Movimento dos Focolares

Fome de escuta

Ago 9, 2012

Testemunhas de esperança, na cadeia e no obscuro mundo da noite. Histórias do volume “Uma boa notícia. Gente que crê, gente que age”.

«Pertenço à Ordem das Dominicanas de Betânia, uma congregação de vida contemplativa fundada em 1866 pelo padre Lataste, dominicano francês. Mandado a pregar no presídio feminino de Cadillac, ele teve a intuição de abrir as portas da vida contemplativa também para aquelas mulheres, depois que haviam cumprido a pena, e fundou uma comunidade na qual ex-detentas e mulheres com o passado íntegro viviam juntas, sem distinções, com a total discrição sobre o próprio passado, numa vida de oração e trabalho.

A espiritualidade da unidade, a vida e a partilha da Palavra, fizeram-nos compreender ainda mais o valor e a atualidade do nosso carisma. Uma vez por semana vamos ao presídio feminino da nossa cidade, Turim (Itália). Assim como em Cadillac procuramos testemunhar a esperança que vem de Deus. Conhecemos muitas mulheres, damos a elas a possibilidade de passar conosco os dias livres, aos quais tem direito, respeitando as obrigações prescritas pelo juiz, como, por exemplo, apresentar-se todo dia à polícia.

No presídio escutamos as suas angústias, anseios, sofrimentos e alegrias inesperadas. Para dilatar o nosso carisma à realidade atual começamos a frequentar o “povo da noite”. Dependentes químicos, mendigos, aventureiros sem escrúpulos, estrangeiros e italianos, que vivem na Porta Nova.  Oferecemos uma amizade desinteressada, a chance de encontrar-se, sem pretender deles nenhuma mudança. “Você está com fome?”, perguntei, algum tempo atrás, a um jovem marroquino. “Sim, mas de escuta, de amizade, não de pão. Isso também é fome”.

Na Porta Nova eles nos conhecem e nos esperam. Como na prisão, aqui também somos expectadores dos milagres que o amor partilhado faz. Poderíamos contar muitos fatos. Uma noite escutei alguém me chamando. A voz, alterada, vinha de um monte de cobertores. Era evidente que o rapaz estava numa crise de abstinência. “Escute, irmã, Jesus Cristo era alto, louro e de olhos azuis?”. “Não sei – respondi – nunca o vi pessoalmente”. “Ele era seguido – ele continuou – e amado por muita gente”. Repliquei: “E teve alguns problemas também com a sua gente”. “Fisicamente eu pareço com ele, mas as pessoas me desprezam”. Procurei entender de onde vinha tanta raiva. As lágrimas corriam pelo rosto marcado. “Você poderia me fazer companhia por um pouco?”, sussurrou. Sentada no banco da estação escutei por longo tempo a sua história, como um rio em plena cheia. Depois de alguns dias, estava andando na rua quando ouvi me chamarem. Reconheci logo os seus olhos azuis, agora que estavam mais límpidos, sadios. “Ainda me lembro da frase sobre Jesus Cristo! Você vê? Ainda estou vivo!”.

Nas horas que passo em Porta Nova a minha comunidade me acompanha fazendo a adoração ao Santíssimo, para que Jesus possa passar através das minhas palavras, e eu reconheça o Seu semblante nas mulheres e homens que encontro».

Irmã Silvia (Itália)

(Retirado de “Uma boa notícia. Gente que crê, gente que age” – Città Nuova Editrice, 2012)

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