{"id":334754,"date":"2016-08-29T03:00:42","date_gmt":"2016-08-29T01:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.focolare.org\/depois-do-vento-um-terremoto-mas-o-senhor-nao-estava-no-terremoto\/"},"modified":"2024-05-16T15:28:41","modified_gmt":"2024-05-16T13:28:41","slug":"depois-do-vento-um-terremoto-mas-o-senhor-nao-estava-no-terremoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/depois-do-vento-um-terremoto-mas-o-senhor-nao-estava-no-terremoto\/","title":{"rendered":"\u201cDepois do vento, um terremoto, mas o Senhor n\u00e3o estava no terremoto\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-141501 alignleft\" src=\"https:\/\/www.focolare.org\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Amatrice_clocktower.jpg\" alt=\"Amatrice_clocktower\" width=\"386\" height=\"257\" \/>\u00abAquele rel\u00f3gio da torre c\u00edvica de Amatrice, que marca<strong> 3 horas e 36 minutos<\/strong>, \u00e9 uma imagem forte para dizer o que aconteceu esta noite.  Aquele minuto foi o \u00faltimo para muitas v\u00edtimas, ser\u00e1 um minuto relembrado para sempre porque marcado na carne e no cora\u00e7\u00e3o de seus familiares, e ser\u00e1 recordado pelo nosso pa\u00eds, cuja hist\u00f3ria recente \u00e9 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de rel\u00f3gios parados para sempre, pela viol\u00eancia dos homens ou pela viol\u00eancia da terra.  Eu tamb\u00e9m o recordarei para sempre, porque <strong>este grito da terra chegou at\u00e9 a casa dos meus pais<\/strong>, em Roccafluvione, a cerca de vinte quil\u00f4metros de Arquata do Toronto, aonde eu os estava visitando. Uma longa noite de medo, sofrimento, pensamentos em Amatrice, Arquata, Acumuli,<strong> vilarejos da minha inf\u00e2ncia<\/strong>, pr\u00f3ximas aos povoados dos meus av\u00f3s, lugares aonde, no ver\u00e3o, eu acompanhava meu pai, que trabalhava como vendedor ambulante de galinhas. E muitos e muitos outros pensamentos, que nunca nos vem, porque surgem somente nas noites tremendas.  Pensava que aquele tempo medido at\u00e9 as 3h36 do rel\u00f3gio da torre, que estava l\u00e1, parado, morto, era apenas uma dimens\u00e3o do tempo, aquela que os gregos chamavam <strong><em>kronos<\/em><\/strong>, mas que era s\u00f3 a superf\u00edcie, o ch\u00e3o do tempo.\u00a0No mundo existe o nosso tempo administrado, domesticado, constru\u00eddo, usado para viver.Mas abaixo existe um outro tempo: \u00e9 <strong>o tempo da terra<\/strong>. Este tempo n\u00e3o-humano, \u00e0s vezes desumano, comanda o tempo dos homens, das m\u00e3es, das crian\u00e7as.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-141471 alignright\" src=\"https:\/\/www.focolare.org\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Amatrice.jpg\" alt=\"Amatrice\" width=\"354\" height=\"236\" \/> E pensava que n\u00e3o somos n\u00f3s os patr\u00f5es desse tempo, mais profundo, abissal, primitivo, que n\u00e3o segue o nosso passo, \u00e0s vezes \u00e9 contra os passos de quem caminha sobre ele. E quando, nestas noites terr\u00edveis, percebemos aquele tempo diferente sobre o qual n\u00f3s caminhamos e constru\u00edmos a nossa casa, nasce uma certeza totalmente nova de ser \u201cerva do campo\u201d, irrigada e nutrida pelo c\u00e9u, mas tamb\u00e9m engolida pela terra.  A terra, a verdadeira, n\u00e3o a rom\u00e2ntica e ing\u00eanua das ideologias, \u00e9 ao mesmo tempo m\u00e3e e madrinha. O <em>h\u00famus<\/em> gera o <em>homo<\/em>, mas faz tamb\u00e9m com que volte a ser p\u00f3, \u00e0s vezes bem e no momento prop\u00edcio, outras vezes mal, cedo demais, com demasiado sofrimento.  O humanismo b\u00edblico sabe muito bem disso, e por isso lutou muito contra <strong>os cultos pag\u00e3os<\/strong> dos povos vizinhos, que queriam <strong>fazer da terra e da natureza uma divindade<\/strong>: a for\u00e7a da terra sempre fascinou os homens que buscaram compra-la com magia e sacrif\u00edcios. E assim, enquanto procurava, inutilmente, conciliar o sono, eu pensava nos tremendos livros de J\u00f3 e do Eclesiastes, que talvez possam ser entendidos nessas noites. Aqueles livros nos dizem que <strong>nenhum Deus, nem mesmo o verdadeiro, pode controlar a terra<\/strong>, porque at\u00e9 Ele, uma vez que entra na hist\u00f3ria humana, \u00e9 v\u00edtima da misteriosa liberdade da sua cria\u00e7\u00e3o.  <strong>Nem mesmo Deus pode explicar-nos porque as crian\u00e7as morrem esmagadas por antigas pedras dos nossos vilarejos<\/strong>, e n\u00e3o pode nos explicar porque n\u00e3o sabe, porque se o soubesse seria um \u00eddolo monstruoso. Deus, que hoje olha para a terra dos tr\u00eas As (Arquata, Accumuli, Amatrice), pode apenas colocar-se as nossas mesmas perguntas: pode gritar, calar, chorar conosco. E talvez recordar-nos, com as palavras da B\u00edblia, que <strong>tudo \u00e9 vaidade<\/strong> das vaidades: tudo \u00e9 vapor, sopro, vento, nevoa, desprezo, nada, ef\u00eamero. Vaidade, em hebraico, escreve-se <em>hebel<\/em>, a mesma palavra de Abel, o irm\u00e3o morto por Caim. Tudo \u00e9 vaidade, tudo \u00e9 um infinito Abel: o mundo est\u00e1 cheio de v\u00edtimas.  Isto n\u00f3s podemos saber. O sabemos, e vezes demais o esquecemos. Estas noites e dias terr\u00edveis nos fazem recordar\u00bb.  <em>Luigino Bruni<\/em>  Fonte: <a href=\"http:\/\/www.cittanuova.it\/index.php?idsito=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Citt\u00e0 Nuova<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o do economista Luigino Bruni, coordenador mundial da EdC, sobre o tempo da Terra e o sentido da vida. Ele encontrava-se nos locais do terremoto, para ele familiares.<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[129],"tags":[],"class_list":["post-334754","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334754"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334754\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.focolare.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}