Movimento dos Focolares
Na clínica, em Kinshasa

Na clínica, em Kinshasa

Alcuni membri CL Lemba“Um dia estávamos fechando a clínica quando, às 16:30, chega uma mãe com uma criança de oito meses, para fazer um exame de sangue”. Aline M. é enfermeira e bióloga na clínica universitária, em Kinshasa.  Na República Democrática do Congo a taxa de natalidade é muito alta, assim como a da mortalidade, e especialmente a mortalidade infantil. A expectativa de vida no nascimento e a idade média da população são muito baixas. “Os meus colegas já tinham fechado o caderno de registros e queriam ir embora. Lembrei das palavras do Evangelho, que nos ensina a amar o próximo como a si mesmo: “eu tenho que receber essa mãe”, pensei. Eu mesma tirei o sangue do bebê, e quando terminei a mãe disse com voz firme: “Que Deus lhe abençoe, senhora”. C11Assim que consigo convencer a minha colega do banco de sangue a aceitar esta emergência, se apresenta uma situação ainda mais grave. Nessas alturas eram já 17:00hs. Chega uma mãe em lágrimas, sem condições de pagar pela assistência médica, com o seu filho de 4 anos nos braços com o diagnóstico de uma profunda anemia. A minha colega afirma decidida que não seria possível aceitar mais ninguém, “eu vou perder o trabalho!”, exclama Sensibilizada com este sofrimento, pego um papel e atesto por escrito a minha responsabilidade com os custos da transfusão de sangue no menino. Diante disso a minha colega aceitou em fazer o seu trabalho, salvando assim a vida dessa criança. A mãe do menino me disse: ¨Deus a recompensará, vai devolver o dinheiro. Disso eu tenho certeza! “. C04De volta para casa, eu me perguntava: “Como é que, no final de uma jornada de trabalho, eu me encontro com duas mães com crianças sofrendo tanto assim?”. Li então a Palavra de Vida, e encontrei conforto. Alguns dias depois recebo um telefonema do Serviço de Saúde Pública, dizendo que eu tinha sido escolhida, entre todos os meus colegas de trabalho, para participar de um curso profissional de três dias, na minha área, com todas as despesas pagas: um total de $150! Era a resposta de Deus. Por ter dado $25 dólares por uma transfusão de sangue eu tinha recebido duas bênçãos no mesmo dia, e agora uma contribuição financeira que me permitia também pagar as despesas escolares para os meus filhos.

Gen Verde na Hungria, no outro lado

Gen Verde na Hungria, no outro lado

20150928GenVerdeSzeged1“Start Now!”, ou seja: comece aqui e agora. A fazer o quê? A construir relações autênticas, a gerar confiança. Um convite que “pesa ouro”, alguém poderia dizer, e é o que o Gen Verde colocou no título do concerto-workshop apresentado no palco do Tágas Tér Festival, dia 25 de setembro passado, em Szeged (Hungria), e que teve como protagonistas, em oito workshops com as artistas, mais de 120 estudantes de duas escolas médias, sendo uma delas profissionalizante, frequentada por jovens que têm nas costas histórias familiares difíceis. “Tágas Tér, que literalmente significa espaço aberto – explica um dos organizadores –, é um grande evento ecumênico, que mostra a rede das centenas de atividades do mundo da solidariedade civil. Szeged está a 15 km da fronteira com a Sérvia e, portanto, no espetáculo havia pessoas que cotidianamente vivem e assistem a passagem dos milhares de migrantes, com o mar de dúvidas e sofrimentos que essa situação traz consigo. “On the Other Side”: no outro lado – Do concerto fazem parte muitas peças do último trabalho do Gen Verde, “On the Other Side”, lançado menos de um mês atrás. Mas, “qual é o outro lado?”, pode ter sido a pergunta espontânea de muita gente. “É o lado de quem está diante de mim, de quem pensa de modo diferente que eu; é aquela pessoa que não estimo, ou que até rejeito”, explica Adriana Garcia, baixista mexicana do grupo.20150928GenVerdeSzeged2 Um show forte, envolvente, e ao mesmo tempo capaz de colocar em discussão posições, opiniões e estilos de vida, como alguém afirmou. Porque o que emerge das músicas e dos textos é a certeza de que o caminho para a solução, num mundo fragmentado e subdividido por muros, aparece se sabe-se colher a riqueza ínsita na diversidade. Entre as onze peças do álbum há a história do sofrido caminho de um povo inteiro, na música “Voz de la Verdad”, sobre o bispo salvadorenho Oscar Romero, ou a canção sobre a divisão das duas Coreias, extremamente atual e composta com melodias K-pop, quase para mostrar que, entre os jovens coreanos, a ferida ainda não deixou de sangrar. “São histórias que não nos permitem ficar adormecidos na indiferença – comenta uma jovem – ou esquecer os nossos irmãos, separados de nós por uma fronteira. Sentimos um apelo forte: dar até a vida na luta pela justiça”. “É inútil dizer que, talvez por aquilo que estamos vivendo no nosso país com a questão da imigração, o momento mais forte do concerto foi a canção “Quem chora por ti”, uma doce canção de ninar dedicada a uma menina sepultada na tumba azul do Canal da Sicília” – confidenciou uma amiga que trabalha na mídia. E o pastor da Igreja Reformada, Gábor Czagány, um dos organizadores do festival: “O que mais me tocou foi a fisionomia dos jovens das escolas, que participaram dos workshops. Havia alegria, participação, compromisso. Podia-se intuir o efeito da experiência, sete dias que deixaram uma marca. Agora cabe a nós fazer com que nada de tudo isso seja perdido”. 20150928GenVerdeSzeged3Dos jovens, uma esperança de unidade – Alessandra Pasquali, atora e cantora do Gen Verde, faz questão de precisar que “o nosso trabalho não é subir num palco, cantar, exibir-nos e ir embora; não podemos prescindir da construção de relacionamentos autênticos com as pessoas, de ‘captar’ o que vivem aqueles que vem assistir os nossos shows, em que mares navegam os jovens com quem fazemos os workshops”. É por isso que as entrevistas, feitas com os jovens que participam das oficinas e projetadas antes do início do show, em Szeged, faziam mesmo parte do espetáculo, porque, de fato, eles o tinham construído. Eis algumas vozes dos jovens: “O projeto ‘Start Now!’ abriu os meus olhos, ensinou-me a não julgar os estrangeiros. E isso exige trabalho, é preciso constância e confiança”. “Aprendi a prestar atenção uns nos outros”. “Entendi a importância de manter junta uma comunidade e que a humanidade, para ser uma família, precisa da colaboração de cada um”. “Estou muito feliz por a minha escola ter participado do projeto ‘Start Now!’com a outra escola. No início não nos conhecíamos, precisou um pouco, mas depois adquirimos a confiança recíproca e agora posso dizer que nos movimentamos como uma única pessoa, estamos absolutamente felizes!”.

Itália: LoppianoLab 2015, partir cientes da participação

Itália: LoppianoLab 2015, partir cientes da participação

LoppianoLabPartecipantiA participação como método, a capacidade de dialogar respeitando não só ideias e convicções diferentes, mas, também, os sofrimentos do próximo; uma biodiversidade que valoriza as riquezas culturais, o fato de não se contentar com a “justiça já, mas, buscar a justiça ainda a ser atuada”, transformar a indignação em ação coletiva para mudar o mundo. São estes valores que fundamentam as dezenas de ações e projetos, expressões da vitalidade da atual sociedade civil italiana. Concluiu-se com uma pluralidade de declarações, ações e estímulos que iniciam “pela base”, na Itália e em outros países, a sexta edição de LoppianoLab. Mais de 2000 participantes, que qualificaram o debate e o diálogo entre empresários, políticos, professores, cidadãos, jovens, agentes de comunicação e secretários municipais, em outras palavras, a sociedade civil nas suas multíplices expressões.

Mons. Nunzio Galantino, Segretario Conferenza Episcopale Italiana

D.Nunzio Galantino, Secretário da Conferência Episcopal Italiana

“Não devemos nos render à crise atual. Estamos aqui para encontrar luzes”. Dom Nunzio Galantino, secretário da Conferência Episcopal Italiana, se fundamenta no pensamento antropológico de Antonio Rosmini, grande pensador, no seu discurso durante o evento cultural LoppianoLab, promovido pelo Istituto Universitario Sophia (IUS) e por Città Nuova, na tarde do dia 25 de setembro, intitulado “Uma ideia de pessoa, uma ideia de sociedade, uma ideia de economia. O humanismo de Antonio Rosmini”. “Fechar-se ao próximo e negar a relação significa negar si mesmos – continua o secretário da CEI – referindo-se às palavras pronunciadas pelo Papa Francisco nestes últimos dias, nos Estados Unidos – é necessário recuperar iniciativas culturais fortes que ajudem a humanidade a colocar-se diante da crise cultural, antes ainda da crise humanitária, que o mundo está vivendo”. Acrescentou ainda que é o tempo atual – com os seus muros, as suas contradições e as suas muitas interrogações existenciais sobre o sentido e o destino do homem – que requer uma visão unitária e completa da pessoa, não governada somente pelas ciências, mas formada também de espírito, de relação, de proximidade. Pistas de LoppianoLab 2015 Cidadania ativa – Retomando as palavras de Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, Lucia Fronza Crepaz, coordenadora de projetos Escola de Preparação Social, de Trento, no simpósio central de 26 de setembro, intitulado “Além do medo”, fundamentou a tarefa social das pessoas que fazem política: “Não queremos fazer ações ‘pelos pobres’, mas, com os pobres que são sujeitos e padrão da sociedade que queremos construir, e indicou a cidade como “academia”, para o treinamento da fraternidade universal. Essas palavras encontraram eco em Carlo Petrini, fundador e presidente de Slow Food e Terra Madre, confirmando que a cidadania ativa é o espaço generativo de novos cidadãos, novas empresas, de consumidores conscientes. Profunda a consonância com a encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, para a qual escreveu o prefácio para uma das edições lançadas nas livrarias. “Uma oportunidade – ele afirmou – inesperada. Tudo poderia ter acontecido na minha vida, mas, eu nunca imaginei que, com 67 anos, um Papa me telefonasse, eu que sou agnóstico. Este é o novo humanismo. Nós precisávamos dele. Não existe hoje no mundo um líder político mais incisivo, que tem visão e ações concretas, do que este papa”. O sociólogo Mauro Magatti acrescentou: “Se não recuperarmos a dimensão das relações como parte constitutiva da nossa condição, a humanidade está destinada a sucumbir. É necessário voltar a ‘produzir valores’ junto aos outros”.
Luigi Bobba, sottosegretario Ministero del Lavoro - Luigino Bruni, economista

Luigi Bobba, subsecretário do Ministério do Trabalho – Luigino Bruni, economista

Empenho civil Luigi Bobba, vice-secretário do Ministério do Trabalho e das Políticas Sociais, definiu o tempo atual um vento de novidades do qual se deve desfrutar a energia para suscitar instituições capazes de dar forma à transformação. Está em plena sintonia com o economista Luigino Bruni quando afirma que as minorias podem transformar o mundo e são capazes de transformar a indignação em ação política e economia coletiva. Cultura do diálogo – “É necessário superar a perspectiva eurocêntrica, quando se fala de migrações: não é somente um fato humanitário, mas questões de política internacional”. Afirmou Pasquale Ferrara, diplomata e Secretário Geral do Instituto Universitário Europeu de Florença. “Os imigrantes são o testemunho trágico das mudanças históricas. Com eles a história caminha e tornam-se evidentes todos os nós intricados ainda não desfeitos pela política internacional. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem como destinatários todos os homens. Ela cria uma segunda cidadania e por isto ninguém pode ser considerado clandestino e ninguém pode ser considerado ilegal”.
Vincenzo Morgante, direttore TGR Rai - Michele Zanzucchi, direttore Città Nuova

Vincenzo Morgante, diretor TGR Rai – Michele Zanzucchi, diretor Città Nuova

Vincenzo Morgante, diretor do Telejornal Regional RAI, representou o setor da comunicação, observatório privilegiado da “capacidade” de diálogo nas comunidades italianas. “Por meio do trabalho dos jornais regionais, eu constato que existe a cultura do diálogo, mas não é incrementada suficientemente. Muitas vezes prevalece a cultura do embate. Seria necessário falar menos sobre os fenômenos e mais sobre as histórias, sobre as pessoas que estão vivendo tais histórias”. LoppianoLab 2015 concluiu-se também com uma ampla participação do setor social, mas, os projetos, as ações e o empenho concreto e cotidiano de milhares de cidadãos continua em vários lugares. Trabalha-se para reconstruir um tecido social muitas vezes dilacerado, através de processos de reconciliação e reconstrução de comunidades que não sejam somente estruturas de multíplices interesses, mas, capazes de uma tomada de consciência pessoal e coletiva. Fonte: Comunicado da Assessoria de Imprensa Focolare Loppiano Outras informações, na língua italiana: Città Nuova online: Giustizia sociale. Segnali di vita dopo la lunga notte Galantino: la comunione è una risposta alla crisi Essere musulmani al tempo dell’Isis Alleanza uomo-donna (e bambini) Muri contro gli immigrati e l’accoglienza secondo Rosmini GeneriAMO idee   Loppiano.it Dalla Convention EdC il microcredito per l’Economia di Comunione Mons. Nunzio Galantino: Solo una visione unitaria della persona può ricomporre le divisioni dell’umanità

Burkina Faso na incerteza política

Burkina Faso na incerteza política

BurkinaFaso«Desde quinta-feira, 17 de setembro – dia do golpe de estado – estamos todos em casa: escolas, repartições, lojas, tudo fechado. Começam a faltar combustível e víveres, e se se consegue encontrar alguma coisa, os preços dobraram», explica Aurora de Oliveira, do focolare de Bobo-Dioulasso, a segunda cidade do Burkina Faso. Lá sente-se o protesto, mas não tão forte como na capital, Ouagadougou (1milhão e meio de habitantes), principal teatro dos fatos da última semana, que deixaram mais de cem feridos e pelo menos dez mortos. «É uma população determinada que não quer ser dominada. Nas grandes cidades de Burkina Faso houve manifestações pacíficas. Existe muito medo, não se pode negar, porque a guerra pode explodir de um momento a outro». «As atividades em Ouaga – onde o exército entrou – diminuíram», escreve Jacques Sawadogo, da comunidade dos Focolares na capital. «Bancos, lojas e estações estão fechados. Prosseguem só as pequenas atividades de subsistência. Como membros do Movimento, em Ouagadougou, procuramos nos manter em contato, via e-mail ou por telefone. Procurarmos ser artesãos de paz nas ações e nas palavras». Por telefone conseguimos falar com padre Sylvester Sanou, vigário geral da diocese de Bobo-Dioulasso. A situação continua a evoluir e teme-se que possa degenerar. «Há uma greve geral em todo o país – explica Pe. Silvester -. Na realidade não se tratou de um verdadeiro golpe de estado, mas uma rebelião de um pequeno grupo da Guarda Presidencial, guiado pelo general Gilbert Diendéré, próximo ao ex-presidente Blaise Compaoré, que subiu ao poder com um golpe de estado em outubro de 1987, obrigado a fugir depois de 27 anos, somente em outubro de 2014, após dias de protestos populares. Desde então está refugiado na Costa do Marfim. Depois de ter agido por tantos anos como mão direita do presidente Campaoré,  o general Diendéré tentou negociar a sua imunidade, daquilo que se pode entender». Não se trata, portanto, de conflitos religiosos, entre muçulmanos (50%), cristãos (30%) ou religiões tradicionais (20%), mas um conflito de natureza política. «O exército parece tomar posição em favor da população,  e também os governadores das várias regiões são contrários ao golpe; até mesmo a casa de Diendéré foi queimada, na sua cidade natal. Violência chama violência», continua Pe. Silvester. «No dia 22 de setembro ficamos ansiosos pelo ultimatum dos militares do exército, que chegaram à capital vindos de quatro cidades. O futuro político do país é incerto não obstante a mediação dos presidentes do Benin e Senegal, em nome do CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), e o retorno do presidente da transição do Burkina Faso, Michel Kafando, e também do primeiro ministro Isaac Zida (feitos reféns e depois libertados)». «Eu havia retornado de alguns dias na Mariápolis Victoria, na Costa do Marfim, e encontrei-me nessa situação – conclui Pe. Silvester. O processo, já em andamento, que reunia os vários partidos em diálogo e que estava chegando a um certo consenso, foi bloqueado. Agora tudo está suspenso. Rezemos para que encontre-se uma solução veloz e sem derramamento de sangue. Com os sacerdotes, religiosos e catequistas da diocese, e com o nosso bispo, começamos o encontro pastoral que estava programado antes desses acontecimentos. Parece-nos importante seguir adiante e rezar pelo nosso povo e nosso país». «Como estamos vivendo? No início ficamos enraivecidos, desiludidos – confidencia Aurora de Oliveira – porque depois dos fatos de 2014 a situação política estava caminhando bem. A um passo das eleições, previstas inicialmente para o dia 11 de outubro (e agora adiadas para 22 de novembro), chega um grupo armado e manda tudo pelos ares. Esta foi a primeira reação, que nos fez sentir a necessidade de protestar. O passo sucessivo foi reconhecer neste sofrimento o semblante de Jesus abandonado, e procurar reforçar a unidade entre nós, para poder transmitir paz e perdão. Procuramos contatar todos os que partilham a espiritualidade da unidade, porque o amor deve vencer». «Continuamos a rezar e a viver em estreita unidade com todos vocês, certos da proteção de Maria», escreve a presidente dos Focolares, Maria Voce, à comunidade do Burkina Faso, enquanto está se realizando o encontro dos responsáveis dos Focolares de várias nações, o que torna mais próximas as esperanças e os sofrimentos de muitas partes do mundo. https://vimeo.com/140074710

Chile: como não amá-lo?

Chile: como não amá-lo?

20150918-01« “Perdi tudo”, lastima, entre lágrimas, um pescador de Guanaquero – uma vila marítima 450 km ao norte de Santiago. “Mas vamos nos recuperar, como nós chilenos sempre fizemos”. O cinegrafista o abraça num gesto solidário. São as reações imediatas depois da noite do terremoto. Quarta-feira, dia 16 de setembro, pouco antes das 20 horas começou a série de abalos sísmicos, o primeiro fortíssimo, de 8,4 graus Richter. As réplicas ainda superaram os sete graus. A grandeza do movimento sísmico nos fez procurar abrigo no pátio de casa. Os vizinhos também saíram para as ruas. “Como você está? Tudo bem?”. “Tudo ok! Não se preocupe.” “E você? Precisa alguma coisa?”, é o que todos se perguntam. Não existe medo nem nervosismo, até as crianças sabem o que devem fazer. No Chile é ensinado nas escolas e grandes edifícios, colégios e supermercados têm bem sinalizada a zona de segurança, que protege de eventuais desabamentos. Depois da experiência de 2010 o país está bem preparado. Estamos em La Serena, a 480 km da capital, Santiago. O epicentro do terremoto está claramente perto de nós, pela intensidade do tremor. A energia caiu e só quando encontramos um radio à pilha pudemos saber que está cerca 100 km daqui. Um triângulo de pequenas cidades, de 20-30 mil habitantes. Illapel sofreu danos significativos, mas os grandes centros, não. Após menos de uma hora a radio confirma o alerta de tsunami. No país inteiro inicia a evacuação de 6 mil quilômetros de costa, do norte desértico até o sul frio: um milhão de pessoas que devem buscar refúgio pelo menos 30 metros acima do nível do mar. As ondas chegam numa massa de água que avança elevando o nível do mar em até quatro metros. O porto de Coquimbo, 150 mil habitantes, é parcialmente coberto. Chegam também notícias das vítimas. As mais esperadas. Estamos nas vésperas das tradicionais comemorações pela independência chilena, dias 18 e 19. Este ano 12 pessoas faltarão. São cinco as desaparecidas. Dos mortos, três foram vítimas de enfarte, outros três foram arrastados pelo mar, os outros perderam a vida na queda de rochas, na montanha, ou no desmoronamento de paredes. O governo declara estado de catástrofe em algumas províncias da IV Região. A presidente, Michelle Bachelet, fala ao país: foi dada a partida para a estrutura de socorros. O pensamento está com quem perdeu tudo: vilas de pescadores, os moradores da região do epicentro. É a oitava emergência em menos de dois anos. O terremoto no norte, ano passado, e as inundações deste ano. Em março foi inundada a região mais árida do planeta: o deserto de Atacama. E depois, os vulcões: um no ano passado, e uma erupção alguns meses atrás; a tremenda seca de sul a norte; Valparaiso atacada duas vezes pelos incêndios das zonas adjacentes, e agora novamente, o terremoto e o tsunami… Terminado o terrível balanço, recordamos o velho pescador de Guanaquero: “Nós vamos nos recuperar!”. Nos seus olhos vejo um reflexo de tenacidade e perseverança… A mesma que explica como é possível que nas encostas estéreis e íngremes dos montes do norte, improvisamente aparecem grandes manchas verdes. São as plantações de abacate e as videiras. Literalmente arrancadas da terra, aproveitando cada gota de umidade para a irrigação. Só a tenacidade e a perseverança podem obter frutos de uma natureza que, aqui, não dá nada de presente. Assim foi construído esse país. Como não amá-lo?». De Alberto Barlocci, do Chile

Bertin, a força de uma escolha

Bertin, a força de uma escolha

BertinLumbudi«Morei mais de 30 anos fora do meu país. Todas as vezes que voltava sempre encontrava um dos meus irmãos ou irmãs que naquele período havia casado, o nascimento de um sobrinho… os nossos elos familiares e principalmente a fé da nossa mãe, uma mulher simples e corajosa como muitas mulheres africanas, foi a força que me sustentou nas opções que fiz. Desde menino tinha sido tocado por um tio meu, frade franciscano, que quando vinha nos visitar cuidava de todas as crianças do bairro, e não só de seus sobrinhos; isso marcou o meu coração de menino e deixou o desejo de, quando crescer, ser como ele. Durante a adolescência – Mandela estava ainda na prisão – o massacre dos jovens de Soweto me revoltou, e explodi de raiva contra Padre Paulo, um jesuíta belga. Eu disse a ele: “Se dependesse de mim todos os brancos deviam voltar para casa”. Com calma ele me respondeu: “Sabe, pode-se combater a discriminação racial com uma outra arma”. Alguns meses depois ele me convidou para conhecer o grupo da Palavra de Vida da minha cidade. Cinco anos depois eu estava em Fontem, nos Camarões, a primeira Mariápolis permanente do Movimento dos Focolares em terra africana, lado a lado com jovens italianos, franceses, irlandeses, belgas, e de várias nações africanas: Burundi, Uganda, Quênia, Camarões; com eles descobri que éramos irmãos, apesar das diferenças. Foi assim que nasceu no meu coração um grande desejo de gritar essa fraternidade ‘de cima dos telhados’, mas, mais do que tudo, de testemunhá-la no cotidiano. Em 1986 cheguei a Man, na Costa do Marfim, onde fiquei por oito anos. Junto com todos os que queriam viver o mesmo ideal de fraternidade, experimentamos o amor mútuo entre nós, que nos impulsiona a promover iniciativas concretas em favor de quem mais precisa, e até através da música afirmamos que um mundo unido não é uma utopia. Aos 40 anos cheguei ao Brasil, a São Paulo, tendo que aprender uma nova língua. Encontrei um povo que eu gosto de chamar de “povo feito de povos”: índios, brasileiros originários e os descendentes alemães, italianos, ucraínos, japoneses, chineses, afro-brasileiros e muitos outros, mas todos brasileiros! Criativos, generosos, de uma alegria contagiosa, que na África conhecemos bem. Logo eu me senti um deles, um brasileiro. Bertin_02Durante 15 anos trabalhei na Mariápolis Ginetta como designer gráfico e na produção de livros e revistas para a Editora Cidade Nova, construindo relacionamentos sinceros dentro da editora e com os fornecedores, tipógrafos, e até com os seguranças, que nos faziam abrir o bagageiro para o controle de rotina. Coordenei também, junto com outros, as atividades dos adolescentes do Movimento dos Focolares: os gen 3 e o Movimento Juvenil pela Unidade, uma experiência que considero uma das mais importantes desses anos, porque com eles aprendi a ser “adolescente”, embora adulto. Pelo amor que vivenciamos entre nós e com todos, descobri que eles são capazes de grandes sacrifícios, porque têm energia e entusiasmo para vender! E entendi também porque os pais começam a ter cabelos brancos quando tem um adolescente na família. E agora estou novamente na Costa do Marfim: voltei para continuar a construir esse caminho iniciado muitos anos atrás com os jovens. Sempre me impressionou que os focolarinos que estavam na Mariápolis Victoria, durante a guerra, mesmo se podiam deixar aquela região decidiram ficar. Eles tinham selado um pacto, assim como Chiara Lubich e suas primeiras companheiras, de estar prontos a dar a vida uns pelos outros. Esse testemunho permanece muito próximo do meu coração, e gostaria, com a graça de Deus, de viver nessa mesma medida com todo o nosso povo. Não sei se viveremos coisas extraordinárias, mas quero viver cada instante como se fosse o último da minha vida». Fonte: Nouvelle Cité Afrique, julho 2015