{"id":299182,"date":"2003-10-06T22:00:00","date_gmt":"2003-10-06T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/entre-os-meninos-de-rua-de-um-grito-de-dor-a-vida-renasce\/"},"modified":"2024-05-13T21:06:37","modified_gmt":"2024-05-13T19:06:37","slug":"entre-os-meninos-de-rua-de-um-grito-de-dor-a-vida-renasce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/entre-os-meninos-de-rua-de-um-grito-de-dor-a-vida-renasce\/","title":{"rendered":"Entre os meninos de rua: de um grito de dor, a vida renasce"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>R.C. est\u00e1 h\u00e1 28 anos no Brasil, num bairro dif\u00edcil de uma grande cidade. \u201cSe aqui existe tanta dor, se aqui \u00e9 uma Sexta-feira Santa, nascer\u00e1 muita vida e ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d. Abre a \u201cCasa do Menor\u201d: acolhe os adolescentes de rua, v\u00edtimas de drogas, prostitui\u00e7\u00e3o, narcotr\u00e1fico, morte precoce. Adolescentes freq\u00fcentemente violentos, porque nunca foram amados por algu\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p>\u201cNuma noite, retornando do centro da cidade, paro o carro numa ponte, sobre a rodovia: olho as luzes do bairro, escuto rumores e gritos de dor. Experimento rep\u00fadio, repugn\u00e2ncia e impot\u00eancia. Gente que morre todos os dias, sofrimento sem solu\u00e7\u00e3o. Tenho vontade de fugir.<br \/> Repentinamente, compreendo que esta dor imensa \u00e9 um grande Cristo desfigurado e sofredor que grita o seu abandono, neste bairro esquecido por todos, aparentemente, at\u00e9 mesmo por Deus.<br \/> Uma luz: se existe tanta dor, se aqui \u00e9 uma Sexta-feira Santa, nascer\u00e1 muita vida e ressurrei\u00e7\u00e3o. Esta dor me atrai. Dou uma acelerada no carro; vou \u00e0 esta\u00e7\u00e3o: encontro tantos e tantas adolescentes que se drogam, que fazem sexo. Correm at\u00e9 mim, abra\u00e7ando-me&#8230; Sentado no meio deles, que exalam mau-cheiro, devido ao odor picante da \u201ccola\u201d, sinto-me em adora\u00e7\u00e3o a Jesus, presente nesta pra\u00e7a, atrav\u00e9s deste seu Vulto t\u00e3o inaceit\u00e1vel. Porque Ele disse: \u201cTudo aquilo que fizeres ao menor dos meus irm\u00e3os, a mim o fareis\u201d.<\/p>\n<p>Retorno \u00e0 casa. Um adolescente me aguarda, trazendo-me uma arma: \u201cPegue esta arma. N\u00e3o quero mais matar\u201d.<\/p>\n<p>Numa outra tarde, assim que cheguei em casa, me disseram que Pirata havia sido baleado. Era um jovem que eu acolhi quando a pol\u00edcia o procurava para matar. Mas estava mudado: tinha sido batizado e se preparava para a Primeira Comunh\u00e3o. Vejo sangue na porta de minha casa. Tremo e corro ao hospital: encontro-o sobre uma l\u00e1pide gelada, com um tiro na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Um outro jovem me procura. Instigado, me diz que, somente no m\u00eas de mar\u00e7o, 36 adolescentes da minha par\u00f3quia j\u00e1 tinham sido mortos. Mostra-me uma lista de outros 40 \u201cmarcados para morrer\u201d. \u201cO primeiro nome \u2013 diz \u2013 \u00e9 o meu. Eu n\u00e3o quero morrer. E voc\u00ea n\u00e3o faz nada?\u201d. Penso quando, h\u00e1 um ano, sepultei, num s\u00f3 dia, nove adolescentes mortos pela pol\u00edcia. Estou ali somente para absorver uma dor sem explica\u00e7\u00e3o e oferec\u00ea-la, como Maria, aos p\u00e9s da cruz, na sua dor impotente.<br \/> \u00a0\u00a0\u00a0<br \/> Muitas vezes eu tamb\u00e9m j\u00e1 fui amea\u00e7ado de morte e de seq\u00fcestro. Fico tranq\u00fcilo e sinto que, com a gra\u00e7a de Deus, estou realmente pronto a dar a vida. Um dia, enquanto celebro uma missa, compreendo: \u201cEste \u00e9 o meu corpo. Este \u00e9 o meu sangue&#8230;\u201d N\u00e3o somente o corpo de Jesus&#8230; Devo estar pronto a dar tamb\u00e9m o meu corpo. Mas, talvez, Deus n\u00e3o queira ainda o meu mart\u00edrio. Quer o mart\u00edrio de cada dia: dar a vida com pequenos gestos de amor, de perd\u00e3o, de capacidade de recome\u00e7ar, junto a adolescentes que, pelo que parece, nada querem com a vida e n\u00e3o conseguem ressurgir dentro do tempo estabelecido por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Num determinado momento, regresso \u00e0 It\u00e1lia, pois h\u00e1 tempo que n\u00e3o estou bem de sa\u00fade. At\u00e9 mesmo minha cabe\u00e7a n\u00e3o funciona mais&#8230; E como dava import\u00e2ncia \u00e0 minha cabe\u00e7a! Consulto um m\u00e9dico e ele me diz com firmeza: \u201cNestas condi\u00e7\u00f5es voc\u00ea n\u00e3o pode mais voltar para o Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Foi como se Deus mesmo me dissesse: \u201cRetira-te. A \u201cCasa do Menor\u201d \u00e9 obra minha, n\u00e3o tua. At\u00e9 agora, tu eras o protagonista. Deixa agora que seja eu a lev\u00e1-la em frente\u201d. E a \u201cCasa do Menor\u201d melhora, e muito, durante minha longa aus\u00eancia.<br \/> \u00a0<br \/> Retorno ao Brasil e continuo a dizer \u2018sim\u2019 a Deus todas as vezes que tenho de sepultar adolescentes que n\u00e3o conseguimos salvar ou que voltaram para a rua ou para a droga, depois de terem sido muito amados por n\u00f3s. De que serve amar sem obter resultados?! Mas eu n\u00e3o devo ter a pretens\u00e3o de mudar os outros; devo somente amar.<\/p>\n<p>Juntamente com um religioso e com membros de uma nova fam\u00edlia espiritual que est\u00e1 nascendo, percorro, \u00e0 noite, as ruas da grande cidade. Encontramos situa\u00e7\u00f5es cada vez mais dram\u00e1ticas entre os adolescentes que n\u00f3s aceitamos, porque ningu\u00e9m os quer. Assistimos a verdadeiros milagres: drogados ou traficantes que renascem para uma vida nova. Tornamo-nos sinal e modelo de pol\u00edticas sociais e somos chamados a muitos lugares porque temos algo que faz a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Para dizer a verdade, quando conheci o Movimento dos Focolares, n\u00e3o entendia porque Chiara Lubich fizera a escolha de Jesus que, na cruz, grita o abandono do Pai, como o \u00fanico \u201ctudo\u201d de sua vida. Depois descobri, um pouco de cada vez, que Jesus Abandonado \u00e9 Homem-Deus, que d\u00e1 a vida amando at\u00e9 o fim, sem nada esperar. Se ainda continuo nesse bairro sanguinolento e com os in\u00fameros vultos do sofrimento, \u00e9 porque descobri neles o Seu semblante e porque O amo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de ressurrei\u00e7\u00e3o: um sacerdote italiano h\u00e1 anos no submundo dos meninos de rua<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[909],"tags":[],"class_list":["post-299182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-focolare-worldwide-2-4"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299182"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299182\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}