Movimento dos Focolares

Iraque: destruíram a minha cidade

Fev 17, 2017

O depoimento de Azeez, jovem iraquiano, no congresso internacional dos jovens dos Focolares. Da fuga com a família ao empenho em construir a paz.

2017-02-17-02Até os 18 anos tive uma vida normal, entre a minha casa, o colégio, o esporte e algumas atividades paroquiais, os meus sonhos. Mas um dia, depois da retirada do exército curdo, a resistência não durou muito e a minha cidade, Qaraqosh, capitulou. O assim chamado Estado Islâmico (ISIS) tomou conta dela e tudo desabou. Ocupada por dois anos pelas bandeiras negras do ISIS, a minha cidade natal foi denominada capital do ISIS para a Planície de Nínive. Qaraqosh era a cidade cristã mais importante do Iraque, então contava mais de 60 mil habitantes, e mesmo se foi liberada em outubro de 2016, ainda hoje é uma cidade fantasma. Mas, vamos voltar atrás. No dia 6 de agosto de 2014 tivemos que deixar a nossa casa sem ter tempo nem para preparar as malas, só com a roupa do corpo. Nós tínhamos sido colocados diante de uma escolha: tornar-nos muçulmanos, pagar um resgate ou ter as cabeças cortadas. Tivemos a sorte de continuar vivos! A partir daquele momento começou a dura aventura. Eu me perguntava se aquilo que estava acontecendo era para destruir-nos, para o extermínio do nosso povo. E dentro de mim os sentimentos se misturavam: raiva, resignação e desespero, até o ponto de questionar como era possível que Deus permitisse que vivêssemos uma provação tão dura. Mas foi uma lição de vida importante que, não sem muito esforço, em seguida levou-me a uma grande descoberta. 20170217-02Inicialmente nos dirigimos ao Curdistão iraquiano, junto com uma multidão de refugiados que caminhava a pé… revejo as lágrimas deles, os soldados, as pessoas que dormiam pela estrada. O caminho para chegar a Erbil, que normalmente se percorre em meia hora, por causa dos muitos bloqueios e embora tivéssemos a fortuna de um carro, nós conseguimos fazer em 12 horas. Fomos para Dohuk, e lá ficamos uns dois meses. Foi um período doloroso, vivido na esperança de voltar para casa. Naqueles momentos difíceis entendi que se permanecesse fechado no meu sofrimento nada teria mudado, e eu não daria um passo à frente. Então decidi viver o momento presente, e procurar sempre desenhar um sorriso no rosto do irmão mais próximo, para mudar alguma coisa, apesar de tudo. Ao meu lado estavam os irmãos da religião Yazidi, que tinham mais necessidades do que nós. É um povo que foi trucidado pelo ISIS, porque não teve a possibilidade de fugir: homens mortos, mulheres violentadas e prontas para serem vendidas. Aqueles que tinham conseguido escapar estavam  num estado penoso. Vivi com eles, procurando esquecer as minhas feridas para consolá-los. Após os meses de exílio os meus pais decidiram ir para a França, que nos havia estendido a sua mão. A decisão foi difícil: ficar no nosso país, na incerteza do futuro, ou aceitar o asilo e recomeçar a vida num país novo, com uma cultura diferente, bem conscientes dos desafios e dificuldades que nos esperavam, a começar pela língua. Chegamos à França dia 26 de outubro de 2014. No começo não foi fácil, mas nunca nos sentimos abandonados. Alguém toma conta de nós e ilumina o nosso caminho. A Sua mão imperceptível enxuga as nossas lágrima e suaviza os nossos sofrimentos. Sim, é Jesus que morreu por cada um de nós! Como responder ao Seu amor? Nós temos uma única vida. Nós, jovens, temos um potencial enorme, podemos mudar o mundo. Agora, que esta dolorosa experiência me fez descobrir que Deus é Amor, que é Ele que dá sentido à minha vida, quero ser um construtor de paz, começando pelas pequenas coisas.

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