outubro 2006

Percorrendo o Evangelho vemos que Jesus sempre convida a dar: dar aos pobres, a quem pede, a quem deseja um empréstimo. Dar de comer a quem tem fome. Dar o manto a quem pede a túnica. Dar gratuitamente…
Ele mesmo foi o primeiro que agiu assim: deu a saúde aos doentes, o perdão aos pecadores, a vida a todos nós.
Ao instinto egoísta de acumular Ele opõe a generosidade; ao invés da preocupação com as próprias necessidades, propõe a atenção ao outro; em lugar da cultura do ter, a cultura da partilha.
Não importa se podemos dar muito ou pouco. O importante é “como” doamos, quanto amor colocamos até mesmo num pequeno gesto de atenção para com o outro. Às vezes basta oferecer-lhe um copo d’água, um copo de água fresca, como detalha o Evangelho de Mateus, que é uma oferta muito bem aceita e até necessária num país quente e árido como a Palestina.

«Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa»

Exatamente isso: dar um copo d’água. Um gesto simples, porém grande aos olhos de Deus, quando feito em seu nome, ou seja, por amor.
E o amor tem todos os matizes e sabe encontrar os modos mais adequados para exprimir-se.
O amor está atento, porque não pensa em si.
O amor é solícito porque, percebendo uma necessidade do outro, inventa de tudo para atendê-lo.
O amor é essencial, porque sabe relacionar-se com o próximo, mesmo que a atitude seja simplesmente de escuta, de serviço, de disponibilidade.
Quantas vezes, estando ao lado de alguém, sobretudo de quem sofre, imaginamos prestar-lhe um ótimo serviço, talvez com os nossos conselhos nem sempre oportunos, ou com um palavreado excessivo…, que podem deixá-lo aborrecido e cansado.
Por outro lado, como é importante procurar “ser” o amor junto a cada próximo! É a atitude que nos mostrará o caminho certo para entrar no seu coração e aliviá-lo.

«Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa»

A Palavra de Vida deste mês poderá ajudar-nos a redescobrir o valor de cada ação nossa: desde as tarefas de casa, da roça, da oficina, até à execução das atividades burocráticas, das tarefas escolares, bem como as responsabilidades no campo civil, político e religioso. Tudo pode transformar-se em serviço atento e solícito.
O amor nos dará uma visão nova das coisas, capaz de intuir aquilo que os outros precisam, para ajudá-los com criatividade e generosidade.
O resultado disso? Os bens circularão: o amor chama amor. A alegria se multiplicará: “Há mais felicidade em dar do que em receber”.

«Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa»

Lembro-me que, durante a Segunda Guerra Mundial, em algumas áreas da nossa cidade de Trento (Itália), viviam famílias muito pobres. Nós íamos procurá-las para partilhar com elas aquilo que possuíamos; queríamos elevar o seu nível de vida de modo tal que todos chegássemos a uma certa igualdade.
Era um raciocínio simples, mas que produziu frutos inimagináveis: mantimentos, roupas, medicamentos começaram a circular com extraordinária abundância… Firmou-se em nós a convicção de que o Evangelho vivido dá a resposta para todos os problemas individuais ou sociais.
Não era uma utopia. Hoje, centenas de empresas estão envolvidas no projeto da Economia de Comunhão, baseando toda a vida empresarial na cultura da partilha, e colocando em comum os lucros para finalidades sociais; entre estas, socorrer as pessoas que se encontram em dificuldades, gerando novos empregos e acudindo-as nas necessidades mais urgentes.
Mas as pessoas em dificuldade são muitas e os lucros dessas empresas não são suficientes para atender a todas as necessidades. Por isso muitos de nós, desde 1994, separamos mês por mês uma pequena quantia para os pobres.

Atualmente essa ajuda chega a 7.000 pessoas em 55 países.
São inúmeros os testemunhos dos “copos de água” recebidos e doados, numa competição de generosidade. Um exemplo entre muitos, das Filipinas: “O nosso pequeno açougue faliu por causa de uma epidemia entre os animais. Ficamos endividados e não sabíamos mais como continuar… Com o auxílio regular de vocês conseguimos, cada dia, ter o que comer. Logo entendi que também eu deveria ajudar a quem era mais necessitado do que eu. Uma vizinha nossa estava doente, sofria muito e precisava de ajuda inclusive material. Fiquei dando-lhe assistência, até que ela partiu para o céu. Depois “adotei” economicamente o seu quinto filho, já que o pai não conseguia mantê-lo sozinho, por ser muito mais pobre do que nós”.

Chiara Lubich

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