Movimento dos Focolares
Congo: um rap pela paz

Congo: um rap pela paz

«Imaginem duas mil crianças cantando, em ritmo de rap, “Paz! Paz”, e gritando juntas: “a guerra é a morte, a paz é amor!”. https://vimeo.com/148790847 E imaginem ainda que isso aconteça num país há anos afligido por conflitos armados, dos quais as maiores vítimas são justamente elas, as crianças. Agora não imaginem mais – conta Martine – porque tudo isso aconteceu realmente, no dia 7 de novembro passado, em Kinshasa, na R.D.C.». “A arte de amar pela paz” foi o título da jornada que as crianças do Movimento dos Focolares de Kinshasa, com as escolas do projeto social Petit Flamme, organizaram, para dizer a todos: “não à guerra e sim à paz e ao amor”, envolvendo nesta ação os seus amigos e outras vinte escolas da cidade. No sábado de manhã, sob um céu que ameaçava chuva e que depois abriu-se com um sol quente, uma multidão de crianças invadiu o grande jardim da escola principal do projeto Petit Flamme. Cantos, poesias e teatro para gritar ao mundo inteiro que “a paz é o amor, a guerra é a morte”. Envolvidos pelo entusiasmo deles, assistiam inclusive algumas autoridades civis, diplomáticas e eclesiásticas, como os representantes das embaixadas da Itália e Alemanha, o coordenador das escolas protestantes de Kinshasa, com cerca 300 crianças, e ainda o coordenador das escolas católicas. 12 giornata PF«Explicando e jogando o Dado do Amor – continua Martine – as crianças demonstraram que “a paz começa por nós”. Os muitos dados que coloriram o palco foram, em seguida, solenemente entregues a cada escola presente, sinal de um caminho e de um compromisso pela paz que já começaram juntos. Os 22 diretores das escolas protestantes, que foram envolvidos na iniciativa, declararam-se entusiasmados e exprimiram o desejo de continuar a trabalhar conosco nesse tipo de atividade. Desde a preparação as crianças foram as verdadeiras protagonistas com a capacidade que têm de envolver a todos, nos ensaios dos cantos e dos apresentadores, ou com a coragem de anunciar e apresentar a jornada em uma transmissão televisiva. Em tudo havia alegria, entusiasmo e empenho. E também a benção de Deus não faltou, com a sua Providência! Da nossa comunhão de bens aos presentes dos pais, das embaixadas, e até um banco patrocinou o evento providenciando o palco e o sistema de som. O evento foi transmitido pela rede nacional de TV, a mesma que havia lançado a iniciativa, alguns dias antes. E em nós, crianças dos 0 aos 99 anos, que vivemos esse maravilhoso dia pela paz, o que fica no fundo do nosso coração depois de ter visto a alegria nos olhos das crianças? A esperança. Uma esperança tenaz. Porque o futuro está em boas mãos».    

Paris: novas responsabilidades para os construtores de paz

Paris: novas responsabilidades para os construtores de paz

«Diante dos dramáticos acontecimentos em Paris, ontem à noite, que se somam a outros recentes em muitas outras áreas do mundo, estamos de luto, juntamente com todos que foram atingidos em seus afetos e com aqueles que acreditam que a unidade da família humana é possível. Com consternação e na firme condenação desse tipo de atos contra a vida humana, uma pergunta surge com força: demos todos os passos e fizemos todas as ações possíveis para construir as condições necessárias para favorecer mais igualdade, mais solidariedade, mais comunhão dos bens, pelas quais a violência e as ações terroristas perdem a possibilidade de atuação? Diante de um quadro perverso, é evidente que não há uma única resposta. Mas também é evidente que não é a reação incontrolada à violência que fará retroceder aqueles que querem aniquilar as forças vivas dos povos e a sua aspiração a uma convivência em paz. A convicção de que o mundo pode caminhar em direção à unidade e superar o conflitos e a violência das armas, continua viva na alma e na vida de todos aqueles tem no coração o amor por todo o homem e pelo futuro da família humana e desejam realizá-la através de ações políticas, dos instrumentos da economia, das regras do direito. Paris_02 O Movimento dos Focolares, enquanto chora com quem chora, continua a acreditar no caminho do diálogo, do acolhimento e do respeito pelo outro, independente de quem seja e da sua proveniência, crença religiosa e etnia. Por isso, junto com aqueles que, nas suas várias responsabilidades, trabalham mesmo com um risco pessoal pela paz, os Focolares renovam o próprio compromisso em intensificar e multiplicar ações e gestos de reconciliação, espaços de diálogo e de comunhão, ocasiões de encontro e de partilha em todos os níveis e em todas as latitudes, para recolher o grito da humanidade e transformá-lo em renovada esperança».

Igreja italiana: a coragem de ser humanos

Igreja italiana: a coragem de ser humanos

O V° Encontro eclesial nacional de Florença (9-13 de novembro). Foto: Cristian Gennari/Siciliani

O encontro de Florença concluiu-se. “Em Jesus Cristo o novo humanismo”: como ler o significado profundo deste evento para a Igreja italiana? «Pode-se fazer muitas leituras, porém penso que esse seja um momento decisivo e histórico para a Igreja italiana. Antes de tudo pela forte mensagem que o Papa Francisco transmitiu aos 2000 delegados, com a presença de toda a Conferência Episcopal. O evento aconteceu no coração do pontificado, num momento em que as reformas são urgentes e concretas. Tendo como espelho a reforma que o Papa Francisco deseja, a Igreja italiana é inevitavelmente impulsionada a reformar-se. O discurso do Papa é sobretudo um chamado à conversão, em todos os níveis: conversão das pessoas, das comunidades, das estruturas…». Quais foram palavras centrais do discurso do Papa? «A figura que o Papa apresentou foi o Ecce Homo: o Cristo que se faz pobre, que não confia na eficácia dos procedimentos nem na organização, que não pretende ocupar postos de poder, mas que assume os sofrimentos da humanidade. É Jesus na sua verdadeira essência, na sua missão como enviado do Pai para a salvação de todos os homens. Esta foi a primeira coisa. Depois, o Papa convidou a Igreja italiana a ser mais evangélica, mais como o Espírito quer que seja no hoje da história. Só uma Igreja, como o Papa disse, que consegue ser humilde, desinteressada, que se reflete nas bem-aventuranças, pode assemelhar-se a este Mestre, a este Ecce Homo. Pode apresentar-se como amor para a sociedade. Por outro lado, o Papa radicaliza o humanismo cristão com base na superação dos dois riscos indicados por ele. O risco do pelagianismo, isto é, a tentação de querer fazer tudo pelas próprias forças, de confiar apenas nas nossas capacidades, nos nossos instrumentos, no poder, e também na capacidade de programar. E o risco do gnosticismo, que quer dizer o risco da desencarnação, da “não-encarnação” precisamente. Isto é, apresentar um Jesus que não se toca com as mãos, que não se alcança. Atualização do humanismo cristão significa que esse deve partir de Jesus, deve centralizar-se nele, não nas nossas forças. Deve ser encarnado, não pode permanecer nos documentos, nas proclamações e nem nas obras de arte, mesmo as mais lindas, como as que são vistas aqui em Florenças. O humanismo cristão deve ser encarnado na vida da gente».
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Foto: Ansa

Os 50% dos participantes, leigos, mostram uma força da Igreja que se deseja por em jogo. Que novidades surgiram dos trabalhos de grupo? «Uma das novidades de Florença foi a metodologia. Um dia e meio dedicado aos trabalhos de grupo possibilitou uma maior participação, onde cada um pode doar-se e doar as próprias ideias. Mas, se sobre 2000 participantes, a metade ainda é o clero, ainda não é suficiente. Porque a sociedade, a Igreja italiana não é assim. Existem mulheres, sim, mas são poucas ainda. Jovens, sim, mas poucos ainda. Esperemos ir em frente nesta linha, em direção a uma maior representatividade». Uma impressão imediata, depois de ter participado em todo o Encontro? «Uma atmosfera muito bonita, de abertura, cordialidade no sentido mais profundo, onde todos vivem misturados. Os bispos almoçam com todos: nos grupos são um a mais, o mesmo acontece com os sacerdotes. Isto por si só cria a atmosfera de família e portanto há entusiasmo, alegria, partilha, comunhão, um desejo profundo de escuta e isto dá muita esperança».

Imigração. Um sinal de Malta

Imigração. Um sinal de Malta

VallettaSummit

Cimeira de Valeta sobre migração

Nos dias 11 e 12 de novembro passado, Malta foi a sede do vértice internacional sobre a imigração, promovido pelo Conselho Europeu, no qual 28 países da União Européia reuniram-se com 35 países da África e os representantes da ONU. O objetivo, que se pode ler no site do Conselho, era o de “tratar as profundas causas da questão, esforçando-se para contribuir à criação da paz, da estabilidade e desenvolvimento econômico, da melhoria do trabalho de promoção e organização dos tramites de migração legal, reforçar a proteção dos imigrantes e daqueles que requerem asilo, em especial dos grupos vulneráveis, fazer oposição de modo mais eficaz à exploração, ao tráfico de imigrantes, e colaborar mais estreitamente para melhorar a cooperação no que diz respeito à repatriação e readmissão” Nesse ínterim, porém, foram os malteses que, posicionando-se frente à questão, começaram a trabalhar, agindo concretamente também no que diz respeito também à acolhida aos refugiados. Uma voluntária do Movimento dos Focolares, Anna Caruana Colombo, relatou à redação da revista New City que, junto a outras amigas, conseguiram envolver 30 pessoas em uma atividade na qual, inicialmente, foram informadas sobre as condições e necessidades dos imigrantes – graças à ação dos Jesuítas em favor dos refugiados – e, em um segundo momento, foram visitar os centros “abertos” de acolhida, nos quais encontram alojamento aqueles que já receberam o documento de “refugiado”. 20151113-03Em um desses centros ministraram cursos de inglês, aulas com informações práticas sobre a ilha de Malta e, também dedicaram o tempo livre para fazer companhia aos imigrantes. Em outro campo, onde estão também as famílias, elas se ocuparam das crianças e procuraram material de primeira necessidade para os mais pequeninos. Mais tarde, quando conseguimos obter a devida autorização os voluntários conseguiram entrar também nos centros “fechados”, nos conta Anna: “Os refugiados estavam em alguns quartos cheios de beliches, até mesmo 12 beliches em quartos que não comportavam esta quantidade de leitos. Nas primeiras vezes que fomos lá eles ficaram assustados, mas, depois, compreenderam que queríamos somente ser amigos deles e superaram a desconfiança. Assim, das aulas de inglês passamos também à partilha de momentos de alegria, com música e danças, a ponto que os guardas do campo admitiram que nunca os tinham visto tão felizes”. Também os jovens do Movimento dos Focolares tomaram iniciativas neste campo, convidando os imigrantes a participar das atividades para os adolescentes como, por exemplo, Run4Unity, durante a Mariápolis – um encontro de vários dias, promovido pelos Focolares – para os seus amigos e simpatizantes. “O nosso projeto está, aos poucos, adquirindo visibilidade – concluiu Anna – tanto que fomos convidados pela diocese a compartilhar a nossa experiência de vida com outros Movimentos eclesiais”.  

Solidariedade com a República Centro-Africana

Solidariedade com a República Centro-Africana

A escalada de graves desordens político-militares na República Centro-Africana não fez com que o Papa Francisco mudasse a programação; como autêntico mensageiro de paz, na homilia do Dia de Todos os Santos, anunciou que dia 29 de novembro irá àquele atormentado país. Há mais de três anos desenrola-se ali um dos focos de guerra que pontilham o planeta, aos quais nem mesmo a comunidade internacional parece dar importância. Guerras fratricidas, guerras esquecidas. Tudo começou em 2012, com a ocupação de vastas regiões do país por grupos de rebeldes, com destruições não só de sedes institucionais, mas também de tudo o que é cristão. Um fato novo para a República Centro-Africana, prevalentemente cristã, com uma minoria de muçulmanos e pessoas de religiões tradicionais que coabitam pacificamente. Profanação de igrejas, saques nas obras sociais, escolas, hospitais, dispensários, lojas e casas dos cristãos, que deixam uma gravíssima emergência alimentar e sanitária. Em uma população de 5 milhões de habitantes, 820 mil devem deixar as próprias casas. Não é mais possível construir, mandar os filhos à escola, cultivar a terra. Inclusive um terreno comunitário, que há cerca de dez anos havia sido comprado por uma Fundação italiana para as famílias dos Focolares, deve permanecer forçadamente sem cultivo. Um terreno cercado, um poço, a casa dos caseiros, e anualmente o recurso para comprar as sementes. Um projeto que permitia sanar a fome das famílias e ainda adquirir alguma coisa com a venda de produtos, que agora, porém, não existem mais. Permanece ativo o projeto de Ações Famílias Novas (www.afnonlus.org), de sustento à distância para crianças e adolescentes, mas os subscritos são somente 89, uma gota no mar. Em 2013, Petula e Patrick Moulo, três filhos e dois adotados, recebem em sua casa, em Bangui, 34 pessoas, partilhando tudo o que possuem. Mesmo se tudo é limitado – comida, espaço, cobertores – o amor compensa, e todos juntos fazem a experiência de que “é melhor um pedaço de pão seco na paz do que abundância de carne na discórdia” (Prov. 17,1). No grupo há inclusive uma mulher muçulmana com seus filhos pequenos. Também as outras famílias dos Focolares abrem as casas e o coração. As pessoas procuram manter uma atitude pacífica, de não resistência, com a esperança de atenuar a repressão. Não é o que acontece. Quando tudo parecia resolvido – a chamada “liberação” de dezembro de 2013 – a guerrilha se reacendeu, deixando um rastro de devastação. Muitos corpos não foram sepultados. Depois de dois meses ainda se veem esquifes de pessoas torturadas e mortas, descendo pelos rios. Todos escondem-se nos campos, no frio, sem comida. Em cada família há alguém que foi morto. Uma guerra escondida, desonesta, que em três anos fez mais de cinco mil vítimas, maltratando toda a população com fome, doenças, insegurança, salários em gotas. No início de 2015 iniciou um período de trégua, mas os recentes fatos sangrentos, de 26 de setembro e 29 de outubro, reacenderam o terror: mortos, feridos, casas queimadas. Numa noite, todos os campos de refugiados, que aos poucos estavam esvaziando, ficaram novamente cheios. No “campo” dos Focolares dormem, ao relento, 96 adultos, enquanto os seus filhos dormem amontoados na pequena casa de Irene e Innocent, os caseiros do projeto. A comunidade dos Focolares reúne o pouco que tem: roupas, alimentos, cobertores, para partilhar com quem perdeu tudo entre eles, e levam também ajuda aos desabrigados que estão nos vários campos de acolhida. A população está extenuada. Dentro de pouco tempo o Papa Francisco estará com eles, “para manifestar a proximidade de toda a Igreja (…) e exortar todos os centro-africanos a serem cada vez mais testemunhas de misericórdia e de reconciliação”. Todos nós o acompanharemos com as nossas orações, com o auspício de conscienciosos gestos concretos de solidariedade.

Do Congo: duas mulheres, duas histórias.

Do Congo: duas mulheres, duas histórias.

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O restaurante de Émerence Kibimbwa Zolakio

Nem mesmo ela sabe como conseguiu. O fato é que Émerence gerencia sozinha uma revendedora de bebidas alcóolicas e refrigerantes em Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo. Os negócios vão bem. Entradas, despesas, receitas, lucro. Émerence é tão familiarizada com estes termos que vê a sua atividade crescer dia após dia, na mais absoluta transparência com fornecedores, clientes e com o fisco. A sua inspiração é a Economia de Comunhão (EdC), da qual aprende que antes do lucro é a pessoa que deve ter a sua atenção de empreendedor, que deve estar centrada não sobre o capital, mas sim sobre os mais necessitados. Ela decide investir os lucros em favor destes últimos e abre um restaurante, e logo em seguida um segundo, onde também os pobres – que muitas vezem não dispõem de cozinha ou utensílios – possam adquirir comida pronta e barata. Um negócio este que certamente não vai incrementar o seu capital. Mas, como todo empreendedor que adere ao projeto EdC, também Émerence sabe que pode contar com um sócio “escondido” que é a Providência divina. Em quatro anos, sem procurar ou fazer pedidos, chegaram dois congeladores (usados, mas valiosos), dois estabilizadores para eletricidade, 52 cadeiras e 14 mesas. Além de um estoque de bebidas. A maioria de suas funcionárias são meninas em situação de risco ou mães solteiras às quais dá plena confiança, colocando-as a par do desenvolvimento da empresa e também  das extraordinários intervenções do seu sócio “secreto”. “Uma vez – nos conta Émerence – eu tinha dado roupas e alimentos a uma mãe solteira”. A sua saúde mental no período não era boa, mas parecia estar saindo daquele quadro. “Pediu-me trabalho e eu a admiti”. Émerence lhe dá confiança, ensina o trabalho e depois de dois anos ela não só reencontra plenamente o equilíbrio, mas consegue abrir seu próprio negócio. O mesmo fizeram outras quatro meninas que se tornaram pequenas comerciantes de alimentos prontos, e continuam em contato com Émerence como sua conselheira permanente. Outra mulher que merece destaque é Albertine, também ela de Kinshasa, mãe de seis filhos. Albertine é educadora na escola materna Petite Flamme, no centro social dos Focolares financiado pelo “apoio a distância” da AFN (www.afnonlu.org). “Há alguns anos – confidencia Albertine – meu marido saiu de casa sem motivo e até hoje não sabemos onde se encontra”. Não é difícil imaginar o quanto seja complicado para uma mulher sozinha manter uma família com seis filhos. Como um segundo trabalho Albertine decide vender sapatos que compra graças a um empréstimo no centro social onde ensina. O preço dos sapatos que vendo não são caros, e é por isto que Deus me abençoa!”, afirma convencida Albertine, que com os lucros desta atividade consegue pagar o aluguel e as contas. Assim os filhos podem continuar os estudos, dois já frequentam a universidade. “Todo dia renovo a minha escolha de Deus e Ele me dá a força para continuar – continua Albertine -. Procuro promover, ao meu redor, os valores humanos e sociais contidos no Evangelho. É desta forma que poderemos transformar a sociedade”. E se Albertine, com o seu micro comercio de sapatos, consegue viver com dignidade junto aos seus seis filhos, recentemente Emérence viu registrada a sua atividade entre as duas grandes marcas de bebidas da República Democrática do Congo (Bralima e Bracongo). Tudo indica que o sócio “escondido” esteja mais ativo do que nunca.