Estar próximo de quem sofre
O seguinte escrito de Chiara Lubich aborda uma questão que também a pandemia atual destacou muito: a do sofrimento. Ajuda-nos a compreender nele uma presença misteriosa de Deus, de cujo amor nada escapa. Esse olhar genuinamente cristão infunde esperança e estimula-nos a tomar sobre nós todo sofrimento pessoal, o que nos toca diretamente, bem como o sofrimento daqueles que nos rodeiam. (…) O sofrimento! Aquele que por vezes envolve totalmente o nosso ser ou aquele que nos toca levemente e que mistura a amargura com a serenidade dos nossos dias. O sofrimento: uma doença, uma desgraça, uma provação cruel, uma circunstância dolorosa. O sofrimento! Como considerar este fenômeno, (…) que está sempre na iminência de aparecer em toda existência? Como defini-lo, como identificá-lo, que nome lhe dar? O que representa para nós? Se olharmos para o sofrimento com olhos meramente humanos, seremos tentados a procurar a sua causa em nós, ou fora de nós, na maldade do homem, por exemplo, ou na natureza, e assim por diante (…) E tudo isso pode até ser verdade, mas se pensarmos apenas desta maneira, esqueceremos o mais importante: esqueceremos que, por trás do maravilhoso enredo da nossa vida Deus está presente, com seu amor, que tudo quer ou permite por motivo superior, que é o nosso bem. Por isso, os santos acolhem todo acontecimento doloroso que os atinge, como se fosse originado diretamente das mãos de Deus. É impressionante como eles nunca erram neste sentido. Para eles a dor é a voz de Deus e isto basta. Imersos como estão na Sagrada Escritura, eles compreendem o que é e o que deve ser o sofrimento para o cristão. Compreendem a transformação que Jesus realizou em relação ao sofrimento, veem como Ele o transformou de elemento negativo em elemento positivo. A verdadeira explicação do sofrimento deles é o próprio Jesus, Jesus Crucificado. Por isso, a dor torna-se até mesmo amável, torna-se algo de benéfico. Por isso os santos não a maldizem, mas a suportam, a aceitam, a abraçam. Procuremos, também nós, abrir as páginas do Novo Testamento e teremos a confirmação. São Tiago afirma na sua carta: “Meus irmãos, tende por um motivo de maior alegria para vós as várias tribulações que caem sobre vós”[1]. Portanto, o sofrimento é até mesmo motivo de alegria. Jesus, depois de nos ter convidado a tomar a nossa cruz para segui-lo, não afirma que “Quem perder a própria vida (e isto é o máximo do sofrimento) a salvará?”[2]. A dor é, portanto, esperança de salvação. Para São Paulo, o sofrer é até mesmo uma glória, mais ainda, é a única glória. “Quanto a mim – diz ele – não existe outra glória que não a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”[3]. Sim, a dor, para quem a vê na ótica cristã, é algo de grande, é até mesmo a possibilidade de completar em nós a paixão de Cristo, para nossa purificação e para a redenção de muitos. Pois bem, o que dizer hoje a todos aqueles membros do Movimento que se debatem no sofrimento? O que desejar a eles? Como nos comportar com relação a eles? Aproximemo-nos deles, antes de tudo, com sumo respeito, pois, mesmo que ainda não o saibam, neste momento eles estão sendo visitados por Deus. (…) Asseguremos a eles também que estarão presentes continuamente em nossa lembrança, em nossa oração, a fim de que saibam receber diretamente das mãos de Deus tudo aquilo que os angustia e os faz sofrer. Que possam unir o seu sofrimento à paixão de Jesus, de modo que seja potencializado ao máximo. Ajudemos ainda para que eles se lembrem sempre do valor do sofrimento e recordemos a eles aquele maravilhoso princípio cristão da nossa espiritualidade, através do qual uma dor, quando amada como um dos semblantes de Jesus crucificado e abandonado, pode transformar-se em alegria.
Chiara Lubich
(em uma conexão telefônica, Rocca di Papa, 25 de dezembro de 1986) Tirado de: “Natal com quem sofre”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, pag. 265. Città Nuova Ed., Roma 2019. [1] Tg 1, 2. [2] Mt 10, 39. [3] Gl 6, 14.