Movimento dos Focolares

Cardeal Miloslav Vlk

Hoje, 18 de março, aos 85 anos, faleceu o cardeal Miloslav Vlk,  Arcebispo emérito de Praga (República Tcheca), por 18 anos moderador da comunhão entre os bispos que aderem à espiritualidade da unidade. Gratidão do Movimento dos Focolares pela sua vida.

Quênia: na fronteira com o Sudão do Sul

Quênia: na fronteira com o Sudão do Sul

P1300494Dom Dominic Kimengich nos conta: “A nossa diocese de Lodwar encontra-se em Turkana County, no Quênia, na fronteira com a Uganda, com o Sudão do Sul e a Etiópia. Nairóbi fica a 700 km de distância. As pessoas que viajam para ir à nossa cidade devem ter a certeza de que a polícia está protegendo todo o trajeto, para não serem vítimas dos frequentes ataques de assaltantes e bandidos. A falta de chuvas por causa da mudança climática causou uma terrível carestia que atinge todo o território de Turkana. Quanto à população, 60% são nômades e, até agora, sobrevivem criando camelos, ovelhas, cabras, jumentos e rebanho bovino. Mas, uma vez que não têm mais alimentos nem pastagens para os animais, as famílias são obrigadas a imigrar para os países próximos. No entanto, sendo uma região de fronteiras, os conflitos entre as tribos dos territórios limítrofes, na luta pela sobrevivência, provocam a morte de muitos inocentes, especialmente de mulheres e crianças. Na diocese temos um enorme campo de refugiados chamado Kakuma, com quase 200.000 refugiados provenientes sobretudo do Sudão do Sul, onde a situação piora dia após dia. Muitos chegam também da Somália. A nossa situação é muito difícil porque nem os habitantes de Lodwar têm água e alimentos suficientes. Muitas crianças não frequentam mais a escola porque acabou a alimentação. Em 1985, quando eu estava no seminário, eu ouvi falar da espiritualidade do Focolare, mas quando me tornei sacerdote assumi uma paróquia e, naquela ocasião, era muito difícil permanecer em contato com o Movimento. Somente depois que me tornei bispo é que eu posso participar de alguns encontros em Nairóbi. Em 2012, para celebrar o 50º aniversário da evangelização, tivemos a ideia de convidar os bispos das dioceses vizinhas, da Uganda, Sudão do Sul, Etiópia e de outras quatro dioceses do Quênia, para conversarmos sobre a paz e para nos perguntar o que poderíamos fazer entre nós. Dez bispos compareceram e nos reunimos por três dias. Desde então, este encontro se repete todos os anos.  Constatamos que desde que começamos a nos reunir os conflitos diminuíram. Fui visitar o bispo Markos, na Etiópia, ele também está participando desse encontro, e, pela unidade que nasceu também com os outros bispos, encontramos a força parra levar adiante os nosso ministério nessas terras tão cheias de provações. P1300835Aqui em Castelgandolfo é maravilhoso partilhar as próprias experiências com bispos do mundo inteiro e, juntos, aprofundar-nos no carisma da unidade, que ensina de modo prático como viver – também sendo bispos – um amor genuíno no espírito de fraternidade. Poder participar deste encontro foi um grande testemunho do amor de Deus por mim. Ele quer que nos amemos uns aos outros como Jesus nos amou. O tema deste encontro tem uma grande sintonia com a minha vida e com a situação do território no qual vivo. Somente vendo as coisas do ponto de vista de Jesus crucificado e abandonado é que podemos ter esperança em um mundo no qual as pessoas aprendam a viver em paz, partilhando tudo o que possuem até ao ponto de abraçarem-se como filhos do mesmo Deus Pai. Enquanto me preparo para voltar à minha diocese posso testemunhar, com certeza, que não sou mais aquele de antes. Sinto-me muito fortalecido pela unidade com os meus irmãos bispos. Na unidade em Jesus abandonado sei que não estou sozinho naquela região do Quênia, enfrentando as diversas situações difíceis. Jesus está comigo, muito próximo, Ele está ao meu lado. Sei também que posso contar com a oração de todos do Movimento. Sou muito agradecido a Deus que proporciona a realização de tudo isso.

Argentina: com as populações rurais

Argentina: com as populações rurais

StefanoO programa de solidariedade e turismo sustentável, que a Pastoral do turismo de Salta (Argentina) promove há seis anos, dá apoio a pequenas comunidades nas cidades de Salta, Jujuy e Catamarca, no norte do país, valorizando seus recursos humanos e naturais para salvar a riqueza cultural e a diversidade ligada à história local. Ao mesmo tempo, oferece-se uma formação profissional para o incremento de vários produtos ligados à linha do turismo: hospedagem, transporte, venda de produtos artesanais e alimentares (geleias, licores, mel, etc.). Procura-se assim evitar a migração das populações das zonas rurais para as urbanas, impedindo, de consequência, o aumento das áreas de pobreza nas grandes cidades e, ao mesmo tempo, protegendo as pequenas comunidades que possuem uma rica cultura e que estão em vias de extinção. Stefano 2«O que distingue esta experiência de desenvolvimento local, em relação a outros tipos de experiência explica Virginia Osorio, socióloga e pesquisadora ligada à Sumá Fraternidad – são as palavras de ordem “comunhão e diálogo”. Comunhão, porque cada ator colocou em comum os próprios talentos e recursos para o desenvolvimento do programa; diálogo, porque no processo de desenvolvimento houve uma forte interação entre os vários sujeitos, muitas vezes em conflito entre si. As dificuldades, na verdade, não faltaram, mas a estratégia para superar as problemáticas foi a de trabalhar em equipe, colocando em prática a escuta ativa de todas as partes interessadas: as comunidades locais, o Estado, empresas e outras organizações da sociedade civil». E continua: «O resultado dessa experiência é o nascimento de um novo produto e de um novo tipo de consumidor. Não é o conceito de turismo ao qual todos estamos acostumados, mas, nessa experiência, o valor ajunto é o contato com a riqueza cultural das pequenas comunidades rurais e, em alguns casos, dos descendentes das populações indígenas, ou seja, um turismo que gera o encontro entre as pessoas». Stefano 3Mas vamos escutar quem participou do programa, como Estevão, jovem turista italiano: «Sinto que para algumas pessoas viajar é como ver o mundo de dentro de uma caixa de vidro. Viaja-se pelo mundo procurando o nosso standard de vida ocidental, com as nossas comodidades, a nossa segurança e certeza, vamos “consumir”, como se visitar lugares fosse tomar uma bebida que depois jogamos fora. Tiram-se muitas fotos, compram-se souvenir, come-se num local típico e está tudo feito! Um país não é feito de monumentos e souvenir, mas de pessoas que podem também oferecer hospitalidade, compartilhando suas casas, a mesa, a música. É o modo mais autêntico de viajar! “Compartir”, compartilhar, o verbo, em língua espanhola, que aprendi durante essa viagem à Argentina». E a família de Maria José e Pablo, argentinos: «Gostamos desta forma de férias, passear, conhecer paisagens novas, mas principalmente a possibilidade de encontrar estas “paisagens humanas” que às vezes se escondem atrás de cartões postais e fotos, que nos permitiram entrar na realidade dessas comunidades. Uma sensação que perpassou a nossa experiência foi a de ter rompido os nossos esquemas e que a nossa vida foi preenchida por essas pessoas que agora temos no coração; experimentar o ritmo tranquilo e profundo desses lugares e a visão de muitas paisagens que encontramos no nosso caminho. Agora, chegando na cidade, vemos de modo diferente, com um olhar novo, a vida cotidiana».

Escócia: demos asas à unidade

Escócia: demos asas à unidade

20170316-05De pequeno burgo medieval se tornou um dos principais hubs da Grã-Bretanha pelo comércio transatlântico especialmente com a América do Norte. Glasgow, porto fluvial sobre o Clyde, está projetada na direção do futuro, mas fortalecida por uma longa tradição cultural. Desde 1451 sedia a quarta mais antiga universidade da Escócia. Nesta prestigiosa sede, que formou sete futuros prêmios Nobel e ouviu Albert Einstein ilustrar a teoria da relatividade, o Movimento dos Focolares e a Sociedade islâmica Ahl Al Bait organizaram, no dia 27 de fevereiro passado, uma aula aberta sobre diálogo e unidade entre pessoas de credos diferentes. “Unity in God and Unity of God”, este o título do evento, que recebeu o Dr. Mohammad Ali Shomali, Diretor do Instituto Internacional para os Estudos Islâmicos de Qum (Irã), atualmente à direção do Centro Islâmico da Grã-Bretanha, personalidade muito conhecida no mundo xiita, e o Prof. Paolo Frizzi, docente de Teologia e práxis do diálogo inter-religioso no Instituto Universitário Sophia de Loppiano, próximo a Florença, onde coordena o Centro de Pesquisa e Formação “Sophia Global Studies”. No dia seguinte, o Dr. Shomali ministrou uma conferência diante dos membros do Parlamento escocês. 20170316-01A amizade entre o Instituto Universitário Sophia e o acadêmico xiita é de longa data, e fez nascer, no verão passado, um projeto de pesquisa e diálogo cujo sugestivo título é “Wings of Unity”, “asas de unidade”, que envolve um grupo de estudiosos cristãos e muçulmanos. Explica o Prof. Frizzi: «Apresentei a metodologia e o ambiente de unidade promovidos pelo nosso Instituto, onde trabalhamos numa abordagem acadêmica de tipo integrado, que, à teoria, se associem a aplicação e a experiência. Por exemplo, no curso sobre o diálogo inter-religioso, somos três professores com backgrounds acadêmicos e experiencial diferentes, mas procuramos desenvolver um programa comum, fruto de escuta recíproca, uma espécie de viagem de unidade em que co-ensinamos nas aulas e de que também os estudantes são protagonistas». 20170316-03Wings of Unity, explica o docente de Sophia, concretamente quer fornecer um espaço dialógico em que, de um lado, possa aprofundar o que significa “unidade em Deus e de Deus”, esclarecendo elementos comuns e diferenças; e de outro, explorar os modos em que a unidade pode ser concretamente vivida, para sanar feridas e resolver divisões. «Com muita frequência as iniciativas inter-religiosas permanecem questões para poucos, sem um impacto concreto. O momento atual é delicado, devemos considerar a transição em direção a uma nova ordem global incerta, onde uma maior interconexão e interdependência estão se associando a divisões dolorosas, que despedaçam a unidade das sociedades. Provavelmente a globalização fracassou na tentativa de construir uma comunidade sustentável, como as instituições transnacionais estão fracassando em garantir um espaço seguro onde culturas e religiões possam se encontrar, sem o risco de perder a si mesmas. Se isto é verdade, por outro lado existem experiências e casos de empenho e diálogo bottom-up que, ao contrário, estão enriquecendo bairros e unificando comunidades. Partem de baixo e ajudam a repensar a unidade da diversidade». Como diz o papa Francisco na Evangelii Gaudium, o diálogo acontece num mundo que não é nem piramidal (onde alguns estão em cima de muitos outros) nem esférico (sem diferenças de espécie), mas poliédrico, onde acontece a convergência entre todas as partes, cada uma mantendo uma própria individualidade. 2017-03-16-02Sobre o tema da identidade e do confronto, intervém o Dr. Shomali: «Se refletirmos sobre o desenvolvimento das religiões, percebemos que sempre esteve presente uma pergunta: como manter juntas as pessoas, convencendo-as de que, permanecendo no círculo, se está melhor». Esta concepção gerou distância, na medida em que exprime não tanto “quem somos”, mas, antes, “quem não somos”, segundo um modelo de identidade baseado em medo e exclusão. Se funcionou no passado, foi porque o mundo era muito segmentado, sem grandes ocasiões de encontro entre pessoas de credos, etnias ou culturas diferentes. Hoje não é assim, num mundo em que a identidade é mais frágil e esvaída. Por isso, sustenta o estudioso xiita, «precisamos de uma nova compreensão baseada no que podemos oferecer e no que podemos apreciar nos outros. Relacionar-se com os outros é essencial. Eu não posso ser um bom muçulmano, ou cristão – ou um bom iraniano ou escocês – se não sei me relacionar com outras pessoas e contê-las na minha identidade». Portanto, é preciso repensar a própria concepção de identidade: «O corpo humano tem órgãos diferentes, cada um com uma função. Todavia, nenhum sobrevive, se isolado». E conclui: «Quando olho no Corão, vejo que este é o plano de Deus. Na sua criação e revelação, Deus nos mostrou o caminho rumo à unidade».