{"id":317428,"date":"2019-12-01T22:05:50","date_gmt":"2019-12-01T21:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-1a-parte\/"},"modified":"2024-05-15T21:10:11","modified_gmt":"2024-05-15T19:10:11","slug":"as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-1a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-1a-parte\/","title":{"rendered":"As migra\u00e7\u00f5es vistas da margem sul do Mediterr\u00e2neo\/1\u00aa parte"},"content":{"rendered":"<p><em>Que vis\u00e3o se tem, a partir do Norte da \u00c1frica, do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa? De que modo \u00e9 poss\u00edvel p\u00f4r o homem no centro, passando assim de uma vis\u00e3o puramente econ\u00f4mica \u00e0 humana das migra\u00e7\u00f5es? Entrevista com Pasquale Ferrara, embaixador italiano em Argel.<\/em>  Segundo o ACNUR*, de 1\u00ba de janeiro a 21 de outubro de 2019, desembarcaram pelo mar nas costas Europeias da It\u00e1lia, Malta, Chipre, Espanha e Gr\u00e9cia 75.522 migrantes. A estes se acrescentam os 16.322 que chegaram por terra na Gr\u00e9cia e Espanha num total de 91.844 pessoas, das quais 9.270 na It\u00e1lia, 2.738 em Malta, 1.183 em Chipre, 25.191 na Espanha, 53.462 na Gr\u00e9cia. Dados que seguem uma tend\u00eancia em queda e arquivam a fase de emerg\u00eancia, mas n\u00e3o bastam \u00e0 Europa para encaminhar um di\u00e1logo alargado e construtivo sobre o tema: a perspectiva da cria\u00e7\u00e3o de um sistema europeu de gest\u00e3o dos fluxos permanece assaz remota, e em geral o confronto em n\u00edvel institucional n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a perspectiva dos pa\u00edses africanos. <strong>Em Argel nos encontramos com o Embaixador italiano, Pasquale Ferrara:<\/strong>  <strong>Embaixador, que vis\u00e3o se tem, a partir do Norte da \u00c1frica, do fen\u00f4meno das migra\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa?<\/strong> Visto da \u00c1frica, se trata de um fen\u00f4meno hist\u00f3rico e estrutural, sobretudo infra-africano, porque a enorme maioria dos movimentos de migrantes e refugiados acontece entre pa\u00edses africanos: mais de 20 milh\u00f5es de pessoas vivem em um pa\u00eds diferente daquele de origem. Outra coisa \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, que teme um afluxo incontrolado. Aqui o quadro, dentro do qual ler o fen\u00f4meno, \u00e9 s\u00f3 parcialmente aquele do diferencial de desenvolvimento. Na Europa frequentemente se faz a distin\u00e7\u00e3o entre refugiados pol\u00edticos e migrantes econ\u00f4micos. Mas com frequ\u00eancia os migrantes econ\u00f4micos africanos s\u00e3o o resultado de uma p\u00e9ssima gest\u00e3o pol\u00edtica dos estados, porque h\u00e1 um problema de governan\u00e7a, de apropria\u00e7\u00e3o dos recursos por parte de oligarquias, de inclus\u00e3o social. Portanto, de algum modo, tamb\u00e9m eles podem ser qualificados como refugiados pol\u00edticos. Para al\u00e9m das migra\u00e7\u00f5es irregulares, no que se refere \u00e0 \u00c1frica do norte, seria preciso restabelecer no Mediterr\u00e2neo aquela mobilidade circular das popula\u00e7\u00f5es que na hist\u00f3ria sempre se observou. Significa, por exemplo, a possibilidade de ir \u00e0 Europa para um per\u00edodo de estudo ou trabalho, para depois voltar ao pa\u00eds de origem. No momento, estes deslocamentos est\u00e3o subordinados \u00e0 concess\u00e3o do visto, que, por\u00e9m, \u00e9 muito dif\u00edcil obter por causa dos muitos e necess\u00e1rios controles. Para muitos representa um drama, por isso a tenta\u00e7\u00e3o de quem recebe o visto, mesmo se se trata de pessoas com boas inten\u00e7\u00f5es, \u00e9 muitas vezes a de n\u00e3o voltar ao pa\u00eds de origem. O visto deve ser mantido, mas, na \u00f3tica de favorecer a mobilidade circular, \u00e9 necess\u00e1rio pensar em um sistema mais estruturado. Depois, existe um outro fator que d\u00e1 impulso \u00e0 migra\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a diferen\u00e7a na qualidade dos servi\u00e7os que uma sociedade oferece: os de sa\u00fade e os previdenci\u00e1rios em geral, cuja escassa disponibilidade e qualidade influi, tamb\u00e9m ela, junto a outros fatores como a viol\u00eancia end\u00eamica, sobre a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, ou aqueles escolares pelos quais tamb\u00e9m quem n\u00e3o est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria absoluta tenta aportar na Europa para dar uma educa\u00e7\u00e3o melhor aos filhos. Portanto, dever\u00edamos investir mais na forma\u00e7\u00e3o das classes dirigentes, dos profissionais, dos educadores. Em Argel, embora com n\u00fameros reduzidos, estamos procurando fazer isso, aumentando as bolsas de estudo para os jovens argelinos que v\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia para estudar m\u00fasica, arte, restaura\u00e7\u00e3o, como investimento para o futuro profissional deles.  <strong>H\u00e1 uma responsabilidade do Ocidente no empobrecimento dos Pa\u00edses africanos?<\/strong> \u201cEu seria muito prudente. Esta \u00e9 uma narra\u00e7\u00e3o que \u00e9 conveniente para certas oligarquias afro-africanas para descarregar as pr\u00f3prias responsabilidades inclusive em rela\u00e7\u00e3o a uma governan\u00e7a que \u00e9 d\u00fabia na sua legitima\u00e7\u00e3o e nos seus resultados. O per\u00edodo colonial marcou muito a \u00c1frica e se verificam as responsabilidades passadas do Ocidente, mas desde a descoloniza\u00e7\u00e3o se passaram pelo menos 50 anos e \u00e9 dif\u00edcil imputar ao Ocidente as problem\u00e1ticas das sociedades africanas de hoje. A qualidade da governan\u00e7a tem um grande peso. Al\u00e9m do mais, hoje na \u00c1frica h\u00e1 uma presen\u00e7a forte da China com programas ligados aos recursos naturais e minerais em quase todos os pa\u00edses. A China considera a \u00c1frica um grande mercado, mas o interc\u00e2mbio \u00e9 assim\u00e9trico a favor de Pequim. Todavia, para compensar este desequil\u00edbrio, a China realiza, \u00e0s pr\u00f3prias custas, obras de infraestrutura, est\u00e1dios, teatros, centros culturais por bilh\u00f5es de d\u00f3lares.  <strong>Na gest\u00e3o do fen\u00f4meno, a Europa d\u00e1 passos incertos. Faltam pol\u00edticas comunit\u00e1rias e parece que o princ\u00edpio de responsabilidade compartilhada n\u00e3o aque\u00e7a os cora\u00e7\u00f5es na Europa\u2026<\/strong> A escolha da solidariedade n\u00e3o pode depender da boa vontade dos governos individualmente e da varia\u00e7\u00e3o das orienta\u00e7\u00f5es dos mesmos. A quest\u00e3o migrat\u00f3ria deve se tornar uma compet\u00eancia exclusiva da Uni\u00e3o europeia enquanto tal, como acontece para as pol\u00edticas comerciais para as quais os estados da UE deram a Bruxelas a responsabilidade exclusiva de negociar acordos com pa\u00edses extraeuropeus. Hoje, ao inv\u00e9s, por um lado, devido a uma quest\u00e3o de soberania nacional, os estados querem manter o controle sobre as migra\u00e7\u00f5es e sobre as fronteiras, e \u00e9 compreens\u00edvel. Por outro, acusam de in\u00e9rcia a Europa, \u00e0 qual, por\u00e9m, n\u00e3o d\u00e3o as compet\u00eancias necess\u00e1rias para operar eficazmente. Mas passar para esta dimens\u00e3o decisiva me parece improv\u00e1vel agora, considerando a resist\u00eancia que este tema encontra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas internas.  <a href=\"https:\/\/data2.unhcr.org\/en\/situations\/mediterranean\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">* https:\/\/data2.unhcr.org\/en\/situations\/mediterranean<\/a>  Fim da 1\u00aa PARTE <\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Elaborado por Claudia Di Lorenzi<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que vis\u00e3o se tem, a partir do Norte da \u00c1frica, do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa? De que modo \u00e9 poss\u00edvel p\u00f4r o homem no centro, passando assim de uma vis\u00e3o puramente econ\u00f4mica \u00e0 humana das migra\u00e7\u00f5es? 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