Movimento dos Focolares

Comunicação em tempo de guerra: diálogo transversal para uma ética comum na JMJ

Durante a Jornada Mundial da Juventude de 2023 em Portugal, o percurso de DIALOP vai um passo além. 134 jovens de 20 países participaram do “Comunicação em tempos de guerra” promovido pela DIALOP durante a JMJ para discutir como as mídias sociais e a tecnologia digital podem se tornar armadilhas de conspiração e interesses tendenciosos durante os conflitos.

O percurso

Cristianismo e socialismo – dois movimentos com características muito diferentes – há muito tempo estão em desacordo um com o outro, mas ambos moldaram a história mundial nos séculos passados. Partindo da ideia de que os grandes desafios do mundo atual não podem ser resolvidos sozinhos, DIALOP promove o diálogo entre pessoas de boa vontade, com formação secular e religiosa, especialmente entre socialistas/marxistas e cristãos, para criar uma ética transversal transformadora.

Trazer o DIALOP para a Jornada Mundial da Juventude faz parte do “Projeto Diálogo” que, em colaboração com a Comunidade Europeia e envolvendo 14 organizações da sociedade civil, explora e desenvolve o diálogo muitas vezes desafiador entre diferentes grupos, para moldar uma Europa cada vez mais expressão daquela “unidade na multiplicidade”.

A preparação, que envolveu especialistas cristãos e marxistas-socialistas, começou seis meses antes do evento, um tempo movimentado e cansativo rumo à JMJ. Os desafios foram muitos, como encontrar uma forma dinâmica de mediar conteúdos pesados ​​como conflito e comunicação, idiomas, países e diferentes origens. “A emoção foi a de se deparar com uma geração sedenta de verdades e esperanças tranquilizadoras, fundamentadas e claras e de poder dar alguma”, diz Luisa Sello, uma das coordenadoras do projeto.

Jovens em diálogo

A guerra e seu potencial destrutivo influenciam a estrutura da comunicação, transformam a percepção dos fatos e exploram a linguagem e as mentalidades. Nesse contexto, as mídias sociais e a tecnologia digital podem se tornar armadilhas para conspirações e interesses tendenciosos. Podemos nos aproximar da verdade? Podemos revidar ou estamos fadados a destruir relações com seres humanos, países, populações por causa de mentiras e desinformação? Como podemos continuar a fazer escolhas, construir relacionamentos e ficar do lado da verdade e da justiça?

Todas estas questões foram abordadas no workshop que envolveu os jovens na construção de propostas para a União Europeia, que serão recolhidas e apresentadas à UE no âmbito do projeto de financiamento da Comissão Europeia CERV (Programa Cidadãos, Igualdade, Direitos e Valores) em março de 2024. Após os painéis e dinâmicas de discussão, a pergunta “o que podemos fazer?” ecoou entre os jovens. O desejo de fazer parte de uma transformação como agente de mudança está no coração de cada jovem presente.

Steven, dos Estados Unidos, que quer ser sacerdote e viajar para o exterior para ajudar as pessoas, compartilhou suas preocupações: “Não posso nem dizer aos meus pais para parar de ler fontes de informação que são problemáticas. Quando Jesus voltou de Nazaré, ele foi rejeitado por sua família. Muitos de nós perderam a esperança. Onde podemos reencontrar a esperança? Por isso estamos aqui na JMJ”.

Adriana, uma estudante de jornalismo da Argentina, sentiu-se encorajada pelo workshop: “Nosso papel como jovens é muito importante para combater a desinformação e também pode ser feito de uma forma divertida. Se criarmos uma comunidade podemos ser mais fortes.”

Ruma a uma ética transversal

O curso da história não depende apenas da força das ideias, mas sobretudo da evolução dos interesses políticos e econômicos que muitas vezes integram apenas pálidos reflexos dessas ideias. O convite do Papa Francisco em 2014 que inspirou o DIALOP a iniciar um diálogo transversal continua a se desenrolar.

Questionado por um jovem sobre como criar um quadro ético comum na presença de tantas divisões, Walter Baier, presidente do Partido da Esquerda Europeia, respondeu: “O Papa Francisco disse que devemos aceitar o conflito como algo natural, o que devemos saber é o que fazer com o conflito. O fato de cristãos e marxistas de tradições muito diferentes, mesmo com idiomas muito diferentes, poderem sentar-se juntos e trabalhar em uma estrutura comum é um exemplo de diálogo”.

Também participaram dos debates Angelina Giannopoulou, da Transform! Europe, e José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, assim como Michele Zanzucchi e Ana Clara Giovani, da Sophia University, e Maria Chiara de Lorenzo, do Movimento dos Focolares. No futuro, dentro do projeto Diálogo, o DIALOP organizará outros simpósios sobre ecologia e políticas sociais. Para obter mais informações, faça login em https://dialop.eu.

Ana Clara Giovani

Lisboa 2023: “Há Pressa no Ar”, hino oficial da JMJ

Lisboa 2023: “Há Pressa no Ar”, hino oficial da JMJ

Um canto uníssono entoado pelos jovens de todo o mundo. O padre João Paulo Vaz, sacerdote de Coimbra (Portugal) é o compositor da letra do hino da JMJ de Lisboa 2023, transformado em música por Pedro Ferreira, professor e músico. Dois jovens do Movimento dos Focolares (Gen), Lourdes Catalán e Ivan Ho, o entrevistaram. Falta realmente pouco para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2023 e pelas vielas de Lisboa (Portugal), cidade onde ocorrerá esse evento global, já é possível escutar a voz dos primeiros jovens que estão chegando e cantam “Há Pressa no Ar”, hino oficial inspirado no tema “Maria levantou-se e partiu apressadamente” (Lucas 1:39). Vamos descobrir com o padre João Paulo Vaz, sacerdote da diocese de Coimbra e compositor do hino, como ele nasceu. Lourdes: Padre João Paulo, o que representa para o senhor a JMJ e como decidiu participar do concurso para a seleção do hino de Lisboa 2023? Padre João Paulo Vaz: Participei de 5 JMJs na minha vida (Paris, Roma, Toronto, Colônia, Sidney e Madrid), algumas inclusive como responsável da pastoral juvenil da diocese. Cada uma delas marcou o meu percurso como homem, como cristão e como sacerdote. Foram experiências muito intensas de fé e de comunhão e, algumas coisas em particular, deixaram uma marca. Uma delas sempre foi o hino. Quando chegou a notícia de que poderíamos participar do concurso para compor o hino de Lisboa 2023, fiquei muito contente, seja pela minha experiência pessoal, seja como compositor. Decidi apresentar a letra, mas, a um certo ponto, descobri que tinha me esquecido de me inscrever a tempo porque era preciso demonstrar interesse em participar, mesmo antes de apresentar a composição. Quando percebi isso, fiquei muito triste, mas Deus nunca nos deixa sós. Um grupo de participantes que havia se inscrito a tempo e tinha somente a base musical me perguntou se poderia utilizar a minha letra e entrei no concurso. Pouco depois, fiquei sabendo com grande alegria que a minha canção havia sido escolhida. Fiquei muito feliz, porque senti realmente que isso era uma resposta de Deus ao meu desejo. Ivan: Qual mensagem o senhor queria transmitir pela composição desse hino? Padre João Paulo Vaz: Em primeiro lugar, a mensagem que pensei em passar para cada jovem é “Jesus vive e não nos deixa sós: não mais deixaremos de amar”. Por isso, com ele “todos vão ouvir a nossa voz”, como explica a canção, porque não há medo. A letra toda vai nessa direção e Maria, protagonista dessa JMJ, na simplicidade e na humildade da sua figura, representa todas essas coisas: ela que, por primeira eleva a sua voz porque leva consigo Cristo; é a primeira evangelizadora que revela também a nós, com o seu “sim” e a caminho do encontro com Isabel, como levá-lo aos outros. Ivan: Em Lisboa, esperam receber muitos jovens do mundo inteiro. Como se sente ao pensar que todos cantarão esse hino juntos? Padre João Paulo Vaz: É muito importante dizer que, a partir do momento em que a canção é escolhida como hino da JMJ, não nos pertence mais, não é mais nossa. Não é mais a minha letra nem a música composta por Pedro Ferreira. É o hino da JMJ de Lisboa 2023. Eu cantarei com os outros: essa será a maior alegria. Lourdes: Se pudesse sintetizar o hino em uma ou duas palavras, quais seriam? Padre João Paulo Vaz: A primeira é “profundidade”, que significa descobrir quem somos, descobrir Cristo em nós e viver a partir dali; a segunda é “coragem”, para ser a presença de Deus no mundo, para anunciar a vida. É nessas duas palavras que, na minha opinião, floresce a experiência da fé. Ivan: Qual é a sua mensagem pessoal para os jovens de hoje? Padre João Paulo Vaz: Gostaria de usar as palavras do Papa Francisco, pronunciadas em um dos vídeos promocionais da JMJ, no qual convida a ir em frente sem medo, construir um mundo melhor e ser protagonistas. Precisamos tanto que os nossos jovens deem mais valor ao mundo, que voltem aos valores verdadeiros. É necessário abandonar o medo e estar conscientes de que são eles mesmos, os jovens, que construirão um futuro melhor. Então, querido jovem, você não pode ficar parado, observando o mundo da poltrona: deve se levantar e partir, como Maria. A JMJ, e esta em particular, é uma oportunidade para dizer que você acredita e que está disposto a fazer aquilo que Deus lhe pede; mais do que qualquer outra coisa, você não está sozinho nisso. Um mundo inteiro de jovens e o papa estão prontos a caminhar com você.

Lourdes Catalán e Ivan Ho

Viver a oração

Penetrar na oração significa reencontrar o centro do encontro entre o eu e a presença de Deus na nossa vida. Chiara Lubich, padre Pasquale Foresi e Igino Giordani, com palavras cada vez mais atuais, traçam as linhas de uma espiritualidade civil, de todos, vivida nas ruas das cidades do mundo.  […] Eu percebi que os tempos modernos pedem uma oração particular. […] Antigamente se pensava que o mundo e o cosmo estivessem parados, estáticos. Devíamos encontrar Deus admirando as estrelas, as flores… na contemplação, na paz, a união com Deus, nos momentos de recolhimento, de oração na igreja diante do Santíssimo. No entanto, agora, com os estudos da ciência moderna, […] viram que o mundo está em contínua evolução, em mutação. Tudo se transforma, caminha para atingir a perfeição. E o homem não pode mais estar parado em contemplação, deve participar com Deus desse movimento, dessa evolução, da criação. Por isso, tudo o que vocês fazem na escola, no escritório, na fábrica ajuda a construir, com Deus criador, o mundo e fazê-lo progredir. Devemos agir assim, pensando que colaboramos com Deus criador. Portanto, o nosso trabalho é sagrado; somos um braço de Deus criador que continua a construir o mundo. […]

Chiara Lubich (Castel Gandolfo, 25 de fevereiro de 1989 em “O Respiro de Deus” organizado por Fabio Ciardi, Città Nuova, 2022, p.122-123)

  Outra forma de oração, muito importante, pode ser praticada no trabalho. Penso principalmente nos operários das fábricas, em todas as pessoas que durante o dia têm uma grande sobrecarga de cansaço que quase anula a própria capacidade de pensar e, portanto, em certo sentido, também de rezar. Se, pela manhã, com uma simples intenção oferecermos a Deus a nossa existência diária, viveremos profundamente a relação com Deus durante o dia. Creio que se esses trabalhadores, à noite, mesmo que por poucos momentos – por estarem cansados – se unirem a Deus, encontrarão a unidade com Ele; e a encontram porque viveram todo o trabalho na relação com Ele. Isso é o mais importante: viver o verdadeiro relacionamento com Ele. No fundo, a humanidade está aberta para ouvir isso hoje: que todo o universo e tudo o que acontece nele seja entendido e transformado, religiosamente, em uma grande oração que se eleva do mundo até Deus.

Padre Pasquale Foresi (em “Deus nos chama. Conversações sobre a vida cristã” Città Nuova, 2003, p.116)

  Esta manhã tive a impressão de ter me aproximado de Deus. Creio que nunca o tinha sentido tão perto. Minha alegria foi e é muito grande. Sinto que encontrei livre acesso para ir até Ele; e meu propósito é não me afastar mais Dele. Com a graça de Deus, venci os impedimentos que me mantinham agarrado à terra. Agora estou na terra e vivo no céu (a minha ambição é enorme, mas a misericórdia Dele é maior. Eu o amo muito). Os impulsos da vaidade, das preferências nas amizades já não me atrapalham. Vou diretamente a Deus, descartando esses empecilhos. Os homens podem me trair, caluniar, matar: mas eu tenho Deus; eu os amo, sem depender deles. Sou de Deus, não preciso de mais nada.

Igino Giordani (em “Diário de Fogo”, Città Nuova, 1992, p.196)

Activar legendas em português https://youtu.be/T9In5BW88kw

50 anos de Loppiano Prima: amor à criação e profecia em progresso

50 anos de Loppiano Prima: amor à criação e profecia em progresso

Nos dias 27 e 28 de maio, ocorreu em Loppiano (Florença – Itália) um encontro para celebrar o aniversário da Cooperativa Loppiano Prima. 50 anos depois daquele dia 19 de maio de 1973, data em que foi constituída, o evento foi uma ocasião única para recordar os momentos da fundação, fazer um balanço do caminho feito e relançar a atividade produtiva e comercial com um olhar aberto para o futuro. Compartilhamos aqui a entrevista com Maria Ghislandi e Giuseppe Marvelli, dois dos primeiros sócios fundadores. “Sem memória não há futuro. Portanto, retornar às raízes é determinante e nesta pausa queremos evidenciar o nosso comprometimento contínuo em recuperar, renovar e declarar no presente, as inspirações fundadoras e as inspirações proféticas entregues naquele tempo por Chiara Lubich à Cooperativa.” Com essas palavras, Beatrice Vecchione, atual presidente da Cooperativa Loppiano Prima, deu início à celebração intitulada O amor à criação, uma profecia em progresso, um momento especial para recordar os 50 anos da fundação da Cooperativa que aconteceu nos dias 27 e 28 de maio de 2023 no Auditorium de Loppiano, a mariápolis permanente internacional do Movimento dos Focolares, próxima a Florença (Itália). Um fim de semana de troca e partilha com um olhar à ecologia, que revelou o coração desta experiência precursora da agricultura ecológica justamente durante a Semana Laudato Sì. “A Loppiano Prima”, continua Beatrice Vecchione, tem uma fisionomia e característica típica que o título evoca e sintetiza bem porque se trata, sem dúvidas, de 5 décadas de “amor à criação e de uma profecia em progresso”, profecia essa que, voltando às raízes, conta também Raffaella Pinassi Cardinali, é pioneira e desde sempre um ponto de referência para a cooperativa agrícola que nasceu em 1973 na onda de um desafio: aquele de apoiar a construção e o desenvolvimento da mariápolis permanente de Loppiano. A partir de 19 de maio daquele mesmo ano, com 8 sócios fundadores com o desejo de fazer frutificar os terrenos que haviam sido doados pela família Folonari ao Movimento dos Focolares nas colinas do Chianti, no Valdarno florentino, nasceu Loppiano Prima, uma cooperativa de capital aberto que conta hoje com 3256 sócios. Como diz o Estatuto, “não tem finalidade especulativa e é regida por princípios de mutualidade prevalente”. Além disso: “sua finalidade principal é a realização do interesse geral da comunidade na promoção humana e na integração social dos cidadãos, assim como contribuir para a concretização da fraternidade universal”. Foi assim que, nos últimos 50 anos, nos terrenos não cultivados, que haviam sido abandonados devido à emigração de tantos camponeses no pós-guerra, a Cooperativa Loppiano Prima se tornou protagonista de uma experiência peculiar de agricultura ecológica ante litteram, que colocou a humanidade, a natureza e a relação entre elas no centro. Um sujeito ativo e operante dentro de Loppiano, mas presente no território e para o território, fruto da generosidade, da tenacidade e da paixão em particular de tantos voluntários de Deus do Movimento dos Focolares que, há 50 anos, sentiram o chamado a responder a essa profecia de Chiara Lubich: dar Deus com o trabalho; fruto, sobretudo, da fé de quem acreditou e quis tomar conta desse sonho que hoje recebemos como herança: amar a criatura, fazendo da própria vida testemunho verdadeiro do Evangelho. Compartilhamos as palavras de Maria Ghislandi e Giuseppe Marvelli, dois dos primeiros sócios fundadores de Loppiano Prima. https://youtu.be/IQzEiEkzwAQ

Indonésia, o diálogo como um estilo de vida

A viagem na Ásia e na Oceania de Margaret Karram e Jesús Morán, Presidente e Co-presidente do Movimento dos Focolares chegou ao fim. Aqui algumas notícias sobre o que viveram na última etapa: Indonésia Panongan (Indonésia), 17 de maio de 2023 – São 8 horas na paróquia católica de Santa Odélia, cerca de duas horas de Jacarta. O arcebispo Ignatius Suharyo, cardeal da capital indonésia, convidou representantes do governo e das forças de segurança pública, da prefeitura, dos povoados e dos líderes religiosos muçulmanos, budistas e hindus para apresentar à Presidente e ao Copresidente do Movimento dos Focolares um projeto social pioneiro, realizado em ampla sinergia com todas as forças da sociedade civil mencionadas, para a cidade de Tangerang/Banten. Com mais de dois milhões de habitantes, essa é a terceira área mais populosa a oeste de Jacarta, a capital da Indonésia, que com todas as suas cidades-satélites atinge quase 30 milhões de habitantes. É uma área onde há grande desenvolvimento, mas também desigualdade econômica, e a população dos povoados é pobre, ocupa-se do cultivo de arroz, vive dos produtos da terra e das pequenas: avicultura, caprinocultura e bovinocultura. A paróquia está localizada em uma região de maioria muçulmana. Padre Felix Supranto – “Romo Felix” para todos (“romo” significa “pai” em bahasa, o idioma oficial do país) é o dinâmico pároco de Santa Odelia e tem o dom de saber unir as pessoas. Ele dá as boas-vindas, com os muitos paroquianos que ao longo dos anos ele envolveu em vários projetos sociais. “O diálogo que cultivamos aqui, com irmãos de diferentes religiões é concreto”, explica o cardeal, “ele está voltado às necessidades do povo. Há necessidade de casas, de criar oportunidades de trabalho, de fornecer água para os povoados. Estamos trabalhando para isso “juntos”, e é importante que a Presidente e o Copresidente do Movimento dos Focolares tenham vindo até aqui para ver o que poderia ser um modelo de diálogo também fora da Indonésia. O lema do nosso país é ‘unidade na diversidade’ e isso expressa muito bem quem somos e como enfrentamos os desafios”. “Estamos honrados pela presença de vocês entre nós”, disse o Padre Felix a Margaret Karram e Jesús Morán, “para compartilhar o caminho que estamos percorrendo. Até o momento, construímos 12 casas para ajudar os pobres e é esse trabalho conjunto que nos torna irmãos, apesar das nossas diferenças. O dia continua com uma visita a uma escola com crianças de 6 a 15 anos. Em vários vilarejos onde, graças aos fundos arrecadados, foi possível levar água, iniciar um pequeno rebanho de vacas, cabras e um viveiro de bagres, onde o valor agregado é justamente o envolvimento total de todos: instituições e habitantes locais. A visita à Madrassa – uma escola islâmica – é o último compromisso desse primeiro dia “no campo” que nos mostra o caráter comunitário e solidário, a verdadeira força desse país. Bhinneka Tunggal Ika – somos diferentes, mas somos um só Bhinneka Tunggal Ika, “Somos diferentes, mas somos um”, é de fato o lema da Indonésia, inscrito no brasão nacional que representa uma antiga divindade, a águia javanesa. O país dos registros Com suas 17.000 ilhas e mais de 300 grupos étnicos, cada um com sua própria e vibrante tradição cultural, a Indonésia é um país de muitas diversidades. E hoje, a população tem orgulho de se apresentar ao mundo como um exemplo de tolerância e coexistência entre diferentes culturas e religiões. Um exemplo claro: a Mesquita Istiqlal (da Independência) em Jacarta é a maior do sudeste asiático. Ela está localizada em frente à catedral católica e, durante as principais festas cristãs, como o Natal, a mesquita oferece apoio, disponibilizando vagas no estacionamento para os fiéis cristãos e vice-versa para as festas islâmicas. A Indonésia tem a maior biodiversidade do planeta, mas o desmatamento e a exploração de recursos ameaçam a preservação desses ambientes naturais com sérias consequências. A riqueza econômica não é distribuída com equidade e se estima que 27.000 famílias milionárias (0,1% da população) possuam mais da metade da riqueza do país. Embora não seja fácil obter estatísticas exatas, a população atual é estimada em 273 milhões de habitantes, tornando a Indonésia o quarto país mais populoso do mundo. É o país com a maior população muçulmana do mundo (86,1%); os cristãos de várias igrejas representam 10,53%, e a religião é registrada na carteira de identidade. Os focolarinos do Sudeste Asiático e do Paquistão Jacarta, 19 de maio de 2023 – Olhando para os focolarinos da região do Sudeste Asiático e do Paquistão, que chegaram a Jacarta para se encontrar com Margaret Karram e Jesús Morán, vem à tona todo o potencial do continente asiático, ou seja, o possível encontro entre povos e culturas muito diferentes: da Tailândia a Myanmar, do Vietnã à Indonésia, Cingapura e Malásia. Muitos se conectaram pela internet, como os focolarinos do Paquistão, mas a distância não impediu uma comunhão profunda, na qual emergiram tanto os desafios da inculturação em cada país, quanto a força da unidade, capaz de alcançar as mais diversas áreas. Havia uma grande atenção por parte de todos durante a sessão de perguntas e respostas com Margaret Karram, Jesús Morán, Rita Moussallem e Antonio Salimbeni (responsáveis pelo diálogo inter-religioso do Movimento dos Focolares). As focolarinas de Ho Chi Minh (Vietnã) perguntaram como difundir a espiritualidade da unidade nesta época em que é difícil despertar o interesse das pessoas, especialmente dos jovens. “Nessa viagem à Ásia e à Oceania”, explica Margaret, “percebi que o modo que adotamos até agora para apresentar a espiritualidade da unidade precisa mudar, porque a sociedade mudou. Todos nós vivemos tão “conectados” uns aos outros que precisamos encontrar uma maneira de apresentar as várias vocações, não cada uma por si, mas uma ao lado da outra. Talvez assim, quando nos encontrarmos como uma comunidade do Movimento dos Focolares no âmbito local, será Deus a falar ao coração de cada um, a chamar para percorrer os diferentes caminhos. Vejo que o que toca o coração das pessoas é a atenção pessoal, a construção de relacionamentos verdadeiros, feitos de amor desinteressado. Elas devem encontrar em cada um de nós um irmão, uma irmã, um amigo. Somente quando tivermos construído um relacionamento é que poderemos convidá-las a conhecer a espiritualidade do Movimento dos Focolares”. “Às vezes temos a impressão de que não dispomos dos métodos adequados para despertar o interesse das pessoas pela espiritualidade da unidade”, continua Jesús nesta mesma linha, “mas cuidado para não ceder à tentação de se adaptar à corrente do mundo com o objetivo de ser aceito a qualquer custo. Temos que estar no mundo, porque ele é bonito, Deus o criou. Mas devemos sentir o contraste com o mundo; é algo cristão experimentá-lo, porque pertencemos a uma verdade, a verdade de Cristo, que vai para além do mundo”. O diálogo como um estilo de vida Jacarta, 20 de maio – Yogyakarta, 21 de maio de 2023 – “Desde fevereiro de 2021, nossa vida em Mianmar mudou completamente. Minha região é aquela em que o conflito é mais grave. Ninguém deveria ouvir as explosões de artilharia e bombardeios aéreos, isso não é humano. Enraizados em Deus e concentrados em viver no presente – porque não sabemos se existiremos amanhã – continuamos a levar amor e nova esperança ao nosso povo. A cada dia, compreendo mais e mais o convite de Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13)”. Foi o que nos disse Gennie, birmanesa, que trabalha para uma agência humanitária que cuida de pessoas desabrigadas, mais de um milhão desde o golpe de Estado. O seu testemunho, entre tantos, nos falou sobre a vida e os desafios das comunidades do Movimento dos Focolares no sudeste asiático, no fórum “O diálogo como estilo de vida”, realizado em parceria com a Universidade Católica de Jacarta “Atma Jaya”. Participaram 290 pessoas de várias partes da Indonésia e de diferentes países do sudeste asiático. Outras 300 pessoas vieram do Paquistão e de outros países. No centro dos testemunhos está a cultura do diálogo que é vivida diariamente nessas terras, tornando-se um estilo de vida, até mesmo econômico, como conta Lawrence Chong, de Cingapura. Desde 2004, ele dirige uma empresa de consultoria de gestão com dois outros sócios, um metodista e um muçulmano, de acordo com os princípios da Economia de Comunhão. “Hoje estamos presentes em 23 países e nosso trabalho é provocar mudanças, interferir no sistema econômico e melhorá-lo, com base nos princípios da interdependência e do amor mútuo.” Após a confraternização em que os vários povos abriram suas portas para a grande riqueza cultural e a variedade de tradições, Margaret Karram e Jesús Morán responderam a algumas perguntas e compartilharam suas primeiras impressões sobre essa viagem. “A Ásia é o continente onde o sol nasce, enquanto nós viemos da Europa, onde o sol se põe”, disse Jesús. “Na Ásia e na Oceania, encontramos uma Igreja muito viva, bem como a presença de diferentes religiões, e fomos inundados por essa luz que encontramos na profunda humanidade das pessoas. Encontramos muita esperança para a Igreja, para a Obra de Maria. E essa esperança não diminuirá se essas pessoas permanecerem fiéis a si mesmas. É claro que também vimos os problemas: pobreza, conflitos, guerras. Portanto, é verdade que o sol está nascendo nessas terras, mas também temos diante de nós um grande desafio: que o Evangelho também seja portador de uma mensagem de libertação para esses povos”. O Núncio Apostólico, Dom Piero Pioppo, que veio celebrar a Santa Missa, nos fez os votos que a palavra da unidade e da comunhão possa florescer e se espalhar neste mundo que, dela, tem extrema necessidade. As raízes do movimento na Indonésia Em Yogyakarta, Margaret e Jesús também foram recebidos pela comunidade dos Focolares com a tradicional dança de boas-vindas. O encontro foi como que um passeio na riquíssima cultura e tradições javanesas e uma oportunidade para conhecer as raízes e o desenvolvimento do Movimento na Indonésia, onde, depois de várias viagens das Filipinas desde o final dos anos 1980, o focolare chegou em 2004, em Medan. Contudo, ninguém jamais esquecerá do ano 2006, do terrível terremoto que provocou milhares de mortes, com epicentro na ilha de Java, na região de Yogyakarta, onde hoje se encontra o focolare. Bapak Totok, um dos animadores da comunidade local, conta como o Movimento dos Focolares, com a população local, arregaçaram as mangas para ajudar a construir 22 “Pendopo” (centros comunitários, em 22 povoados) e um projeto social. Eles foram um sinal de paz e unidade, mesmo entre pessoas de diferentes credos religiosos. Universidade Islâmica Sunan Kalijaga: em diálogo para promover a fraternidade Yogyakarta, 22 de maio de 2023 – Com 20.000 alunos, a Universidade Sunan Kalijaga é um importante centro acadêmico nacional de estudos islâmicos e, desde 2005, conta também com um Centro Cultural para o Diálogo Inter-religioso. Diante de 160 estudantes, docentes e membros da comunidade local do Movimento dos Focolares, Margaret Karram, com Rita Moussallem e Antonio Salimbeni, participaram do seminário “Em diálogo para promover a fraternidade”. Um tema que repercute aqui de modo muito especial, pois o diálogo “ultrapassa” as salas de aula das universidades ou os fóruns de estudo, pois ao mesmo tempo é o desafio e o fundamento da sociedade indonésia. A presença dos líderes do Movimento dos Focolares é importante”, explica a professora Inayah Rohmaniyah, “porque nos permite dar um passo a mais: não apenas olhar para a Indonésia, mas nos tornarmos juntos construtores de um mundo renovado pelos valores da fraternidade que estamos vivendo, aqui, hoje”. As perguntas dos alunos se concentraram na estratégia do diálogo para integrar as diversidades culturais e religiosas, inclusive em situações de conflito social. “Às vezes falamos muito sobre as dificuldades e pouco sobre as riquezas que essas diversidades trazem em si”, responde Antonio Salimbeni. “Antes de tudo, somos seres humanos, irmãos e irmãs, por isso é importante estar abertos, entender a religião do outro a partir de sua perspectiva; tentar pensar como pensa um muçulmano, como pensa um hindu, ver o mundo como o outro o vê. A viagem termina, mas se abre um mundo 45 dias de viagem, 5 países visitados, vários milhares de pessoas encontradas – 1.500 só na última etapa na Indonésia. Depois de ter conhecido povos e culturas muito diferentes, de ter visto os desafios, mas também a vitalidade da Igreja em países onde o cristianismo é minoritário, de ter visto o diálogo entre pessoas de religiões diferentes que acontece diariamente e que é capaz de dar respostas concretas aos problemas sociais e econômicos dos povos; de ter compartilhado a vida das comunidades dos Focolares nessa parte do mundo, chega ao fim a primeira viagem oficial de Margaret Karram e Jesús Morán à Ásia e Oceania. Não é fácil fazer um balanço imediato, mas a pergunta é oportuna. Margaret compartilhou algumas impressões das últimas reuniões públicas: “Sinto fortemente que Deus está pedindo ao Movimento, na Ásia em particular, mas também em todo o mundo, para dar um passo importante. O diálogo deve se tornar o nosso estilo de vida, o nosso modo de agir em todos os momentos. Não podemos continuar a agir como antes, olhando apenas para o nosso Movimento e realizando nossas atividades. Chegou a hora de sairmos, de trabalharmos com outras organizações, com pessoas de diferentes religiões, como já fazemos aqui. Então, corramos, não há tempo a perder! Essa viagem me confirmou, mais uma vez, que a unidade e a paz no mundo são possíveis. Às vezes, olhando para o mundo atual, com as guerras e injustiças, eu duvidei. Mas em todos os países que visitamos, encontrei muitas pessoas comprometidas com na construção de uma sociedade diferente, na construção de pontes, mesmo com grande sacrifício. Foram elas que me deram a certeza de que juntos podemos fazer a diferença e dar nossa contribuição”.

Stefania Tanesini