Movimento dos Focolares

Alba Sgariglia: a experiência mística do Paraíso de 1949

Jun 4, 2026

Numa entrevista à Città Nuova, Alba Sgariglia fala sobre o texto no qual Chiara Lubich relata a experiência vivida a partir de 16 de julho de 1949. As raízes do Carisma da Unidade.

Alba Sgariglia tem graduação em filosofia e licenciatura em teologia. Desde 1975, ano anterior ao seu ingresso no focolare, trabalhou no Centro de Estudos do Movimento dos Focolares, ao lado da fundadora, Chiara Lubich.

Em que consistia o seu trabalho no Centro de Estudos?

Eu ia à biblioteca de Florença para tirar fotocópias de trechos dos Padres Gregos, que depois traduzíamos em casa para procurar, entre as muitas páginas, aquelas breves frases que pudessem servir a Chiara Lubich como confirmação de suas inspirações. Naquela época, eu trabalhava com Marisa Cerini, que me dizia: para nós, construir o ut omnes significa entrar no pensamento dos Padres gregos e tentar compreender, a partir dali qual era a luz do carisma que Chiara recebeu. Nos anos seguintes, também lecionei religião em escolas de ensino médio em Roma. Depois, fiz parte do governo da Obra para acompanhar o aspecto cultural e, posteriormente, da Escola Abba, que Chiara fundou em 1991 para estudar as anotações que tinha feito do período chamado Paraíso de 1949. Finalmente, em 2014, Maria Voce Emmaus, na época presidente do Movimento dos Focolares, confiou-me o Centro Chiara Lubich, criado para salvaguardar, estudar e promover a figura de Chiara.

O que representa este texto recém-publicado?

O Paraíso de 1949 é um texto publicado postumamente. Foi escrito, organizado e redigido por Chiara Lubich enquanto ela viveu. Ela desejava descrever a experiência mística que viveu nos anos de 1949 a 1951, complementando-o com notas para facilitar a compreensão, a fim de entregar ao grupo de estudiosos da Escola Abba um texto acessível, que pudesse ser útil para a pesquisa. O texto contém uma experiência mística. Chiara sempre afirmou que não podia guardar essa experiência só para si. Incentivada por muitas pessoas, ela percebeu que poderia ser um texto compreendido e utilizado também por outros integrantes do Movimento.

Ela mesma, por exemplo, nos primeiros anos da década de 2000, explicou aos jovens do Movimento o cerne dessa sua experiência. Por fim, percebeu, aos poucos, que a experiência relatada no texto poderia ser compartilhada também com pessoas de outras religiões: ao longo dos anos, realizamos simpósios com hindus, budistas e muçulmanos, aos quais ela apresentou alguns trechos do Paraíso de 1949. Vivenciamos a experiência de diálogo sobre o texto também com pessoas sem um referencial religioso, que ofereceram reflexões muito mais profundas do que nós mesmos poderíamos imaginar, ressaltando que se trata de um texto de grande valor. Muitos fundadores de carismas receberam a oportunidade de compreender a obra que estavam gerando, por meio das chamadas “visões intelectuais”, nas quais compreenderam com a razão aquilo que Deus lhes permitia vislumbrar.

Por se tratar de uma linguagem mística, a compreensão não é difícil para as pessoas comuns?

A linguagem mística é um gênero literário particular; não é poesia, nem teatro, nem literatura, nem teologia. Às vezes podem surgir dificuldades no plano teológico, porque o místico busca palavras que não consegue encontrar, tenta expressar o inexprimível: um exercício difícil, tanto que Chiara, muitas vezes, enquanto relíamos esses trechos, nos perguntava: «Mas como consegui escrever essas frases? O que significam? Por que escrevi isso?».

Isso confirma que, nessas situações, os fundadores tentam expressar aquilo que “veem”, usando as categorias culturais e os conceitos que possuem, às vezes inadequados. Por exemplo, no Paraíso de 1949 encontram-se referências à Divina Comédia porque Chiara a conhecia, ou aos filósofos, como Kant, que ela havia estudado. O contexto externo também pode influenciar: Chiara e as suas primeiras companheiras iniciaram essa experiência nas montanhas do Trentino, em Tonadico: é uma natureza que fala por si mesma com a sua beleza. Isso também ajudou Chiara a expressar coisas que ela percebia pela primeira vez na sua vida.

Ao longo destes 18 anos desde a morte de Chiara, vocês publicaram livros que podem tornar compreensível o contexto da aventura do Paraíso de 1949…

Continuamos a aprofundar o texto por meio de diversas áreas disciplinares, seguindo o método que Chiara nos deixou, ou seja, examinar as coisas com “Jesus no nosso meio”. Creio que neste volume é possível identificar três significados característicos: o primeiro é um significado didático, porque ensina como viver o Carisma da Unidade, oferece uma chave de leitura vital; o segundo significado pode ser definido como artístico-literário, porque o texto apresenta muitos gêneros literários: diário, cartas, escritos, anotações; finalmente, o aspecto doutrinário, porque o texto tem, sem dúvida, um foco teológico. Trata-se, de fato, de uma experiência mística que ajuda a compreender, por um lado, as realidades do Céu: Deus, a Trindade, o Verbo, Maria, a Criação, o inferno, o paraíso; por outro lado, a encarnação do carisma em uma obra que seria fundada nos anos seguintes, ou seja, após os anos de 1949 a 1951. Sempre que se leem esses textos místicos, compreendem-se coisas novas. É o que acontece também comigo: todas as vezes que leio essas páginas, compreendo coisas novas, tanto no plano intelectual quanto no espiritual.

Ao ler o texto, em certas passagens Chiara pode parecer um pouco presunçosa?

É preciso entender por que Chiara diz aquelas coisas daquela maneira. Digamos que é como se Deus, para expressar conceitos que não podem ser expressos por meio de uma criatura humana, se identificasse com essa criatura, olhando as coisas através dos olhos dela. Por isso, Chiara acaba escrevendo: hoje eu sou a paternidade universal. Mas ela mesma se pergunta: o que isso significa? Naquele momento, se verifica uma identificação dela com tal realidade, para poder expressá-la. Nas notas de rodapé, ela mesma comenta e explica essa sua surpresa, e a alegria de ver que outros fundadores tinham vivido mais ou menos a mesma coisa.

Que sugestão você daria para iniciar a leitura?

Eu diria: peguem o livro e o leiam quando e como quiserem, em qualquer momento. Troquem ideias com outras pessoas, ou com um especialista, sobre algum trecho que não esteja claro ou seja mais complexo. Mas sugiro que não se deixem condicionar, porque este texto fala diretamente com a pessoa. Vamos abri-lo ao acaso e ler a página que cair. Compreenderemos o que nos é útil naquele momento, porque o texto, apesar de algumas dificuldades, toca profundamente. É uma experiência mística, “participável”, de certa forma. Essa é a novidade, como Chiara nos explicou. Ela sempre fez de tudo para que todos participassem de sua experiência e esse volume nos oferece essa oportunidade.

Giulio Meazzini
Entrevista publicada originalmente em Città Nuova
Foto: © Francesco Frascella

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