Movimento dos Focolares

Inovação, mercado e sociedade

Fev 28, 2012

Entrevista com o professor Luigino Bruni, docente na Universidade Biccoca de Milão e no Instituto Internacional Sophia, coordenador mundial do projeto “Economia de Comunhão”.

Prof. Luigino Bruni, em seu artigo publicado na revista Nuova Umanità, o senhor descreve de maneira singular a pessoa do empresário. Poderia explicar-nos como as figuras do investidor, do manager, do especulador, terminaram por confundir-se com a do “empresário-inovador”? Muito depende da revolução das finanças que investiu a economia (práxis e teoria) nos últimos 20 anos (…) por efeito da globalização. O ocidente desacelerou seu crescimento, mas não quis reduzir os consumos. A finança criativa prometeu, então, uma fase de crescimento dos consumos sem crescimento de renda, com novos instrumentos técnicos. Com isso muitos empresários transformaram-se em especuladores, pensando em ter lucros especulando, deixando os seus tradicionais setores e a sua vocação. Uma segunda razão foi a uniformização das culturas empresariais, que seguiram o rastro do forte poder da cultura anglo-saxã. A tradição europeia, e italiana, de gestão das empresas era caracterizada por uma grande atenção à dimensão comunitária e social, devido à presença de um paradigma católico-comunitário. Juntamente com a primeira causa, a revolução financeira, isto fez com que os managers assumissem uma função cada vez mais central nas grandes empresas, em detrimento dos empresários tradicionais. Atualmente existe uma enorme exigência de lançar um modo novo de ser empresário – se queremos sair da crise – e reduzir o peso dos especuladores. Partindo da Teoria do desenvolvimento econômico de Schumpter, o senhor descreve o mercado como um “revezamento virtuoso” entre inovação e imitação (…), porém, para o inovador o lucro está essencialmente circunscrito no tempo que passa entre a inovação e a imitação. Como evitar que tal “revezamento virtuoso” termine por causar um dano recíproco entre empresas? Neste aspecto a política tem uma função importante, e também as instituições, que devem fazer com que este revezamento seja virtuoso e não vicioso, com a normatização oportuna e a garantia da concorrência e do funcionamento correto dos mercados. Mas uma função igualmente importante é a da sociedade civil; com a própria opção de compra os cidadãos-consumidores devem premiar as empresas que tem comportamentos eticamente corretos, e “punir” (mudando a escolha da empresa) aquelas que têm atitudes predatórias e agressivas. O mercado funciona e produz frutos quando está em constante relação com as instituições e com a sociedade civil. Enfim, o senhor delineia as características da “concorrência civil”, na qual a competição não é jogada na fórmula: Empresa A contra Empresa B para conseguir o cliente C, mas sim na fórmula: Empresa A pró cliente C e Empresa B pró cliente C. Pode explicar os efeitos positivos que este modo diferente de ver a concorrência produz? E poderia nos dar exemplos de “concorrência civil”? Primeiramente contribui para que se estabeleça um clima afetivo diferente nos intercâmbios de mercado. A nossa leitura e visão do mundo é muito importante para os comportamentos que assumimos. Se vemos o mercado como uma luta a ser vencida, quando vivemos momentos de intercâmbio, no mercado ou no trabalho, a nossa tendência é aproximar-nos dessas esferas com uma atitude mental e espiritual que influencia muito os resultados que vamos obter e a felicidade (ou infelicidade) que sentimos. Se, ao contrário, vemos o mercado como um grande network de relações cooperativas, favorecemos a criação de bens relacionais, inclusive nos momentos “econômicos” da nossa vida, e a felicidade individual e coletiva aumenta. Além disso, fazer uma leitura do mercado como cooperação é mais consonante com a visão dos grandes clássicos da história do pensamento econômico (Smith, Mill, Einaudi, e hoje Sen ou Hirschman) e mais próximo a quanto milhões de pessoas experimentam todo dia trabalhando ou negociando, e não apenas na economia social. E como exemplos de “concorrência civil” eu citaria o microcrédito, a cooperação social, a economia de comunhão, o comércio équo e solidário. São exemplos dessa concorrência civil, ao menos como fenômenos macroscópicos.

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