3lica, para exortar \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo na companhia e na escola de sua M\u00e3e Sant\u00edssima. Com efeito, recitar o Ros\u00e1rio nada mais \u00e9 sen\u00e3o contemplar com Maria o rosto de Cristo. Para dar maior relevo a este convite, e tomando como ocasi\u00e3o a pr\u00f3xima efem\u00e9ride dos cento e vinte anos da mencionada Enc\u00edclica de Le\u00e3o XIII, desejo que esta ora\u00e7\u00e3o seja especialmente proposta e valorizada nas v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s durante o ano. Proclamo, portanto, o per\u00edodo que vai de Outubro deste ano at\u00e9 Outubro de 2003 Ano do Ros\u00e1rio. Deixo esta indica\u00e7\u00e3o pastoral \u00e0 iniciativa das diversas comunidades eclesiais. Com ela n\u00e3o pretendo dificultar, mas antes integrar e consolidar os planos pastorais das Igrejas particulares. Espero que ela seja acolhida com generosidade e solicitude. O Ros\u00e1rio, quando descoberto no seu pleno significado, conduz ao \u00e2mago da vida crist\u00e3, oferecendo uma ordin\u00e1ria e fecunda oportunidade espiritual e pedag\u00f3gica para a contempla\u00e7\u00e3o pessoal, a forma\u00e7\u00e3o do Povo de Deus e a nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Apraz-me reafirm\u00e1-lo, tamb\u00e9m, na recorda\u00e7\u00e3o feliz de outro anivers\u00e1rio: os 40 anos do in\u00edcio do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (11 de Outubro de 1962), a \u00ab grande gra\u00e7a \u00bb predisposta pelo Esp\u00edrito de Deus para a Igreja do nosso tempo.7  Obje\u00e7\u00f5es ao Ros\u00e1rio 4. A oportunidade desta iniciativa emerge de distintas considera\u00e7\u00f5es. A primeira refere-se \u00e0 urg\u00eancia de fazer frente a uma certa crise desta ora\u00e7\u00e3o, correndo o risco, no atual contexto hist\u00f3rico e teol\u00f3gico, de ser erradamente debilitada no seu valor e, por conseguinte, escassamente proposta \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es. Pensam alguns que a centralidade da Liturgia, justamente ressaltada pelo Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II, tenha como necess\u00e1ria conseq\u00fc\u00eancia uma diminui\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do Ros\u00e1rio. Na verdade, como precisou Paulo VI, esta ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 Liturgia, mas serve-lhe de apoio, visto que introduz nela e d\u00e1-lhe continuidade, permitindo viv\u00ea-la com plena participa\u00e7\u00e3o interior e recolhendo seus frutos na vida quotidiana. Pode haver tamb\u00e9m quem tema que o Ros\u00e1rio possa revelar-se pouco ecum\u00eanico pelo seu car\u00e1ter marcadamente mariano. Na verdade, situa-se no mais claro horizonte de um culto \u00e0 M\u00e3e de Deus tal como o Conc\u00edlio delineou: um culto orientado ao centro cristol\u00f3gico da f\u00e9 crist\u00e3, de forma que, \u00ab honrando a M\u00e3e, melhor se conhe\u00e7a, ame e glorifique o Filho \u00bb.8 Se adequadamente compreendido, o Ros\u00e1rio \u00e9 certamente uma ajuda, n\u00e3o um obst\u00e1culo, para o ecumenismo!  Caminho de contempla\u00e7\u00e3o 5. Por\u00e9m, o motivo mais importante para propor com insist\u00eancia a pr\u00e1tica do Ros\u00e1rio reside no fato de este constituir um meio valid\u00edssimo para favorecer entre os crentes aquele compromisso de contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio crist\u00e3o que propus, na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte, como verdadeira e pr\u00f3pria pedagogia da santidade: \u00ab H\u00e1 necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela arte da ora\u00e7\u00e3o \u00bb.9 Enquanto que na cultura contempor\u00e2nea, mesmo entre tantas contradi\u00e7\u00f5es, emerge uma nova exig\u00eancia de espiritualidade, solicitada inclusive pela influ\u00eancia de outras religi\u00f5es, \u00e9 extremamente urgente que as nossas comunidades crist\u00e3s se tornem \u00ab aut\u00eanticas escolas de ora\u00e7\u00e3o \u00bb.10 O Ros\u00e1rio situa-se na melhor e mais garantida tradi\u00e7\u00e3o da contempla\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Desenvolvido no Ocidente, \u00e9 ora\u00e7\u00e3o tipicamente meditativa e corresponde, de certo modo, \u00e0 \u00ab ora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o \u00bb ou \u00ab ora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00bb germinada no h\u00famus do Oriente crist\u00e3o .  Ora\u00e7\u00e3o pela paz e pela fam\u00edlia 6. A dar maior atualidade ao relan\u00e7amento do Ros\u00e1rio temos algumas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. A primeira delas \u00e9 a urg\u00eancia de invocar de Deus o dom da paz. O Ros\u00e1rio foi, por diversas vezes, proposto pelos meus Predecessores e mesmo por mim como ora\u00e7\u00e3o pela paz. No in\u00edcio de um Mil\u00eanio, que come\u00e7ou com as cenas assustadoras do atentado de 11 de Setembro de 2001 e que regista, cada dia, em tantas partes do mundo novas situa\u00e7\u00f5es de sangue e viol\u00eancia, descobrir novamente o Ros\u00e1rio significa mergulhar na contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio d&#8217;Aquele que \u00ab \u00e9 a nossa paz \u00bb, tendo feito \u00ab de dois povos um s\u00f3, destruindo o muro da inimizade que os separava \u00bb (Ef 2, 14). Portanto n\u00e3o se pode recitar o Ros\u00e1rio sem sentir-se chamado a um preciso compromisso de servi\u00e7o \u00e0 paz, especialmente na terra de Jesus, t\u00e3o atormentada ainda, e t\u00e3o querida ao cora\u00e7\u00e3o crist\u00e3o. An\u00e1loga urg\u00eancia de empenho e de ora\u00e7\u00e3o surge de outra realidade cr\u00edtica da nossa \u00e9poca, a da fam\u00edlia, c\u00e9lula da sociedade, cada vez mais amea\u00e7ada por for\u00e7as desagregadoras a n\u00edvel ideol\u00f3gico e pr\u00e1tico, que fazem temer pelo futuro desta institui\u00e7\u00e3o fundamental e imprescind\u00edvel e, consequentemente, pela sorte da sociedade inteira. O relan\u00e7amento do Ros\u00e1rio nas fam\u00edlias crist\u00e3s, no \u00e2mbito de uma pastoral mais ampla da fam\u00edlia, prop\u00f5e-se como ajuda eficaz para conter os efeitos devastantes desta crise da nossa \u00e9poca.  &#8220;Eis a tua m\u00e3e! &#8221; (Jo 19, 27) 7. Numerosos sinais demonstram quanto a Virgem Maria queira, tamb\u00e9m hoje, precisamente atrav\u00e9s desta ora\u00e7\u00e3o, exercer aquele cuidado maternal ao qual o Redentor prestes a morrer confiou, na pessoa do disc\u00edpulo predileto, todos os filhos da Igreja: \u00ab Mulher, eis a\u00ed o teu filho \u00bb (Jo19, 26). S\u00e3o conhecidas, ao longo dos s\u00e9culos XIX e XX, v\u00e1rias ocasi\u00f5es, nas quais a M\u00e3e de Cristo fez, de algum modo, sentir a sua presen\u00e7a e a sua voz para exortar o Povo de Deus a esta forma de ora\u00e7\u00e3o contemplativa. Em particular desejo lembrar, pela incisiva influ\u00eancia que conservam na vida dos crist\u00e3os e pelo reconhecimento recebido da Igreja, as apari\u00e7\u00f5es de Lourdes e de F\u00e1tima,11 cujos respectivos Santu\u00e1rios s\u00e3o meta de numerosos peregrinos, em busca de conforto e de esperan\u00e7a.  Na senda das testemunhas 8. Seria imposs\u00edvel citar a multid\u00e3o sem conta de Santos que encontraram no Ros\u00e1rio um aut\u00eantico caminho de santifica\u00e7\u00e3o. Bastar\u00e1 recordar S. Lu\u00eds Maria Grignion de Montfort, autor de uma preciosa obra sobre o Ros\u00e1rio12 e, em nossos dias, Padre Pio de Pietrelcina, que recentemente tive a alegria de canonizar. Al\u00e9m disso um carisma especial, como verdadeiro ap\u00f3stolo do Ros\u00e1rio, teve o Beato B\u00e1rtolo Longo. O seu caminho de santidade assenta numa inspira\u00e7\u00e3o ouvida no fundo do cora\u00e7\u00e3o: \u00ab Quem difunde o Ros\u00e1rio, salva-se! \u00bb.13 Baseado nisto, ele sentiu-se chamado a construir em Pomp\u00e9ia um templo dedicado \u00e0 Virgem do Santo Ros\u00e1rio no cen\u00e1rio dos restos da antiga cidade, ainda pouco tocada pelo an\u00fancio crist\u00e3o quando foi sepultada em 79 pela erup\u00e7\u00e3o do Ves\u00favio e surgida das suas cinzas s\u00e9culos depois como testemunho das luzes e sombras da civiliza\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica. Com toda a sua obra e, de modo particular, atrav\u00e9s dos \u00ab Quinze S\u00e1bados \u00bb, B\u00e1rtolo Longo desenvolveu a alma cristol\u00f3gica e contemplativa do Ros\u00e1rio, encontrando particular est\u00edmulo e apoio em Le\u00e3o XIII, o &#8220;Papa do Ros\u00e1rio&#8221;.  CAP\u00cdTULO I CONTEMPLAR CRISTO COM MARIA  Um rosto resplandecente como o sol 9. &#8221; \u00ab Transfigurou-Se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol \u00bb (Mt 17, 2). A cena evang\u00e9lica da transfigura\u00e7\u00e3o de Cristo, na qual os tr\u00eas ap\u00f3stolos Pedro, Tiago e Jo\u00e3o aparecem como que extasiados pela beleza do Redentor, pode ser tomada como \u00edcone da contempla\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Fixar os olhos no rosto de Cristo, reconhecer o seu mist\u00e9rio no caminho ordin\u00e1rio e doloroso da sua humanidade, at\u00e9 perceber o brilho divino definitivamente manifestado no Ressuscitado glorificado \u00e0 direita do Pai, \u00e9 a tarefa de cada disc\u00edpulo de Cristo; \u00e9 por conseguinte tamb\u00e9m a nossa tarefa. Contemplando este rosto, dispomo-nos a acolher o mist\u00e9rio da vida trinit\u00e1ria, para experimentar sempre de novo o amor do Pai e gozar da alegria do Esp\u00edrito Santo. Realiza-se assim tamb\u00e9m para n\u00f3s a palavra de S. Paulo: \u00ab Refletindo a gl\u00f3ria do Senhor, como um espelho, somos transformados de gl\u00f3ria em gl\u00f3ria, nessa mesma imagem, sempre mais resplandecente, pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito do Senhor \u00bb (2Cor 3, 18).  Maria, modelo de contempla\u00e7\u00e3o 10. A contempla\u00e7\u00e3o de Cristo tem em Maria o seu modelo insuper\u00e1vel. O rosto do Filho pertence-lhe sob um t\u00edtulo especial. Foi no seu ventre que Se plasmou, recebendo d&#8217;Ela tamb\u00e9m uma semelhan\u00e7a humana que evoca uma intimidade espiritual certamente ainda maior. \u00c0 contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo, ningu\u00e9m se dedicou com a mesma assiduidade de Maria. Os olhos do seu cora\u00e7\u00e3o concentram-se de algum modo sobre Ele j\u00e1 na Anuncia\u00e7\u00e3o, quando O concebe por obra do Esp\u00edrito Santo; nos meses seguintes, come\u00e7a a sentir sua presen\u00e7a e a pressagiar os contornos. Quando finalmente O d\u00e1 \u00e0 luz em Bel\u00e9m, tamb\u00e9m os seus olhos de carne podem fixar-se com ternura no rosto do Filho, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura (cf. Lc 2, 7). Desde ent\u00e3o o seu olhar, cheio sempre de reverente estupor, n\u00e3o se separar\u00e1 mais d&#8217;Ele. Algumas vezes ser\u00e1 um olhar interrogativo, como no epis\u00f3dio da perda no templo: \u00ab Filho, porque nos fizeste isto? \u00bb (Lc 2, 48); em todo o caso ser\u00e1 um olhar penetrante, capaz de ler no \u00edntimo de Jesus, a ponto de perceber os seus sentimentos escondidos e adivinhar suas decis\u00f5es, como em Can\u00e1 (cf. Jo 2, 5); outras vezes, ser\u00e1 um olhar doloroso, sobretudo aos p\u00e9s da cruz, onde haver\u00e1 ainda, de certa forma, o olhar da parturiente, pois Maria n\u00e3o se limitar\u00e1 a compartilhar a paix\u00e3o e a morte do Unig\u00eanito, mas acolher\u00e1 o novo filho a Ela entregue na pessoa do disc\u00edpulo predileto (cf. Jo 19, 26-27); na manh\u00e3 da P\u00e1scoa, ser\u00e1 um olhar radioso pela alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o e, enfim, um olhar ardoroso pela efus\u00e3o do Esp\u00edrito no dia de Pentecostes (cf. Act 1,14) .  As recorda\u00e7\u00f5es de Maria 11. Maria vive com os olhos fixos em Cristo e guarda cada palavra sua: \u00ab Conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu cora\u00e7\u00e3o \u00bb (Lc 2, 19; cf. 2, 51). As recorda\u00e7\u00f5es de Jesus, estampadas na sua alma, acompanharam-na em cada circunst\u00e2ncia, levando-a a percorrer novamente com o pensamento os v\u00e1rios momentos da sua vida junto com o Filho. Foram estas recorda\u00e7\u00f5es que constitu\u00edram, de certo modo, o &#8220;ros\u00e1rio&#8221; que Ela mesma recitou constantemente nos dias da sua vida terrena. E mesmo agora, entre os c\u00e2nticos de alegria da Jerusal\u00e9m celestial, os motivos da sua gratid\u00e3o e do seu louvor permanecem imut\u00e1veis. S\u00e3o eles que inspiram o seu carinho materno pela Igreja peregrina, na qual Ela continua a desenvolver a composi\u00e7\u00e3o da sua &#8220;narra\u00e7\u00e3o&#8221; de evangelizadora. Maria prop\u00f5e continuamente aos crentes os &#8220;mist\u00e9rios&#8221; do seu Filho, desejando que sejam contemplados, para que possam irradiar toda a sua for\u00e7a salv\u00edfica. Quando recita o Ros\u00e1rio, a comunidade crist\u00e3 sintoniza-se com a lembran\u00e7a e com o olhar de Maria.  Ros\u00e1rio, ora\u00e7\u00e3o contemplativa 12. O Ros\u00e1rio, precisamente a partir da experi\u00eancia de Maria, \u00e9 uma ora\u00e7\u00e3o marcadamente contemplativa. Privado desta dimens\u00e3o, perderia sentido, como sublinhava Paulo VI: \u00ab Sem contempla\u00e7\u00e3o, o Ros\u00e1rio \u00e9 um corpo sem alma e a sua recita\u00e7\u00e3o corre o perigo de tornar-se uma repeti\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de f\u00f3rmulas e de vir a achar-se em contradi\u00e7\u00e3o com a advert\u00eancia de Jesus: &#8220;Na ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejais palavrosos como os gentios, que imaginam que h\u00e3o de ser ouvidos gra\u00e7as \u00e0 sua verbosidade&#8221; (Mt 6, 7). P\u00f4r sua natureza, a recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio requer um ritmo tranq\u00fcilo e uma certa demora a pensar, que favore\u00e7am, naquele que ora, a medita\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da vida do Senhor, vistos atrav\u00e9s do Cora\u00e7\u00e3o d&#8217;Aquela que mais de perto esteve em contato com o mesmo Senhor, e que abram o acesso \u00e0s suas insond\u00e1veis riquezas \u00bb.14 Precisamos de deter-nos neste profundo pensamento de Paulo VI, para dele extrair algumas dimens\u00f5es do Ros\u00e1rio que definem melhor o seu caracter pr\u00f3prio de contempla\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica .  Recordar Cristo com Maria 13. O contemplar de Maria \u00e9, antes de mais, um recordar. Conv\u00e9m, no entanto, entender esta palavra no sentido b\u00edblico da mem\u00f3ria (zakar), que atualiza as obras realizadas por Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. A B\u00edblia \u00e9 narra\u00e7\u00e3o de acontecimentos salv\u00edficos, que culminam no mesmo Cristo. Estes acontecimentos n\u00e3o constituem somente um &#8220;ontem&#8221;; s\u00e3o tamb\u00e9m o &#8220;hoje&#8221; da salva\u00e7\u00e3o. Esta atualiza\u00e7\u00e3o realiza-se particularmente na Liturgia: o que Deus realizou s\u00e9culos atr\u00e1s n\u00e3o tinha a ver s\u00f3 com as testemunhas diretas dos acontecimentos, mas alcan\u00e7a, pelo seu dom de gra\u00e7a, o homem de todos os tempos. Isto vale, de certo modo, tamb\u00e9m para qualquer outra piedosa liga\u00e7\u00e3o com aqueles acontecimentos: \u00ab fazer mem\u00f3ria deles \u00bb, em atitude de f\u00e9 e de amor, significa abrir-se \u00e0 gra\u00e7a que Cristo nos obteve com os seus mist\u00e9rios de vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. P\u00f4r isso, enquanto se reafirma, com o Conc\u00edlio Vaticano II, que a Liturgia, como exerc\u00edcio do of\u00edcio sacerdotal de Cristo e culto p\u00fablico, \u00e9 \u00ab a meta para a qual se encaminha a a\u00e7\u00e3o da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua for\u00e7a \u00bb,15 conv\u00e9m ainda lembrar que \u00ab a participa\u00e7\u00e3o na sagrada Liturgia n\u00e3o esgota a vida espiritual. O crist\u00e3o, chamado a rezar em comum, deve tamb\u00e9m entrar no seu quarto para rezar a s\u00f3s ao Pai (cf. Mt 6, 6); mais, segundo ensina o Ap\u00f3stolo, deve rezar sem cessar (cf. 1 Tes 5, 17) \u00bb.16 O Ros\u00e1rio, com a sua especificidade, situa-se neste cen\u00e1rio diversificado da ora\u00e7\u00e3o \u00ab incessante \u00bb, e se a Liturgia, a\u00e7\u00e3o de Cristo e da Igreja, \u00e9 a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica por excel\u00eancia, o Ros\u00e1rio, enquanto medita\u00e7\u00e3o sobre Cristo com Maria, \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o salutar. De fato, a inser\u00e7\u00e3o, de mist\u00e9rio em mist\u00e9rio, na vida do Redentor faz com que tudo aquilo que Ele realizou e a Liturgia atualiza, seja profundamente assimilado e modele a exist\u00eancia.  Aprender Cristo de Maria 14. Cristo \u00e9 o Mestre por excel\u00eancia, o revelador e a revela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata somente de aprender as coisas que Ele ensinou, mas de &#8220;aprender a Ele&#8221;. Por\u00e9m, nisto, qual mestra mais experimentada do que Maria? Se do lado de Deus \u00e9 o Esp\u00edrito, o Mestre interior, que nos conduz \u00e0 verdade plena de Cristo (cf. Jo 14, 26; 15, 26;16, 13), de entre os seres humanos, ningu\u00e9m melhor do que Ela conhece Cristo, ningu\u00e9m como a M\u00e3e pode introduzir-nos no profundo conhecimento do seu mist\u00e9rio. O primeiro dos &#8220;sinais&#8221; realizado por Jesus -a transforma\u00e7\u00e3o da \u00e1gua em vinho nas bodas de Can\u00e1 &#8211; mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposi\u00e7\u00f5es de Cristo (cf. Jo 2, 5). E podemos imaginar que Ela tenha desempenhado a mesma fun\u00e7\u00e3o com os disc\u00edpulos depois da Ascens\u00e3o de Jesus, quando ficou com eles \u00e0 espera do Esp\u00edrito Santo e os animou na primeira miss\u00e3o. Percorrer com Ela as cenas do Ros\u00e1rio \u00e9 como freq\u00fcentar a &#8220;escola&#8221; de Maria para ler Cristo, penetrar nos seus segredos, compreender a sua mensagem. Uma escola, a de Maria, ainda mais eficaz, quando se pensa que Ela a d\u00e1 obtendo-nos os dons do Esp\u00edrito Santo com abund\u00e2ncia e, ao mesmo tempo, propondo-nos o exemplo daquela \u00ab peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 \u00bb,17 na qual \u00e9 mestra inigual\u00e1vel. Diante de cada mist\u00e9rio do Filho, Ela convida-nos, como na sua Anuncia\u00e7\u00e3o, a colocar humildemente as perguntas que abrem \u00e0 luz, para concluir sempre com a obedi\u00eancia da f\u00e9: \u00ab Eis a serva do Senhor, fa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra \u00bb (Lc 1, 38).  Configurar-se a Cristo com Maria 15.A espiritualidade crist\u00e3 tem como seu caracter qualificador o empenho do disc\u00edpulo em configurar-se sempre mais com o seu Mestre (cf. Rom 8, 29; Fil 3, 10.21). A efus\u00e3o do Esp\u00edrito no Batismo introduz o crente como ramo na videira que \u00e9 Cristo (cf. Jo 15, 5), constitui-o membro do seu Corpo m\u00edstico (cf. 1 Cor 12, 12; Rom 12, 5). Mas a esta unidade inicial, deve corresponder um caminho de assimila\u00e7\u00e3o progressiva a Ele que oriente sempre mais o comportamento do disc\u00edpulo conforme \u00e0 &#8220;l\u00f3gica&#8221; de Cristo: \u00ab Tende entre v\u00f3s os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus \u00bb (Fil 2, 5). \u00c9 necess\u00e1rio, segundo as palavras do Ap\u00f3stolo, \u00ab revestir-se de Cristo \u00bb (Rom13, 14; Gal 3, 27). No itiner\u00e1rio espiritual do Ros\u00e1rio, fundado na incessante contempla\u00e7\u00e3o &#8211; em companhia de Maria &#8211; do rosto de Cristo, este ideal exigente de configura\u00e7\u00e3o com Ele alcan\u00e7a-se atrav\u00e9s do trato, podemos dizer, &#8220;amistoso&#8221;. Este introduz-nos de modo natural na vida de Cristo e como que faz-nos &#8220;respirar&#8221; os seus sentimentos. A este respeito diz o Beato B\u00e1rtolo Longo: \u00ab Tal como dois amigos, que se encontram constantemente, costumam configurar-se at\u00e9 mesmo nos h\u00e1bitos, assim tamb\u00e9m n\u00f3s, conversando familiarmente com Jesus e a Virgem, ao meditar os mist\u00e9rios do Ros\u00e1rio, vivendo unidos uma mesma vida pela Comunh\u00e3o, podemos vir a ser, por quanto poss\u00edvel \u00e0 nossa pequenez, semelhantes a Eles, e aprender destes supremos modelos a vida humilde, pobre, escondida, paciente e perfeita \u00bb.18 Neste processo de configura\u00e7\u00e3o a Cristo no Ros\u00e1rio, confiamo-nos, de modo particular, \u00e0 a\u00e7\u00e3o maternal da Virgem Santa. Aquela que \u00e9 M\u00e3e de Cristo, pertence Ela mesma \u00e0 Igreja como seu \u00ab membro eminente e inteiramente singular \u00bb19 sendo, ao mesmo tempo, a &#8220;M\u00e3e da Igreja&#8221;. Como tal, &#8220;gera&#8221; continuamente filhos para o Corpo m\u00edstico do Filho. F\u00e1-lo mediante a intercess\u00e3o, implorando para eles a efus\u00e3o inesgot\u00e1vel do Esp\u00edrito. Ela \u00e9 o perfeito \u00edcone da maternidade da Igreja. O Ros\u00e1rio transporta-nos misticamente para junto de Maria dedicada a acompanhar o crescimento humano de Cristo na casa de Nazar\u00e9. Isto permite-lhe educar-nos e plasmar-nos, com a mesma solicitude, at\u00e9 que Cristo esteja formado em n\u00f3s plenamente (cf. Gal 4, 19). Esta a\u00e7\u00e3o de Maria, totalmente fundada sobre a de Cristo e a esta radicalmente subordinada, \u00ab n\u00e3o impede minimamente a uni\u00e3o imediata dos crentes com Cristo, antes a facilita \u00bb.20 \u00c9 o princ\u00edpio luminoso expresso pelo Conc\u00edlio Vaticano II, que provei com tanta for\u00e7a na minha vida, colocando-o na base do meu lema episcopal: Totus tuus.21 Um lema, como \u00e9 sabido, inspirado na doutrina de S. Lu\u00eds Maria Grignion de Montfort, que assim explica o papel de Maria no processo de configura\u00e7\u00e3o a Cristo de cada um de n\u00f3s: &#8220;Toda a nossa perfei\u00e7\u00e3o consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devo\u00e7\u00f5es \u00e9 incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, sendo Maria entre todas as criaturas a mais configurada a Jesus Cristo, da\u00ed se conclui que de todas as devo\u00e7\u00f5es, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor \u00e9 a devo\u00e7\u00e3o a Maria, sua santa M\u00e3e; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais ser\u00e1 a Jesus Cristo&#8221;.22 Nunca como no Ros\u00e1rio o caminho de Cristo e o de Maria aparecem unidos t\u00e3o profundamente. Maria s\u00f3 vive em Cristo e em fun\u00e7\u00e3o de Cristo!  Suplicar a Cristo com Maria 16.Cristo convidou a dirigirmo-nos a Deus com insist\u00eancia e confian\u00e7a para ser escutados:\u00ab Pedi e dar-se-vos-\u00e1; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-\u00e1 \u00bb (Mt 7, 7). O fundamento desta efic\u00e1cia da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a bondade do Pai, mas tamb\u00e9m a media\u00e7\u00e3o junto d&#8217;Ele por parte do mesmo Cristo (cf. 1 Jo 2, 1) e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que \u00ab intercede por n\u00f3s \u00bb conforme os des\u00edgnios de Deus (cf. Rom 8, 26-27). De fato, n\u00f3s \u00ab n\u00e3o sabemos o que devemos pedir em nossas ora\u00e7\u00f5es \u00bb (Rom 8, 26) e, \u00e0s vezes, n\u00e3o somos atendidos \u00ab porque pedimos mal \u00bb (Tg 4, 3). Em apoio da ora\u00e7\u00e3o que Cristo e o Esp\u00edrito fazem brotar no nosso cora\u00e7\u00e3o, interv\u00e9m Maria com a sua materna intercess\u00e3o. &#8220;A ora\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 como que sustentada pela ora\u00e7\u00e3o de Maria&#8221;.23 De fato, se Jesus, \u00fanico Mediador, \u00e9 o Caminho da nossa ora\u00e7\u00e3o, Maria, pura transpar\u00eancia d&#8217;Ele, mostra o Caminho, e &#8220;\u00e9 a partir desta singular coopera\u00e7\u00e3o de Maria com a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo que as Igrejas cultivaram a ora\u00e7\u00e3o \u00e0 santa M\u00e3e de Deus, centrando-a na pessoa de Cristo manifestada nos seus mist\u00e9rios&#8221;.24 Nas bodas de Can\u00e1, o Evangelho mostra precisamente a efic\u00e1cia da intercess\u00e3o de Maria, que se faz porta-voz junto de Jesus das necessidades humanas: \u00ab N\u00e3o t\u00eam vinho \u00bb (Jo2,3). O Ros\u00e1rio \u00e9 ao mesmo tempo medita\u00e7\u00e3o e s\u00faplica. A implora\u00e7\u00e3o insistente da M\u00e3e de Deus apoia-se na confian\u00e7a de que a sua materna intercess\u00e3o tudo pode no cora\u00e7\u00e3o do Filho. Ela \u00e9 &#8220;omnipotente por gra\u00e7a&#8221;, como, com express\u00e3o audaz a ser bem entendida, dizia o Beato B\u00e1rtolo Longo na sua S\u00faplica \u00e0 Virgem.25 Uma certeza esta que, a partir do Evangelho, foi-se consolidando atrav\u00e9s da experi\u00eancia do povo crist\u00e3o. O grande poeta Dante, na linha de S. Bernardo, interpreta-a estupendamente, quando canta: &#8220;Donna, se&#8217; tanto grande e tanto vali, \/ che qual vuol grazia e a te n\u00e3o ricorre, \/ sua disianza vuol volar sanz&#8217;ali&#8221;.26 No Ros\u00e1rio, Maria, santu\u00e1rio do Esp\u00edrito Santo (cf. Lc1, 35), ao ser suplicada por n\u00f3s, apresenta-se em nosso favor diante do Pai que a cumulou de gra\u00e7a e do Filho nascido das suas entranhas, pedindo conosco e por n\u00f3s .  Anunciar Cristo com Maria 17. O Ros\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m um itiner\u00e1rio de an\u00fancio e aprofundamento, no qual o mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 continuamente oferecido aos diversos n\u00edveis da experi\u00eancia crist\u00e3. O m\u00f3dulo \u00e9 o de uma apresenta\u00e7\u00e3o orante e contemplativa, que visa plasmar o disc\u00edpulo segundo o cora\u00e7\u00e3o de Cristo. De fato, se na recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio todos os elementos para uma medita\u00e7\u00e3o eficaz forem devidamente valorizados, torna-se, especialmente na celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria nas par\u00f3quias e nos santu\u00e1rios, uma significativa oportunidade catequ\u00e9tica que os Pastores devem saber aproveitar. A Virgem do Ros\u00e1rio continua tamb\u00e9m deste modo a sua obra de an\u00fancio de Cristo. A hist\u00f3ria do Ros\u00e1rio mostra como esta ora\u00e7\u00e3o foi utilizada especialmente pelos Dominicanos, num momento dif\u00edcil para a Igreja por causa da difus\u00e3o da heresia. Hoje encontramo-nos diante de novos desafios. Porque n\u00e3o retomar na m\u00e3o o Ter\u00e7o com a f\u00e9 dos que nos precederam? O Ros\u00e1rio conserva toda a sua for\u00e7a e permanece um recurso n\u00e3o descur\u00e1vel na bagagem pastoral de todo o bom evangelizador.  CAP\u00cdTULO II MIST\u00c9RIOS DE CRISTO &#8211; MIST\u00c9RIOS DA M\u00c3E  O Ros\u00e1rio, &#8220;comp\u00eandio do Evangelho&#8221; 18. \u00c0 contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo s\u00f3 podemos introduzir-nos escutando, no Esp\u00edrito, a voz do Pai, porque \u00ab ningu\u00e9m conhece o Filho sen\u00e3o o Pai \u00bb (Mt 11, 27). Nas proximidades de Cesar\u00e9ia de Filipe, perante a confiss\u00e3o de Pedro, Jesus especificar\u00e1 a fonte de uma t\u00e3o clara intui\u00e7\u00e3o da sua identidade: \u00ab N\u00e3o foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us \u00bb (Mt 16, 17). \u00c9, pois, necess\u00e1ria a revela\u00e7\u00e3o do alto. Mas, para acolh\u00ea-la, \u00e9 indispens\u00e1vel colocar-se \u00e0 escuta: &#8220;S\u00f3 a experi\u00eancia do sil\u00eancio e da ora\u00e7\u00e3o oferece o ambiente adequado para maturar e desenvolver-se um conhecimento mais verdadeiro, aderente e coerente daquele mist\u00e9rio&#8221;.27 O Ros\u00e1rio \u00e9 um dos percursos tradicionais da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 aplicada \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo. Paulo VI assim o descreveu: \u00ab Ora\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, centrada sobre o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o redentora, o Ros\u00e1rio \u00e9, por isso mesmo, uma prece de orienta\u00e7\u00e3o profundamente cristol\u00f3gica. Na verdade, o seu elemento mais caracter\u00edstico &#8211; a repeti\u00e7\u00e3o lit\u00e2nica do &#8220;Alegra-te, Maria&#8221;- torna-se tamb\u00e9m ele louvor incessante a Cristo, objetivo \u00faltimo do an\u00fancio do Anjo e da sauda\u00e7\u00e3o da m\u00e3e do Batista: &#8220;Bendito o fruto do teu ventre&#8221; (Lc 1, 42). Diremos mais ainda: a repeti\u00e7\u00e3o da Ave Maria constitui a urdidura sobre a qual se desenrola a contempla\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios; aquele Jesus que cada Ave Maria relembra \u00e9 o mesmo que a sucess\u00e3o dos mist\u00e9rios prop\u00f5e, uma e outra vez, como Filho de Deus e da Virgem Sant\u00edssima \u00bb .28  Uma inser\u00e7\u00e3o oportuna 19. De tantos mist\u00e9rios da vida de Cristo, o Ros\u00e1rio, tal como se consolidou na pr\u00e1tica mais comum confirmada pela autoridade eclesial, aponta s\u00f3 alguns. Tal sele\u00e7\u00e3o foi ditada pela estrutura\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria desta ora\u00e7\u00e3o, que adotou o n\u00famero 150 como o dos Salmos. Considero, no entanto, que, para refor\u00e7ar o espessor cristol\u00f3gico do Ros\u00e1rio, seja oportuna uma inser\u00e7\u00e3o que, embora deixada \u00e0 livre valoriza\u00e7\u00e3o de cada pessoa e das comunidades, lhes permita abra\u00e7ar tamb\u00e9m os mist\u00e9rios da vida p\u00fablica de Cristo entre o Batismo e a Paix\u00e3o. Com efeito, \u00e9 no \u00e2mbito destes mist\u00e9rios que contemplamos aspectos importantes da pessoa de Cristo, como revelador definitivo de Deus. \u00c9 Ele que, declarado Filho dileto do Pai no Batismo do Jord\u00e3o, anuncia a vinda do Reino, testemunha-a com as obras e proclama as suas exig\u00eancias. \u00c9 nos anos da vida p\u00fablica que o mist\u00e9rio de Cristo se mostra de forma especial como mist\u00e9rio de luz: \u00ab Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo \u00bb (Jo 9, 5). Para que o Ros\u00e1rio possa considerar-se mais plenamente &#8220;comp\u00eandio do Evangelho&#8221;, \u00e9 conveniente que, depois de recordar a encarna\u00e7\u00e3o e a vida oculta de Cristo (mist\u00e9rios da alegria), e antes de se deter nos sofrimentos da paix\u00e3o (mist\u00e9rios da dor), e no triunfo da ressurrei\u00e7\u00e3o (mist\u00e9rios da gl\u00f3ria), a medita\u00e7\u00e3o se concentre tamb\u00e9m sobre alguns momentos particularmente significativos da vida p\u00fablica (mist\u00e9rios da luz). Esta inser\u00e7\u00e3o de novos mist\u00e9rios, sem prejudicar nenhum aspecto essencial do esquema tradicional desta ora\u00e7\u00e3o, visa faz\u00ea-la viver com renovado interesse na espiritualidade crist\u00e3, como verdadeira introdu\u00e7\u00e3o na profundidade do Cora\u00e7\u00e3o de Cristo, abismo de alegria e de luz, de dor e de gl\u00f3ria.  Mist\u00e9rios da alegria 20. O primeiro ciclo, o dos &#8220;mist\u00e9rios gozosos&#8221;, caracteriza-se de fato pela alegria que irradia do acontecimento da Encarna\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 evidente desde a Anuncia\u00e7\u00e3o, quando a sauda\u00e7\u00e3o de Gabriel \u00e0 Virgem de Nazar\u00e9 se liga ao convite da alegria messi\u00e2nica: \u00ab Alegra-te, Maria \u00bb. Para este an\u00fancio se encaminha a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, e at\u00e9, de certo modo, a hist\u00f3ria do mundo. De fato, se o des\u00edgnio do Pai \u00e9 recapitular em Cristo todas as coisas (cf. Ef 1, 10), ent\u00e3o todo o universo de algum modo \u00e9 alcan\u00e7ado pelo favor divino, com o qual o Pai Se inclina sobre Maria para torn\u00e1-La M\u00e3e do seu Filho. P\u00f4r sua vez, toda a humanidade est\u00e1 como que inclu\u00edda no fiat com que Ela corresponde prontamente \u00e0 vontade de Deus. Sob o signo da exulta\u00e7\u00e3o, aparece depois a cena do encontro com Isabel, onde a mesma voz de Maria e a presen\u00e7a de Cristo no seu ventre fazem \u00ab saltar de alegria \u00bb Jo\u00e3o (cf. Lc 1, 44). Inundada de alegria \u00e9 a cena de Bel\u00e9m, onde o nascimento do Deus-Menino, o Salvador do mundo, \u00e9 cantado pelos anjos e anunciado aos pastores precisamente como \u00ab uma grande alegria \u00bb (Lc 2, 10). Os dois \u00faltimos mist\u00e9rios, por\u00e9m, mesmo conservando o sabor da alegria antecipam j\u00e1 os sinais do drama. A apresenta\u00e7\u00e3o no templo, de fato, enquanto exprime a alegria da consagra\u00e7\u00e3o e extasia o velho Sime\u00e3o, regista tamb\u00e9m a profecia do \u00ab sinal de contradi\u00e7\u00e3o \u00bb que o Menino ser\u00e1 para Israel e da espada que trespassar\u00e1 a alma da M\u00e3e (cf. Lc 2, 34-35). Gozoso e ao mesmo tempo dram\u00e1tico \u00e9 tamb\u00e9m o epis\u00f3dio de Jesus, aos doze anos, no templo. Vemo-Lo aqui na sua divina sabedoria, enquanto escuta e interroga, e substancialmente no papel d&#8217;Aquele que &#8220;ensina&#8221;. A revela\u00e7\u00e3o do seu mist\u00e9rio de Filho totalmente dedicado \u00e0s coisas do Pai \u00e9 an\u00fancio daquela radicalidade evang\u00e9lica que p\u00f5e inclusive em crise os la\u00e7os mais caros do homem, diante das exig\u00eancias absolutas do Reino. At\u00e9 Jos\u00e9 e Maria, aflitos e angustiados, \u00ab n\u00e3o entenderam \u00bb as suas palavras (Lc 2, 50). P\u00f4r isso, meditar os mist\u00e9rios gozosos significa entrar nas motiva\u00e7\u00f5es \u00faltimas e no significado profundo da alegria crist\u00e3. Significa fixar o olhar sobre a realidade concreta do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e sobre o obscuro pren\u00fancio do mist\u00e9rio do sofrimento salv\u00edfico. Maria leva-nos a aprender o segredo da alegria crist\u00e3, lembrando-nos que o cristianismo \u00e9, antes de mais, euangelion, &#8220;boa nova&#8221;, que tem o seu centro, antes, o seu mesmo conte\u00fado, na pessoa de Cristo, o Verbo feito carne, \u00fanico Salvador do mundo.  Mist\u00e9rios da luz 21. Passando da inf\u00e2ncia e da vida de Nazar\u00e9 \u00e0 vida p\u00fablica de Jesus, a contempla\u00e7\u00e3o leva-nos aos mist\u00e9rios que se podem chamar, por especial t\u00edtulo, &#8220;mist\u00e9rios da luz&#8221;. Na verdade, todo o mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 luz. Ele \u00e9 a \u00ab luz do mundo \u00bb (Jo8, 12). Mas esta dimens\u00e3o emerge particularmente nos anos da vida p\u00fablica, quando Ele anuncia o evangelho do Reino. Querendo indicar \u00e0 comunidade crist\u00e3 cinco momentos significativos &#8211; mist\u00e9rios luminosos &#8211; desta fase da vida de Cristo, considero que se podem justamente individuar: 1ono seu Batismo no Jord\u00e3o, 2ona sua auto-revela\u00e7\u00e3o nas bodas de Can\u00e1, 3ono seu an\u00fancio do Reino de Deus com o convite \u00e0 convers\u00e3o, 4ona sua Transfigura\u00e7\u00e3o e, enfim, 5ona institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, express\u00e3o sacramental do mist\u00e9rio pascal. Cada um destes mist\u00e9rios \u00e9 revela\u00e7\u00e3o do Reino divino j\u00e1 personificado no mesmo Jesus. Primeiramente \u00e9 mist\u00e9rio de luz o Batismo no Jord\u00e3o. Aqui, enquanto Cristo desce \u00e0 \u00e1gua do rio, como inocente que Se faz pecado por n\u00f3s (cf. 2 Cor 5, 21), o c\u00e9u abre-se e a voz do Pai proclama-O Filho dileto (cf. Mt 3, 17 par), ao mesmo tempo que o Esp\u00edrito vem sobre Ele para investi-Lo na miss\u00e3o que O espera. Mist\u00e9rio de luz \u00e9 o in\u00edcio dos sinais em Can\u00e1 (cf. Jo 2, 1-12), quando Cristo, transformando a \u00e1gua em vinho, abre \u00e0 f\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Maria, a primeira entre os crentes. Mist\u00e9rio de luz \u00e9 a prega\u00e7\u00e3o com a qual Jesus anuncia o advento do Reino de Deus e convida \u00e0 convers\u00e3o (cf. Mc 1, 15), perdoando os pecados de quem a Ele se dirige com humilde confian\u00e7a (cf.Mc 2, 3-13; Lc 7, 47-48), in\u00edcio do minist\u00e9rio de miseric\u00f3rdia que Ele prosseguir\u00e1 exercendo at\u00e9 ao fim do mundo, especialmente atrav\u00e9s do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o confiado \u00e0 sua Igreja (cf. Jo 20, 22-23). Mist\u00e9rio de luz por excel\u00eancia \u00e9 a Transfigura\u00e7\u00e3o que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, se deu no Monte Tabor. A gl\u00f3ria da Divindade reluz no rosto de Cristo, enquanto o Pai O acredita aos Ap\u00f3stolos extasiados para que O \u00ab escutem \u00bb (cf. Lc 9, 35 par) e se disponham a viver com Ele o momento doloroso da Paix\u00e3o, a fim de chegarem com Ele \u00e0 gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o e a uma vida transfigurada pelo Esp\u00edrito Santo. Mist\u00e9rio de luz \u00e9, enfim, a institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, na qual Cristo Se faz alimento com o seu Corpo e o seu Sangue sob os sinais do p\u00e3o e do vinho, testemunhando \u00ab at\u00e9 ao extremo \u00bb o seu amor pela humanidade (Jo 13, 1), por cuja salva\u00e7\u00e3o Se oferecer\u00e1 em sacrif\u00edcio. Nestes mist\u00e9rios, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de Can\u00e1, a presen\u00e7a de Maria fica em segundo plano. Os Evangelhos mencionam apenas alguma presen\u00e7a ocasional d&#8217;Ela no tempo da prega\u00e7\u00e3o de Jesus (cf.Mc 3, 31-35; Jo 2, 12) e nada dizem de uma eventual presen\u00e7a no Cen\u00e1culo durante a institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Mas, a fun\u00e7\u00e3o que desempenha em Can\u00e1 acompanha, de algum modo, todo o caminho de Cristo. A revela\u00e7\u00e3o, que no Batismo do Jord\u00e3o \u00e9 oferecida diretamente pelo Pai e confirmada pelo Batista, est\u00e1 na sua boca em Can\u00e1, e torna-se a grande advert\u00eancia materna que Ela dirige \u00e0 Igreja de todos os tempos: \u00ab Fazei o que Ele vos disser \u00bb (Jo 2, 5). Advert\u00eancia esta que introduz bem as palavras e os sinais de Cristo durante a vida p\u00fablica, constituindo o fundo mariano de todos os &#8220;mist\u00e9rios da luz&#8221;.  Mist\u00e9rios da dor 22. Os Evangelhos d\u00e3o grande relevo aos mist\u00e9rios da dor de Cristo. A piedade crist\u00e3 desde sempre, especialmente na Quaresma, atrav\u00e9s do exerc\u00edcio da Via Sacra, deteve-se em cada um dos momentos da Paix\u00e3o, intuindo que aqui est\u00e1 o \u00e1pice da revela\u00e7\u00e3o do amor e a fonte da nossa salva\u00e7\u00e3o. O Ros\u00e1rio escolhe alguns momentos da Paix\u00e3o, induzindo o orante a fixar neles o olhar do cora\u00e7\u00e3o e a reviv\u00ea-los. O itiner\u00e1rio meditativo abre-se com o Gets\u00e9mani, onde Cristo vive um momento de particular ang\u00fastia perante a vontade do Pai, contra a qual a debilidade da carne seria tentada a revoltar-se. Ali Cristo p\u00f5e-Se no lugar de todas as tenta\u00e7\u00f5es da humanidade, e diante de todos os seus pecados, para dizer ao Pai: \u00ab N\u00e3o se fa\u00e7a a minha vontade, mas a Tua \u00bb (Lc 22, 42 e par). Este seu &#8220;sim&#8221; muda o &#8220;n\u00e3o&#8221; dos pais no \u00c9den. E o quanto Lhe dever\u00e1 custar esta ades\u00e3o \u00e0 vontade do Pai, emerge dos mist\u00e9rios seguintes, nos quais, com a flagela\u00e7\u00e3o, a coroa\u00e7\u00e3o de espinhos, a subida ao Calv\u00e1rio, a morte na cruz, Ele \u00e9 lan\u00e7ado no maior desprezo: Ecce homo! Neste desprezo, revela-se n\u00e3o somente o amor Deus, mas o mesmo sentido do homem. Ecce homo: quem quiser conhecer o homem, deve saber reconhecer o seu sentido, a sua raiz e o seu cumprimento em Cristo, Deus que Se rebaixa por amor \u00ab at\u00e9 \u00e0 morte, e morte de cruz \u00bb (Fil 2, 8). Os mist\u00e9rios da dor levam o crente a reviver a morte de Jesus pondo-se aos p\u00e9s da cruz junto de Maria, para com Ela penetrar no abismo do amor de Deus pelo homem e sentir toda a sua for\u00e7a regeneradora.  Mist\u00e9rios da gl\u00f3ria 23.&#8221; &#8220;A contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo n\u00e3o pode deter-se na imagem do crucificado. Ele \u00e9 o Ressuscitado!&#8221;.29 O Ros\u00e1rio sempre expressou esta certeza da f\u00e9, convidando o crente a ultrapassar as trevas da Paix\u00e3o, para fixar o olhar na gl\u00f3ria de Cristo com a Ressurrei\u00e7\u00e3o e a Ascens\u00e3o. Contemplando o Ressuscitado, o crist\u00e3o descobre novamente as raz\u00f5es da pr\u00f3pria f\u00e9 (cf. 1 Cor 15, 14), e revive n\u00e3o s\u00f3 a alegria daqueles a quem Cristo Se manifestou &#8211; os Ap\u00f3stolos, a Madalena, os disc\u00edpulos de Ema\u00fas -, mas tamb\u00e9m a alegria de Maria, que dever\u00e1 ter tido uma experi\u00eancia n\u00e3o menos intensa da nova exist\u00eancia do Filho glorificado. A esta gl\u00f3ria, onde com a Ascens\u00e3o Cristo Se senta \u00e0 direita do Pai, Ela mesma ser\u00e1 elevada com a Assun\u00e7\u00e3o, chegando, por especial\u00edssimo privil\u00e9gio, a antecipar o destino reservado a todos os justos com a ressurrei\u00e7\u00e3o da carne. Enfim, coroada de gl\u00f3ria &#8211; como aparece no \u00faltimo mist\u00e9rio glorioso &#8211; Ela resplandece como Rainha dos Anjos e dos Santos, antecipa\u00e7\u00e3o e ponto culminante da condi\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica da Igreja. No centro deste itiner\u00e1rio de gl\u00f3ria do Filho e da M\u00e3e, o Ros\u00e1rio p\u00f5e, no terceiro mist\u00e9rio glorioso, o Pentecostes, que mostra o rosto da Igreja como fam\u00edlia reunida com Maria, fortalecida pela poderosa efus\u00e3o do Esp\u00edrito, pronta para a miss\u00e3o evangelizadora. No \u00e2mbito da realidade da Igreja, a contempla\u00e7\u00e3o deste, como dos outros mist\u00e9rios gloriosos, deve levar os crentes a tomarem uma consci\u00eancia cada vez mais viva da sua nova exist\u00eancia em Cristo, uma exist\u00eancia de que o Pentecostes constitui o grande &#8220;\u00edcone&#8221;. Desta forma, os mist\u00e9rios gloriosos alimentam nos crentes a esperan\u00e7a da meta escatol\u00f3gica, para onde caminham como membros do Povo de Deus peregrino na hist\u00f3ria. Isto n\u00e3o pode deixar de impeli-los a um corajoso testemunho daquela \u00ab grande alegria \u00bb que d\u00e1 sentido a toda a sua vida.  Dos &#8220;mist\u00e9rios&#8221; ao &#8220;Mist\u00e9rio&#8221;: o caminho de Maria 24. Estes ciclos meditativos propostos no Santo Ros\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o certamente exaustivos, mas apelam ao essencial, introduzindo o esp\u00edrito no gosto de um conhecimento de Cristo que brota continuamente da fonte l\u00edmpida do texto evang\u00e9lico. Cada passagem da vida de Cristo, como \u00e9 narrada pelos Evangelistas, reflete aquele Mist\u00e9rio que supera todo o conhecimento (cf. Ef 3, 19). \u00c9 o Mist\u00e9rio do Verbo feito carne, no Qual \u00ab habita corporalmente toda a plenitude da divindade \u00bb (Col 2, 9). P\u00f4r isso, o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica insiste tanto nos mist\u00e9rios de Cristo, lembrando que \u00ab tudo na vida de Jesus \u00e9 sinal do seu Mist\u00e9rio \u00bb.30 O &#8220;duc in altum&#8221; da Igreja no terceiro Mil\u00eanio \u00e9 medido pela capacidade dos crist\u00e3os de \u00ab conhecerem o mist\u00e9rio de Deus, isto \u00e9 Cristo, no Qual est\u00e3o escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ci\u00eancia \u00bb (Col 2, 2-3). A cada batizado \u00e9 dirigido este voto ardente da Carta aos Ef\u00e9sios: \u00ab Que Cristo habite pela f\u00e9 nos vossos cora\u00e7\u00f5es, de sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais [&#8230;] compreender o amor de Cristo, que excede toda a ci\u00eancia, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus \u00bb (3, 17-19). O Ros\u00e1rio coloca-se ao servi\u00e7o deste ideal, oferecendo o &#8220;segredo&#8221; para se abrir mais facilmente a um conhecimento profundo e empenhado de Cristo. Digamos que \u00e9 o caminho de Maria. \u00c9 o caminho do exemplo da Virgem de Nazar\u00e9, mulher de f\u00e9, de sil\u00eancio e de escuta. \u00c9, ao mesmo tempo, o caminho de uma devo\u00e7\u00e3o marrana animada pela certeza da rela\u00e7\u00e3o indivis\u00edvel que liga Cristo \u00e0 sua M\u00e3e Sant\u00edssima: os mist\u00e9rios de Cristo s\u00e3o tamb\u00e9m, de certo modo, os mist\u00e9rios da M\u00e3e, mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 diretamente envolvida, pelo fato de Ela viver d&#8217;Ele e para Ele. Na Ave Maria, apropriando-nos das palavras do Arcanjo Gabriel e de Santa Isabel, sentimo-nos levados a procurar sempre de novo em Maria, nos seus bra\u00e7os e no seu cora\u00e7\u00e3o, o \u00ab fruto bendito do seu ventre \u00bb (cf. Lc 1, 42).  Mist\u00e9rio de Cristo, &#8220;mist\u00e9rio&#8221; do homem 25. No citado testemunho de 1978 sobre o Ros\u00e1rio como minha ora\u00e7\u00e3o predileta, exprimi um conceito sobre o qual desejo retornar. Dizia ent\u00e3o que \u00ab a simples ora\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio marca o ritmo da vida humana \u00bb.31 \u00c0 luz das reflex\u00f5es desenvolvidas at\u00e9 agora sobre os mist\u00e9rios de Cristo, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil aprofundar esta implica\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica do Ros\u00e1rio; uma implica\u00e7\u00e3o mais radical do que possa parecer \u00e0 primeira vista. Quem contempla a Cristo, percorrendo as etapas da sua vida, n\u00e3o pode deixar de aprender d&#8217;Ele a verdade sobre o homem. \u00c9 a grande afirma\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II que, desde a Carta enc\u00edclica Redemptor hominis, tantas vezes fiz objeto do meu magist\u00e9rio: &#8220;Na realidade, o mist\u00e9rio do homem s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente&#8221;.32 O Ros\u00e1rio ajuda a abrir-se a esta luz. Seguindo o caminho de Cristo, no qual o caminho do homem \u00e9 \u00ab recapitulado \u00bb,33 manifestado e redimido, o crente p\u00f5e-se diante da imagem do homem verdadeiro. Contemplando o seu nascimento aprende a sacralidade da vida, olhando para a casa de Nazar\u00e9 aprende a verdade origin\u00e1ria da fam\u00edlia segundo o des\u00edgnio de Deus, escutando o Mestre nos mist\u00e9rios da vida p\u00fablica recebe a luz para entrar no Reino de Deus, e seguindo-O no caminho para o Calv\u00e1rio aprende o sentido da dor salv\u00edfica. Contemplando, enfim, a Cristo e sua M\u00e3e na gl\u00f3ria, v\u00ea a meta para a qual cada um de n\u00f3s \u00e9 chamado, se deixa curar e transfigurar pelo Esp\u00edrito Santo. Pode-se dizer, portanto, que cada mist\u00e9rio do Ros\u00e1rio, bem meditado, ilumina o mist\u00e9rio do homem. Ao mesmo tempo, torna-se natural levar a este encontro com a humanidade santa do Redentor os numerosos problemas, agruras, fadigas e projetos que definem a nossa vida. \u00ab Descarrega sobre o Senhor os teus cuidados, e Ele te sustentar\u00e1 \u00bb (Sal 55, 23). Meditar com o Ros\u00e1rio significa entregar os nossos cuidados aos cora\u00e7\u00f5es misericordiosos de Cristo e da sua M\u00e3e. \u00c0 dist\u00e2ncia de vinte e cinco anos, ao reconsiderar as prova\u00e7\u00f5es que n\u00e3o faltaram nem mesmo no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio petrino, desejo insistir, como para convidar calorosamente a todos, a fim de que experimentem pessoalmente isto mesmo: verdadeiramente o Ros\u00e1rio \u00ab marca o ritmo da vida humana \u00bb para harmoniz\u00e1-la com o ritmo da vida divina, na gozosa comunh\u00e3o da Sant\u00edssima Trindade, destino e aspira\u00e7\u00e3o da nossa exist\u00eancia.  CAP\u00cdTULO III PARA MIM, O VIVER \u00c9 CRISTO  O Ros\u00e1rio, caminho de assimila\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio 26. A medita\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios de Cristo \u00e9 proposta no Ros\u00e1rio com um m\u00e9todo caracter\u00edstico, apropriado por sua natureza para favorecer a assimila\u00e7\u00e3o dos mesmos. \u00c9 o m\u00e9todo baseado na repeti\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 vis\u00edvel sobretudo com a Ave Maria, repetida dez vezes em cada mist\u00e9rio. Considerando superficialmente uma tal repeti\u00e7\u00e3o, pode-se ser tentado a ver o Ros\u00e1rio como uma pr\u00e1tica \u00e1rida e aborrecida. Chega-se, por\u00e9m, a uma id\u00e9ia muito diferente, quando se considera o Ter\u00e7o como express\u00e3o daquele amor que n\u00e3o se cansa de voltar \u00e0 pessoa amada com efus\u00f5es que, apesar de semelhantes na sua manifesta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o sempre novas pelo sentimento que as permeia. Em Cristo, Deus assumiu verdadeiramente um \u00ab cora\u00e7\u00e3o de carne \u00bb. N\u00e3o tem apenas um cora\u00e7\u00e3o divino, rico de miseric\u00f3rdia e perd\u00e3o, mas tamb\u00e9m um cora\u00e7\u00e3o humano, capaz de todas as vibra\u00e7\u00f5es de afeto. Se houvesse necessidade dum testemunho evang\u00e9lico disto mesmo, n\u00e3o seria dif\u00edcil encontr\u00e1-lo no di\u00e1logo comovente de Cristo com Pedro depois da ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00ab Sim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu amas-Me? \u00bb P\u00f4r tr\u00eas vezes \u00e9 feita a pergunta, e tr\u00eas vezes recebe como resposta: \u00ab Senhor, Tu sabes que Te amo \u00bb (cf. Jo21, 15-17). Al\u00e9m do significado espec\u00edfico do texto, t\u00e3o importante para a miss\u00e3o de Pedro, n\u00e3o passa despercebida a ningu\u00e9m a beleza desta tr\u00edplice repeti\u00e7\u00e3o, na qual a solicita\u00e7\u00e3o insistente e a respectiva resposta s\u00e3o expressas com termos bem conhecidos da experi\u00eancia universal do amor humano. Para compreender o Ros\u00e1rio, \u00e9 preciso entrar na din\u00e2mica psicol\u00f3gica t\u00edpica do amor. Uma coisa \u00e9 clara! Se a repeti\u00e7\u00e3o da Ave Maria se dirige diretamente a Maria, com Ela e por Ela \u00e9 para Jesus que, em \u00faltima an\u00e1lise, vai o ato de amor. A repeti\u00e7\u00e3o alimenta-se do desejo duma conforma\u00e7\u00e3o cada vez mais plena Cristo, verdadeiro &#8220;programa&#8221; da vida crist\u00e3. S. Paulo enunciou este programa com palavras cheias de ardor: \u00ab Para mim, o viver \u00e9 Cristo e o morrer \u00e9 lucro \u00bb (Flp 1, 21). E ainda: \u00ab J\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, \u00e9 Cristo que vive em mim \u00bb (Gal 2, 20). O Ros\u00e1rio ajuda-nos a crescer nesta conforma\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 meta da santidade.  Um m\u00e9todo v\u00e1lido&#8230; 27. N\u00e3o deve maravilhar-nos o fato de a rela\u00e7\u00e3o com Cristo se servir tamb\u00e9m do aux\u00edlio dum m\u00e9todo. Deus comunica-Se ao homem, respeitando o modo de ser da nossa natureza e os seus ritmos vitais. P\u00f4r isso a espiritualidade crist\u00e3, embora conhecendo as formas mais sublimes do sil\u00eancio m\u00edstico onde todas as imagens, palavras e gestos ficam superados pela intensidade duma inef\u00e1vel uni\u00e3o do homem com Deus, normalmente passa pelo envolvimento total da pessoa, na sua complexa realidade psico-f\u00edsica e relacional. Isto \u00e9 evidente na Liturgia. Os sacramentos e os sacramentais est\u00e3o estruturados com uma s\u00e9rie de ritos, em que se faz apelo \u00e0s diversas dimens\u00f5es da pessoa. E a mesma exig\u00eancia transparece da ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o lit\u00fargica. A confirm\u00e1-lo est\u00e1 o fato de a ora\u00e7\u00e3o mais caracter\u00edstica de medita\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica no Oriente, que se centra nas palavras \u00ab Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tem piedade de mim, pecador \u00bb,34estar tradicionalmente ligada ao ritmo da respira\u00e7\u00e3o: ao mesmo tempo que isso facilita a perseveran\u00e7a na invoca\u00e7\u00e3o, assegura quase uma densidade f\u00edsica ao desejo de que Cristo se torne a respira\u00e7\u00e3o, a alma e o &#8220;tudo&#8221; da vida.  &#8230; que todavia pode ser melhorado 28. Recordei na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte que h\u00e1 hoje, mesmo no Ocidente, uma renovada exig\u00eancia de medita\u00e7\u00e3o, que se v\u00ea \u00e0s vezes promovida noutras religi\u00f5es com modalidades cativantes.35 N\u00e3o faltam crist\u00e3os que, por reduzido conhecimento da tradi\u00e7\u00e3o contemplativa crist\u00e3, se deixam aliciar por tais propostas. Apesar de possu\u00edrem elementos positivos e \u00e0s vezes compat\u00edveis com a experi\u00eancia crist\u00e3, todavia escondem freq\u00fcentemente um fundo ideol\u00f3gico inaceit\u00e1vel. Em tais experi\u00eancias, \u00e9 muito comum aparecer uma metodologia que, tendo por objetivo uma alta concentra\u00e7\u00e3o espiritual, recorre a t\u00e9cnicas repetitivas e simb\u00f3licas de caracter psico-f\u00edsico. O Ros\u00e1rio coloca-se neste quadro universal da fenomenologia religiosa, mas apresenta caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, que correspondem \u00e0s exig\u00eancias t\u00edpicas da especificidade crist\u00e3. Na realidade, trata-se simplesmente de um m\u00e9todo para contemplar. E, como m\u00e9todo que \u00e9, h\u00e1 de ser utilizado em ordem ao seu fim, e n\u00e3o como fim em si mesmo. Mas, sendo fruto duma experi\u00eancia secular, o pr\u00f3prio m\u00e9todo n\u00e3o deve ser subestimado. Abona em seu favor a experi\u00eancia de inumer\u00e1veis Santos. Isto, por\u00e9m, n\u00e3o impede que seja melhorado. Tal \u00e9 o objetivo da inser\u00e7\u00e3o, no ciclo dos mist\u00e9rios, da nova s\u00e9rie dos mysteria lucis, juntamente com algumas sugest\u00f5es relativas \u00e0 recita\u00e7\u00e3o, que proponho nesta Carta. Atrav\u00e9s delas, embora respeitando a estrutura amplamente consolidada desta ora\u00e7\u00e3o, queria ajudar os fi\u00e9is a compreend\u00ea-la nos seus aspectos simb\u00f3licos, em sintonia com as exig\u00eancias da vida quotidiana. Sem isso, o Ros\u00e1rio corre o risco n\u00e3o s\u00f3 de n\u00e3o produzir os efeitos espirituais desejados, mas at\u00e9 mesmo de o ter\u00e7o, com que habitualmente \u00e9 recitado, acabar por ser visto quase como um amuleto ou objeto m\u00e1gico, com uma adultera\u00e7\u00e3o radical do seu sentido e fun\u00e7\u00e3o.  A enuncia\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio 29. Enunciar o mist\u00e9rio, com a possibilidade at\u00e9 de fixar contextualmente um \u00edcone que o represente, \u00e9 como abrir um cen\u00e1rio sobre o qual se concentra a aten\u00e7\u00e3o. As palavras orientam a imagina\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito para aquele epis\u00f3dio ou momento concreto da vida de Cristo. Na espiritualidade que se foi desenvolvendo na Igreja, tanto a venera\u00e7\u00e3o de \u00edcones como in\u00fameras devo\u00e7\u00f5es ricas de elementos sens\u00edveis e mesmo o m\u00e9todo proposto por Santo In\u00e1cio de Loiola nos Exerc\u00edcios Espirituais recorrem ao elemento vis\u00edvel e figurativo (a chamada compositio loci), considerando-o de grande ajuda para facilitar a concentra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito no mist\u00e9rio. Ali\u00e1s, \u00e9 uma metodologia que corresponde \u00e0 pr\u00f3pria l\u00f3gica da Encarna\u00e7\u00e3o: em Jesus, Deus quis tomar fei\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 atrav\u00e9s da sua realidade corp\u00f3rea que somos levados a tomar contato com o seu mist\u00e9rio divino. \u00c9 a esta exig\u00eancia de concretiza\u00e7\u00e3o que d\u00e1 resposta a enuncia\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios mist\u00e9rios do Ros\u00e1rio. Certamente, estes n\u00e3o substituem o Evangelho, nem fazem refer\u00eancia a todas as suas p\u00e1ginas. P\u00f4r isso, o Ros\u00e1rio n\u00e3o substitui a lectio divina; pelo contr\u00e1rio, sup\u00f5e-na e promove-a. Mas, se os mist\u00e9rios considerados no Ros\u00e1rio, completados agora com os mysteria lucis, se limitam aos tra\u00e7os fundamentais da vida de Cristo, o esp\u00edrito pode facilmente a partir deles estender-se ao resto do Evangelho, sobretudo quando o Ros\u00e1rio \u00e9 recitado em momentos particulares de prolongado sil\u00eancio.  A escuta da Palavra de Deus 30. A fim de dar fundamenta\u00e7\u00e3o b\u00edblica e maior profundidade \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u00fatil que a enuncia\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio seja acompanhada pela proclama\u00e7\u00e3o de uma passagem b\u00edblica alusiva, que, segundo as circunst\u00e2ncias, pode ser mais ou menos longa. De fato, as outras palavras n\u00e3o atingem nunca a efic\u00e1cia pr\u00f3pria da palavra inspirada. Esta h\u00e1 de ser escutada com a certeza de que \u00e9 Palavra de Deus, pronunciada para o dia de hoje e &#8220;para mim&#8221;. Assim acolhida, ela entra na metodologia de repeti\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio, sem provocar o enfado que derivaria duma simples evoca\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 bem conhecida. N\u00e3o, n\u00e3o se trata de trazer \u00e0 mem\u00f3ria uma informa\u00e7\u00e3o, mas de deixar Deus &#8220;falar&#8221;. Em ocasi\u00f5es solenes e comunit\u00e1rias, esta palavra pode ser devidamente ilustrada com um breve coment\u00e1rio.  O sil\u00eancio 31. A escuta e a medita\u00e7\u00e3o alimentam-se de sil\u00eancio. P\u00f4r isso, ap\u00f3s a enuncia\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio e a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra, \u00e9 conveniente parar, durante um c\u00f4ngruo per\u00edodo de tempo, a fixar o olhar sobre o mist\u00e9rio meditado, antes de come\u00e7ar a ora\u00e7\u00e3o vocal. A redescoberta do valor do sil\u00eancio \u00e9 um dos segredos para a pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o e da medita\u00e7\u00e3o. Entre as limita\u00e7\u00f5es duma sociedade de forte predomin\u00e2ncia tecnol\u00f3gica e medi\u00e1tica, conta-se o fato de se tornar cada vez mais dif\u00edcil o sil\u00eancio. Tal como na Liturgia se recomendam momentos de sil\u00eancio, assim tamb\u00e9m na recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio \u00e9 oportuno fazer uma pausa depois da escuta da Palavra de Deus enquanto o esp\u00edrito se fixa no conte\u00fado do relativo mist\u00e9rio.  O &#8220;Pai nosso&#8221; 32. Ap\u00f3s a escuta da Palavra e a concentra\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio, \u00e9 natural que o esp\u00edrito se eleve para o Pai. Em cada um dos seus mist\u00e9rios, Jesus leva-nos sempre at\u00e9 ao Pai, para Quem Ele Se volta continuamente porque repousa no seu &#8220;seio&#8221; (cf. Jo 1,18). Quer introduzir-nos na intimidade do Pai, para dizermos com Ele: \u00ab Abb\u00e1, Pai \u00bb (Rom 8, 5; Gal 4, 6). \u00c9 em rela\u00e7\u00e3o ao Pai que Ele nos torna irm\u00e3os seus e entre n\u00f3s, ao comunicar-nos o Esp\u00edrito que \u00e9 conjuntamente d&#8217;Ele e do Pai. O &#8220;Pai nosso&#8221;, colocado quase como alicerce da medita\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gico-mariana que se desenrola atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o da Ave Maria, torna a medita\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, mesmo quando \u00e9 feita a s\u00f3s, uma experi\u00eancia eclesial.  As dez &#8221; Ave Marias &#8221; 33. Este elemento \u00e9 o mais encorpado do Ros\u00e1rio e tamb\u00e9m o que faz dele uma ora\u00e7\u00e3o mariana por excel\u00eancia. Mas \u00e0 luz da pr\u00f3pria Ave Maria, bem entendida, nota-se claramente que o caracter mariano n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se op\u00f5e ao cristol\u00f3gico como at\u00e9 o sublinha e exalta. De fato, a primeira parte da Av\u00e9 Maria, tirada das palavras dirigidas a Maria pelo Anjo Gabriel e por Santa Isabel, \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o adoradora do mist\u00e9rio que se realiza na Virgem de Nazar\u00e9. Exprimem, por assim dizer, a admira\u00e7\u00e3o do c\u00e9u e da terra, e deixam de certo modo transparecer o encanto do pr\u00f3prio Deus ao contemplar a sua obra-prima -a encarna\u00e7\u00e3o do Filho no ventre virginal de Maria &#8211; na linha daquele olhar contente do G\u00e9nesis (cf. Gen 1, 31), daquele primordial \u00ab pathos com que Deus, na aurora da cria\u00e7\u00e3o, contemplou a obra das suas m\u00e3os \u00bb.36 A repeti\u00e7\u00e3o da Ave Maria no Ros\u00e1rio sintoniza-nos com este encanto de Deus: \u00e9 j\u00fabilo, admira\u00e7\u00e3o, reconhecimento do maior milagre da hist\u00f3ria. \u00c9 o cumprimento da profecia de Maria: \u00ab Desde agora, todas as gera\u00e7\u00f5es Me h\u00e3o-de chamar ditosa \u00bb (Lc 1, 48). O baricentro da Ave Maria, uma esp\u00e9cie de charneira entre a primeira parte e a segunda, \u00e9 o nome de Jesus. \u00c0s vezes, na recita\u00e7\u00e3o precipitada, perde-se tal baricentro e, com ele, tamb\u00e9m a liga\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio de Jesus que se est\u00e1 a contemplar. Ora, \u00e9 precisamente pela acentua\u00e7\u00e3o dada ao nome de Jesus e ao seu mist\u00e9rio que se caracteriza a recita\u00e7\u00e3o expressiva e frutuosa do Ros\u00e1rio. J\u00e1 Paulo VI recordou na Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Marialis cultus o costume, existente nalgumas regi\u00f5es, de dar realce ao nome de Cristo acrescentando-lhe uma cl\u00e1usula evocativa do mist\u00e9rio que se est\u00e1 a meditar.37 \u00c9 um louv\u00e1vel costume, sobretudo na recita\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Exprime de forma intensa a f\u00e9 cristol\u00f3gica, aplicada aos diversos momentos da vida do Redentor. \u00c9 profiss\u00e3o de f\u00e9 e, ao mesmo tempo, um aux\u00edlio para permanecer em medita\u00e7\u00e3o, permitindo dar vida \u00e0 fun\u00e7\u00e3o assimiladora, contida na repeti\u00e7\u00e3o da Ave Maria, relativamente ao mist\u00e9rio de Cristo. Repetir o nome de Jesus &#8211; o \u00fanico nome do qual se pode esperar a salva\u00e7\u00e3o (cf. Act 4, 12) &#8211; enla\u00e7ado com o da M\u00e3e Sant\u00edssima, e de certo modo deixando que seja Ela pr\u00f3pria a sugerir-no-lo, constitui um caminho de assimila\u00e7\u00e3o que quer fazer-nos penetrar cada vez mais profundamente na vida de Cristo. Desta rela\u00e7\u00e3o muito especial de Maria com Cristo, que faz d&#8217;Ela a M\u00e3e de Deus, a Theot\u00f2kos, deriva a for\u00e7a da s\u00faplica com que nos dirigimos a Ela depois na segunda parte da ora\u00e7\u00e3o, confiando \u00e0 sua materna intercess\u00e3o a nossa vida e a hora da nossa morte .  O &#8220;Gl\u00f3ria&#8221; 34. A doxologia trinit\u00e1ria \u00e9 a meta da contempla\u00e7\u00e3o crist\u00e3. De fato, Cristo \u00e9 o caminho que nos conduz ao Pai no Esp\u00edrito. Se percorrermos em profundidade este caminho, achamo-nos continuamente na presen\u00e7a do mist\u00e9rio das tr\u00eas Pessoas divinas para As louvar, adorar, agradecer. \u00c9 importante que o Gl\u00f3ria, apogeu da contempla\u00e7\u00e3o, seja posto em grande evid\u00eancia no Ros\u00e1rio. Na recita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, poder-se-ia cantar para dar a devida \u00eanfase a esta perspectiva estrutural e qualificadora de toda a ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Na medida em que a medita\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio tiver sido &#8211; de Ave Maria em Ave Maria &#8211; atenta, profunda, animada pelo amor de Cristo e por Maria, a glorifica\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria de cada dezena, em vez de reduzir-se a uma r\u00e1pida conclus\u00e3o, adquirir\u00e1 o seu justo tom contemplativo, quase elevando o esp\u00edrito \u00e0 altura do Para\u00edso e fazendo-nos reviver de certo modo a experi\u00eancia do Tabor, antecipa\u00e7\u00e3o da contempla\u00e7\u00e3o futura: \u00ab Que bom \u00e9 estarmos aqui! \u00bb (Lc 9, 33) .  A jaculat\u00f3ria final 35. Na pr\u00e1tica corrente do Ros\u00e1rio, depois da doxologia trinit\u00e1ria diz-se uma jaculat\u00f3ria, que varia segundo os costumes. Sem diminuir em nada o valor de tais invoca\u00e7\u00f5es, parece oportuno assinalar que a contempla\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios poder\u00e1 manifestar melhor toda a sua fecundidade, se tiver o cuidado de terminar cada um dos mist\u00e9rios com uma ora\u00e7\u00e3o para obter os frutos espec\u00edficos da medita\u00e7\u00e3o desse mist\u00e9rio. Deste modo, o Ros\u00e1rio poder\u00e1 exprimir com maior efic\u00e1cia a sua liga\u00e7\u00e3o com a vida crist\u00e3. Isto mesmo no-lo sugere uma bela ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, que nos convida a pedir para, atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios do Ros\u00e1rio, chegarmos a \u00ab imitar o que cont\u00eam e alcan\u00e7ar o que prometem \u00bb.38 Uma tal ora\u00e7\u00e3o conclusiva poder\u00e1 gozar, como acontece j\u00e1, de uma leg\u00edtima variedade na sua inspira\u00e7\u00e3o. Assim, o Ros\u00e1rio adquirir\u00e1 uma fisionomia mais adaptada \u00e0s diferentes tradi\u00e7\u00f5es espirituais e \u00e0s v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s. Nesta perspectiva, \u00e9 desej\u00e1vel que haja uma divulga\u00e7\u00e3o, com o devido discernimento pastoral, das propostas mais significativas, talvez experimentadas em centros e santu\u00e1rios marianos particularmente sens\u00edveis \u00e0 pr\u00e1tica do Ros\u00e1rio, para que o Povo de Deus possa valer-se de toda a verdadeira riqueza espiritual, tirando dela alimento para a sua contempla\u00e7\u00e3o.  &#8216;O ter\u00e7o&#8217; 36. Um instrumento tradicional na recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio \u00e9 o ter\u00e7o. No seu uso mais superficial, reduz-se freq\u00fcentemente a um simples meio para contar e registar a sucess\u00e3o das Av\u00e9 Marias. Mas, presta-se tamb\u00e9m a exprimir simbolismos, que podem conferir maior profundidade \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. A tal respeito, a primeira coisa a notar \u00e9 como o ter\u00e7o converge para o Crucificado, que desta forma abre e fecha o pr\u00f3prio itiner\u00e1rio da ora\u00e7\u00e3o. Em Cristo, est\u00e1 centrada a vida e a ora\u00e7\u00e3o dos crentes. Tudo parte d&#8217;Ele, tudo tende para Ele, tudo por Ele, no Esp\u00edrito Santo, chega ao Pai. Como instrumento de contagem que assinala o avan\u00e7ar da ora\u00e7\u00e3o, o ter\u00e7o evoca o caminho incessante da contempla\u00e7\u00e3o e da perfei\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O Beato B\u00e1rtolo Longo via-o tamb\u00e9m como uma &#8220;cadeia&#8221; que nos prende a Deus. Cadeia sim, mas uma doce cadeia; assim se apresenta sempre a rela\u00e7\u00e3o com um Deus que \u00e9 Pai. Cadeia &#8220;filial&#8221;, que nos coloca em sintonia com Maria, a \u00ab serva do Senhor \u00bb (Lc 1, 38), e em \u00faltima inst\u00e2ncia com o pr\u00f3prio Cristo que, apesar de ser Deus, Se fez \u00ab servo \u00bb por nosso amor (Flp 2, 7). \u00c9 bom alargar o significado simb\u00f3lico do ter\u00e7o tamb\u00e9m \u00e0 nossa rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, recordando atrav\u00e9s dele o v\u00ednculo de comunh\u00e3o e fraternidade que a todos nos une em Cristo .  Come\u00e7o e conclus\u00e3o 37. Segundo a praxe comum, s\u00e3o v\u00e1rios os modos de introduzir o Ros\u00e1rio nos distintos contextos eclesiais. Em algumas regi\u00f5es, costuma-se iniciar com a invoca\u00e7\u00e3o do Salmo 69\/70: \u00ab \u00d3 Deus, vinde em nosso aux\u00edlio; Senhor, socorrei-nos e salvai-nos \u00bb, para de certo modo alimentar, na pessoa orante, a humilde certeza da sua pr\u00f3pria indig\u00eancia; ao contr\u00e1rio, noutros lugares come\u00e7a-se com a recita\u00e7\u00e3o do Creio em Deus Pai, querendo de certo modo colocar a profiss\u00e3o de f\u00e9 como fundamento do caminho contemplativo que se inicia. Estes e outros modos, na medida em que disp\u00f5em melhor \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, s\u00e3o m\u00e9todos igualmente leg\u00edtimos. A recita\u00e7\u00e3o termina com a ora\u00e7\u00e3o pelas inten\u00e7\u00f5es do Papa, para estender o olhar de quem reza ao amplo horizonte das necessidades eclesiais. Foi precisamente para encorajar esta perspectiva eclesial do Ros\u00e1rio que a Igreja quis enriquec\u00ea-lo com indulg\u00eancias sagradas para quem o recitar com as devidas disposi\u00e7\u00f5es. Assim vivido, o Ros\u00e1rio torna-se verdadeiramente um caminho espiritual, onde Maria faz de m\u00e3e, mestra e guia, e apoia o fiel com a sua poderosa intercess\u00e3o. Como admirar-se de que o esp\u00edrito, no final desta ora\u00e7\u00e3o em que teve a experi\u00eancia \u00edntima da maternidade de Maria, sinta a necessidade de se expandir em louvores \u00e0 Virgem Santa, quer com a ora\u00e7\u00e3o espl\u00eandida da Salve Rainha, quer atrav\u00e9s das invoca\u00e7\u00f5es da Ladainha Lauretana? \u00c9 o remate dum caminho interior que levou o fiel ao contato vivo com o mist\u00e9rio de Cristo e da sua M\u00e3e Sant\u00edssima.  A distribui\u00e7\u00e3o no tempo 38. O Ros\u00e1rio pode ser recitado integralmente todos os dias, n\u00e3o faltando quem louvavelmente o fa\u00e7a. Acaba assim por encher de ora\u00e7\u00e3o as jornadas de tantos contemplativos, ou servir de companhia a doentes e idosos que disp\u00f5em de tempo em abund\u00e2ncia. Mas \u00e9 \u00f3bvio &#8211; e isto vale com mais forte raz\u00e3o ao acrescentar-se o novo ciclo dos mysteria lucis &#8211; que muitos poder\u00e3o recitar apenas uma parte, segundo uma determinada ordem semanal. Esta distribui\u00e7\u00e3o pela semana acaba por dar \u00e0s sucessivas jornadas desta uma certa &#8220;cor&#8221; espiritual, de modo an\u00e1logo ao que faz a Liturgia com as v\u00e1rias fases do ano lit\u00fargico. Segundo a pr\u00e1tica corrente, a segunda e a quinta-feira s\u00e3o dedicadas aos &#8220;mist\u00e9rios da alegria&#8221;, a ter\u00e7a e a sexta-feira aos &#8220;mist\u00e9rios da dor&#8221;, a quarta-feira, o s\u00e1bado e o domingo aos &#8220;mist\u00e9rios da gl\u00f3ria&#8221;. Onde se podem inserir os &#8220;mist\u00e9rios da luz&#8221;? Atendendo a que os mist\u00e9rios gloriosos s\u00e3o propostos em dois dias seguidos -s\u00e1bado e domingo &#8211; e que o s\u00e1bado \u00e9 tradicionalmente um dia de intenso car\u00e1cter mariano, parece recomend\u00e1vel deslocar para ele a segunda medita\u00e7\u00e3o semanal dos mist\u00e9rios gozosos, nos quais est\u00e1 mais acentuada a presen\u00e7a de Maria. E assim fica livre a quinta-feira precisamente para a medita\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da luz. Esta indica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o pretende limitar uma certa liberdade de op\u00e7\u00e3o na medita\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria, segundo as exig\u00eancias espirituais e pastorais e sobretudo as coincid\u00eancias lit\u00fargicas que possam sugerir oportunas adapta\u00e7\u00f5es. Verdadeiramente importante \u00e9 que o Ros\u00e1rio seja cada vez mais visto e sentido como itiner\u00e1rio contemplativo. Atrav\u00e9s dele, de modo complementar ao que se realiza na Liturgia, a semana do crist\u00e3o, tendo o domingo &#8211; dia da ressurrei\u00e7\u00e3o &#8211; por charneira, torna-se uma caminhada atrav\u00e9s dos mist\u00e9rios da vida de Cristo, para que Ele Se afirme, na vida dos seus disc\u00edpulos, como Senhor do tempo e da hist\u00f3ria.  CONCLUS\u00c3O  &#8221; Ros\u00e1rio bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus &#8221; 39. Tudo o que foi dito at\u00e9 agora, manifesta amplamente a riqueza desta ora\u00e7\u00e3o tradicional, que tem n\u00e3o s\u00f3 a simplicidade duma ora\u00e7\u00e3o popular, mas tamb\u00e9m a profundidade teol\u00f3gica duma ora\u00e7\u00e3o adaptada a quem sente a exig\u00eancia duma contempla\u00e7\u00e3o mais madura. A Igreja reconheceu sempre uma efic\u00e1cia particular ao Ros\u00e1rio, confiando-lhe, mediante a sua recita\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e a sua pr\u00e1tica constante, as causas mais dif\u00edceis. Em momentos em que estivera amea\u00e7ada a pr\u00f3pria cristandade, foi \u00e0 for\u00e7a desta ora\u00e7\u00e3o que se atribuiu a liberta\u00e7\u00e3o do perigo, tendo a Virgem do Ros\u00e1rio sido saudada como propiciadora da salva\u00e7\u00e3o. \u00c0 efic\u00e1cia desta ora\u00e7\u00e3o, confio de bom grado hoje &#8211; como acenei ao princ\u00edpio &#8211; a causa da paz no mundo e a causa da fam\u00edlia.  A paz 40. As dificuldades que o horizonte mundial apresenta, neste in\u00edcio de novo mil\u00eanio, levam-nos a pensar que s\u00f3 uma interven\u00e7\u00e3o do Alto, capaz de orientar os cora\u00e7\u00f5es daqueles que vivem em situa\u00e7\u00f5es de conflito e de quantos regem os destinos das Na\u00e7\u00f5es, permite esperar num futuro menos sombrio. O Ros\u00e1rio \u00e9, por natureza, uma ora\u00e7\u00e3o orientada para a paz, precisamente porque consiste na contempla\u00e7\u00e3o de Cristo, Pr\u00edncipe da paz e \u00ab nossa paz \u00bb (Ef 2, 14). Quem assimila o mist\u00e9rio de Cristo &#8211; e o Ros\u00e1rio visa isto mesmo &#8211; apreende o segredo da paz e dele faz um projeto de vida. Al\u00e9m disso, devido ao seu caracter meditativo com a serena sucess\u00e3o das &#8220;Ave Marias&#8221;, exerce uma a\u00e7\u00e3o pacificadora sobre quem o reza, predispondo-o a receber e experimentar no mais fundo de si mesmo e a espalhar ao seu redor aquela paz verdadeira que \u00e9 um dom especial do Ressuscitado (cf. Jo 14, 27; 20, 21). Depois, o Ros\u00e1rio \u00e9 ora\u00e7\u00e3o de paz tamb\u00e9m pelos frutos de caridade que produz. Se for recitado devidamente como verdadeira ora\u00e7\u00e3o meditativa, ao facilitar o encontro com Cristo nos mist\u00e9rios n\u00e3o pode deixar de mostrar tamb\u00e9m o rosto de Cristo nos irm\u00e3os, sobretudo nos que mais sofrem. Como seria poss\u00edvel fixar nos mist\u00e9rios gozosos o mist\u00e9rio do Menino nascido em Bel\u00e9m, sem sentir o desejo de acolher, defender e promover a vida, preocupando-se com o sofrimento das crian\u00e7as nas diversas partes do mundo? Como se poderia seguir os passos de Cristo revelador, nos mist\u00e9rios da luz, sem se empenhar a testemunhar as suas &#8220;bem-aventuran\u00e7as&#8221; na vida di\u00e1ria? E como contemplar a Cristo carregado com a cruz ou crucificado, sem sentir a necessidade de se fazer seu &#8220;cireneu&#8221; em cada irm\u00e3o abatido pela dor ou esmagado pelo desespero? Enfim, como se poderia fixar os olhos na gl\u00f3ria de Cristo ressuscitado e em Maria coroada Rainha, sem desejar tornar este mundo mais belo, mais justo, mais conforme ao des\u00edgnio de Deus? Em suma o Ros\u00e1rio, ao mesmo tempo que nos leva a fixar os olhos em Cristo, torna-nos tamb\u00e9m construtores da paz no mundo. Pelas suas caracter\u00edsticas de peti\u00e7\u00e3o insistente e comunit\u00e1ria, em sintonia com o convite de Cristo para \u00ab orar sempre, sem desfalecer \u00bb (Lc 18, 1), aquele permite-nos esperar que, tamb\u00e9m hoje, se possa vencer uma &#8220;batalha&#8221; t\u00e3o dif\u00edcil como \u00e9 a da paz. Longe de constituir uma fuga dos problemas do mundo, o Ros\u00e1rio leva-nos assim a v\u00ea-los com olhar respons\u00e1vel e generoso, e alcan\u00e7a-nos a for\u00e7a de voltar para eles com a certeza da ajuda de Deus e o firme prop\u00f3sito de testemunhar em todas as circunst\u00e2ncias \u00ab a caridade, que \u00e9 o v\u00ednculo da perfei\u00e7\u00e3o \u00bb (Col 3, 14).  A fam\u00edlia: os pais&#8230; 41. Ora\u00e7\u00e3o pela paz, o Ros\u00e1rio foi desde sempre tamb\u00e9m ora\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e pela fam\u00edlia. Outrora, esta ora\u00e7\u00e3o era particularmente amada pelas fam\u00edlias crist\u00e3s e favorecia certamente a sua uni\u00e3o. \u00c9 preciso n\u00e3o deixar perder esta preciosa heran\u00e7a. Importa voltar a rezar em fam\u00edlia e pelas fam\u00edlias, servindo-se ainda desta forma de ora\u00e7\u00e3o. Se, na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte, encorajei a celebra\u00e7\u00e3o da Liturgia da Horas pelos pr\u00f3prios leigos na vida ordin\u00e1ria das comunidades paroquiais e dos v\u00e1rios grupos crist\u00e3os,39o mesmo desejo fazer quanto ao Ros\u00e1rio. Trata-se de dois caminhos, n\u00e3o alternativos mas complementares, da contempla\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Pe\u00e7o, pois, a todos aqueles que se dedicam \u00e0 pastoral das fam\u00edlias para sugerirem com convic\u00e7\u00e3o a recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio. A fam\u00edlia que reza unida, permanece unida. O Santo Ros\u00e1rio, por antiga tradi\u00e7\u00e3o, presta-se de modo particular a ser uma ora\u00e7\u00e3o onde a fam\u00edlia se encontra. Os seus diversos membros, precisamente ao fixarem o olhar em Jesus, recuperam tamb\u00e9m a capacidade de se olharem sempre de novo olhos nos olhos para comunicarem, solidarizarem-se, perdoarem-se mutuamente, recome\u00e7arem com um pacto de amor renovado pelo Esp\u00edrito de Deus. Muitos problemas das fam\u00edlias contempor\u00e2neas, sobretudo nas sociedades economicamente evolu\u00eddas, derivam do fato de ser cada vez mais dif\u00edcil comunicar. N\u00e3o conseguem estar juntos, e os raros momentos para isso acabam infelizmente absorvidos pelas imagens duma televis\u00e3o. Retomar a recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio em fam\u00edlia significa inserir na vida di\u00e1ria imagens bem diferentes &#8211; as do mist\u00e9rio que salva: a imagem do Redentor, a imagem de sua M\u00e3e Sant\u00edssima. A fam\u00edlia, que reza unida o Ros\u00e1rio, reproduz em certa medida o clima da casa de Nazar\u00e9: p\u00f5e-se Jesus no centro, partilham-se com Ele alegrias e sofrimentos, colocam-se nas suas m\u00e3os necessidades e projetos, e d&#8217;Ele se recebe a esperan\u00e7a e a for\u00e7a para o caminho.  &#8230; e os filhos 42. \u00c9 bom e frutuoso tamb\u00e9m confiar a esta ora\u00e7\u00e3o o itiner\u00e1rio de crescimento dos filhos. Porventura n\u00e3o \u00e9 o Ros\u00e1rio o itiner\u00e1rio da vida de Cristo, desde a sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte, ressurrei\u00e7\u00e3o e gl\u00f3ria? Hoje torna-se cada vez mais \u00e1rdua para os pais a tarefa de seguirem os filhos pelas v\u00e1rias etapas da sua vida. Na sociedade da tecnologia avan\u00e7ada, dos mass-media e da globaliza\u00e7\u00e3o, tudo se tornou t\u00e3o r\u00e1pido; e a dist\u00e2ncia cultural entre as gera\u00e7\u00f5es \u00e9 cada vez maior. Os apelos mais diversos e as experi\u00eancias mais imprevis\u00edveis cedo invadem a vida das crian\u00e7as e adolescentes, e os pais sentem-se \u00e0s vezes angustiados para fazer face aos riscos que aqueles correm. N\u00e3o \u00e9 raro experimentarem fortes desilus\u00f5es, constatando a fal\u00eancia dos seus filhos perante a sedu\u00e7\u00e3o da droga, o fasc\u00ednio dum hedonismo desenfreado, as tenta\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia, as express\u00f5es mais variadas de falta de sentido e de desespero. Rezar o Ros\u00e1rio pelos filhos e, mais ainda, com os filhos, educando-os desde tenra idade para este momento di\u00e1rio de &#8220;paragem orante&#8221; da fam\u00edlia, n\u00e3o traz por certo a solu\u00e7\u00e3o de todos os problemas, mas \u00e9 uma ajuda espiritual que n\u00e3o se deve subestimar. Pode-se objetar que o Ros\u00e1rio parece uma ora\u00e7\u00e3o pouco adaptada ao gosto das crian\u00e7as e jovens de hoje. Mas a obje\u00e7\u00e3o parte talvez da forma muitas vezes pouco cuidada de o rezar. Ora, ressalvada a sua estrutura fundamental, nada impede que a recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio para crian\u00e7as e jovens, tanto em fam\u00edlia como nos grupos, seja enriquecida com atrativos simb\u00f3licos e pr\u00e1ticos, que favore\u00e7am a sua compreens\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o tentar? Uma pastoral juvenil sem descontos, apaixonada e criativa &#8211; as Jornadas Mundiais da Juventude deram-me a sua medida! &#8211; pode, com a ajuda de Deus, fazer coisas verdadeiramente significativas. Se o Ros\u00e1rio for bem apresentado, estou seguro de que os pr\u00f3prios jovens ser\u00e3o capazes de surpreender uma vez mais os adultos, assumindo esta ora\u00e7\u00e3o e recitando-a com o entusiasmo t\u00edpico da sua idade.  O Ros\u00e1rio, um tesouro a descobrir 43. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s! Uma ora\u00e7\u00e3o t\u00e3o f\u00e1cil e ao mesmo tempo t\u00e3o rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade crist\u00e3. Fa\u00e7amo-lo sobretudo neste ano, assumindo esta proposta como um refor\u00e7o da linha tra\u00e7ada na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte, na qual se inspiraram os planos pastorais de muitas Igrejas particulares ao programarem os seus compromissos a curto prazo. Dirijo-me de modo particular a v\u00f3s, amados Irm\u00e3os no Episcopado, sacerdotes e di\u00e1conos, e a v\u00f3s, agentes pastorais nos diversos minist\u00e9rios, pedindo que, experimentando pessoalmente a beleza do Ros\u00e1rio, vos torneis sol\u00edcitos promotores do mesmo. Tamb\u00e9m espero em v\u00f3s, te\u00f3logos, para que desenvolvendo uma reflex\u00e3o simultaneamente rigorosa e sapiencial, enraizada na Palavra de Deus e sens\u00edvel \u00e0 vida concreta do povo crist\u00e3o, fa\u00e7ais descobrir os fundamentos b\u00edblicos, as riquezas espirituais, a validade pastoral desta ora\u00e7\u00e3o tradicional. Conto convosco, consagrados e consagradas, a t\u00edtulo especial chamados a contemplar o rosto de Cristo na escola de Maria. Penso em v\u00f3s todos, irm\u00e3os e irm\u00e3s de qualquer condi\u00e7\u00e3o, em v\u00f3s, fam\u00edlias crist\u00e3s, em v\u00f3s, doentes e idosos, em v\u00f3s, jovens: retomai confiadamente nas m\u00e3os o ter\u00e7o do Ros\u00e1rio, fazendo a sua descoberta \u00e0 luz da Escritura, de harmonia com a Liturgia, no contexto da vida quotidiana. Que este meu apelo n\u00e3o fique ignorado! No in\u00edcio do vig\u00e9simo quinto ano de Pontificado, entrego esta Carta apost\u00f3lica nas m\u00e3os sapientes da Virgem Maria, prostrando-me em esp\u00edrito diante da sua imagem venerada no Santu\u00e1rio espl\u00eandido que Lhe edificou o Beato B\u00e1rtolo Longo, ap\u00f3stolo do Ros\u00e1rio. De bom grado, fa\u00e7o minhas as comoventes palavras com que ele conclui a c\u00e9lebre S\u00faplica \u00e0 Rainha do Santo Ros\u00e1rio: \u00ab \u00d3 Ros\u00e1rio bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, v\u00ednculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salva\u00e7\u00e3o contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufr\u00e1gio geral, n\u00e3o te deixaremos nunca mais. Ser\u00e1s o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o \u00faltimo beijo da vida que se apaga. E a \u00faltima palavra dos nossos l\u00e1bios h\u00e1 de ser o vosso nome suave, \u00f3 Rainha do Ros\u00e1rio de Pomp\u00e9ia, \u00f3 nossa M\u00e3e querida, \u00f3 Ref\u00fagio dos pecadores, \u00f3 Soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em todo o lado, hoje e sempre, na terra e no c\u00e9u \u00bb. Vaticano, 16 de Outubro de 2002, in\u00edcio do vig\u00e9simo quinto ano de Pontificado.  JO\u00c3O PAULO II  NOTAS 1 Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 45. 2 Cf. Paulo VI, Exort. ap. Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974), 42: AAS 66 (1974), 153. 3 Cf. Acta Leonis XIII, 3 (1884), 280-289. 4 De modo particular, merece men\u00e7\u00e3o a sua Ep\u00edstola apost\u00f3lica sobre o Ros\u00e1rio \u00ab O encontro religioso \u00bb, de 29 de Setembro de 1961: AAS 53 (1961), 641-647. 5 Alocu\u00e7\u00e3o do \u00ab Angelus \u00bb: L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa: 5 de Novembro de 1978), 1. 6 Cf. n. 29: AAS 93 (2001), 285. 7 Jo\u00e3o XXIII, nos anos de prepara\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, n\u00e3o deixou de convidar a comunidade crist\u00e3 \u00e0 recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio pelo sucesso deste evento eclesial: cf. Carta ao Cardeal Vig\u00e1rio de 28 de Setembro de 1960: AAS 52 (1960), 814-817. 8 Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 66. 9 N. 32: AAS 93 (2001), 288. 10 Ibid., 33: l. c., 289. 11 \u00c9 sabido, e h\u00e1 que reafirm\u00e1-lo, que as revela\u00e7\u00f5es privadas n\u00e3o s\u00e3o da mesma natureza que a revela\u00e7\u00e3o p\u00fablica, normativa para toda a Igreja. Ao Magist\u00e9rio cabe discernir e reconhecer a autenticidade e o valor das revela\u00e7\u00f5es privadas para a piedade dos fi\u00e9is. 12 O segredo maravilhoso do Santo Ros\u00e1rio para converter-se e salvar-se: S. Lu\u00eds Maria Grignion de Montfort, Obras, 1, Escritos espirituais (Roma 1990), pp. 729-843. 13 Beato B\u00e1rtolo Longo, Hist\u00f3ria do Santu\u00e1rio de Pomp\u00e9ia, (Pomp\u00e9ia 1990), p. 59. 14 Exort. ap. Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974), 47: AAS 66 (1974), 156. 15 Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 10. 16 Ibid., 12. 17 Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 58. 18 Os Quinze S\u00e1bados do Sant\u00edssimo Ros\u00e1rio,27 (ed. Pomp\u00e9ia 1916), p. 27. 19 Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 53. 20 Ibid., 60. 21 Cf. Primeira R\u00e1diomensagem Urbi et orbi (17 de Outubro de 1978): AAS 70 (1978), 927. 22 Tratado da verdadeira devo\u00e7\u00e3o a Maria, 120, em: Obras. Vol. I Escritos espirituais (Roma 1990), p. 430. 23 Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2679. 24 Ibid., 2675. 25 A S\u00faplica \u00e0 Rainha do Santo Ros\u00e1rio, que se recita solenemente duas vezes ao ano, em Maio e Outubro, foi composta pelo Beato B\u00e1rtolo Longo em 1883, como ades\u00e3o ao convite feito aos cat\u00f3licos pelo Papa Le\u00e3o XIII, na sua primeira Enc\u00edclica sobre o Ros\u00e1rio, de um empenho espiritual para enfrentar os males da sociedade. 26 Divina Com\u00e9dia, Par. XXXIII, 13-15 (\u00ab Mulher, \u00e9s t\u00e3o grande e tanto vales, \/ que quem deseja uma gra\u00e7a e a v\u00f3s n\u00e3o se dirige, \u00e9 como se quisesse voar sem asas \u00bb). 27 Jo\u00e3o Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 20: AAS 93 (2001), 279. 28 Exort. ap. Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974), 46: AAS 66 (1974), 155. 29 Jo\u00e3o Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 28: AAS 93 (2001), 284. 30 N. 515. 31 Angelus do dia 29 de Outubro de 1978: L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa: 5 de Novembro de 1978), 1. 32 Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 22. 33 Santo Ireneu de Li\u00e3o, Adversus haereses, III, 18,1: PG7, 932. 34 Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2616. 35 Cf. n. 33: AAS 93 (2001), 289. 36 Jo\u00e3o Paulo II, Carta aos Artistas (4 de Abril de 1999), 1: AAS 91 (1999), 1155. 37 Cf. n. 46: AAS 66 (1974), 155. Tal costume foi louvado ainda recentemente pela Congrega\u00e7\u00e3o do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, no Diret\u00f3rio sobre piedade popular e liturgia. Princ\u00edpios e orienta\u00e7\u00f5es (17 de Dezembro de 2001), 201 (Cidade do Vaticano 2002), p. 165. 38 \u00ab &#8230;concede, qu\u00e6sumus, ut h\u00e6c mysteria sacratissimo beat\u00e6 Mari\u00e6 Virginis Rosario recolentes, et imitemur quod continent, et quod promittunt assequamur \u00bb: Missale Romanum (1960) in festo B. M. Virginis a Rosario. 39 Cf. n. 34: AAS 93 (2001), 290.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>do Sumo Pont\u00edfice Jo\u00e3o Paulo II ao Episcopado, ao clero e aos fi\u00e9is sobre o santo Ros\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[129],"tags":[],"class_list":["post-299002","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299002"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299002\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}