Movimento dos Focolares

A Sicília, Itália, recebe o Primeiro encontro por um Mediterrâneo de Fraternidade

Out 16, 2026

De 7 a 11 de outubro foi realizado, em Palermo (Itália), o congresso “Mediterrâneo sem fronteiras, povos em rede pela fraternidade”, promovido pelo Movimento dos Focolares.

Mar nostrum, ou melhor, mar que nos acomuna. O Mediterrâneo é um mar especial, quase fechado, com uma superfície de cerca 3 milhões de quilômetros quadrados, que liga três dos cinco continentes: África, Ásia e Europa. Num certo sentido, mudando um pouco a perspectiva convencional, podemos enxergar uma costa contínua, que abraça um único mar comum. É isso que acontece, por exemplo, ao observar a obra Mediterrâneo sem fronteiras, da artista e cartógrafa Sabine Réthoré: um mapa que evidencia as relações e conexões entre as populações, cancelando as fronteiras nacionais.

Essa mesma ideia reacendeu um sonho: um Mediterrâneo sem fronteiras; e o congresso “Mediterrâneo sem fronteiras, povos em rede pela fraternidade”, realizado em Palermo, de 7 a 11 de outubro de 2026, tentou torná-lo uma realidade. Trata-se do sonho que Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares, manifestou ainda em 2023, por ocasião dos Encontros Mediterrâneos de Marselha: «Sonho um Mediterrâneo da fraternidade».

Era grande a expectativa por este encontro, idealizado e organizado conjuntamente, durante um ano e meio, por membros do Movimento das várias regiões da Zona Mediterrânea: Norte da África-Oriente Médio, Leste da Europa, Europa ocidental, Itália-Albânia. O resultado foi a participação de 101 pessoas, provenientes de vários países: Espanha, França, Áustria, Irlanda do Norte, Malta, Grécia, Itália, Chipre, Croácia, Eslovênia, Bósnia, Sérvia, Turquia, Líbano, Jordânia, Síria, Terra Santa, Argélia e Marrocos.

Chegamos com muitas expectativas e entusiasmo por este projeto de um Mediterrâneo unido, mesmo sem saber como íamos conseguir concretizá-lo. No aeroporto havia sorrisos, saudações tímidas em outras línguas, entre pessoas que não se conheciam, e cumprimentos mais relaxados quando era possível usar o italiano. Fomos juntos, de ônibus, para o lugar do evento, uma região de montanha, fora da cidade. Havia o desejo de conhecer-se, de descobrir em que maneira cada um atua e suscitar formas novas de colaboração.

Na manhã de quinta-feira os trabalhos foram iniciados com uma mensagem de Margaret Karram, apresentada pelos delegados das diferentes regiões. Em seguida, uma mesa-redonda, moderada pro Michele Zanzucchi, permitiu olhar o Mediterrâneo sob vários ângulos, com intervenções de Daniele Spadaro, Pasquale Ferrara, Naji Karam e do autor deste artigo.

Uma parte substancial do Congresso foi construída pelas experiências de fraternidade vivida, no território que cada um de nós trazia consigo. Dentre estas, 13 foram apresentadas no plenário. As ações abrangiam desde a educação até à cooperação intercultural e internacional, passando pelo diálogo inter-religioso, pela arte, pelo esporte, pela acolhida, pela inclusão e o desenvolvimento social.

Desse modo, vimos como no Líbano, e em tantos outros países do mundo, o Dado da Paz, de Living Peace, ajuda as crianças a transformarem seu modo de ver e seu comportamento, construindo a paz no dia a dia. Uma experiência semelhante é feita em Zagreb, na Croácia, onde a escola de ensino fundamental dá seu testemunho de paz com o Dia da não violência. Ou ainda a da associação Zajedno, onde a paz é construída por intermédio da cooperação entre escola, casa estudantil e hospital.

Alguns dos participantes do Congresso Mediterrâneo sem fronteiras, povos em rede pela fraternidade. Palermo, outubro de 2026. Foto: Rede Mediterrâneo de Fraternidade.

Escutamos de que forma Belfast, na Irlanda do Norte, tornou-se uma cidade-refúgio (Sanctuary city), capaz de promover a cultura da acolhida e de apoiar os refugiados, oferecendo possibilidades concretas para que tenham uma verdadeira integração. Da mesma forma, foi partilhada a experiência de serviço realizada em Lampedusa, em contacto com os migrantes. E a da cooperativa Fo.Co., Ragusa (Itália), que soube gerar bem financeiro e social através da inserção de jovens e migrantes no trabalho, desenvolvendo relações de fraternidade e ‘boa vizinhança’; soluções habitacionais engenhosas e outros serviços para a comunidade, sem cair na lógica do assistencialismo.

E não faltaram iniciativas de tipo intercultural e interconfessional, como a que existe em Pisa (Itália), que favoreceu um pacto de comunidade participativa e de reciprocidade, direcionado à fraternidade e à convivência civil, graças à reestruturação de espaços, em paróquias, que se encontravam em estado de abandono.

A arte demonstrou a sua versatilidade para contribuir à unidade dos povos: viajando com a música de Sarajevo a Beirute; bailando com o laboratório acadêmico de dança “Harmonia entre os povos”; visitando uma galeria de arte, no coração da Argélia. Todas experiências que buscam superar a desconfiança e as feridas do passado, transformando o olhar e criando novos relacionamentos.

Outras atividades concentram-se na cooperação entre os países, como a Palestina que conseguiu ajudar os artesãos locais graças à venda dos seus produtos na Itália. Ou de “Uma ponte para o Líbano” e “A Esperança OdV”, que dão suporte médico à população libanesa com o envio de medicamentos. Ou ainda o Centro La Pira e o Conselho dos Jovens do Mediterrâneo, que dão apoio aos jovens e buscam a unidade entre as cidades, para construir um mundo unido.

Durante o congresso os participantes assistiram a conferência “Mediterrâneo sem fronteira”, apresentada pelo arcebispo de Palermo, D. Corrado Lorefice, a professora judia Luciana Pepi e o Imã Akraf Aluani.

Da esquerda, o Imã Akraf Aluani, D. Corrado Lorefice e a professora Luciana Pepi durante a conferência Mediterrâneo sem Fronteiras, Palermo, 9 de outubro de 2026. Foto: Rede Mediterrâneo de Fraternidade.

«O Mediterrâneo acolhe diferentes religiões, culturas e línguas, que se configuram com vista à única perspectiva do encontro e do diálogo. O encontro é sempre ameaçado, o diálogo não é sempre fácil. Mas não existe outro chamado ou vocação senão este», afirmou o arcebispo; e ressaltou ainda a percepção de que «não podem existir processos de encontro se não somos capazes de nos olharmos nos olhos, porque é no semblante do outro que nós nos reconhecemos».

A Professora Pepi narrou de que modo as três religiões se encontram em Palermo, e assegurou que a convivência pacífica é possível, ainda que signifique caminhar contra a corrente.

E, enfim, o Imã Aluani evidenciou que «Palermo jamais deixou de esperar e de dar esperança para a paz», salientando o papel das religiões para alcançá-la, considerando as diversidades como uma possibilidade de crescimento.

Testemunhos de fraternidade no congresso Mediterrâneo sem fronteiras, povos em rede pela fraternidade. Palermo, outubro de 2026. Foto: Rede Mediterrâneo de Fraternidade.

Para além das intervenções individuais, foram decisivos os trabalhos em grupo, organizados por áreas temáticas e línguas, que permitiram aprofundar as várias experiências e refletir sobre novas sinergias e colaborações futuras. Já nos momentos de pausa, era possível encontrar por todo o lado conversas a dois ou em pequenos grupos, marcadas por uma escuta ativa e interessada.

Não faltaram, durante o congresso, as apresentações artísticas, que trouxeram para dentro do auditório os ritmos e as paisagens dos vários povos e tradições do Mediterrâneo.

Terminado o evento, resta o questionamento sobre como levar adiante, concretamente, os trabalhos conjuntos e as propostas apresentadas, mas também a certeza de que partirá daqui um laboratório de fraternidade. Como afirmaram alguns dos participantes: «esta experiência virou o paradigma de cabeça para baixo; este encontro foi uma guinada para a Europa». Quem o viveu em primeira pessoa percebeu que nascia algo novo, que necessita de redes que se movimentem e se alarguem, já enxergando, com confiança, que o Mediterrâneo da paz será uma obra prima.

Candela Copparoni
(publicado originalmente em www.cittanuova.it)

Foto de capa: Cidade de Palermo, Itália – © Mauro Reem-Itchy by Pexels

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