Movimento dos Focolares
Baladas e tendências. A opção de Yves.

Baladas e tendências. A opção de Yves.

«Sou africano e estou estudando no norte da Itália. Algum tempo atrás li numa revista um artigo onde o autor falava de uma “noite” que está perpassando a cultura ocidental em todos os seus âmbitos, levando a uma perda dos autênticos valores cristãos. Sinceramente eu não havia entendido muito o sentido daquele artigo, até que aconteceu um fato que me fez abrir os olhos.

Era sábado à tarde. Alguns rapazes, meus vizinhos, propuseram que eu saísse com eles, para passar uma noite juntos. Queriam fazer algo diferente. Éramos seis ou sete. Para começar fomos dançar numa balada. No início eu me diverti, diziam que eu tinha a música no sangue, que sabia dançar bem. Mas logo eu vi que alguns ao meu lado dançavam sem nenhum respeito, nem por si mesmos nem pelos outros. Não dançavam só por divertimento, mas para lançar mensagens ambíguas. Interiormente escutei uma voz sutil que me dizia para ir contracorrente e dançar com dignidade e por amor.

Depois de algumas horas os meus amigos propuseram que mudássemos de lugar. Eu confiei neles, afinal eram meus amigos, e aceitei. Entramos, e foi só o tempo de me dar conta de onde estava, com a música muito alta, luzes piscando e um odor acre que entrava com força no nariz, e fiquei bem chateado. Aquela não era uma balada normal, lá havia meninas que se prostituíam. Desiludido e com raiva, sem dizer uma palavra dei meia volta e saí. Um dos meus amigos veio atrás de mim, insultou-me chamando-me de retardado. Não respondi. Passaram poucos minutos e saiu outro, dessa vez não para me insultar, mas para me dar razão. Fiquei surpreso, o meu “contracorrente” havia envolvido outros. Sem ter falado nem dos ideais cristãos, nos quais acredito, nem de Deus, eles haviam visto e entendido.

Passaram alguns meses e há tempos já não pensava naquele episódio. Um dia, um rapaz que tinha estado conosco naquela noite procurou-me, disse-me que estava arrependido e que não queria mais frequentar aquele tipo de ambiente. Esta experiência ajudou-me a entender mais radicalmente a necessidade de arriscar e dizer “não” a certas propostas».

A história de Yves, da República dos Camarões, que apresentamos, é uma das 94 que compõem o volume “Uma boa notícia, gente que crê, gente que age”, lançado recentemente na Itália pela Editora Città Nuova, como uma contribuição propositiva à Nova Evangelização. O prefácio é de Maria Voce. As histórias têm como protagonistas jovens, adolescentes, famílias, profissionais, operários, administradores, religiosas, sacerdotes, que enfrentam as situações do cotidiano e os desafios da sociedade com o Evangelho. Um povo que acredita, vive, age, envolve, no respeito pelas convicções e experiências dos outros, consciente que cada pessoa pode dar uma contribuição à grande família humana.

E você, tem uma boa notícia para nos contar?

Baladas e tendências. A opção de Yves.

Irlanda: a vida da espiritualidade de comunhão nos nossos tempos

“A experiência forte vivida neste Congresso Eucarístico é uma graça extraordinária, que pode levar a Igreja na Irlanda a uma nova história, e nisso todos somos protagonistas”, foram as palavras finais de Maria Voce no encontro aberto do dia 16 de junho, na Royal Dublin Society, em Dublin. Um pouco antes, ela e Giancarlo Faletti se tinham reunido com os adolescentes que estavam concluindo, no Congresso Eucarístico, a corrida Run4Unity, realizada especialmente nas escolas. “Qual é o sinal matemático que vocês preferem?” – perguntaram os adolescentes – “O ‘igual’”, respondeu Maria Voce, “porque numa família todos são iguais, irmãs e irmãos”. E Giancarlo Faletti preferiu o sinal “mais”: “Cada pessoa é um dom de Deus; Deus tem um projeto para cada um de vocês, e isto é algo muito precioso”.

A programação da tarde reuniu 300 pessoas – capacidade máxima do auditório, outros acompanharam do lado de fora – das quais a metade ainda não conhecia o Movimento. Foram apresentadas aplicações concretas da espiritualidade de comunhão vivida no campo da família, da educação, da Igreja. Tudo intercalado com números musicais. Após cada tema, um momento de diálogo com Maria Voce e Giancarlo Faletti, sobre como colocar em prática o Evangelho e responder aos muitos desafios.

“Quando crescermos será mais fácil ou mais difícil amar o inimigo?”, perguntou uma menina. “Acho que será mais fácil – respondeu Maria Voce – porque Deus colocou uma pequena chama no nosso coração, e ela torna-se maior cada vez que amamos. É uma grande ajuda para as pessoas adultas ver uma criança que ama”.

Quando a palavra passou às famílias tocou-se no assunto da crise econômica. “Como fazer para viver como cristãos diante das dificuldades econômicas que tantos enfrentam?”. Maria Voce relembrou a experiência de Chiara Lubich no início dos Focolares, em Trento, na situação de miséria do pós-guerra. Colocando em ação a força do amor entre as pessoas chegava-se a partilhar também os próprios bens ou as próprias necessidades. Vivendo a frase do Evangelho “pedi e recebereis”, pediam e recebiam. O problema de um era o problema de todos. Com o amor vinha a intervenção de Deus. “E isso faz com que o trabalho e o bem-estar material não se tornem um mito, mas um meio para amar mais e para fazer com que cresça a comunhão entre todos”.

Na última parte falou-se sobre a Igreja e a relação com a autoridade. À pergunta sobre como viver a unidade com a hierarquia eclesiástica, inclusive diante dos escândalos dos abusos e das acusações de acobertamento, foi Giancarlo Faletti que respondeu. Ele recordou que é a autoridade de Jesus que deve crescer em cada cristão. “Foi importante, neste período, conhecer muitas pessoas marcadas por esta difícil situação na Igreja. Encontrei pessoas que sentiam-se furtadas da sacralidade, que haviam investido toda a própria vida em uma experiência na Igreja e que agora sentem-se traídas. É como investir todo o capital num banco e depois o banco falir”. “Para mim este é um apelo a viver o Evangelho de maneira mais forte – continuou -, e isso abre-nos ao diálogo, a um clima de amor, que consente também quem possui o ministério episcopal de serviço à Igreja expressar-se, e guiar o seu caminho. A autoridade moral de Jesus, vivida na Sua palavra, pertence a todos”. E Faletti deu o exemplo de Santa Catarina, que viveu em tempos difíceis na Igreja. Ela teve uma relação direta com o Papa, levando-o inclusive a tomar decisões importantes, mas pode fazer isso somente porque “deixou espaço para Deus em sua vida”.

Da enviada Maria Chiara De Lorenzo

Baladas e tendências. A opção de Yves.

Paraguai: “Todo Brillo”

«Em 1993 – conta Maria Elena González, do Paraguai – quando escutei pela primeira vez Chiara Lubich falar sobre a Economia de Comunhão, fiquei  muito surpresa com o fato que ela convidava a dividir os lucros em três partes: para os mais necessitados, para o desenvolvimento da empresa e para a formação dos jovens aos valores do projeto, que baseia-se na “cultura da partilha”, em contraposição à do “possuir” somente. Para mim foi como um maremoto, que mudou a minha vida.

Naquele tempo eu trabalhava num banco, onde os lucros, como sabe-se, terminam nas mãos dos acionistas. Pensei nas minhas qualidades como empresária, das quais um dia eu deveria prestar contas a Deus e aos irmãos. Decidi então participar do projeto, como um modo pessoal de dizer “sim” a Deus, colocando à disposição as minhas capacidades em favor de quem está ao meu lado.

Falei sobre isso com meus filhos, ainda adolescentes, e eles me encorajaram a ir adiante. Não tinha ideia de por onde começar, mas a resposta não tardou a chegar. Eu via ao meu redor os funcionários da limpeza, mal pagos, não valorizados, pouco instruídos… decidi abrir uma empresa de limpeza, com alguns deles, e logo encontramos o primeiro cliente, com quem trabalhamos até hoje. No início o nosso orçamento não era bem distribuído, e não bastava para pagar todos os funcionários. Lembro que para ser fiel aos contratos assinados, quando terminava o trabalho no banco eu vestia o avental e ia concluir as limpezas. Embora esse fosse um grande esforço interiormente eu tinha a certeza de estar no caminho certo.

A EdC coloca a pessoa no centro, segundo o princípio que leva a fazer ao outro o que se gostaria fosse feito a si mesmo, procurando – como diria Chiara Lubich – que o amor supere a criatividade pessoal e a própria produção. Certo, não é algo mágico, exige esforço cotidiano, uma busca constante de qualidade sob todos os aspectos: administrativo, operativo, relacional, na escolha de funcionários dispostos a aderir a esta visão solidária da economia, etc.

Durante todos estes anos, apesar das inúmeras dificuldades ligadas à situação social e econômica do nosso país e de toda a região, cada trabalhador colocou o seu grão de areia, e assim conseguimos superar os momentos de crise. Foi especialmente durante as “tempestades” que sentimo-nos sustentados por Deus, o nosso “sócio escondido” – como gostamos de chamá-lo – “o acionista majoritário da empresa”, que passo a passo indicou-nos o caminho, através daquela voz interior que é sempre clara e forte, para quem quer escutá-la.

Agradeço muito a possibilidade que tive de trabalhar. Também minha filha começou na Todo Brillo, e agora foi contratada pelo banco”, conta Benita, que trabalha há 12 anos na empresa. “Aqui sinto-me importante. Tive muitas dificuldades e sempre encontrei o sustento da empresa e muita compreensão. Continuo a ter problemas, mas agora consigo lidar com eles. Sinto que cresci, vejo e valorizo o fruto do meu trabalho. Eu me sinto parte dessa grande família que é a Todo Brillo”, conclui Maria Lopez.

Atualmente a empresa”Todo Brillo” tem 600 funcionários e estamos presentes em todas as principais cidades do Paraguai».

Baladas e tendências. A opção de Yves.

Ecumenismo, uma nova fase: histórias da Irlanda

Kevin McKeague e David McConkey

Kevin McKeague e David McConkey são dois diretores de escola que há anos trabalham juntos em diversos projetos. Até aqui tudo certo. Mas o interessante é que o prof. McKeague dirige uma escola católica e o prof. McConkey uma escola protestante; e se eles moram em Belfast, na Irlanda do Norte, as coisas não são tão normais assim. As duas comunidades estiveram separadas durante anos, em áreas diferentes da cidade, e nos anos dos conflitos viveram no terror. “Escutei Chiara Lubich dizer que entre os princípios da Revolução Francesa o menos desenvolvido é a fraternidade. Vi que o meu encontro com David era uma oportunidade para construir pontes e dar uma injeção de amor nas nossas comunidades” – declara o diretor McKeague. E os fatos o demonstram. Em 2009, num período em que vivia-se um momento de paz, graças a acordos políticos, inesperadamente a escola protestante foi atacada. Nenhum ferido, mas grandes danos. Os primeiros a reagir foram justamente os alunos da escola católica que organizaram o show “Todos por todos”, com a ajuda dos jovens do Movimento dos Focolares, e depois uma manifestação pacífica em Stormont, a sede do Parlamento da Irlanda do Norte, e o encontro de uma delegação mista com a Comissão Parlamentar para a Educação. “Depois deste testemunho de unidade – conta o diretor McConkey – o Ministério da Educação, que por motivos econômicos não queria financiar a reconstrução da escola, decidiu restaurá-la imediatamente. Foi a única escola da Irlanda que recebeu recursos naquele ano”.

Rev Brendan Leahy

A plateia que os escutou estava reunida para um workshop sobre ecumenismo, no dia dedicado a este tema durante o Congresso Eucarístico Internacional que está se realizando em Dublin, de 10 a 17 de junho de 2012. Mas de qual ecumenismo se trata? Foi o que explicou Brendan Leahy, professor de teologia sistemática na Faculdade St. Patrick de Dublin, e membro do Irish Inter-church Meeting, ao introduzir os trabalhos. “Existem muitas maneiras para entrar no espaço do ecumenismo”, afirmou, recordando a etimologia grega do termo oikumene, que tem na raiz a palavra “casa” (oikos). “O Ecumenismo é construir juntos uma ‘casa’ na única Igreja de Cristo”. Diálogo ecumênico como vida, portanto, e antes de tudo. Partindo dos tesouros que os cristãos têm em comum: as Escrituras, o Credo, os escritos dos Padres da Igreja, os dons do Espírito, o testemunho do Evangelho vivido. Um ecumenismo que baseia-se principalmente na consideração do outro como “parte de mim”, como escreveu João Paulo II em 2001, e em deixar que Cristo viva entre aqueles que estão reunidos em seu nome (Mt 18,20).

E a tarde foi constelada por exemplos de vida ecumênica. Além do depoimento tocante dos dois professores irlandeses, tomou a palavra a reverenda Bronwen Carling, ministra da Igreja da Inglaterra. Atualmente ela mora em Tipperary, na Irlanda, e anima um grupo de pessoas de diversas denominações cristãs que reúne-se periodicamente para um aprofundamento e um intercâmbio sobre a Sagrada Escritura, aquilo que  no Movimento dos Focolares chama-se o grupo da “Palavra de Vida”. “Procurando viver juntos o Evangelho de Cristo descobrimos que não somos assim tão diferentes. Descobrimos a importância da escuta recíproca. Foi isso que me permitiu estar participando, hoje, de um evento tão católico”.

A partilha entre indivíduos torna-se depois partilha entre grupos. Alguns porta-vozes de várias Igrejas, de Movimentos e Comunidades que atuam em Belfast, contaram a própria experiência no projeto “Juntos pela Europa”. Eram da Comunidade Corrymeela, de Sword of the Spirit, da comunidade “A Arca” e do Movimento dos Focolares. “Sentimos que essa iniciativa, que reúne mais de 250 movimentos e comunidades cristãs da Europa pelo futuro do continente, era feita especialmente para a Irlanda do Norte”. E assim, já em 2007, aconteceu o primeiro encontro na Igreja da Irlanda, com 120 participantes de sete diferentes Igrejas. Uma luz de esperança que se acendia em Belfast. A partir dali o caminho continuou, até chegar ao dia 12 de maio passado, quando justamente em Stormont reuniram-se mais de 400 adolescentes, provenientes de escolas da República da Irlanda e da Irlanda do Norte, para participar da corrida mundial “Run4Unity”, como sinal de esperança e de paz.

Para chegar a esse evento as quatro comunidades trabalharam juntas, envolvendo as escolas, aprofundando o conhecimento recíproco, inclusive com alguns finais de semanas passados no lindo cenário de Corrymeela, uma comunidade que tem por objetivo justamente o ecumenismo, a paz e a reconciliação. “A partilha entre nós tornou-se cada vez mais profunda, com um forte senso de comunhão. Ao ponto que as nossas reuniões pareciam-me um eco da última ceia, a Ceia do Senhor, a Santa Comunhão”, contou o reverendo David Godfrey, acompanhado pela esposa, Heather. Também Thomas Kerr, da comunidade “A Arca” – onde vivem juntas pessoas diversamente hábeis – salientou um momento especial vivido durante esses fins de semana: o gesto de lavar os pés uns dos outros. Tudo isso, juntamente com o pacto conclusivo, de “amar-se reciprocamente como Jesus nos amou”, marcou o caminho percorrido até lá, pelos vários movimentos.

E continua. Após esta tarde no Congresso Eucarístico “torna-se mais clara a consciência de que o ecumenismo não é para os especialistas, mas podemos vivê-lo, no diálogo da vida, lá onde estamos”. As palavras de Renate Komorek – do Movimento dos Focolares, mediadora do workshop – retomam o que tinha sido vivido poucas horas antes na Arena do RDS, quando haviam falado o Prior de Taizé, Frei Alois, e a presidente dos Focolares, Maria Voce, sobre “Comunhão num só batismo”. “Não bastam as conclusões e tomadas de posição, até avançadas, entre os teólogos, se depois o povo não está preparado”, afirmou Maria Voce, até ousar dizer: “Unidos por esta espiritualidade queremos ser fermento entre todas as Igrejas e contribuir a acelerar o caminho delas rumo à plena comunhão, também visível, também eucarística”.

Da enviada Maria Chiara De Lorenzo

Baladas e tendências. A opção de Yves.

Clara de Assis e Chiara Lubich, dois carismas em comunhão

09Num dia cheio de sol, 9 de junho de 2012, realizou-se o Congresso “Clara de Assis e Chiara Lubich: dois carismas em comunhão”, evento que veio enriquecer o Ano Clariano, no qual deseja-se rememorar a conversão e a consagração a Deus de Clara de Assis, no seu VIII centenário. E atestar a atualidade do seu fascínio. Por isso o desejo de aprofundar a relação, ou melhor, a comunhão entre o carisma de Clara de Assis e de Chiara Lubich.

Suscitou grande interesse a mesa-redonda introduzida pelas palavras do prefeito Claudio Ricci e do bispo de Assis, D. Domenico Sorrentino. O professor P. Pietro Maranesi, OFM Cap., fez uma calorosa reflexão sobre “Francisco e Clara: um carisma, dois semblantes”. A dimensão profética e revolucionária que, por si só, contesta os costumes de uma época. A novidade perturbadora de aspectos como a “misericórdia” e a “partilha”, que emergem da “conversão” de Francisco. A “viagem” espiritual de Clara, que descobre a sua identidade no “semblante” de Francisco: “…sem aquele rosto eu não teria um rosto. Encontrei Deus através dele”. A deles foi uma abertura profética que, na sociedade medieval, levou a descobrir o “outro” como caminho para chegar a Deus.

Outros tempos, mas a mesma operação foi realizada por Chiara Lubich. Foi o que demonstrou a professora, Ir. Alessandra Smerilli, F.M.A., com “O reflexo dos carismas na história e na sociedade”. A realidade de um carisma não é somente “graça”, “gratuidade”, mas “naqueles que vivem no desconforto, são olhos que veem algo de belo e grande”. Daqui o fato de os carismas tornarem-se “desbravadores na fronteira do humano, que impelem suas enxadas cada vez mais adiante” na busca e no compromisso. E são ainda caminhos para a emersão do feminino.

Foi assim para as duas Claras: a de Assis conseguiu que fosse aprovada na sua regra a inédita “altíssima pobreza”; a de Trento inseriu na Igreja a grande novidade que um movimento eclesial, que contempla todas as vocações, seja sempre presidido por uma mulher. Com realizações leigas, intensamente civis (como a Economia de Comunhão), que dizem quanto os carismas, ontem como hoje, contribuem para uma sociedade mais humana e mais bela.

A beleza, a estética, está, de fato, implícita na ação de um carisma. “Clara de Assis e Chiara Lubich: a comunhão entre dois carismas como fonte de luz” foi o tema da  Lucia Abignente, do Movimento dos Focolares, que salientou a sintonia e a comunhão entre as duas Claras, como fonte de luz, de fidelidade renovada e de unidade, para recolher a herança que deixaram e viver, nos nossos dias, a mensagem delas.

“Santa unidade e altíssima pobreza” o carisma da primeira; “unidade, cuja chave é o amor exclusivo a Jesus abandonado”, o da segunda. Uma sintonia e comunhão que atravessa os séculos e leva Chiara Lubich – num período especial de luz – a descrever a Igreja como um “Cristo estendido” no tempo e no espaço, onde a variedade dos carismas corresponde à totalidade do Evangelho. Como um jardim com muitas flores diferentes.

“Claritas”, “clarificar”, palavras que, na linguagem cunhada por Chiara Lubich, convidam a injetar a luz das realidades espirituais nas realidades temporais. Como segundo ato do evento foi dedicado a Chiara Lubich um largo, adjacente à Basílica Superior de São Francisco. Ao dar a sua benção ao “Largo Chiara Lubich”, D. Sorrentino fez votos que “seja um chamado a todos a considerar cada rua como um lugar de encontro e diálogo com todos”. E o prefeito Ricci declarou ver nele “as pedras de Assis, berço do carisma franciscano, recobertas hoje por um carisma a mais, com o estilo de ‘ser família’ que tem reflexos na esfera econômica e social”.

O dia concluiu-se no teatro Metastasio, com o musical “Clara de Deus”, de Carlo Tedeschi. Uma vibrante viagem de danças, ritmo e música na vida de Clara de Assis, executado com convicção por uma companhia de jovens que assumiram o testemunho da sua mensagem.

De Victoria Gómez

Baladas e tendências. A opção de Yves.

Diálogo ecumênico, efeito da Palavra vivida

Participantes do 50° Congresso Eucarístico Internacional (C) CSC Audiovisivi

São muitas as expectativas para estes dias na Irlanda, mas talvez não se esperava que o primeiro dia do Congresso tivesse um timbre nitidamente ecumênico. E foi o que aconteceu: esta é uma das características mais interessantes desse 50º Congresso Eucarístico Internacional (Dublin – 10-17 de junho), promovido pela Igreja Católica, mas que – justamente pelo seu tema principal, a comunhão – apresenta uma abertura ao diálogo vital entre batizados.

Nos dias precedentes, durante o Simpósio Teológico (Maynooth, 6-9 de junho), pela primeira vez o diálogo ecumênico teve lugar num contexto como esse. Falaram expoentes de várias igrejas, entre os quais o Metropolita Emmanuel (Adamakis) da França, presidente da Conferência Europeia das Igrejas, e o cardeal Koch, presidente do Conselho Pontifício para a promoção da unidade dos cristãos, que deteve-se justamente sobre a visão ecumênica da relação entre Eucaristia e comunhão eclesial.

E foi nesse contexto que se inseriu o discurso de Maria Voce. Ela foi precedida pelo prior de Taizé, Frei Alois, que ao recordar a história de Frei Roger Schutz – fundador da Comunidade – salientou como “a paixão que preenchia os corações deles” era exatamente o apelo a trabalhar incessantemente pela “unidade do Corpo de Cristo”. Após Maria Voce o reverendo Jackson, arcebispo anglicano de Dublin, realizou a liturgia da Palavra e da água, para recordar o batismo comum.

As palavras de Maria Voce, sobre o tema “Comunhão num só batismo” foram de testemunho, a partir da própria experiência de Evangelho, iniciada quando, ainda uma jovem estudante da faculdade de direito, ficou fascinada por outros jovens que tinham encontrado um caminho para a plena realização na vivência das Palavras de Jesus. Foi a experiência iniciada por Chiara Lubich em 1943 e que envolveu milhões de pessoas no mundo inteiro, que redescobriram o fascínio daquelas palavras. Maria Voce citou Lutero: “Devemos estar certos que a alma pode deixar tudo de lado, menos a Palavra de Deus”. Palavra que, transformada em vida, dá testemunho.

É a experiência direta da presidente do Movimento dos Focolares, que viveu 10 anos na Turquia, um país onde, não obstante os sinais externos fossem ausentes, ela pode “experimentar a beleza da família que Jesus veio compor sobre a terra”. Nos 70 anos de vida do Movimento foi comprovado, além disso, que esta espiritualidade tipicamente comunitária e ecumênica liga quem a vive, de modo que todos sentem-se um só povo cristão. É o diálogo da vida: “Não bastam as conclusões e as tomadas de posição, até avançadas, entre os teólogos, se depois o povo não está preparado” – afirmou ainda Maria Voce, até ousar afirmar: “Unidos por essa espiritualidade queremos ser este fermento entre todas as Igrejas e contribuir a acelerar o caminho delas rumo à plena comunhão também visível, também eucarística”.

Também o cardeal Ouellet – enviado por Bento XVI como seu representante – afirmou nestes dias que o futuro da missão da Igreja passa pelo seu testemunho de unidade e o seu diálogo com toda a humanidade. E D. Diarmuid Martin, arcebispo de Dublin e presidente do Congresso, dirigiu um pensamento aos jovens irlandeses, acrescentando que “a Igreja na Irlanda está no caminho da renovação”.

O dia ecumênico, 11 de junho, prosseguiu com uma série de workshops, entre estes “O diálogo da vida numa nova fase do ecumenismo”. Foi conduzido por Renate Komorek, do Movimento dos Focolares, com vários convidados: Rev. Bronwen Carling, anglicana; dois diretores de escola da Irlanda do Norte, uma escola protestante e uma católica, que já fizeram um longo percurso juntos; membros das comunidades “A Arca”, “Corrymeela” e da comunidade carismática.

Girar entre os estandes da Royal Dublin Society, entre os 20 mil participantes presentes nesse dia, trazia de volta ao pensamento a “ideia forte” que nos mantém juntos – para usar ainda as palavras de Maria Voce: O amor recíproco vivido, que permite a presença de Jesus entre muitos cristãos unidos em Seu nome. Jesus entre um católico e um anglicano, entre uma armena e uma reformada… Assim a Igreja ultrapassa, de certo modo, os confins dos edifícios de culto e, na plena comunhão entre todos, faz-se mais próxima da humanidade de hoje, para responder a todas as suas exigências e questionamentos com aquelas respostas que só o Evangelho pode oferecer

Maria Chiara De Lorenzo