{"id":317444,"date":"2019-12-15T03:00:58","date_gmt":"2019-12-15T02:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-2a-parte\/"},"modified":"2024-05-15T21:10:13","modified_gmt":"2024-05-15T19:10:13","slug":"as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-2a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/as-migracoes-vistas-da-margem-sul-do-mediterraneo-2a-parte\/","title":{"rendered":"As migra\u00e7\u00f5es vistas da margem sul do Mediterr\u00e2neo\/2\u00aa parte"},"content":{"rendered":"<p><em>O fen\u00f4meno das migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa permanece um dos temas irresolvidos do debate entre os pa\u00edses da UE. Demasiadamente divididos por interesses particulares para identificar uma pol\u00edtica comum, inspirada em princ\u00edpios de solidariedade e sustentabilidade. Falamos disso com Pasquale Ferrara, embaixador italiano na Arg\u00e9lia.<\/em>  Segundo o ACNUR*, de 1\u00ba de janeiro a 21 de outubro de 2019, desembarcaram pelo mar nas costas Europeias da It\u00e1lia, Malta, Chipre, Espanha e Gr\u00e9cia 75.522 migrantes. A estes se acrescentam os 16.322 que chegaram por terra na Gr\u00e9cia e Espanha num total de 91.844 pessoas, das quais 9.270 na It\u00e1lia, 2.738 em Malta, 1.183 em Chipre, 25.191 na Espanha, 53.462 na Gr\u00e9cia. Dados que seguem uma tend\u00eancia em queda e arquivam a fase de emerg\u00eancia, mas n\u00e3o bastam \u00e0 Europa para encaminhar um di\u00e1logo alargado e construtivo sobre o tema: a perspectiva da cria\u00e7\u00e3o de um sistema europeu de gest\u00e3o dos fluxos permanece assaz remota, e em geral o confronto em n\u00edvel institucional n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a perspectiva dos pa\u00edses africanos. Em Argel nos encontramos com o Embaixador italiano, Pasquale Ferrara:  <strong>(2\u00aa PARTE)<\/strong> Faz tempo que se diz que \u00e9 necess\u00e1rio estruturar uma colabora\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses do Norte da \u00c1frica, mas tamb\u00e9m com os de tr\u00e2nsito. Bons prop\u00f3sitos, mas poucos fatos concretos\u2026 Para passar aos fatos concretos \u00e9 preciso tomar consci\u00eancia da realidade, do fato de que os pa\u00edses africanos, sobretudo os do Norte, que consideramos pa\u00edses de tr\u00e2nsito s\u00e3o, eles pr\u00f3prios, pa\u00edses de destino da emigra\u00e7\u00e3o. O Egito acolhe mais de 200 mil refugiados no pr\u00f3prio territ\u00f3rio, enquanto que em toda a Europa, em 2018, chegaram pouco mais de 120 mil pessoas. As poucas centenas de migrantes irregulares que chegam da Arg\u00e9lia s\u00e3o todos argelinos, n\u00e3o subsaarianos que transitam pela Arg\u00e9lia, porque frequentemente estes migrantes permanecem aqui. Al\u00e9m disso, estes pa\u00edses n\u00e3o aceitam programas que tendem a criar \u201chotspot\u201d (centros de reuni\u00e3o) para os migrantes subsaarianos. Aqui n\u00e3o funciona o modelo da Turquia, \u00e0 qual a Uni\u00e3o Europeia deu 6 bilh\u00f5es de euros para administrar campos onde acolher mais de 4 milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios e n\u00e3o s\u00f3. Com a Turquia, a opera\u00e7\u00e3o funcionou porque havia a guerra na S\u00edria e pelos interesses estrat\u00e9gicos da Turquia. Na \u00c1frica, os fen\u00f4menos s\u00e3o muito diferentes. \u00c9 preciso encontrar outros modos.  <strong>Quais poderiam ser as formas de colabora\u00e7\u00e3o?<\/strong> N\u00e3o servem colabora\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas, mas parcerias de igual para igual. Devemos considerar que n\u00e3o somos somente n\u00f3s, europeus, que temos o problema migrat\u00f3rio e, portanto, \u00e9 necess\u00e1rio respeitar estes pa\u00edses com as suas exig\u00eancias internas, inclusive em termos de migra\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois se pode procurar juntos administrar o fen\u00f4meno. Por exemplo, j\u00e1 existem acordos de coopera\u00e7\u00e3o entre a It\u00e1lia e a Arg\u00e9lia que remontam a 2000 e a 2009 e que funcionam bem.  <strong>O que preveem?<\/strong> A gest\u00e3o conjunta do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio em termos de luta contra a explora\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de seres humanos, contra a criminalidade transnacional que utiliza o fen\u00f4meno para se financiar, contra o perigo de infiltra\u00e7\u00f5es terroristas. Existem tamb\u00e9m disposi\u00e7\u00f5es para a repatria\u00e7\u00e3o concordada, ordenada e digna dos migrantes irregulares.  <strong>Fala-se do fato de que os pa\u00edses ocidentais devem sustentar aqueles africanos para criar condi\u00e7\u00f5es de vida melhores, tais que desencorajem as partidas. O quanto \u00e9 vi\u00e1vel esta estrada?<\/strong> Nas condi\u00e7\u00f5es atuais da economia e da cultura pol\u00edtica internacional, vejo pouco vi\u00e1vel e, tudo somado, pouco eficaz. Em primeiro lugar, j\u00e1 estamos falando de um bilh\u00e3o de africanos: nenhum \u201cplano Marshall\u201d europeu ou mundial poderia enfrentar tais dimens\u00f5es demogr\u00e1ficas. Entre outras coisas, a \u00c1frica \u00e9 muito diversificada, existem pa\u00edses em condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento avan\u00e7adas: Gana tem uma taxa de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica superior a v\u00e1rios pa\u00edses desenvolvidos; Angola \u00e9 um pa\u00eds riqu\u00edssimo de recursos que est\u00e1 tentando reorganizar a sua estrutura econ\u00f4mica de modo mais participativo. Temos l\u00edderes, como o novo pr\u00eamio Nobel para a paz, o Primeiro Ministro da Eti\u00f3pia, Abiy Ahmed Ali, que tem 42 anos e olha para as novas gera\u00e7\u00f5es. J\u00e1 fez plantar 350 milh\u00f5es de \u00e1rvores em um programa de reflorestamento mundial chamado \u201cTrillion Tree Campaign\u201d. Uganda vive uma fase de forte desenvolvimento. O problema, antes, s\u00e3o as disparidades econ\u00f4micas, dram\u00e1ticas e injustas, e neste caso o Ocidente pode intervir ajudando a melhorar a governan\u00e7a destes pa\u00edses, para que seja mais inclusiva e participada. Mas lembremos de que s\u00e3o os mesmos problemas de polariza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica que temos na Europa: infelizmente, n\u00e3o podemos dar muitas li\u00e7\u00f5es neste campo.  <strong>Nas reflex\u00f5es sobre o fen\u00f4meno migrat\u00f3rio em n\u00edvel institucional, em primeiro plano est\u00e1 a dimens\u00e3o econ\u00f4mica, enquanto \u00e9 transcurada a humana. O que significa p\u00f4r o homem no centro do problema migrat\u00f3rio?<\/strong> Por detr\u00e1s de cada migrante existe uma hist\u00f3ria, uma fam\u00edlia, um percurso acidentado, o esfor\u00e7o de conseguir o dinheiro e, talvez, d\u00edvidas com organiza\u00e7\u00f5es criminais. Certamente n\u00e3o podemos admitir a imigra\u00e7\u00e3o irregular porque tudo deve se realizar no respeito \u00e0s leis, mas dar valor \u00e0 dimens\u00e3o humana significa levar em considera\u00e7\u00e3o este passado e n\u00e3o ver nestas pessoas n\u00fameros que chegam a bordo de barca\u00e7as ou por terra. Fiquei profundamente impressionado com a hist\u00f3ria daquele adolescente de 14 anos, proveniente do Mali, encontrado no fundo do mar com um boletim costurado dentro da jaqueta, com \u00f3timas notas. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que nos deixa sem palavras. E por detr\u00e1s h\u00e1 uma trag\u00e9dia familiar, humana, um tecido social dilacerado. Aconselho o bom livro de Cristina Cattaneo, \u201cNaufraghi senza volto. Dare un nome alle vittime del Mediterraneo [N\u00e1ufragos sem rosto. Dar um nome \u00e0s v\u00edtimas do Mediterr\u00e2neo]\u201d. Por\u00e9m, n\u00e3o esque\u00e7amos tamb\u00e9m das hist\u00f3rias da nossa Marinha militar \u2013 em especial daquela da comandante Catia Pellegrino \u2013 que salvou milhares de n\u00e1ufragos. Pessoas, rostos, eventos reais.  * https:\/\/data2.unhcr.org\/en\/situations\/mediterranean (leia a 1\u00aa parte da entrevista) <\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Elaborado por Claudia Di Lorenzi<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fen\u00f4meno das migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa permanece um dos temas irresolvidos do debate entre os pa\u00edses da UE. Demasiadamente divididos por interesses particulares para identificar uma pol\u00edtica comum, inspirada em princ\u00edpios de solidariedade e sustentabilidade. 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