Movimento dos Focolares

Católicos e protestantes unidos pela reconciliação na Irlanda do Norte

Ago 13, 2019

Na Mariápolis Europeia, a história de uma amizade possível que lança sementes de paz

Na Mariápolis Europeia, a história de uma amizade possível que lança sementes de paz Abrir-se e “escolher um estilo de vida inclusivo”. Abrir-se para reconciliar-se com o outro e descobrir a pérola que está dentro de cada homem. Abrir-se como Jesus, que foi ao encontro de todos, e deixar agir o Espírito Santo “que se alegra na diversidade, mas persegue a unidade”. É essa a estrada que o Rev. Ken Newell, ministro presbiteriano em Belfast, capital da Irlanda do Norte, percorre há muitos anos. Uma terra que ainda hoje sofre com as feridas deixadas pelo conflito que, desde o fim dos anos 60, durante 30 anos, viu se contraporem unionistas e separatistas: os primeiros, protestantes, defensores da permanência no Reino Unido; os segundos, católicos, defensores da reunificação entre Irlanda do Norte e do Sul. Um conflito de origem política que envenenou o tecido social, transformando as cidades em terreno de batalha e levando à “segregação religiosa”: protestantes e católicos vivem em bairros diferentes, as comunidades não se encontram, há desconfiança e preconceito. Não foi fácil para o reverendo Ken tentar construir pontes. Teve de fazer o primeiro trabalho ele mesmo: “Cresci em Belfast, em uma comunidade protestante e unionista”, contou na Mariápolis Europeia, “nos meus primeiros anos de vida, fui moldado pela cultura da minha comunidade (…); muitas coisas eram saudáveis, boas e serenas; outros aspectos, no entanto, me influenciaram a ter atitudes negativas com relação à comunidade católica, irlandesa e nacionalista; para superar isso, foram necessários alguns anos”. Um percurso que viu abrir-se lentamente e descobrindo a beleza da diversidade. Como quando na Holanda o encontro com um sacerdote o convenceu a participar de uma missa. Ou na Indonésia, onde, sendo professor de um seminário do Timor, pôde imergir em um país diferente, com língua, comida e cultura próprias. “Comecei a perceber que, justamente como há cores diferentes em um arco-íris, assim também Deus criou a raça humana com uma diversidade incrível; valorizar a cultura de Timor me ensinou a valorizar o bem dentro da minha cultura”. No vínculo com o sacerdote Noel Carrel, houve a descoberta de uma amizade possível: “percebemos que estávamos no Timor para servir o único Cristo, que tínhamos o mesmo pai celeste e éramos irmãos. Eu me perguntava se teria sido possível ter um amigo assim na Irlanda no Norte”. E disso saiu uma consciência clara: “O Espírito Santo fez com que eu me abrisse à ‘diversidade’ do outro lado do mundo e me impulsionou a procurar o melhor da cultura e da espiritualidade católica irlandesa”. Ao voltar a Belfast, em 76, foi chamado a comandar a Igreja presbiteriana de Fitzroy: seu estilo de vida inclusivo era contracorrente. Em um dos momentos mais difíceis do conflito, seu convite a construir novas relações foi acolhido pelos membros de um mosteiro redentorista em Clonard: assim nasceu a Clonard-Fitzroy Fellowship. A amizade humana e espiritual com o Padre Gerry Reynolds, que dirigia a Comunidade de Clonard, “companheiro na construção da paz”, dá vida a muitas experiências de partilha: “Começamos a ir juntos aos funerais de policiais assassinados por terroristas e de civis inocentes assassinados por grupos paramilitares legalistas; é raro ver ministros protestantes e sacerdotes católicos juntos em funerais para confortar os familiares dos falecidos”. E depois de participar das celebrações um do outro, P. Gerry e Rev. Ken começam a participar juntos de matrimônios entre pessoas de Igrejas diferentes. E tornou-se possível outro passo impensado: o sacerdote e o ministro foram convidados a encontros com os líderes políticos dos lados que lutavam, para chegar a um cessar fogo e adotar políticas de paz. Pouco a pouco, políticos dos principais partidos da Irlanda do Norte, o Partido Democrático Unionista (DUP), que defende permanecer no Reino Unido, e o Sinn Fein, que defende a união das Irlandas, reconhecem na Clonard – Fitzroy Fellowship um “espaço seguro” para confrontar-se. Cresce o desejo de reconciliação que levará, em 2007, ao “milagre de Belfast”: “em Stormont, o palácio do governo da Irlanda do Norte”, conta o Rev. Newell, “o Rev. Ian Paisley, primeiro ministro do poder executivo dividido, e o vice primeiro ministro, Martin McGuinness, ex-comandante do IRA, desceram a escada de mármore, sentaram-se lado a lado diante da imprensa mundial e dirigiram-se ao povo da Irlanda do Norte; falaram de sua determinação em conduzir o país para um futuro melhor e mais reconciliado”. Era a aurora de um novo dia. A Clonard-Fitzroy Fellowship, que já opera há 38 anos e inspirou milhares de iniciativas similares, recebeu em 1999 o prêmio internacional de paz Pax Christi.

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