Reflexão de Chiara Lubich sobre a Palavra de vida do mês janeiro de 2006

“Emanuel”, “Deus-conosco!”. Esta é a grande, extraordinária notícia com a qual inicia o Evangelho de Mateus. Em Jesus, o Emanuel, Deus desceu em nosso meio.
Depois, o Evangelho termina com uma promessa ainda maior e surpreendente: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”.

A presença de Deus entre nós não se limitou a um período histórico, à permanência física de Jesus na terra. Ele continua conosco para sempre.

Como é que Ele permanece? Onde podemos encontrá-lo?

A resposta está justamente no centro do Evangelho de Mateus, lá onde Jesus nos deixa as linhas de vida para a sua comunidade, a Igreja. Dela, Ele falou muitas vezes: afirmou que ela é edificada sobre a rocha de Pedro; Ele a vê recolhida pela sua palavra e reunida ao redor da Eucaristia… Mas neste trecho Ele revela a identidade da Igreja no sentido mais profundo: a Igreja é Ele mesmo, presente entre aqueles que estão reunidos em seu nome.
Então, podemos tê-lo sempre presente entre nós, podemos fazer a experiência de Igreja viva, viver a realidade constitutiva da Igreja.

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles.”

Se é verdade que Ele, o Senhor Ressuscitado, é quem une os fiéis a si e os reúne entre si, e faz de todos o seu corpo, qualquer divisão nas nossas famílias e nas nossas comunidades altera a imagem da Igreja. Cristo não é dividido. Um Cristo fragmentado se torna irreconhecível, desfigurado.

Isso vale também para os relacionamentos entre as diversas Igrejas e comunidades eclesiais. O caminho ecumênico nos tornou conscientes de que “o que nos une é muito mais forte do que aquilo que nos separa”. E embora ainda permaneçam alguns aspectos da doutrina e da práxis cristã nos quais ainda não existe unidade na fé, desde já “o elemento mais importante de nossa unidade é a presença de Cristo ressuscitado”.
O fato de nos reunirmos em nome de Jesus para fazermos a oração em comum, para conhecermos e compartilharmos as riquezas da fé cristã, para nos pedirmos perdão mutuamente é a premissa que nos levará a superar muitas divisões. Essas iniciativas podem parecer pequenas, mas “nada é pequeno se for realizado por amor”. Jesus entre nós, “fonte de nossa unidade”, nos indicará “como podemos ser os instrumentos da unidade que Deus deseja para nós”.

Assim escrevem a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, ao propor esta “Palavra de Vida”, cujo material foi preparado por um grupo ecumênico de Dublin, na Irlanda. Com efeito, desde 1968 vivemos todos juntos, durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma mesma “Palavra de Vida”, o que já é um sinal e uma esperança para o caminho rumo à comunhão plena e visível entre as Igrejas.

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles.”

Mas, o que significa estarmos unidos no nome de Jesus?
Significa estarmos unidos Nele, na sua vontade. E nós sabemos que o seu maior desejo, o “seu” mandamento é que entre nós exista o amor mútuo. Por isso, onde duas ou mais pessoas estiverem prontas a se amarem desta forma, prontas a pospor qualquer coisa para merecer a Sua presença, tudo ao redor muda. Jesus poderá entrar nas casas, nos ambientes de trabalho e de estudo, nas câmaras legislativas e nos estádios, e transformá-los.

A Sua presença será luz para a solução dos problemas, será criatividade para enfrentar novas situações pessoais e sociais, será coragem para continuar fiel às decisões mais árduas, será fermento para a existência humana na multiplicidade de suas expressões.

A Sua presença espiritual, mas real, estará ali: nas famílias, entre os operários nas fábricas, nas oficinas, nos canteiros de obras; estará com os agricultores nos campos; estará entre os comerciantes, entre os funcionários públicos, em todos os ambientes.

Jesus que vive entre nós por meio do amor recíproco, renovado e declarado continuamente, se fará novamente presente neste mundo e o libertará das suas novas formas de escravidão. E o Espírito Santo abrirá novos caminhos.

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles.”

Pela nossa experiência podemos dizer, com gratidão a Deus, o quanto é verdadeiro aquilo que eu escrevi muitos anos atrás: se estamos unidos, Jesus está entre nós. E isto vale! Vale mais do que qualquer outro tesouro que nosso coração possa ter: mais do que a mãe, o pai, os irmãos, os filhos. Vale mais do que a casa, o trabalho, os bens; mais do que as obras de arte de uma grande cidade como Roma; mais do que os nossos afazeres, mais do que a natureza que nos circunda com as flores e os campos, o mar e as estrelas; vale mais do que a nossa alma!

Como é grande, por exemplo, diante do mundo, o testemunho do amor mútuo, segundo o Evangelho, entre um católico e um armênio, entre um metodista e um ortodoxo!

Portanto, vivamos também hoje na caridade a vida que Ele nos dá momento por momento.
O amor fraterno é mandamento fundamental. Por isso, tem valor tudo aquilo que é expressão de sincera caridade fraterna. E nada daquilo que fazemos vale, se não contiver o sentimento de amor pelos irmãos: pois Deus é Pai e tem no coração sempre e unicamente os filhos.

Vivamos para ter Jesus sempre conosco, para levá-lo ao mundo que não conhece a sua paz.

 

Chiara Lubich

 

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