Movimento dos Focolares
Quaresma: tempo de conversão

Quaresma: tempo de conversão

Klaus_Hemmerle_BishopsKlaus Hemmerle teve um papel essencial para fazer nascer, junto com Chiara Lubich, a comunhão entre os bispos que aderem à espiritualidade da unidade. Os trechos que seguem foram extraídos do livro: “Klaus Hemmerle, La luce dentro le cose”, Città Nuova, Roma, 1998. «Até mesmo depois da radical conversão da nossa vida, acontecida uma vez para sempre no Batismo, nós todos temos, incessantemente, necessidade de nos converter. Inclusive no caso em que o batizado não se separe de Deus, as exigências que a vida instaura sobre ele e as tentações da vida quotidiana arriscam acorrentá-lo de tal modo ao próprio eu, que aquela palavra única que o batizado se tornou graças a Cristo, se vela, se altera, se quebra. A ferida infligida à vida de Deus em nós necessita continuamente ser sanada». (pág. 82) «Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Jesus é realista, conhece as nossas fraquezas. Não no julga, mas nem mesmo diz: como quer que você viva, é igual. Chama-nos ao arrependimento, à conversão, a recomeçar incessantemente. Ele nos perdoa, nos ensina a perdoar os outros. A amizade com ele se encalha, se a nossa vida não é uma incessante conversão». (pág. 73) «Para cada um de nós, hoje, está pronta uma cruz a ser carregada consigo. Mas deve ser carregada hoje mesmo! Caso contrário, é a cruz que nos carrega, e então nos sentimos infinitamente oprimidos, atormentados, aniquilados, e nem mesmo percebemos que foi a cruz que nos levou embora. Mas se nós mesmos temos a coragem de carregarmos a cruz sobre nós, então ela é a coisa mais preciosa do mundo». (pág. 89) «Quando os discípulos veem em Jesus o Deus grande e poderoso, não conseguem encontrá-lo. Devem inclinar-se até o chão, olhar no pó: Jesus está lá, que lava os pés aos seus. O dom de si, o abaixamento, o serviço, a madura conscientização da banalidade das necessidades humanas, o fazer-se pequenos, a renúncia, a dureza do doar-se totalmente, o não aparecer, o ocultamento: tudo isso, que nada tem a ver com o fulgor de Deus, é o fulcro mais profundo e central do nosso culto a Deus, é eucaristia». (pág. 101) «Eu, que cada vez continuo a fracassar, não posso viver senão do perdão de Deus. Mas este perdão dá provas de si no perdão fraterno, tem nele o seu substrato, se repercute na comunidade em que nos vinculamos reciprocamente àquela misericórdia que nos torna novamente sempre livres, para sermos juntos, filhos do Pai com o Senhor, o único Senhor, no meio deles». (pág. 74)

Família: uma ferida transformada em ouro

Família: uma ferida transformada em ouro

20170228-aFrederico: Um italiano e uma uruguaia, quantas possibilidades têm de se encontrarem? Mas foi o que aconteceu conosco, sete anos atrás, frequentando um centro latino-americano, em Roma; eu para ajudar na animação, ela para falar um pouco a sua língua. Os nossos olhares se cruzaram e começamos a morar juntos. Os apertos econômicos, porém, nos constrangem a deixar a grande cidade e ir morar na cidadezinha dos meus pais, até porque estava para se realizar um dos nossos grandes sonhos: a chegada de um filho. A felicidade não falta, mas o stress do nascimento e da rápida mudança de vida não nos deixam nem o tempo para respirar. Laura: Como se isso não bastasse, a minha mãe, que se ocupava do meu pai inválido e do meu irmão mais novo, adoece gravemente. Preciso ir imediatamente para o Uruguai, ao menos por uns dois meses, até porque, de outra forma, talvez não chegue em tempo para que minha mãe conheça o netinho. A este ponto eu e Frederico já estamos vivendo em dois planetas diferentes: eu fechada em casa com o bebê, ele sempre fora, para fugir das tensões entre nós. Quando nos olhamos existe só rancor, cansaço, incompreensão. «Quando eu voltar – digo antes de viajar – ou nos deixamos ou estaremos juntos para sempre». Frederico: A distância física se torna distância do coração. Os meses passam, ela não volta, e eu me encontro em outro caminho. Por honestidade sinto que devo dizer que não quero mais estar com ela e que seria melhor que ficasse lá onde estava. Laura: O sofrimento é grande, embora eu já esperasse por isso. Reúno todas as minhas forças, coloco de lado o sofrimento e decido voltar para a Itália, mesmo consciente de que as possibilidades eram poucas. E, de fato, quando chego em casa ele não quer mais viver comigo. Frederico: Um dia confidencio a um amigo o que está acontecendo e ele me fala de um casal com muita experiência, que talvez possa nos ajudar. A proposta não me convence muito, mas afinal, pelo bem do bebê, eu aceito. Talvez eles possam nos ajudar a deixar-nos sem criar uma guerra – eu penso -. Era uma tarde no final de maio. No jardim onde nos encontramos as cerejeiras estão carregadas, tudo fala de esperança e de paz, mas nos nossos corações borbulham sensações contrastantes. A mão forte daquele homem, que aperta a minha, e o rosto delicado de sua esposa me provocam um arrepio. Vejo que Laura também está impressionada. A conversa dura meia hora. Naquela mesma noite rompo decididamente com tudo e volto para casa. Quando entro as lágrimas rolam no meu rosto, mas a alma está começando a voar: talvez eu consiga! Vaso_oroLaura: Quando vejo Frederico voltar quase não acredito. O próximo encontro marcado com aquele casal é na Mariápolis de Loppiano (Florença), onde encontraremos outros casais, amigos deles, e outros em crise, como nós. Mas a nossa mudança já tinha começado. No curso, organizado por Família Novas, dos Focolares, a primeira coisa da qual nos falam – quase como num jogo – é da arte japonesa do kintsugi, que diz que um vaso de cerâmica quebrado não deve ser jogado fora, mas colado com ouro. Fazendo assim ele se torna ainda mais precioso. A atmosfera que se respira nos regenera sem que nos demos conta. Compreendemos que o ouro que pode recompor o nosso casal é o perdão que pedimos um ao outro, e que encontramos a força de nos dar reciprocamente. Frederico: A espiritualidade da unidade, que é a base do curso, os conselhos dos especialistas, a ajuda de outros casais: um mix que reforça a nossa vontade de renascer como casal, e dá um impulso fundamental à nossa mudança. Desde então, todos os dias nos redeclaramos estar dispostos a recomeçar, sem dar nada por descontado e esforçando-nos para entrar um na pele do outro. Laura: Depois de dois anos chegamos a tomar um decisão importante: casar-nos na Igreja, para fazer com que o Amor por excelência tome conta de nossas vidas, e continue a escorrer sem nunca parar. Agora estamos na espera do nosso segundo filho, que nascerá em julho. Verdadeiramente, Deus Amor soube escrever certo sobre as nossas linhas tortas.  

Quem é Jesus abandonado para mim

Quem é Jesus abandonado para mim

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© A.M Baumgarten

Sou Noemi, paraguaia, 26 anos. Foi-me perguntado quem é Jesus Abandonado para mim. Desde pequena, experimentei a dor: a perda da mamãe aos 7 anos, depois, da avó com quem cresci, aos 17, e do papai um ano após. Recentemente, veio ao meu encontro com a descoberta de uma doença crônica. Cristo Crucificado, como Chiara Lubich nos fez conhecer, nunca foi para mim somente dor, incompreensão, fracasso, solidão, etc. Mas também momentos preciosos e cheios de uma forte experiência de Deus, assim como de muitas graças pessoais e junto com os outros. No meu percurso de estudo na Sophia, durante uma aula, o professor nos pergunta: “Vocês sabem por que Jesus Abandonado é o Deus do nosso tempo?”. Um colega levanta a mão e diz: “Porque é uma dor e deve ser abraçada”. O professor, então, nos conta a passagem do Evangelho em que Jesus morre na cruz e o centurião exclama: “Este homem era realmente o Filho de Deus!”. Para os judeus da sua época, Jesus era alguém amaldiçoado por Deus. A cultura e as crenças religiosas não tinham permitido a eles reconhecerem a divindade naquele homem. Ao invés o centurião, um pagão, conseguiu ver Deus onde aos olhos humanos dos seus contemporâneos não foi possível descobri-lo. «Aqui não existe dor – continua o professor –, aqui existe a Luz que faz ver e a Sabedoria que nos faz entender quem é realmente Deus: Aquele que se revela se escondendo, que se esvazia plenamente de si mesmo para fazer emergir o outro, para fazer com que o outro seja, porque é Amor. Eis Jesus Abandonado». Esta nova compreensão da Sua identidade foi fulgurante para mim e me permitiu encontrar o sentido e a paixão pelo estudo. Para procurar oferecer, junto com os outros, através das diversas disciplinas – todas expressões daquela única Sabedoria –, as respostas aos problemas do nosso mundo martirizado, porque Jesus Abandonado é concreto, não é um conceito teórico e nem mesmo somente espiritual. Entendi que o órgão do pensamento é o coração, aquele coração transpassado na cruz, que nos permite ver Deus e ser vistos por Ele. Conhecê-Lo melhor me ajudou, além do mais, a entender não só quem é Deus, mas quem sou eu: sou nada. Diante do Criador não posso senão ser nada, só Deus é. Jesus no seu abandono se tornou a chave de leitura da minha vida, da minha história, mas também da história do meu povo com as suas misérias e riquezas. Junto com o desejo de viver e me empenhar pela minha gente desfrutando os dons que Ele me deu. Esta visão de Jesus crucificado e abandonado é uma dádiva que Deus, através de Chiara Lubich, fez não só ao Movimento dos Focolares, mas à Igreja e a toda a humanidade. Especialmente lá onde Deus está mais ausente. Porque Ele nos demonstrou que o mais distante de Deus é o mais íntimo a Deus, como aconteceu ao centurião. Porque Jesus Abandonado não é só uma “chave” para resolver os nossos problemas pessoais. Este é só o primeiro passo, o pressuposto para doá-Lo, buscá-Lo e amá-Lo nas dores da humanidade.

Palavra de Vida – Março de 2017

Em muitos lugares do planeta ocorrem guerras sangrentas, que parecem intermináveis, atingindo as famílias, os grupos étnicos e os povos. Glória, de vinte anos, conta: “Recebemos a notícia de que um povoado tinha sido incendiado e muitas pessoas tinham ficado sem nada. Com os meus amigos comecei uma campanha para juntar coisas úteis: colchões, roupas, mantimentos. Partimos para lá e depois de oito horas de viagem encontramos as pessoas na maior desolação. Escutamos as suas histórias, enxugamos lágrimas, abraçamos, confortamos… Uma família nos confiou: “Eles queimaram a nossa casa onde estávamos com a nossa filhinha; tivemos a sensação de morrer com ela. Agora, no amor de vocês, encontramos a força para perdoar os homens que provocaram isso!”. Também o apóstolo Paulo fez uma experiência: justamente ele, o perseguidor dos cristãos1, encontrou o seu caminho de um modo totalmente inesperado, deparou com o amor gratuito de Deus que depois o enviou como embaixador de reconciliação em seu nome2. Tornou-se assim testemunha apaixonada e confiável do mistério de Jesus morto e ressuscitado, esse Jesus que reconciliou consigo o mundo para que todos pudessem conhecer e experimentar a vida de comunhão com Ele e com os irmãos.3 E por meio de Paulo a mensagem do Evangelho atingiu e fascinou até mesmo os pagãos, considerados os mais distanciados da salvação: reconciliai-vos com Deus! Apesar dos erros que nos desencorajam ou das falsas certezas que nos iludem, convencendo-nos de que não precisamos disso, também nós podemos permitir que a misericórdia de Deus – que é um excesso de amor! – cure o nosso coração e nos torne finalmente livres para partilhar esse tesouro com os outros. Assim nós poderemos dar a nossa contribuição ao projeto de paz que Deus tem para com a humanidade inteira e toda a criação e que supera as contradições da história, como sugere Chiara Lubich em um escrito seu: “(…) Com a morte de seu Filho na cruz, Deus nos deu a prova suprema de seu amor. Por meio da cruz de Cristo, Ele nos reconciliou consigo. Essa verdade fundamental da nossa fé conserva ainda hoje toda a sua atualidade. É a revelação que toda a humanidade espera: Deus está próximo de todos com o seu amor e ama apaixonadamente a cada um. O nosso mundo tem necessidade desse anúncio, mas só poderemos fazê-lo se antes o anunciarmos e voltarmos a anunciá-lo a nós mesmos, até nos sentirmos envolvidos por esse amor, mesmo quando tudo nos poderia levar a pensar o contrário. (…) Todo o nosso comportamento deveria dar credibilidade a essa verdade que anunciamos. Jesus disse claramente que, antes de levarmos a nossa oferta ao altar, deveríamos nos reconciliar com nosso irmão ou irmã, se eles tiverem algo contra nós (cf. Mt 5,23-24). (…) Amemo-nos como Ele nos amou, sem nos fecharmos, sem alimentarmos preconceitos, estando dispostos a reconhecer e a apreciar os valores positivos do nosso próximo, prontos a dar a vida uns pelos outros. Este é o mandamento por excelência de Jesus, o distintivo dos cristãos, tão válido hoje quanto nos tempos dos primeiros seguidores de Cristo. Viver esta Palavra significa nos tornarmos reconciliadores”.4 Se vivermos dessa forma, nossos dias serão enriquecidos por gestos de amizade e reconciliação na nossa família e entre as famílias, na nossa Igreja e entre as Igrejas, em todas as comunidades civis e religiosas das quais fazemos parte. Letizia Magri 1 Cf. At 22,4ss. 2 Cf. 2Cor 5,20. 3 Cf. Ef 2,13s 4 Cf. versão integral em Cidade Nova, janeiro de 1997.