{"id":299380,"date":"2004-09-22T22:00:00","date_gmt":"2004-09-22T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/a-fraternidade-em-politica-utopia-ou-necessidade-3\/"},"modified":"2024-05-13T21:07:34","modified_gmt":"2024-05-13T19:07:34","slug":"a-fraternidade-em-politica-utopia-ou-necessidade-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/a-fraternidade-em-politica-utopia-ou-necessidade-3\/","title":{"rendered":"A Fraternidade em pol\u00edtica: utopia ou necessidade?"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<strong>Mil faces da interdepend\u00eancia<\/strong>  Hoje, sinto-me muito \u00e0 vontade ao analisar, junto com voc\u00eas e a partir de muitas perspectivas, os milhares aspectos da interdepend\u00eancia que desejamos focalizar juntos para compreendermos melhor como orient\u00e1-la para o bem da fam\u00edlia humana.  Na parte que me cabe, gostaria de evidenciar um aspecto da interdepend\u00eancia j\u00e1 mencionado na minha mensagem de ades\u00e3o \u00e0 primeira Jornada, no dia 12 de setembro de 2003, em Filad\u00e9lfia. Trata-se do seguinte: a interdepend\u00eancia faz despontar no cora\u00e7\u00e3o de muitos a vontade de realizar o imprescind\u00edvel e necess\u00e1rio ideal, a favor do qual pessoas de boa vontade, espalhadas no mundo inteiro, decidiram empregar a pr\u00f3pria vida: a fraternidade universal, um instrumento para atuar a unidade da fam\u00edlia humana.  Sim, porque interdepend\u00eancia significa inter-rela\u00e7\u00e3o entre dois elementos que se condicionam reciprocamente. Essa rela\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser atuada perfeitamente, entre os indiv\u00edduos e entre os Estados, se for caracterizada pelo respeito rec\u00edproco, pela compreens\u00e3o rec\u00edproca, por saber deixar espa\u00e7o para as dificuldades, os problemas uns dos outros, a fim de acolher os respectivos dons. Enfim, deve ser caracterizada pelo amor m\u00fatuo, tal como entre irm\u00e3os verdadeiros.  A interdepend\u00eancia fraterna comporta, de fato, a escolha do di\u00e1logo e n\u00e3o da hegemonia, do caminho da partilha e n\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o de recursos e das ci\u00eancias numa \u00fanica \u00e1rea do mundo.  A interdepend\u00eancia fraterna \u00e9 realmente \u201cm\u00fatua depend\u00eancia\u201d, porque implica que a afirma\u00e7\u00e3o da minha identidade n\u00e3o pode se dar nem por defesa, nem por oposi\u00e7\u00e3o, mas atrav\u00e9s da comunh\u00e3o: dos recursos, das virtudes c\u00edvicas, das caracter\u00edsticas culturais, das experi\u00eancias pol\u00edticas-institucionais.  As minhas n\u00e3o s\u00e3o unicamente palavras; s\u00e3o o fruto da experi\u00eancia do Movimento dos Focolares, do qual participo, efeito de um carisma do Esp\u00edrito Santo: Movimento multicultural, multi\u00e9tnico, multireligioso, difundido em 182 pa\u00edses, com milh\u00f5es de aderentes, cujo objetivo \u00e9 a fraternidade, ainda mais, a fraternidade universal.  <strong>11 de setembro: paradoxalmente a possibilidade de um passo adiante rumo \u00e0 fraternidade universal<\/strong>  Essa mesma experi\u00eancia suscitou em mim uma certeza e uma nova convic\u00e7\u00e3o ao avaliar, por exemplo, o que aconteceu depois da destrui\u00e7\u00e3o das duas Torres G\u00eameas: aquele tr\u00e1gico evento, momento de m\u00e1xima desagrega\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre os homens e entre os povos, me pareceu paradoxalmente um momento em que o mundo podia dar um passo em frente rumo \u00e0 fraternidade universal.  Tive a confirma\u00e7\u00e3o nas horas sucessivas ao terr\u00edvel atentado, pelas rea\u00e7\u00f5es e pelos depoimentos de muitos membros dos Focolares espalhados pelo mundo. Dos Estados Unidos me informavam que, mesmo no drama que sacudiu todo o pa\u00eds, a sociedade americana vivenciava uma solidariedade e uma disponibilidade \u00e0 partilha numa dimens\u00e3o a meu ver in\u00e9dita. Os crist\u00e3os e os irm\u00e3os mu\u00e7ulmanos afro-americanos do nosso Movimento reagiram ao \u00f3dio, mostrando juntos a sua profunda e consolidada fraternidade.  Percebi rea\u00e7\u00f5es an\u00e1logas na Arg\u00e9lia, nos Territ\u00f3rios Palestinos, em Jerusal\u00e9m, na \u00c1frica do Sul e em todas as na\u00e7\u00f5es da Europa. Jovens e adultos, membros de religi\u00f5es diferentes, assumiram uma responsabilidade ainda mais forte e consciente, e o nosso compromisso pela unidade entre todos os homens se tornou, desde aquele dia, mais convicto e decidido.  Foi tamb\u00e9m por isso que a nossa ades\u00e3o \u00e0s raz\u00f5es e aos conte\u00fados das Jornadas da Interdepend\u00eancia foi plena. De fato, n\u00e3o podemos deixar de ver que a interdepend\u00eancia e a fraternidade s\u00e3o duas fases do caminho da humanidade para a sua completa reconcilia\u00e7\u00e3o. Como escreveu Jo\u00e3o Paulo II por ocasi\u00e3o da Jornada mundial pela paz de 2001, exatamente &#8220;a situa\u00e7\u00e3o atual de interdepend\u00eancia planet\u00e1ria ajuda a perceber melhor a comunh\u00e3o de destino da fam\u00edlia humana inteira&#8221;.  <strong>Escolhemos a forma mais elevada de interdepend\u00eancia: a unidade<\/strong>  Com esses pressupostos, de acordo com o Dr. Barber, com quem me senti em perfeita e imediata sintonia, gostaria de oferecer agora aos senhores algumas id\u00e9ias sobre as raz\u00f5es, humanas e sobrenaturais, que sustentam a nossa experi\u00eancia.  H\u00e1 60 anos, \u00e9ramos poucas jovens, mas ainda trago muito clara em mim uma das primeiras intui\u00e7\u00f5es: em plena Segunda Guerra Mundial, sob um furioso bombardeio, num por\u00e3o, \u00e0 luz de vela, encontramos no Evangelho, \u00fanica refer\u00eancia das nossas vidas, o Testamento de Jesus que propunha a unidade universal: &#8220;Que todos sejam um&#8221; (cf. Jo 17,21). Compreendemos que para realizar aquela p\u00e1gina havia nascido o Movimento. Aquele \u201ctodos\u201d teria sido o nosso horizonte: a unidade, a raz\u00e3o da nossa vida.  Adotar como nosso o sonho de Deus nos ligou ao c\u00e9u e ao mesmo tempo nos mergulhou fortemente na hist\u00f3ria da humanidade, para fazer emergir dela o caminho rumo \u00e0 fraternidade universal. Em meio \u00e0 guerra, a mais dilacerante das divis\u00f5es, escolhemos paradoxalmente a forma mais alta de interdepend\u00eancia: a unidade.  A possibilidade de realizar este ideal apresentava as suas motiva\u00e7\u00f5es naquilo que nos pareceu uma aut\u00eantica descoberta: Deus \u00e9 Amor! Um Amor que abra\u00e7a todas as \u00e9pocas e irmana todos os homens. Amor que foi traduzido por n\u00f3s no amor rec\u00edproco, gerando uma experi\u00eancia comunit\u00e1ria profunda. Esse mesmo Amor nos impele a procurar em primeiro lugar os mais pobres, para resolver \u2013 como diz\u00edamos na \u00e9poca \u2013 o problema social da nossa pequena cidade, Trento.  Este novo olhar inclusivo sobre a cidade foi logo contagioso. Poucos meses depois j\u00e1 \u00e9ramos 500 pessoas, de todas as idades, categoria e condi\u00e7\u00e3o social. A unidade \u00e9 o \u201csinal\u201d espec\u00edfico da fisionomia do Movimento dos Focolares no seu interior, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d, um chamado para todos os homens de boa vontade.  Com o passar dos anos, vieram em evid\u00eancia alguns \u00e2mbitos espec\u00edficos de di\u00e1logo e de partilha. Passamos a construir lugares e ocasi\u00f5es de encontro no interior das Igrejas a que pertencemos, para que a \u201ccomunh\u00e3o\u201d cres\u00e7a cada vez mais. Fizemos uma experi\u00eancia de povo unido como crist\u00e3os de diversas denomina\u00e7\u00f5es, que antecipa, na reparti\u00e7\u00e3o dos dons espec\u00edficos de cada Igreja, a unidade doutrinal.  Mas existe uma fronteira onde nos sentimos chamados a trabalhar de modo especial, ap\u00f3s o dia 11 de setembro. J\u00e1 come\u00e7amos a enfrentar esse desafio h\u00e1 mais de 20 anos: \u00e9 o di\u00e1logo com os fi\u00e9is das grandes religi\u00f5es. Almejamos viver acima de tudo, de ambas as partes, a assim chamada &#8220;regra de ouro&#8221;: &#8220;Tudo aquilo que quereis que os homens vos fa\u00e7am, fazei-o v\u00f3s a eles&#8221;, isso significa: amar os outros. Essa norma est\u00e1 presente, com diversas matizes, em todas as grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Por fim, desde sempre, trabalhamos juntos, numa concreta colabora\u00e7\u00e3o, com os que n\u00e3o possuem um espec\u00edfico referencial religioso; nos une o amor pelo homem e pelos seus valores.  <strong>A fraternidade aplicada \u00e0 economia e \u00e0 pol\u00edtica como resposta \u00e0s grandes exig\u00eancias atuais<\/strong>  Essa constante busca daquilo que une, esta convic\u00e7\u00e3o de que a uni\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, fez amadurecer no tempo pequenas e grandes realiza\u00e7\u00f5es. Cito duas, como express\u00e3o de uma surpreendente capacidade que a fraternidade demonstra ter, se for aplicada dentro das grandes exig\u00eancias do hoje.  Em 1991, nasceu o projeto por uma Economia de Comunh\u00e3o, que re\u00fane hoje 797 empresas no mundo inteiro. Elas atuam no mercado e subdividem os lucros em tr\u00eas partes: para ajudar os pobres e dar-lhes do que viver enquanto n\u00e3o encontram um posto de trabalho; para desenvolver as estruturas de forma\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ccultura da partilha\u201d; para incrementar as empresas em si. Na id\u00e9ia e na experi\u00eancia que alimentam a Economia de Comunh\u00e3o, alguns economistas v\u00eaem uma nova chave de leitura que poderia contribuir para superar a orienta\u00e7\u00e3o individualista que prevalece hoje.  Em 1996, consolidou-se no \u201cMovimento pol\u00edtico pela unidade\u201d (ramifica\u00e7\u00e3o do Movimento dos Focolares) um interesse pela pol\u00edtica, que desde o in\u00edcio v\u00edamos como uma voca\u00e7\u00e3o essencial para a realiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia humana. Hoje ele \u00e9 um laborat\u00f3rio internacional de trabalho pol\u00edtico articulado com cidad\u00e3os, funcion\u00e1rios, estudiosos, pol\u00edticos comprometidos em v\u00e1rios n\u00edveis, de inspira\u00e7\u00f5es e partidos diferentes, que colocam a fraternidade na base de suas vidas e, s\u00f3 depois, envolvem-se na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Os valores fundamentais presentes nas culturas pol\u00edticas est\u00e3o no centro das suas a\u00e7\u00f5es.  <strong>A interdepend\u00eancia vivificada pela fraternidade torna-se motor de processos positivos<\/strong>  Ao longo da minha vida pude conhecer muitas pessoas, grupos, povos: sempre experimentei que a tend\u00eancia do mundo para a unidade \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o insuprim\u00edvel que pulsa no cora\u00e7\u00e3o de cada homem, de cada grupo social, de cada povo. Aprendi a reconhecer os passos em frente que marcam o progresso da humanidade, at\u00e9 poder afirmar que a sua hist\u00f3ria nada mais que \u00e9 um lento, mas irrefre\u00e1vel caminho rumo \u00e0 fraternidade universal.  Mas a unidade \u00e9 um caminho que deve ser acompanhado e sustentado. Por isso tenho a ousadia de afirmar que, entre os dons que podemos oferecer a esta II Jornada, n\u00e3o devemos esquecer a fraternidade, n\u00e3o s\u00f3 indicando os frutos concretos que foram produzidos pela sua conjuga\u00e7\u00e3o na vida, mas tamb\u00e9m pelo seu significado de paradigma cultural. Vivificada pela fraternidade, a interdepend\u00eancia, de um simples \u201cfato\u201d ou \u201cinstrumento\u201d, pode se tornar um motor de processos positivos.  A fraternidade poder\u00e1 vir a ser um dom para todos e perspectiva estrat\u00e9gica para o bem n\u00e3o de um povo s\u00f3, mas de toda a humanidade. Ap\u00f3s mil\u00eanios de hist\u00f3ria em que se experimentaram os frutos da viol\u00eancia e do \u00f3dio, temos todo o direito de pedir que a humanidade comece a experimentar quais poder\u00e3o ser os frutos do amor. E n\u00e3o s\u00f3 do amor entre os indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m entre os povos.  Pe\u00e7o a Deus que nos guie e nos ampare.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chiara Lubich<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[129],"tags":[],"class_list":["post-299380","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299380\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}