28 Mai 2003 | Focolare Worldwide
“Deu a vida pelo seu irmão”. Foi assim que os jornais intitularam o trágico episódio da morte de Pe. Nelson. Ele era pároco, diretor espiritual do seminário e capelão do hospital de Armênia, na Colômbia. Uma sobrinha, que trabalhava como sua secretária nos conta: “Morreu vivendo a Palavra do Evangelho: dar a vida pelos irmãos. Ele sempre nos dizia que devíamos viver uns pelos outros, não para nós mesmos”. Os ladrões entraram na casa paroquial e prenderam Pe. Nelson no banheiro para não serem incomodados. O irmão dele, casado, com filhos, morava a menos de 200 metros da casa paroquial. Alguém o avisou que estava acontecendo alguma coisa estranha na paróquia, e ele procurou entrar escondido por uma porta secundária: logo se deparou com uma pistola apontada. Pe. Nelson, escutando o seu irmão, se aproveita da confusão, força a porta do banheiro e se coloca no meio deles e do irmão e diz aos ladrões: “Não façam mal a ele”. Os ladrões dispararam diretamente no seu tórax. Era a manhã do dia 22 de março. No dia seguinte, apesar de uma violenta tempestade tropical, a catedral estava repleta de pessoas que choravam a perda de Pe. Nelson, por todo o amor que receberam dele. Um amor, fruto de uma maturidade profunda e de uma constante força de vontade, provada desde os primeiros anos de vida. Vamos percorrer os grandes momentos da sua história, através das próprias lembranças de Pe. Nelson, que foram recolhidas há alguns anos atrás, de uma entrevista concedida à revista ‘Cittá Nuova’, durante uma sua permanência na Itália para estudar pastoral da saúde: «Na nossa família, éramos em sete e sobrevivíamos com o trabalho de meu pai, um camponês. Éramos muito pobres, mas nos confiávamos a Deus e o pouco que tínhamos, ficávamos contentes por partilhar com aqueles que necessitavam mais do que nós. Eu me lembro sempre de uma macieira do nosso quintal, cujos frutos eram muito saborosos, porém, estávamos proibidos de comê-los, porque eles eram reservados, exclusivamente, para os doentes da paróquia». Para Nelson, a pobreza vivida de forma tão evangélica, se transformou numa escola de verdadeira humanidade. Mais difícil, entretanto, era o seu relacionamento com a doença, com a qual teve que, precocemente, se familiarizar: «Eu tinha seis anos quando, devido a um vírus que ataca o sistema nervoso central, fiquei paralisado nas articulações durante vários meses. É uma doença que arma sempre ciladas, que nos constringe a estar numa cura contínua. Com o passar dos anos, se acrescentaram outras doenças e fiz quatro cirurgias nos olhos. Sei bastante então de remédios, terapias, internações em hospitais. Mas naquela época, sendo muito jovem, não entendia muito o sentido desse sofrimento que me impedia de viver como os outras da minha idade e isto me deixava muito assustado». Noivo e com a perspectiva de formar uma família sentiu, ao invés, o chamado a uma doação mais universal. Entende que, talvez, a sua estrada seja uma outra. Assim, aos 21 anos, decide tornar-se sacerdote. Nos primeiros anos de seminário, em Manizales, a sua saúde parecia não lhe causar muitos problemas. Entretanto, quando terminou os estudos de filosofia, e no início do ano de experiência pastoral, um novo ataque de sua antiga doença o leva ao hospital, paralisado: «Mesmo se os médicos me asseguravam que eu melhoraria e que poderia levar uma vida normal, entrei numa grande crise: via todo o meu futuro comprometido». Justamente nesse momento difícil, graças a um amigo sacerdote que vive a espiritualidade do Movimento dos Focolares, aprofunda um aspecto da paixão de Cristo: o seu abandono na cruz. Identificando-se com Ele, reconhecendo-O em cada dor pessoal e alheia, por amor, experimenta na sua própria vida um verdadeiro renascimento interior: «Cada sofrimento físico ou moral, tomou um novo sentido para mim: nasce disto uma força interior insólita, uma sensação de paz e até de alegria. Tinha descoberto o tesouro mais precioso e, mesmo se não tivesse me tornado sacerdote, não me faltaria nada para me realizar como cristão». De 1983 a 1993, se doou sem reservas na diocese: vice-pároco de uma grande paróquia de 10 mil pessoas, capelão do hospital, diretor espiritual do seminário maior de Armênia, a cuja fundação contribuiu. Uma etapa fundamental foi quando, após muita hesitação, Pe. Nelson decidiu concretizar um antigo projeto: freqüentar, no Camillianum de Roma, um curso de pastoral da saúde. Foi uma escolha ‘preparada’ pela experiência vivida até então, na sua própria pele e, além do mais, se associava a uma pergunta fundamental para ele: como viver a doença de forma ‘sã’, do ponto de vista espiritual, e assim também a morte como passagem dessa vida a uma outra? «Não tínhamos muitos sacerdotes especialistas nesse campo e, somente o desejo de poder servir melhor os meus irmãos doentes, me convenceu a enfrentar, nas minhas condições, durante dois anos, as incógnitas de uma permanência além do oceano». Em agosto de 1993, um pouco mais recuperado, Pe. Nelson inicia os seus estudos romanos. Mas não é tudo ainda: vivendo juntamente com um sacerdote argentino e um holandês, tem a oportunidade de aprofundar, também na prática, a espiritualidade da unidade que já o tinha atraído na Colômbia. É uma experiência que o refina, habilitando-o para um apostolado especial: aquele entre os doentes de Aids. Não é fácil trabalhar com eles: são pessoas com uma sensibilidade exasperada, que vivem o próprio drama na mais plena consciência do que os espera, o que não se pode dissimular. Conheceu muitos deles nesse período, e com cada um, uma palavra, um silêncio, a partilha profunda da dor, a ajuda para a reconciliação com Deus. Voltando para a Colômbia, Pe. Nelson, por desejo de seu bispo, foi trabalhar na pastoral da saúde a nível diocesano, mas a sua doação contínua não parou aí. O dar a vida não se improvisa e, como em muitos anos de experiências com pessoas de todos os tipos, Pe. Nelson despediu-se com um último ato de amor heróico.
27 Out 2002 | Focolare Worldwide
“O espírito que anima o Movimento é, de uma certa maneira, o mesmo espírito que anima o nosso Conselho, criado com a intenção de formar uma fraternidade de Igrejas”: assim, o Secretário-geral do Conselho Ecumênico das Igrejas, o pastor luterano Konrad Raiser, motivou o convite à fundadora do Movimento dos Focolares, para participar da Plenária dos membros do Conselho. E acrescentou: “É o compromisso de Chiara Lubich e dos seus amigos em traduzir a espiritualidade da unidade em novas formas de convivência que nos aproxima, especialmente num momento no qual o Conselho Ecumênico busca uma nova expressão”. O encontro realizou-se no auditório da moderna construção que, em Genebra, acolhe este que é o maior organismo ecumênico mundial. Abraça 342 Igrejas, de 157 países. Conta mais de 50 anos de vida. Foi pedido a Chiara Lubich que falasse do coração do seu carisma, da “chave” que abre para a unidade: Jesus crucificado e abandonado. As suas palavras levaram todos a penetrar no mistério do amor de um Deus que chega a gritar o abandono do Pai, para nos unir a Ele e entre nós. Um Deus que assume todas as faces da dor, dos traumas, das divisões, para dar novamente “ao cego, a luz; ao desesperado, a esperança; ao fracassado, a vitória; ao separado, a unidade”. Chiara mostrou que em “Jesus abandonado existe também ’a luz para recompor a plena comunhão visível da única Igreja de Cristo’.” “Podemos vê-lo – disse – como ‘o crucifixo ecumênico’. ” “Eu senti, no suo discurso – disse, logo depois, o pastor Raiser – o eco de uma intuição que estava na base da busca da unidade, e que foi fixada como programa desde 1925: ‘quanto mais nos aproximamos da cruz de Cristo, mais nos aproximamos uns dos outros. É na cruz que podemos estender os nossos braços uns para os outros.” Numa entrevista, o bispo da Basiléia, Kurt Koch, vice-presidente da conferência episcopal suiça, dá uma interpretação positiva à crise do movimento ecumênico: “Pode-se falar de crises, no sentido que é hora de encontrar novos caminhos. Somente se reconhecermos Jesus abandonado neste corpo dilacerado de Cristo, e nos lançarmos neste sofrimento, poderemos encontrar novos caminhos para chegar à unidade”. da Rádio Vaticana
27 Out 2002 | Focolare Worldwide
Chiara Lubich, fundadora e presidente do Movimento dos Focolares, que promove uma renovação espiritual e social, fez uma visita ao Conselho Ecumênico de Igrejas, no dia 28 de outubro, para uma celebração ecumênica e um diálogo sobre a “espiritualidade da unidade” que abrange todos os campos da vida e da sociedade. Após um intercâmbio enriquecedor, Chiara Lubich e o Rev. Dr. Konrad Raiser, secretário-geral do CEI, formularam juntos uma mensagem na qual dão ênfase a uma «esperança renovada num mesmo caminho ecumênico». Texto integral da mensagem conjunta de 28 de outobro de 2002 É com um sentimento de profonda gratidão que lhes escrevemos, já que, considerando a missão do Conselho Ecumênico de Igrejas, isto é, trabalhar a favor da unidade cristã, hoje, aqui no CEI em Genebra, floresceu nos nossos corações uma nova confiança. Foram realizados encontros e diálogos que nos fizeram olhar para o futuro mais serenamente e que nos abrem novas perspectivas. A conferência no Instituto Ecumênico de Bossey, o culto na catedral protestante de Saint-Pierre, em Genebra, e o encontro de hoje, constituem um evento importante durante o qual, os participantes – bispos de várias Igrejas reunidos neste dias para um congresso ecumênico, nos arredores de Genebra, representantes do Movimento dos Focolares e a equipe do Conselho Ecumênico de Igrejas – partilharam orações, e num intercâmbio de pensamentos e experiências, inspiraram à nós e às nossas Igrejas a corresponder mais profundamente ao chamado e ao objetivo que temos em comum. Estávamos conscientes de que as Igrejas membros do CEI, há décadas se dedicam a uma contínua busca da unidade, com esforços incansáveis,e são notórias as conquistas alcançadas. Ao mesmo tempo, conhecíamos as dificuldades que surgiram neste último período, no qual se fala de “estática”, de inverno do ecumenismo. E então, com tudo isso no coração, durante este dia, nos parece que com a ajuda de Deus, renovamos a esperança num mesmo caminho ecumênico, através de uma espiritualidade a ser vivida, que poderia ser chamada «espiritualidade da unidade», que é caminho para a conversão do coração. Se as Igrejas se reúnem para tornar visível a unidade sinceramente buscada, conviria mudar a atitude para com Deus e entre elas. Essas Igrejas são chamadas à metanóia e a kénosis, nas quais encontramos o modo de praticar a mais genuína penitência e viver a mais autêntica humildade. O importante, certamente, é não subestimar a oração. Se abandonarmos falsas seguranças, se encontrarmos em Deus a nossa verdadeira e única identidade, se tivermos a coragem de ser abertos e vulneráveis reciprocamente, então começaremos a viver como peregrinos em viagem. Descobriremos o Deus das surpresas, que nos guiará por caminhos antes nunca percorridos, e descobriremos um ao outro como verdadeiros companheiros de viagem. Esta espiritualidade exige que nos despojemos de nós mesmos, como Cristo (cfr. Fil 2,6). Conduz à conversão individual do coração de cristãos, que assim se encontram lado a lado e aprendem das experiências espirituais, da teologia, e das tradições dos outros, que também desejam ser fiéis a Cristo. Será Ele a nos ajudar a amar a Igreja do outro como a própria, premissa necessária para a unidade visível. Tal espiritualidade deve penetrar nas nossas Igrejas, enquanto procuram testemunhar aquela unidade pela qual rezou o Senhor: “que todos sejam um”. Isto é possível graças ao Espírito Santo que – porque batizados em Jesus morto e ressuscitado, – nos torna capazes de viver fora de nós mesmos, penetrando na experiência do outro. Com estes pensamentos, com esta esperança e com estas diposições, nos dias passados, pudemos experimentar, nós – leigos, pastores, sacerdotes, bispos, responsáveis das Igrejas – o que significa ser já, de alguma maneira, pela presença do Ressuscitado entre nós, («Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles» – Mt 18,20), um único povo cristão. Vivemos um novo diálogo, o da vida, diálogo do povo que precisa promover bem mais. Diálogo que complementa o diálogo teológico e a outras formas de diálogo tradicional entre as Igrejas; as beneficia e as acelera rumo à plena realização do Testamento de Jesus: «Que todos sejam um para que o mundo creia» (cf Jo 17,21). Com o desejo de continuar, também com todos vocês, este caminho, asseguramos e pedimos a oração de todos Àquele que tudo pode. Konrad Raiser Secretário-geral do Conselho Ecumênico de Igrejas Chiara Lubich Presidente e Fundadora do Movimento dos Focolares Outras informações sobre a visita de Chiara Lubich ao CEI