Setembro 2006

A Palavra do Evangelho: uma Palavra que gera a vida e, ao mesmo tempo, uma Palavra que reclama ser vivida.
Se um Deus nos fala, como podemos deixar de acolher a sua Palavra? A Bíblia repete nada menos que 1.153 vezes o convite a escutá-lo. O mesmo convite, “Escutai-o”1, foi dirigido pelo Pai aos discípulos quando a Palavra – seu Filho – veio viver entre nós.
Mas a escuta mencionada na Bíblia se atua mais no coração do que nos ouvidos. Significa aderir totalmente, obedecer, adequar-se àquilo que Deus fala, com a confiança de uma criança que se abandona nos braços da mãe e se deixa carregar por ela.
É isso que o apóstolo Tiago lembra na sua carta:

«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»

Percebe-se que nessa frase ressoa o ensinamento de Jesus. Ele declara feliz aquele que, tendo escutado a Palavra de Deus, a observa2. E reconhece como sua mãe e seus irmãos os que a escutam e a põem em prática3.
Retomando uma imagem apresentada por Jesus, Tiago compara a Palavra a uma semente depositada no nosso coração, que deve ser acolhida “com docilidade”. Mas não é suficiente acolher, escutar. Assim como a semente está destinada a produzir frutos, da mesma forma a Palavra de Deus deve traduzir-se em vida.
Foi o que Jesus explicou na parábola dos dois filhos. “Sim”, respondeu um dos filhos ao pai, quando este lhe pediu que fosse trabalhar na vinha; mas ele não foi. Já o outro respondeu: “Não quero”, e no entanto acabou obedecendo ao pai, demonstrando com os fatos o que significa escutar realmente a Palavra4.
Jesus afirma ainda, no final do “sermão da montanha”, que o bom ouvinte da Palavra é aquele que a põe em prática, dando solidez à sua vida como a uma casa construída sobre a rocha5.

«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»

Em cada uma de suas Palavras Jesus exprime todo o seu amor por nós. Vamos concretizá-la, assumi-la como coisa nossa. Experimentemos quanta potência de vida ela irradia em nós e ao nosso redor quando a vivemos. Deixemo-nos enamorar pelo Evangelho até o ponto de deixar-nos transformar por ele e de transbordá-lo sobre os outros. Esse é o modo de retribuirmos com o nosso amor o amor de Jesus.
Não seremos mais nós a viver: Cristo se formará em nós.
Sentiremos na própria pele a libertação de nós mesmos, dos nossos limites, das nossas escravidões. E não é só: já que demos a Jesus a liberdade de viver em nós, veremos explodir a revolução de amor que ele provocará no ambiente social que nos envolve.

«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»

É essa a nossa experiência desde o início do Movimento em Trento, durante a Segunda Guerra Mundial, quando, devido aos freqüentes bombardeios, corríamos para os abrigos antiaéreos levando conosco apenas o pequeno livro do Evangelho.
Nós o abríamos e líamos. E, penso, devido a uma graça especial de Deus, aquelas Palavras, já tão conhecidas, se iluminavam com uma luz novíssima. Eram Palavras de vida, que podiam ser traduzidas em vida. “Amarás teu próximo como a ti mesmo”6… embora na tristeza e na tragédia da guerra, as pessoas amadas desse modo reencontravam a alegria, a serenidade, o sentido da vida. “Dai e vos será dado”7… e, apesar da carestia, quilos e mais quilos de mantimentos quase que nos submergiam, depois de algum gesto nosso de generosidade, até mesmo pequeno; e nós distribuíamos largamente esses bens aos mais necessitados da cidade.
Assim, vimos nascer ao nosso redor uma comunidade viva que, depois de apenas poucos meses, já contava 500 pessoas.
Tudo era fruto da comunhão com a Palavra: ela era constante, era uma dinâmica realizada minuto por minuto. Vivíamos inebriados pela Palavra. Podemos dizer que era a Palavra que vivia em nós. Para aumentar em nós a aceleração em vivê-la, bastava dizer um ao outro: “Você vive a Palavra?”, “Você é a Palavra viva?”
Devemos voltar àqueles tempos. O Evangelho é sempre atual. Cabe a nós acreditar nele e comprová-lo.

 

Chiara Lubich

1) Mt 17,5;
2) Cf. Lc 11,28;
3) Cf. Lc 8,20-21;
4) Cf. Mt 21,28-30;
5) Mt 7,24;
6) Mt 22,39;
7) Lc 6,38.

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