Movimento dos Focolares
Alba Sgariglia: a experiência mística do Paraíso de 1949

Alba Sgariglia: a experiência mística do Paraíso de 1949

Alba Sgariglia tem graduação em filosofia e licenciatura em teologia. Desde 1975, ano anterior ao seu ingresso no focolare, trabalhou no Centro de Estudos do Movimento dos Focolares, ao lado da fundadora, Chiara Lubich.

Em que consistia o seu trabalho no Centro de Estudos?

Eu ia à biblioteca de Florença para tirar fotocópias de trechos dos Padres Gregos, que depois traduzíamos em casa para procurar, entre as muitas páginas, aquelas breves frases que pudessem servir a Chiara Lubich como confirmação de suas inspirações. Naquela época, eu trabalhava com Marisa Cerini, que me dizia: para nós, construir o ut omnes significa entrar no pensamento dos Padres gregos e tentar compreender, a partir dali qual era a luz do carisma que Chiara recebeu. Nos anos seguintes, também lecionei religião em escolas de ensino médio em Roma. Depois, fiz parte do governo da Obra para acompanhar o aspecto cultural e, posteriormente, da Escola Abba, que Chiara fundou em 1991 para estudar as anotações que tinha feito do período chamado Paraíso de 1949. Finalmente, em 2014, Maria Voce Emmaus, na época presidente do Movimento dos Focolares, confiou-me o Centro Chiara Lubich, criado para salvaguardar, estudar e promover a figura de Chiara.

O que representa este texto recém-publicado?

O Paraíso de 1949 é um texto publicado postumamente. Foi escrito, organizado e redigido por Chiara Lubich enquanto ela viveu. Ela desejava descrever a experiência mística que viveu nos anos de 1949 a 1951, complementando-o com notas para facilitar a compreensão, a fim de entregar ao grupo de estudiosos da Escola Abba um texto acessível, que pudesse ser útil para a pesquisa. O texto contém uma experiência mística. Chiara sempre afirmou que não podia guardar essa experiência só para si. Incentivada por muitas pessoas, ela percebeu que poderia ser um texto compreendido e utilizado também por outros integrantes do Movimento.

Ela mesma, por exemplo, nos primeiros anos da década de 2000, explicou aos jovens do Movimento o cerne dessa sua experiência. Por fim, percebeu, aos poucos, que a experiência relatada no texto poderia ser compartilhada também com pessoas de outras religiões: ao longo dos anos, realizamos simpósios com hindus, budistas e muçulmanos, aos quais ela apresentou alguns trechos do Paraíso de 1949. Vivenciamos a experiência de diálogo sobre o texto também com pessoas sem um referencial religioso, que ofereceram reflexões muito mais profundas do que nós mesmos poderíamos imaginar, ressaltando que se trata de um texto de grande valor. Muitos fundadores de carismas receberam a oportunidade de compreender a obra que estavam gerando, por meio das chamadas “visões intelectuais”, nas quais compreenderam com a razão aquilo que Deus lhes permitia vislumbrar.

Por se tratar de uma linguagem mística, a compreensão não é difícil para as pessoas comuns?

A linguagem mística é um gênero literário particular; não é poesia, nem teatro, nem literatura, nem teologia. Às vezes podem surgir dificuldades no plano teológico, porque o místico busca palavras que não consegue encontrar, tenta expressar o inexprimível: um exercício difícil, tanto que Chiara, muitas vezes, enquanto relíamos esses trechos, nos perguntava: «Mas como consegui escrever essas frases? O que significam? Por que escrevi isso?».

Isso confirma que, nessas situações, os fundadores tentam expressar aquilo que “veem”, usando as categorias culturais e os conceitos que possuem, às vezes inadequados. Por exemplo, no Paraíso de 1949 encontram-se referências à Divina Comédia porque Chiara a conhecia, ou aos filósofos, como Kant, que ela havia estudado. O contexto externo também pode influenciar: Chiara e as suas primeiras companheiras iniciaram essa experiência nas montanhas do Trentino, em Tonadico: é uma natureza que fala por si mesma com a sua beleza. Isso também ajudou Chiara a expressar coisas que ela percebia pela primeira vez na sua vida.

Ao longo destes 18 anos desde a morte de Chiara, vocês publicaram livros que podem tornar compreensível o contexto da aventura do Paraíso de 1949…

Continuamos a aprofundar o texto por meio de diversas áreas disciplinares, seguindo o método que Chiara nos deixou, ou seja, examinar as coisas com “Jesus no nosso meio”. Creio que neste volume é possível identificar três significados característicos: o primeiro é um significado didático, porque ensina como viver o Carisma da Unidade, oferece uma chave de leitura vital; o segundo significado pode ser definido como artístico-literário, porque o texto apresenta muitos gêneros literários: diário, cartas, escritos, anotações; finalmente, o aspecto doutrinário, porque o texto tem, sem dúvida, um foco teológico. Trata-se, de fato, de uma experiência mística que ajuda a compreender, por um lado, as realidades do Céu: Deus, a Trindade, o Verbo, Maria, a Criação, o inferno, o paraíso; por outro lado, a encarnação do carisma em uma obra que seria fundada nos anos seguintes, ou seja, após os anos de 1949 a 1951. Sempre que se leem esses textos místicos, compreendem-se coisas novas. É o que acontece também comigo: todas as vezes que leio essas páginas, compreendo coisas novas, tanto no plano intelectual quanto no espiritual.

Ao ler o texto, em certas passagens Chiara pode parecer um pouco presunçosa?

É preciso entender por que Chiara diz aquelas coisas daquela maneira. Digamos que é como se Deus, para expressar conceitos que não podem ser expressos por meio de uma criatura humana, se identificasse com essa criatura, olhando as coisas através dos olhos dela. Por isso, Chiara acaba escrevendo: hoje eu sou a paternidade universal. Mas ela mesma se pergunta: o que isso significa? Naquele momento, se verifica uma identificação dela com tal realidade, para poder expressá-la. Nas notas de rodapé, ela mesma comenta e explica essa sua surpresa, e a alegria de ver que outros fundadores tinham vivido mais ou menos a mesma coisa.

Que sugestão você daria para iniciar a leitura?

Eu diria: peguem o livro e o leiam quando e como quiserem, em qualquer momento. Troquem ideias com outras pessoas, ou com um especialista, sobre algum trecho que não esteja claro ou seja mais complexo. Mas sugiro que não se deixem condicionar, porque este texto fala diretamente com a pessoa. Vamos abri-lo ao acaso e ler a página que cair. Compreenderemos o que nos é útil naquele momento, porque o texto, apesar de algumas dificuldades, toca profundamente. É uma experiência mística, “participável”, de certa forma. Essa é a novidade, como Chiara nos explicou. Ela sempre fez de tudo para que todos participassem de sua experiência e esse volume nos oferece essa oportunidade.

Giulio Meazzini
Entrevista publicada originalmente em Città Nuova
Foto: © Francesco Frascella

O “Paraíso de ’49” se abre ao mundo

O “Paraíso de ’49” se abre ao mundo

Uma sala cheia, atenta, quase em suspensão. Era assim que estava a Sala Paulo VI da Pontifícia Universidade Lateranense (Roma, Itália) na sexta-feira, 22 de maio, onde foi apresentado pela primeira vez ao público o volume Paradiso ’49, de Chiara Lubich.

Não era uma simples apresentação editorial. A impressão, colhida nos corredores e nos comentários do público, era a de encontrar-se diante de um momento histórico: pela primeira vez, um texto até agora pouco acessível foi entregue abertamente ao debate eclesial e cultural, em uma sala cheia.

Quem recebeu os presentes foi Anna Maria Rossi, que falou em nome do Centro Chiara Lubich, promotor da coleção das Obras de Chiara Lubich, e logo esclareceu o sentido do evento, recordando o longo trabalho editorial que levou à publicação do volume. “Não é um texto isolado”, explicou, “mas parte de um percurso mais amplo, que conta como surgiu um carisma na Igreja”.

Para introduzir o conteúdo, havia relatores de diversas proveniências eclesiais e acadêmicas. Alessandro Clemenzia, presidente da Faculdade Teológica da Itália Central e pesquisador da espiritualidade de Chiara Lubich, ofereceu uma chave de leitura incisiva: “Não se trata de entender o que Chiara escreveu, mas o que Deus queria dizer através dessa experiência”. Uma perspectiva que ajudou a colher a profundidade do texto sem reduzi-lo a um simples documento.

Stefan Tobler, suíço, teólogo evangélico e também envolvido nas reflexões sobre o Carisma da Unidade, trouxe a atenção para a figura da autora: uma mulher que, por meio dessas páginas, “doa o mais íntimo do seu relacionamento com Deus”, se expondo com autenticidade.

Foi muito esperada a fala de Angela Ales Bello, filósofa e estudiosa de fenomenologia, única relatora externa do Movimento dos Focolares. Com clareza, evidenciou que a mística não é algo “estranho” ou esotérico, mas “uma iluminação da realidade vivida na fé”. E destacou um trecho original do Paraíso de ’49: uma experiência que envolve não somente a pessoa, mas também a comunidade, quase um “nós” que se torna sujeito.

Brendan Leahy, bispo de Limerick (Irlanda), falou remotamente e, como Clemenzia e Tobler, também é membro do centro de estudos interdisciplinares do Movimento dos Focolares, Escola Abba, e destacou a parte eclesial do texto. O Paraíso de ’49, afirmou, não é um tratado sistemático, mas pode “inspirar novas perspectivas” e ajudar a compreender a Igreja como comunhão viva e relacional.

Durante todo o encontro, percebeu-se, juntamente ao entusiasmo, também uma certa cautela: como acolher um texto tão intenso sem simplificá-lo ou entendê-lo errado? A resposta emergiu muitas vezes, quase como um fio condutor: o Paraíso de ’49 não pode ser entendido somente lendo, mas deixando-se envolver.

Talvez seja justamente esse o sentido mais profundo do dia. Com esta publicação, o Movimento dos Focolares dá um passo de abertura: o que nasceu como experiência vivida é agora oferecido a todos. Não como um objeto a ser analisado, mas como uma proposta de vida.

Joachim Schwind
Publicado originalmente na Citta Nuova
Foto: © Carlos Mana-CSC audiovisivi

Paraíso de 1949: a dimensão mística de Chiara Lubich

Paraíso de 1949: a dimensão mística de Chiara Lubich

“Agradeçamos juntos a Deus pela grande família espiritual que nasceu do carisma de Chiara Lubich”. Assim se dirigiu o papa Leão XIV aos participantes da Assembleia Geral da Obra de Maria – Movimento dos Focolares, em 21 de março de 2026. De Chiara Lubich é conhecida, como lembra o papa, a atividade de fundadora, assim como sua “espiritualidade de comunhão”, graças também às numerosas publicações. Menos conhecida é a experiência mística que está na origem de sua Obra e na qual esta sempre se inspirou. A publicação do “Paraíso de 1949”, no âmbito do amplo projeto editorial de suas “Obras” empreendido pelo Centro Chiara Lubich e publicado pela Editora Cidade Nova, do qual o presente volume constitui o sexto livro, revela agora um véu que mantinha reservado, por compreensível vontade da própria Autora, aquele intenso período contemplativo que vai de 16 de julho de 1949 até o final de 1951, conhecido justamente como “Paraíso de 1949”.

Antes de nos debruçarmos sobre o livro, um olhar sobre o evento em si, do qual o livro é a narração. Em 16 de julho de 1949, após ter participado da missa, Chiara quer rezar a Jesus e chamá-lo pelo nome, mas não consegue. O que ela tinha acabado de viver identificou-a com Jesus; não pode, portanto, chamar a si mesma, e da boca lhe sai a palavra que Jesus pronunciava em sua oração: “Abba, Pai”. “Pareceu-me entender – escreve mais tarde – que, quem me tinha colocado na boca a palavra ‘Pai’ havia sido o Espírito Santo”. Não é apenas uma palavra, é realidade: “e naquele momento eu me encontrei imersa no Pai. […] Eu tinha, portanto, entrado no Seio do Pai, que se manifestava aos olhos da alma (mas é como se eu tivesse visto isso com os olhos físicos) como uma voragem imensa, cósmica. E era tudo ouro e chamas acima, abaixo, à direita e à esquerda”. Desde o primeiro momento, o evento adquire conotações de caráter místico, que se encontram em fenômenos análogos vividos por outros místicos. No entanto, manifesta também uma sua peculiaridade, devido sobretudo à dimensão unitiva, “coletiva”, eclesial.

Antes de participar da missa, Chiara havia feito um “pacto de unidade” com Igino Giordani, conhecido escritor, parlamentar e pai de família. Juntos, eles pediram que fosse Jesus, que ela recebia na Eucaristia, a “pactuar” a unidade com Jesus nele, ambos em total abertura e disponibilidade à sua ação, como num “cálice vazio”. Assim aconteceu: nela e nele, tornados “nada por amor”, desceu e permaneceu apenas Jesus. Os dois haviam-se tornado um único Cristo. Repetia-se a experiência do apóstolo Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2, 20): as duas almas tornaram-se uma única alma, a de Cristo. É essa única alma que entra no seio do Pai. A experiência mística que está ocorrendo não diz respeito apenas a uma pessoa, mas, primeiro a duas, depois a todo um grupo ao qual Chiara comunica o que está vivendo, envolvendo sempre novas pessoas na mesma experiência: “Tive a impressão de ver no seio do Pai um pequeno grupo: éramos nós”. No seio do Pai vive-se como uma única Alma (a letra maiúscula é uma constante na narrativa de Chiara).

Alguns momentos da apresentação na Pontifícia Universidade Lateranense

Quando, pouco depois, ocorre o fenômeno, comum a muitos místicos, das “místicas núpcias”, quem “se esposa” não é mais a pessoa individualmente, mas todo o grupo que se tornou uma única Alma. A partir desse momento, começa o que Chiara chama de “viajar pelo Paraíso”, uma espécie de viagem de núpcias na qual o Esposo lhe mostra as realidades do Céu, que passou também a lhe pertencer. E aqui nos aprofundamos no conteúdo daquilo que ela chama de “luzes”, “revelações”, “compreensões”, experiência e inteligência da Revelação, de uma intensidade tal que ela se identifica com o que “vê”, de certa forma conhecendo os mistérios da fé a partir de dentro. São intuições sobre a Obra que está nascendo, linhas-guia para uma pedagogia da espiritualidade de comunhão, indicações que se traduzem em oração e na vida cotidiana: “assim na Terra como no Céu”.

A leitura do texto não é fácil, tanto pela linguagem mística, repleta de paradoxos, metáforas e oxímoros, quanto, sobretudo, pela densidade do conteúdo. A autora compôs esta obra ao longo de vários anos, praticamente até o fim da vida, selecionando e organizando os escritos desse período de iluminação. Estamos diante de uma multiplicidade de gêneros literários: cartas, páginas íntimas no estilo de um diário espiritual, anotações para conversas, artigos de jornal e comentários sobre a “Palavra de Vida”, momentos autobiográficos e especulativos, e até mesmo uma fábula. A experiência, porém, embora variada, segue como que um fio de ouro que acompanha uma pedagogia divina, “um desvendamento de mistérios leves e suaves como o Paraíso, lógicos e progressivos como a vida”. A publicação reproduz o texto completo, tal como ela quis doá-lo, com suas anotações elaboradas na lenta releitura.

Os oradores da apresentação: Alessandro Clemenzia, Reitor da Faculdade Teológica da Itália Central; Angela Ales Bello, Professora Emérita de Filosofia Contemporânea – Pontifícia Universidade Lateranense; Stefan Tobler, teólogo e Diretor do Instituto de Investigação Ecuménica da Universidade «Lucian Blaga» de Sibiu (Roménia), Brendan Leahy, teólogo e Bispo de Limerick (Irlanda)

Na introdução, dois ensaios: um de caráter histórico, de Alba Sgariglia[1] , que percorre a história e a laboriosa composição do texto; o outro de caráter teológico, de Piero Coda[2] , que mostra a natureza da experiência e como ela se insere no caminho histórico da Igreja, ao mesmo tempo em que revela sua novidade. O livro é enriquecido por um glossário, bibliografia, índices bíblicos e temáticos.

Um texto fundamental para a compreensão do carisma de Chiara Lubich, que vai além de seu Movimento. É uma obra destinada a fazer parte do patrimônio místico-doutrinário da Igreja, capaz de falar a cada homem, “um legado a ser compartilhado e deve dar os seus frutos”, como escreve Coda.

Como ler esta obra? “Todos esses papéis que escrevi – anotava já a Autora em 25 de julho de 1949 – não valem nada se a alma que os lê não ama, não está em Deus. Valem, se nela é Deus que os lê”. É uma lei elementar para a compreensão de toda obra: colocar-se no mesmo nível dela. Para compreender o Paraíso de 1949 de maneira adequada, é indispensável colocar-se com sinceridade à escuta da experiência de sua autora e, de certa forma, entrar com ela naquele “Paraíso” do qual o livro dá testemunho. Chiara Lubich estava convencida disso. Quando, em 22 de novembro de 2003, retomou a leitura de seu escrito, junto com um pequeno círculo de professores que havia reunido ao seu redor, chamado “Escola Abba”, anotou em seu texto: “Desta vez, vamos lê-lo com o objetivo de nos convertermos, traduzindo-o em vida. Devemos fazer com que a Escola Abba se torne o Paraíso. Aliás, só assim se compreendem os conteúdos destes volumes…”.

Fabio Ciardi, OMI
Foto: © Carlos Mana – CSC Audiovisivi


[1] Alba Sgariglia é responsável pelo Centro Chiara Lubich, investigadora do Centro de Estudos do Movimento dos Focolares e membro da Escola Abbà na área teológico-mariológica.

[2] Piero Coda é secretário-geral da Comissão Teológica Internacional e professor de Ontologia Trinitária no Instituto Universitário Sophia. Foi presidente da Associação Teológica Italiana de 2004 a 2011.

Chiara Lubich: lançamento do livro “Paradiso ’49”

Chiara Lubich: lançamento do livro “Paradiso ’49”

Sai hoje nas livrarias o último volume, dentre os publicados até agora, que reúne o que foi deixado escrito por Chiara Lubich sobre a sua experiência mística: Paradiso ’49. Un testo per molti aspetti singolare, que, com certeza, terá uma recepção calorosa. Sobretudo porque, pela primeira vez, está disponível ao grande público, sem cortes, a fonte da aventura cristã que fez de Chiara uma protagonista da segunda metade do século passado. É a entrega de uma herança que em grande parte ainda deve ser explorada e implementada.

Sim, a última fonte: que não é fruto de sua imaginação – mesmo que genial – nem só de uma inspiração original que foi concedida a ela. É algo a mais e mais diverso. É algo, como escreve o filósofo Jean-Luc Marion, que vem do ailleurs: daquele “outro lugar” que em Jesus nos foi dado de uma vez por todas “de dentro” e “de baixo” da história que vivemos, com suas magníficas e incríveis expressões e surpresas e com suas provas dramáticas e conturbadas.

A trajetória da Igreja ao longo dos séculos conhece bem esse repropor-se sempre novo de Jesus, como promovido por ele mesmo: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”. Um evento sempre imprevisível e surpreendente. Como obra do Espírito que “é como o vento que sopra onde quer e ouve a voz, mas não sabe de onde vem e para onde vai”. E mesmo assim se torna reconhecível e apreciável.

O Paraíso de 49, novamente e de forma inédita, é todo esse testemunho desarmado e fiel. Nisso, é preciso reconhecer com sinceridade seu primeiro valor. E não podemos não ser imensamente gratos a Chiara que, no fim – não sem antes ter querido garantir acuradamente que tudo estivesse em conformidade com a fé da Igreja – quis nos dar esse presente. Porque o considerou precioso e se reconheceu como responsável: como um dom de Deus não só para ela, mas para todos. Daqui um segundo valor dessas páginas: as que estão destinadas a revestir a Obra de Maria. Ela, que foi forjada no seu DNA carismático, justamente graças aos eventos que foram testemunhados: para ser “o odre novo” destinado a custodiar e entornar com generosidade o “vinho novo” do Espírito assim comunicado. A serviço do caminho do Evangelho na história.

Daqui, enfim, o terceiro e talvez decisivo valor desse escrito: tornar frutífero o recurso decisivo que o evento de Jesus representa hoje para nós. O cristianismo – foi dito – ainda precisa florescer. . E neste desafiador momento de virada histórica, no diálogo fraterno que os discípulos de Jesus são chamados a viver com todos aqueles que buscam a verdade e servem a justiça: não, realmente, ainda não dissemos tudo.

Piero Coda

Foto da capa: © Horacio Conde – CSC Audiovisivi

Páscoa: o fundamento da Grande Esperança

Páscoa: o fundamento da Grande Esperança

A esperança cristã não é fuga da realidade. Nasce em um lugar sem luz, no aperto de uma tumba murada, onde Deus já subverteu o julgamento deste mundo. Justamente por isso, ousa falar em um tempo de guerras (Gaza, Kiev, Darfur, Teerã) e de uma centena de milhões de pessoas que não sabem como chegar ao amanhã.

Nossos dias são compostos de certas expectativas: saúde, um trabalho não-precário, um pouco de paz, uma justiça que não fique só nas palavras. Mas quando se tornam todo o nosso horizonte, ou os sacralizamos como ídolos, ou, na primeira fratura séria, nos refugiamos no cinismo e na resignação.

A Páscoa não apaga essas esperanças, ela as descentraliza. Ela as enraíza em um Outro e, justamente assim, as preserva. O amor mais forte que a morte não nos tira o peso do agir; em vez disso, divide a ânsia de dever salvar o mundo só com as nossas mãos.

A última palavra sobre a história não é a nossa nem a dos vencedores da vez. É a palavra pronunciada sobre o corpo de Jesus. E a palavra da Páscoa nega antecipadamente todas as demandas da morte de ser definitiva. Para Paulo, a ressureição de Cristo não é um episódio isolado na biografia de Jesus. É a abertura de um cenário novo no qual toda a humanidade é arrastada: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.” (1 Cor 15:22). Os padres seguiram essa trilha sem atenuá-la: a ressurreição é o encerramento da natureza humana no seu todo, não o privilégio de poucos afortunados. Em Cristo, Deus já contempla a plenitude da família humana: os vultos dos refugiados no Mediterrâneo, de quem atravessa o Saara, dos civis escondidos nos porões de Darfur. Por isso, cada ferimento à dignidade, cada corpo descartado, não é só injustiça social; é profanação de uma humanidade que foi pensada e amada dentro da luz do próprio Ressuscitado.

© Mourad Saad Aldin by Pexels.com

Paulo ainda alarga o olhar: “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8:22). Não é somente a consciência humana que geme, mas o solo, o ar, os mares. Em 2026, a linguagem das “dores” não soa como simbolismo pio: lemos nos alagamentos, nas arrecadações incertas, nos vilarejos que devem se mudar porque a água é escassa. Esse gemido tem a forma de um protesto; a criação se recusa a ser tratada como material usado e descartado, e a Páscoa lhes dá voz. Em Cristo ressuscitado, o uso da terra já aparece como aquilo que é: uma escolha contra o futuro de todos.

Então, como se vive entre um cumprimento já iniciado e uma história ainda atravessada por tantos fracassos? Não com uma paralisia nem com o otimismo de fachada. Vive-se sabendo que nada daquilo que é autenticamente bom é perdido: um gesto de acolhimento, uma escolha de renúncia, um trabalho honesto levado adiante em condições desfavoráveis. Bento XVI lembra que “cada ação séria e honesta do homem é esperança em ação” e inclui entre esses empenhos inclusive o trabalho por um mundo mais humano, sustentado por grandes esperanças que repousam sobre as promessas de Deus (Spe Salvi, 35). E podemos dizer mais: não é um acréscimo externo ao Reino, mas já é um fragmento visível. O encerramento pertence a Deus e, todavia, Deus insiste em passar através de nós. Quando nos empenhamos pelos refugiados, pelo desarmamento, pelas condições de trabalho menos desumanas, por uma paz concreta e não retórica, não estamos somente “preparando” algo que virá depois. Estamos deixando que a vida do Ressuscitado tome forma, humilde e frágil, dentro do nosso tempo.

A esperança pascal não fica como uma ideia ou sentimento; toma forma. A ressurreição diz que as lógicas de morte não têm autoridade para decidir o desfecho final e, por isso, toda guerra, todo sistema de exploração, toda indiferença lúcida já está desmascarada e privada do último sentido do túmulo vazio. No sepulcro deste mundo, algo já mudou para sempre: a vida começou a subir pelas fissuras da história. Não como consolo vago nem como “recompensa” em um outro lugar indefinido, mas como qualidade que, em Cristo, já foi entregue à humanidade e à toda criação. No julgamento de Deus revelado na Páscoa – um julgamento que liberta, não que esmaga – foi decidido uma vez por todas que a morte não poderá se gabar de dar a última palavra sobre ninguém e sobre nada.

Esta é a grande esperança.

Feliz Páscoa: uma esperança que não se fecha na igreja, mas coloca as mãos na história.

Declan J. O’Byrne
Instituto Universitario Sophia
Publicado originalmente em
Loppiano.it

Foto da capa: Detalhe do vitral do Santuário Maria Theotokos, Loppiano

Olhos de Páscoa

Olhos de Páscoa

Desejo a todos nós olhos de Páscoa,
capazes de olhar
na morte, a vida,
na culpa, o perdão,
na separação, a unidade,
nas feridas, a glória,
no homem, Deus,
em Deus até ao homem,
no eu, o Tu.
E junto a isso, toda a força da Páscoa!

(Páscoa 1993)

Klaus Hemmerle
(La luce dentro le cose, Città Nuova, Roma 1998, pag. 110)

Foto: © Aakash-Sunuwar by Pexels.com