Movimento dos Focolares

Minha vida como Núncio Apostólico

Mar 26, 2017

Durante o Encontro dos Bispos Amigos dos Focolares, em Castelgandolfo (Roma), de 7 a 10 de março, cujo tema foi “Jesus Abandonado, chave da cultura do encontro”, o arcebispo Dom Giorgio Lingua narrou a sua experiência de diplomata do Vaticano em países com situações graves.

Mons. GiorgioLingua-aEu cheguei a Bagdá, como Núncio Apostólico para o Iraque e a Jordânia, duas semanas após o terrível atentado ocorrido em 2010, na catedral siro-católica que provocou a morte de 2 sacerdotes, 44 fiéis e 5 soldados. Ao visitar a catedral, é possível imaginar a desolação e a percepção que tive no meu íntimo, de ter sido enviado lá para viver com eles aqueles sofrimentos. As relações entre cristãos e muçulmanos estavam comprometidas há muitos anos, a ponto que também na Nunciatura, para qualquer compra ou trabalho a ser feito eram escolhidos somente cristãos. Eu compreendi que deveria caminhar contracorrente.  Assim, para começar, eu procurei aprender árabe (com pouco sucesso, infelizmente!), para poder cumprimentar a todos. Quando me era possível, eu me entretinha com os policiais encarregados da segurança da Nunciatura, às vezes aceitando o convite para jantar com eles, mesmo se os soldados não são os melhores cozinheiros. A religiosa que me ajudava como intérprete não concordava muito com isso, mas eu tinha a convicção de que era necessário fazer alguma coisa. Eu acreditava que deveria “ter confiança”, ainda que tal atitude me criasse algumas surpresas. Certa vez, o barbeiro, muçulmano, para retirar os pelos das minhas orelhas, colocou um pouco de gás do isqueiro na minha orelha e acendeu uma chama. Eu sabia que era uma ingenuidade de minha parte, mas, uma ingenuidade consciente, na busca de colher as razões do meu próximo. O único muçulmano que trabalhava na Nunciatura era o jardineiro. Quando eu fui embora, ele me disse: “O senhor vai embora e eu gostaria que me deixasse um pouco da sua paz!” Creio que ele compreendeu que se trata daquela paz interior que podemos encontrar somente em Jesus. Certa vez, conversando com os Gen (os jovens do Focolare), Chiara Lubich – citando o imperador Constantino que vira no céu uma cruz que trazia esta frase: ‘Com este sinal vencerás’ – disse que a nossa arma é Jesus Abandonado, e que não existe outro caminho para a unidade a não ser a cruz. Na cruz, Jesus tomou sobre si toda divisão, toda separação, e ressuscitou. Também para nós a derrota se transformará em vitória. Em maio de 2015 eu fui transferido para Cuba. Na época estava em curso a preparação da visita do papa Francisco. Tudo corria muito bem, mas, um pequeno problema diplomático lançou sombras na preparação. E eu, por um momento, perdi a paz interior, justamente quando o Papa estava presente. Em Havana, chegando à Praça da Revolução para a celebração da missa solene, eu vi uma foto estilizada de Che Guevara, com a seguinte frase: ‘Hasta la victoria, siempre!’ (Até a vitória, sempre!). Imediatamente eu pensei na chave da nossa vitória: Jesus Abandonado. E compreendi que eu não poderia chegar à vitória a não ser passando por aquele momento difícil. Jesus não poderia ressuscitar sem ter morrido. Jesus Abandonado não é o instrumento a ser usado em caso de necessidade para que resolva os nossos problemas, é o Esposo com o qual devemos ser ‘uma só carne’. E, se me lamento de algo ou de alguém, me dou conta de que estou me lamentando Dele. Não posso dizer que O escolhi se prefiro que Ele não esteja presente. Entendo que devo estar contente quando Ele está presente mais do que quando está ausente. E então os problemas, as divisões, as guerras, a pobreza e assim por diante… não me assustam mais. Não vivo esperando que tudo isso passe rapidamente, mas vivo na esperança que brota da certeza de que Nele tudo já está resolvido. Assim, eu vivo serenamente e posso transmitir a paz até mesmo a quem não partilha a minha fé, como o jardineiro da Nunciatura em Bagdá.

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