{"id":319070,"date":"2024-03-01T09:00:47","date_gmt":"2024-03-01T08:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/relatorio-abusos-2023-consciencia-reparacao-prevencao\/"},"modified":"2025-08-18T11:50:28","modified_gmt":"2025-08-18T09:50:28","slug":"relatorio-abusos-2023-consciencia-reparacao-prevencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/relatorio-abusos-2023-consciencia-reparacao-prevencao\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio abusos 2023: consci\u00eancia, repara\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>O Movimento dos Focolares publica o relat\u00f3rio sobre as atividades realizadas para a prote\u00e7\u00e3o da pessoa e os dados relativos aos casos de abuso em 2023. Entrevista com Catherine Belzung, professora de Neuroci\u00eancias e coordenadora da C\u00e1tedra UNESCO sobre maus-tratos infantis.<\/em> O segundo relat\u00f3rio anual do Movimento dos Focolares sobre as atividades e dados relativos aos casos de abuso sexual de crian\u00e7as, adolescentes, adultos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, abusos de consci\u00eancia, abusos espirituais e de autoridade ser\u00e1 divulgado no dia 1\u00ba de mar\u00e7o. Pedimos a Catherine Belzung uma leitura e avalia\u00e7\u00e3o do documento. Professora universit\u00e1ria titular de Neuroci\u00eancias na Fran\u00e7a, membro s\u00eanior do Institut Universitaire de France (2014) e presidente do centro de pesquisa multidisciplinar iBrain, desde 2022 \u00e9 coordenadora da C\u00e1tedra UNESCO sobre maus-tratos infantis, criada por uma parceria de Universidades e institui\u00e7\u00f5es de 16 pa\u00edses do mundo. \u00c9 tamb\u00e9m correspons\u00e1vel pelo Centro Internacional para o Di\u00e1logo com a Cultura Contempor\u00e2nea do Movimento dos Focolares. <strong>Desde 2023, o Movimento dos Focolares optou por publicar um relat\u00f3rio anual sobre o tema dos abusos sexuais de crian\u00e7as, adolescentes e sobre abusos de consci\u00eancia, espirituais e de autoridade. Do seu ponto de observa\u00e7\u00e3o internacional, qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre essa escolha? Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre esse segundo relat\u00f3rio?<\/strong> <img alt=\"\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-261423\" src=\"https:\/\/www.focolare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CBelzung-340x340.png\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"340\" \/>Acredito que esse relat\u00f3rio representa um verdadeiro passo em frente. Na verdade, o relat\u00f3rio de 2023 foi criticado, sobretudo porque os locais e as datas dos abusos sexuais n\u00e3o foram mencionados. O novo relat\u00f3rio diz respeito aos casos notificados nos \u00faltimos 10 anos e acrescenta estes esclarecimentos: constata-se que os abusos sexuais foram perpetrados nos 5 continentes (cerca de vinte pa\u00edses), com um pico de casos entre 1990 e 1999, bem como na d\u00e9cada anterior e na seguinte. Os fatos por vezes se repetem durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, sugerindo que se trata de perpetradores reincidentes, cuja sucess\u00e3o de abusos n\u00e3o foi interrompida. Aconteceram alguns fatos e foram tratados por volta de 2020, o que indica que as v\u00edtimas conseguiram denunciar abusos quase em tempo real, o que \u00e9 um progresso. Todos os abusos sexuais relatados foram perpetrados por homens. Acontece o contr\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o aos abusos de autoridade, em que 77% dos casos s\u00e3o cometidos por mulheres, o que pode estar relacionado ao fato de que as pessoas que fazem parte do Movimento, em sua maioria, s\u00e3o mulheres. O relat\u00f3rio cont\u00e9m ainda uma se\u00e7\u00e3o detalhada e clara sobre as medidas atuadas durante o ano, sobretudo no que diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o. Resta compreender quais s\u00e3o as causas profundas desses abusos: al\u00e9m das medidas de preven\u00e7\u00e3o e das san\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 preciso dedicar-se a identificar as causas sist\u00eamicas que poder\u00e3o explicar tais cifras, a fim de instaurar uma estrat\u00e9gia que permita eliminar isso. <strong>Nesse segundo relat\u00f3rio, os autores s\u00e3o identificados com base em crit\u00e9rios precisos, estabelecidos pela Pol\u00edtica de Comunica\u00e7\u00e3o publicada recentemente pelo Movimento dos Focolares. Como voc\u00ea considera essa escolha?<\/strong> Trata-se de um conflito \u00e9tico. Por um lado, devemos confiar na experi\u00eancia das v\u00edtimas e levar a s\u00e9rio as den\u00fancias que fazem e, rapidamente, tomar as medidas necess\u00e1rias para proteg\u00ea-las. Por outro lado, trata-se de respeitar a suposta inoc\u00eancia dos referidos autores, de evitar a difama\u00e7\u00e3o, quando ainda n\u00e3o foi pronunciada qualquer condena\u00e7\u00e3o criminal definitiva. A quest\u00e3o \u00e9 complexa, e encontrar uma solu\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria exigir\u00e1, sem d\u00favida, muita escuta e di\u00e1logo. <strong>A C\u00e1tedra UNESCO sobre abuso de crian\u00e7as e adolescentes, que voc\u00ea coordena, nasceu porque voc\u00ea mesma teve contato com um caso desse tipo de abuso, do qual conhecia tanto uma das v\u00edtimas quanto o perpetrador. Esse caso aconteceu no \u00e2mbito da Igreja Cat\u00f3lica na Fran\u00e7a. A comunidade social ou religiosa \u00e9 definida como \u201cv\u00edtima secund\u00e1ria\u201d. O que isso significa? Quais s\u00e3o as feridas que as pessoas sofrem, como podemos ajudar a cur\u00e1-las em n\u00edvel social e comunit\u00e1rio?<\/strong> Sim, de fato, essa C\u00e1tedra nasceu do contato com uma v\u00edtima, algo que me marcou profundamente. Fiquei muito tocada por esse sofrimento, e da\u00ed brotou o desejo de fazer alguma coisa. O abuso afeta primeiramente a v\u00edtima, que muitas vezes sofrer\u00e1 consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas duradouras. \u00c0s vezes, a revela\u00e7\u00e3o dos fatos pode abrir uma janela de grande vulnerabilidade na pessoa, o que requer um acompanhamento espec\u00edfico. Em consequ\u00eancia, afeta os familiares da v\u00edtima, como o c\u00f4njuge, os filhos, mas tamb\u00e9m os pais, que se sentem respons\u00e1veis \u200b\u200bpor terem confiado o pr\u00f3prio filho a uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o o protegeu. Os efeitos devastadores afetam tamb\u00e9m a comunidade, pois muitas vezes os membros n\u00e3o sabem que nela se esconde um predador reincidente, com quem talvez tivessem um v\u00ednculo de proximidade, de amizade. Surge a pergunta: por que n\u00e3o percebi nada? Outro aspecto diz respeito ao v\u00ednculo com a institui\u00e7\u00e3o que pode ter protegido o agressor, por vezes em boa-f\u00e9, despertando sentimentos de trai\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a. Por fim, dependendo das an\u00e1lises divergentes entre si, a comunidade tamb\u00e9m pode ficar dividida entre aqueles que se refugiam na nega\u00e7\u00e3o e aqueles que querem lutar para evitar que isso aconte\u00e7a novamente. Remediar toda essa situa\u00e7\u00e3o requer um vasto conjunto de medidas: \u00e9 fundamental assumir a responsabilidade pelo acompanhamento das v\u00edtimas e dos seus familiares, mas \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio restaurar a confian\u00e7a na institui\u00e7\u00e3o que se revelou deficiente, quando esta demonstra uma vontade sincera de aprender com os erros passados. Para fazer isso, \u00e9 importante agir: a institui\u00e7\u00e3o deve promover a transpar\u00eancia, comunicando informa\u00e7\u00f5es bem precisas, deve instaurar procedimentos claros, criar locais de escuta, estabelecer procedimentos de repara\u00e7\u00e3o e, para as comunidades, criar espa\u00e7os de di\u00e1logo nos quais possam ser partilhadas opini\u00f5es conflitantes. <strong>O Movimento dos Focolares \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o mundial, cujos membros s\u00e3o de diferentes culturas e religi\u00f5es, sujeitos a v\u00e1rios sistemas jur\u00eddicos e adotam os mais diversos estilos de vida. Como \u00e9 poss\u00edvel atuar pr\u00e1ticas contra os abusos em um ambiente caracterizado por um multiculturalismo e diversidade t\u00e3o vastos?<\/strong> Em primeiro lugar, as consequ\u00eancias do abuso sexual que envolve crian\u00e7as e adolescentes existem em todas as culturas e s\u00e3o universais. Al\u00e9m das sequelas psicol\u00f3gicas e sociais, as v\u00edtimas podem apresentar sequelas biol\u00f3gicas, como aumento dos horm\u00f4nios do estresse, altera\u00e7\u00e3o na express\u00e3o de determinados genes, bem como na morfologia e no funcionamento cerebral: essas disfun\u00e7\u00f5es persistem ao longo da exist\u00eancia do sobrevivente e podem ser transmitidas para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o se pode dizer que existem varia\u00e7\u00f5es culturais na gravidade das consequ\u00eancias para as v\u00edtimas, que existem culturas em que as v\u00edtimas sofrem menos: \u00e9 devastador sempre e em toda parte. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio colocar em pr\u00e1tica medidas preventivas, mas tamb\u00e9m corretivas no mundo inteiro. Nota-se que a consci\u00eancia da gravidade dessas situa\u00e7\u00f5es est\u00e1 crescendo: por exemplo, na Igreja Cat\u00f3lica foram criadas comiss\u00f5es nacionais de investiga\u00e7\u00e3o em muitos pa\u00edses da Europa, Am\u00e9rica do Norte, Am\u00e9rica Latina, mas tamb\u00e9m na Austr\u00e1lia, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul. O sofrimento existe sempre, em toda parte. Aquilo que pode variar \u00e9 a resist\u00eancia em denunciar os fatos e a capacidade de tomar medidas de prote\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o. Isso pode estar relacionado ao fato que, em algumas culturas, \u00e9 um tabu falar sobre sexualidade. O primeiro passo \u00e9 sensibilizar as popula\u00e7\u00f5es para as consequ\u00eancias dos abusos: j\u00e1 existem programas promovidos por diversas associa\u00e7\u00f5es que t\u00eam em vista a representa\u00e7\u00e3o da sexualidade em diversas culturas. Por exemplo, sugerir que escutemos o sofrimento das v\u00edtimas que pertencem \u00e0 mesma cultura pode despertar empatia e suscitar nas pessoas a vontade de agir. A preven\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser dirigida diretamente \u00e0s crian\u00e7as, educando-as aos seus direitos: tamb\u00e9m nesse caso existem programas que se valem, por exemplo, de can\u00e7\u00f5es. Outra coisa que varia \u00e9 a capacidade, dos Estados e das institui\u00e7\u00f5es, de adotarem medidas de prote\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o. A estrada a ser percorrida \u00e9 a de estabelecer um di\u00e1logo respeitoso e isento de incrimina\u00e7\u00f5es com os protagonistas; isso permitir\u00e1 que todos compreendam a gravidade dos abusos, mas tamb\u00e9m encontrem as formas espec\u00edficas de cada cultura para a liberdade de express\u00e3o, para concretizar as repara\u00e7\u00f5es e formar os membros da comunidade. <strong>Tanto no Movimento dos Focolares como em outros contextos h\u00e1 quem expresse a convic\u00e7\u00e3o de que chegou o momento de ir em frente, isto \u00e9, que n\u00e3o se deve continuar falando apenas de abusos, mas que \u00e9 preciso focar na \u201cmiss\u00e3o\u201d do Movimento e em tudo aquilo de bom e positivo que a viv\u00eancia desse carisma gera no mundo. Qual a sua opini\u00e3o sobre o assunto?<\/strong> Qual \u00e9 a \u201cmiss\u00e3o\u201d? N\u00e3o se trata talvez de caminhar rumo \u00e0 fraternidade universal, a uma cultura que coloca em primeiro lugar o sofrimento dos mais fracos, a uma cultura do di\u00e1logo, de abertura e de humildade? Parece-me que a luta contra todos os tipos de abusos \u00e9 precisamente uma forma de concretizar o desejo de colocar em primeiro lugar aqueles que sofrem por isso. Ajudar a curar as feridas das v\u00edtimas \u00e9 precisamente um modo de avan\u00e7ar rumo \u00e0 fraternidade universal. Isso tamb\u00e9m envolve acompanhar os autores dos abusos, a fim de evitar a reincid\u00eancia. Reconhecer os pr\u00f3prios erros, a pr\u00f3pria vulnerabilidade, a fim de encontrar solu\u00e7\u00f5es, levando em conta as opini\u00f5es dos especialistas do setor, \u00e9 justamente uma forma de construir uma cultura de di\u00e1logo. Lutar com determina\u00e7\u00e3o contra os abusos e acompanhar as v\u00edtimas est\u00e3o no centro dessa \u201cmiss\u00e3o\u201d. N\u00e3o h\u00e1, portanto, escolha entre a luta contra os abusos e a \u201cmiss\u00e3o\u201d, porque essa luta \u00e9 um elemento central da \u201cmiss\u00e3o\u201d. \u00c9 uma prioridade dolorosa, mas necess\u00e1ria no contexto atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Stefania Tanesini<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.focolare.org\/download\/3949\/relatorios\/363388\/relatorio-abusos-2023.pdf?lang=fr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Relat\u00f3rio 2023: &#8220;Prote\u00e7\u00e3o da pessoa no Movimento dos Focolares&#8221; (Descarregar PDF)<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Movimento dos Focolares publica o relat\u00f3rio sobre as atividades realizadas e a prote\u00e7\u00e3o da pessoa e os dados relativos aos casos de abuso em 2023. 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