Movimento dos Focolares

A experiência de se sentir estrangeiro

Out 1, 2026

Ideia do Mês - Outubro 2026

Ser estrangeiro não é apenas uma condição jurídica ou geográfica. É também uma experiência humana que quase todos nós, de uma forma ou de outra, já vivemos pelo menos uma vez na vida.

Sentimo-nos estranhos sempre que entramos em um contexto cujos códigos desconhecemos: um novo país, um local de trabalho desconhecido, uma escola, uma casa de repouso, um grupo social ou até mesmo uma família que não é a nossa. Podemos nos sentir estrangeiros também quando as novas gerações usam linguagens e referências que são incompreensíveis para nós, ou quando descobrimos que a sociedade à qual pensávamos pertencer mudou para uma direção que não reconhecemos mais. Cada um de nós sabe o que significa se sentir deslocado: uma experiência comum que pode nos ajudar a nos colocar no lugar do outro.

A história da humanidade é, desde sempre, uma história de encontros entre culturas. Se, por um lado, as migrações geraram conflitos e dificuldades, por outro, promoveram intercâmbios, enriquecimento mútuo e uma profunda transformação das sociedades. O fenômeno migratório pode ser encarado não apenas como uma emergência, mas também como uma oportunidade de renovação, que nos convida a sair de nossas zonas de conforto para ir ao encontro do outro.

O verdadeiro desafio está em viver essa mudança histórica com um olhar capaz de perceber as sementes de esperança que as migrações trazem consigo, transformando o acolhimento em um espaço de construção da fraternidade.

Podemos começar com pequenos gestos. Ações que podem parecer insignificantes, mas que, somadas às de muitos outros, formam uma corrente silenciosa e concreta, capaz de se tornar uma espécie de “barragem contra a barbárie”.

Assim se expressou Chiara Lubich em um de seus últimos discursos públicos, em Londres, em junho de 2004: «[…] A nossa experiência nos diz que, hoje quem tenta transportar as montanhas do ódio e da violência, tem pela frente uma tarefa gigantesca. Mas o que é impossível para milhões de homens isolados e divididos, parece que se torna possível a pessoas que fizeram do amor recíproco, da compreensão recíproca, da unidade, a mola essencial da própria vida».

Quando vivemos assim, o diálogo pode se tornar uma verdadeira cultura do encontro, na qual a diversidade de cada um deixa de ser uma barreira e se torna um dom na construção do bem comum.

Uma prova disso é o relato de um pároco suíço sobre as “lições” aprendidas vivendo em um centro de acolhimento para migrantes. Por um lado, a tomada de consciência de quanto o racismo está latente em cada um de nós; por outro, o extraordinário poder transformador que nasce do encontro: “Apenas um exemplo: um jovem do Ruanda viveu conosco aqui, em Lucerna, por três anos. Ele não tinha documentos e, quando chegou, estava muito abalado psicologicamente. O início não foi fácil. Mas, com o tempo, a sua verdadeira personalidade voltou a brilhar e a nossa comunidade multicultural floresceu em uma vida ainda mais bela. Rimos muito, comemoramos, rezamos e superamos juntos, inclusive as incertezas e os grandes desafios! Tornamo-nos irmãos. Isso ficou evidente, sobretudo, no dia da despedida involuntária deste nosso irmão ruandês. Quando os quatro policiais vieram buscá-lo em nossa casa para levá-lo à força de volta ao seu país, ficaram muito surpresos ao se depararem com dez pessoas de diferentes nações, que estavam ali para se despedir dele e por encontrarem uma atmosfera serena, apesar da difícil situação. (…). Já se passaram cinco anos e o profundo laço familiar que se criou entre nós continua vivo, de um continente a outro» [1]

[1] “Migrazioni: sfide e opportunità” in: Ekklesia – n.26 (2025/1)

Foto © William Fortunato – Pexels

A IDEIA DO MÊS, é preparada pelo “Centro do Diálogo com pessoas de convicções não religiosas” do Movimento dos Focolares. É uma iniciativa que nasceu no Uruguai em 2014 para compartilhar com os amigos que não creem em Deus os valores da Palavra de Vida, uma frase da Escritura que os membros do Movimento se comprometem a colocar em prática. Atualmente, A IDEIA DO MÊS é traduzida em doze idiomas e distribuída em mais de 25 países, adaptada em alguns deles segundo as exigências culturais. www.dialogue4unity.focolare.org

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