Ucrânia: uma guerra no silêncio
No apelo sincero do Papa Francisco por muitos de nossos irmãos que no mundo “sofrem injustamente as consequências violentas dos conflitos”, não poderia faltar a invocação “à amada Ucrânia”, para que “possa reencontrar paz e esperança graças ao empenho de todas as partes interessadas”.
Sim, porque na Ucrânia existe uma guerra que ainda continua a sua violência absurda e sem sentido. Conversamos com Roberto Catalano, convidado para uma conferência nas Universidades de Leopoldi, Ivanova Franziksva e Ternopil sobre o tema do diálogo. É significativo que bem no meio da “crise” os jovens (e seus tutores) ao invés de permanecerem na defensiva, trabalhem para se aprofundar no diálogo, como único recurso ao qual direcionar todos os esforços.
Roberto, que ambiente você encontrou entre as pessoas?
“No final de uma conferência, uma funcionária me mostrou três fotos de ex-alunos da Universidade, mortos no conflito no sudeste do país. Com os olhos marejados ela me disse que todas as noites, depois das aulas, um grupo de estudantes vai para a cafeteria da universidade para preparar pratos ucranianos, que são congelados e depois enviados aos soldados. Outra senhora me contou sobre seu filho de quase seis anos que desenha cartões e envia aos soldados para lhes agradecer pelo esforço que fazem para defender seu país. Infelizmente para nós, ao contrário do ano passado, quando os nossos telejornais falavam sobre isso , hoje o que está acontecendo na Ucrânia já não é mais notícia. No entanto, no oeste da Ucrânia existe uma guerra real”.
Uma situação que parece sem saída, o que gera incerteza e sofrimento no coração das pessoas…
“Eu tive a prova deste sofrimento profundo em cada momento da minha permanência na Ucrânia. Alunos e professores me perguntaram o que eu achava da situação do país e, principalmente, o que se diz no resto da Europa. Eu não tive coragem de fazer julgamentos. Diante da dor e do medo eu preferi ouvir e permanecer em silencio. Fiquei impressionado com a força e a dignidade deste povo, mas temo que o resto da Europa e do mundo o tenha praticamente deixado à sua sorte, uma situação agravada, entre outras coisas, pelo crescente nacionalismo, um fenômeno que pode esconder grandes perigos para o futuro”.
Exatamente como disse o Papa, falando do massacre de estudantes no Quênia, diante de tais atrocidades parece que a comunidade internacional volte o olhar para outra direção. No entanto o povo ucraniano também é nosso irmão, pela comum humanidade e pela fé cristã que o anima.
“Entrei em uma grande igreja onde se celebrava a liturgia em rito oriental. Impressiona a arquitetura moderníssima, de grande beleza, mas o mais surpreendente é a religiosidade do povo, com uma participação atenta, distinta, sagrada. Causa impressão também a longa fila para a confissão. Setenta anos de marxismo não apagaram a fé nas pessoas”.
Em sua opinião, existe esperança numa possibilidade de paz?
“Eu só visitei metade da Ucrânia e não pude, como gostaria, conhecer pessoas do lado oposto. Também eles têm sofrimentos que talvez seja difícil entender. Aqui a história está presente com suas voltas e reviravoltas, mas também com os seus problemas atuais, ditados por interesses internacionais pelo gás e combustível. Corre-se o risco de um silêncio que apaga o sofrimento de milhões de pessoas, onde quer que estejam. Como defendido pelo Papa, é necessário o empenho de todas as partes interessadas. A única maneira de conseguir uma paz duradoura”.
Páscoa ortodoxa
Viver juntos em Cannes
Uma pensão aberta aos imigrantes
https://vimeo.com/131853066 César, 18 anos, proveniente do Gana, foi salvo quando já estava se afogando: ele ingeriu água e óleo combustível. Daquela travessia foram resgatadas 72 pessoas, enquanto outras 32 não conseguiram sobreviver. Maria, nigeriana, grávida de sete meses, quando estava fora de casa com o marido e um filho pequeno, recebeu uma chamada do seu pai: ele dizia que não voltassem, porque a igreja local fora incendiada e a mãe dela, assassinada. A família de Maria fugiu naquele instante e, chegando à Líbia, tendo dinheiro somente para uma passagem para a Itália, ela embarcou sozinha. O marido e o filho pequeno ficaram na parte oposta do Mediterrâneo na espera da possibilidade de um próximo embarque. “São episódios de vida que cortam o coração. Lembrando das palavras de Jesus “era forasteiro e me acolhestes”, queremos ser coração e braços abertos para cada um desses refugiados”. É o depoimento de Carla e David, de Florença (Itália), uma família que se dispôs a acolher os imigrantes. “Em julho de 2013 nós participamos da Jornada Mundial da Juventude, no Brasil, com os nossos três filhos. Aproveitando a ocasião, passamos um período de missão em Salvador, Bahia. Foi uma experiência profunda, que dilatou o nosso coração à partilha com muitas pessoas necessitadas. Quando voltamos para casa, decidimos acolher os imigrantes na pensão que administramos. A partir daquele momento a missão foi até nós! Desde o início, passaram 756 pessoas provenientes da Síria, Paquistão, Nepal, Bangladesh e alguns países da África. Alguns se hospedam somente para retomar as forças e continuar em direção a outras metas europeias, outros permanecem por mais tempo. E assim os relacionamentos se estreitam a ponto de tornarem-se mais que fraternos.
Uma família eritréia, que agora se encontra na Noruega, ficou conosco por dois meses: ele muçulmano, ela cristã, e aos seis filhos o pai deixou a liberdade para que escolhessem a religião. Assim que chegaram, a mãe e o filho menor foram levados ao hospital porque estavam desidratados, e depois o pai, por uma infecção. Lembramos da alegria deles quando lhes oferecemos o celular para que pudessem contatar os parentes e avisar que estavam vivos e bem. Em um domingo fomos à missa juntos e, justamente naquela minúscula igreja, na periferia de Florença, estava o cardeal Betori, em visita pastoral. O ponto central da sua homilia foi a acolhida. Na conclusão da celebração ele abraçou aquela família e os abençoou. Três jovens: uma do Mali e uma da Líbia, ambas muçulmanas, chegaram junto com outra jovem que fugira da Nigéria depois de ter presenciado o assassinato dos pais porque eram cristãos. Entre elas instaurou-se imediatamente uma relação de irmãs e, conosco, como pais e filhas. Um dia, estávamos passeando juntos e Mersi estava muito triste porque naquele mesmo dia haviam anunciado na televisão que acontecera um novo massacre na Nigéria. Depois ela recebeu um telefonema: a irmã menor conseguiu fugir e chegar à Líbia com um amigo da família. A jovem líbia imediatamente contatou a sua família e a criança nigeriana – cristã – foi hospedada por eles – muçulmanos.
Outro fato: Joy e Lorenz, que também vira o pai ser assassinado porque era cristão. Eu, David, sou assistente social e posso entrar no ônibus quando os refugiados chegam. Eu faço isto arriscando contrair doenças, mas, sei que o primeiro contato é fundamental e é naquele momento que se consegue individuar os grupos que, nesse meio tempo, surgem entre eles. Eu vi que Joy estava grávida e os convidei a virem conosco. Também quando a autoridade competente transferiu este casal nós continuamos a visitá-los e, quando a criança nasceu, levamos um carrinho de bebê e roupinhas que Famílias Novas, dos Focolares, conseguiram para eles. Joy e Lorenz nos pediram para sermos padrinhos do pequeno John. Atualmente a família foi transferida para a Puglia. A separação não foi fácil, mas a relação continua. Eles nos chamam mamãe e papai. Quando receberem o visto definitivo de permanência desejam voltar a morar próximos de nós”.
Nova igreja do Centro Ave na Itália e “Diálogos em Arquitetura” em Barcelona
No dia 20 de março, foi inaugurada em Mendicino (Cosenza) a nova igreja paroquial dedicada a Cristo Salvador. O evento foi celebrado precisamente no aniversário do arcebispo D. Nunnari, que coroou o sonho da comunidade eclesial de 10 mil habitantes que agora dispõe de um lugar de culto, construído a partir da estrutura original, com 15 salas para a catequese, uma sala para encontros e a casa canônica. O projeto, realizado com o suporte técnico de vários especialistas, foi idealizado pelo Centro Ave Arte de Loppiano, uma realização arquitetônica que nasceu da inspiração e da pesquisa realizada durante anos pelo grupo de arquitetos da Mariápolis permanente dos Focolares.
Além da reflexão continuamente partilhada no próprio grupo, a equipe trabalha em sinergia cultural com arquitetos do mundo inteiro. Em dezembro de 2013, participou de um congresso internacional organizado em Barcelona pela Ordem dos Arquitetos da Catalunha (Espanha), sobre o tema do patrimônio sagrado. A equipe participou em representação não só do Centro de Loppiano, mas do vasto grupo “Diálogos em arquitetura”, a rede internacional dos Focolares composta por estudiosos e profissionais da área da arquitetura.
Precisamente neste encontro na Espanha foi solicitado a três integrantes do grupo – Mario Tancredi e Iole Parisi, da Itália, e Tobias Klodwig, da Alemanha – para apresentarem o tema ‘Cristianismo flexível, entre a vida da comunidade e os espaços sagrados’. A abordagem despertou grande interesse dos 150 arquitetos provenientes da Espanha e de outros países da Europa.
Partindo do conceito de que formas e espaços da arquitetura mudam de acordo com a experiência de vida das comunidades cristãs, os três relatores apresentaram reflexões sobre a arquitetura que se enriquece precisamente dos elementos ‘imateriais’ que o próprio conceito de “sagrado” pode assumir nos vários contextos culturais: o forte valor social que se percebe na América Latina, a profecia do sinal ancestral de realizações na terra africana; a valência das expressões simbólicas contidas nas catedrais europeias e nas igrejas de metrópoles globalizadas. Para exprimir tudo isso recorreram a alguns exemplos concretos: a igreja Maria Théotokos, de Loppiano, como expressão de um carisma contemporâneo; a igreja de S. Claire em Fontem, na África, que comunica os valores da cultura local; alguns projetos de transformação de igrejas em desuso na Alemanha.
Para ‘Diálogos em arquitetura’ a pesquisa cultural está em constante evolução, movida pela exigência de conjugar – precisamente porque tem a ver com o Absoluto – continuidade e inovação. Num diálogo cada vez mais fecundo tanto com a comissão que com o mundo acadêmico


