Este ano, para muitos cristãos, os dias da Semana Santa e da Páscoa – que as Igrejas ocidentais celebram em 12 de abril, enquanto as Igrejas ortodoxas e as Igrejas ortodoxas orientais em 19 de abril – serão uma experiência especial. Devido à pandemia do Coronavírus, eles não poderão participar fisicamente das celebrações litúrgicas. No texto a seguir, do ano 2000, Chiara Lubich dá algumas indicações sobre como viver esses “dias sagrados”.

Hoje é Quinta-feira Santa.
E nós que, devido à nossa espiritualidade que nasceu do carisma que o Espírito Santo nos concedeu, o sentimos muito especial, não podemos deixar de fazer hoje uma pausa para meditar um pouco, contemplar, procurar reviver os mistérios que este dia nos revela, juntamente com os da Sexta-feira Santa, do Sábado de Aleluia e do Domingo de Páscoa.
Podemos resumir cada um destes dias com uma palavra que exprime, ou melhor, “grita” há mais de 50 anos no Movimento o nosso “dever ser”: Amor, a Quinta-feira Santa; Jesus Abandonado amanhã, a Sexta-feira Santa; Maria, o Sábado de Aleluia; o Ressuscitado, o Domingo de Páscoa.

Portanto hoje, o Amor. A Quinta-feira Santa – e neste dia muitas vezes experimentamos, ao longo dos anos, a doçura de uma particular intimidade com Deus – nos recorda aquela profusão de amor que o Céu derramou sobre a terra.
Amor, primeiramente, é a Eucaristia, que nos foi doada neste dia.
Amor é o sacerdócio, que é serviço de amor e nos dá também a possibilidade de ter a Eucaristia.
Amor é a unidade, efeito do amor que Jesus, num dia como este, implorou ao Pai: “Que todos sejam um como eu e tu” (Jo 17, 21).
Amor é o mandamento novo que Jesus revelou neste dia antes de morrer: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35). Este mandamento nos permite viver aqui na terra segundo o modelo da Santíssima Trindade.

Amanhã: Sexta-feira Santa. Um único nome: Jesus Abandonado.
Ultimamente escrevi um livro sobre Jesus Abandonado intitulado: “O Grito”. Eu o dediquei a Ele com a intenção de escrevê-lo também em nome de vocês, em nome de toda a Obra de Maria, “como – esta é a dedicatória – uma carta de amor a Jesus Abandonado”.
Nele falo sobre Jesus, que, na única vida que Deus nos concedeu, um dia, um dia específico, diferente para cada um de nós, nos chamou para segui-lo, para doarmo-nos a Ele.
É compreensível então – e ali eu o declaro – que todas as minhas palavras naquelas páginas não podem ser um discurso, mesmo familiar, caloroso, íntimo, sincero; mas querem ser um canto, um hino de alegria e, acima de tudo, de gratidão a Ele.
Ele tinha doado tudo: viveu ao lado de Maria suportando dificuldades e sendo obediente. Três anos de pregação; três horas na cruz, de onde perdoa os seus algozes, abre o Paraíso ao Bom Ladrão, doa sua Mãe a nós. Restava-lhe a divindade.
A sua união com o Pai, a doce e inefável união com ele, que o tinha tornado tão potente aqui na terra, como filho de Deus, e tão majestoso na cruz, a presença sensível de Deus devia retrair-se no fundo de sua alma e tornar-se imperceptível, de alguma forma devia separá-lo daquele com quem ele disse ser uma coisa só, até gritar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46).

Depois de amanhã é Sábado de Aleluia. Maria está sozinha. Sozinha com seu filho-Deus morto. Um abismo de angústia inconsolável, um sofrimento dilacerante? Sim, mas ela permanece firme, de pé, tornando-se um exemplo excelso, um monumento de todas as virtudes. Maria espera, acredita. As palavras de Jesus que anunciavam a sua morte, mas também a sua ressurreição, talvez tenham sido esquecidas por outros, porém nunca por Maria: “Conservava estas palavras, com todas as outras, no seu coração e as meditava” (cf. Lc 2, 51).
Portanto, Maria não sucumbe à dor: espera.

E, finalmente, o Domingo de Páscoa.
É o triunfo de Jesus ressuscitado que conhecemos e revivemos também em nós pessoalmente, no nosso pequeno âmbito, após termos abraçado o abandono ou quando, unidos realmente no seu nome, experimentamos os efeitos da sua vida, os frutos do seu Espírito.
O Ressuscitado deve estar sempre presente e vivo em nós neste ano 2000, no qual o mundo deseja ver não só pessoas que acreditam e de alguma forma o amam, mas que são também testemunhas autênticas, que podem dizer a todos por experiência, como a Madalena disse aos Apóstolos após ter encontrado Jesus perto da sepultura, aquelas palavras que conhecemos, mas que são sempre novas: “Nós o vimos!” Sim, nós o descobrimos na luz com que nos iluminou; o tocamos na paz que nos infundiu; ouvimos a sua voz no íntimo do nosso coração; saboreamos a sua alegria incomparável.

Lembremos, então, nestes dias, essas quatro palavras: amor, Jesus Abandonado, Maria, o Ressuscitado.

Chiara Lubich

(em uma conexão telefônica, Castel Gandolfo, 20 de abril de 2000)

Tirado de: “Le 4 parole”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, pag. 588. Città Nuova Ed., 2019.

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