Movimento dos Focolares

Funcionalismo público e fraternidade

Dez 15, 2017

“Emprego público e empenho pela fraternidade: um desafio para o hoje”, o congresso promovido por Comunhão e Direito e Humanidade Nova em Castel Gandolfo (Roma, 24-26 de novembro), reuniu magistrados, advogados, empregados, dirigentes e funcionários de várias partes do mundo.

CD_02«Por quanto seja rica a África, outros parecem se beneficiar mais do que ela com estas riquezas. Ao conceder contratos de extração dos minerais às multinacionais, por exemplo, existe um jogo de interesses, em que ‘remunerações’ e ‘compromissos’, ‘ajustes’ e ‘agradecimentos’ têm como consequência a exploração do país produtor, sem um verdadeiro aumento do nível de vida das populações». Raphael Takougang, advogado camaronense de Comunhão e Direito, pinta com fortes pinceladas o quadro da realidade que se vive hoje na África: «A corrupção na África não é apenas obra de cidadãos individualmente, mas é sobretudo um modo consolidado com o qual as potências econômicas “criam” e apoiam déspotas, desde que estejam prontos a proteger os seus interesses, com a cumplicidade silenciosa da comunidade internacional». Quem paga são sempre os mais pobres. Takougang não se limita somente às denúncias, aliás, apesar de tudo se demonstra otimista «porque está nascendo uma nova geração de líderes políticos na África, que entendeu que … deverá ser principalmente o cidadão a controlar a ação de quem o governa … para garantir a defesa dos direitos fundamentais dos povos africanos à vida, à educação, à saúde, ao bem espiritual e material». Patience Lobé, engenheira – responsável mundial das voluntárias que, junto com os voluntários, animam Humanidade Nova – durante todo o seu mandato como dirigente no Ministério das Obras Públicas na República dos Camarões sofreu ameaças pesadas: «Pela concepção africana da solidariedade, quem quer que tem necessidade deve ser satisfeito: por este motivo, passavam continuamente pessoas pelo meu escritório, uns para pedir um emprego, outros para pedir um sustento. Durante a minha permanência como responsável daquele departamento não houve dia em que eu não tenha sido tentada ou ameaçada. A corrupção é um vírus difundido, contagioso, difícil de extinguir. Como todos os vírus, serve uma vacina para poder debelá-lo. A vacina poderia ser representada por uma verdadeira mudança de mentalidade: a educação a uma cultura diferente da consumista, que encontra, na posse dos bens e no ter, o único caminho para a felicidade». CD_01Do mesmo modo, não é fácil iniciar percursos e boas práticas no campo da luta contra a ilegalidade na gestão do dinheiro público. Françoise, funcionária francesa do Ministério das Finanças, conta: «Pela variedade das situações, dos serviços públicos e das questões que devo tratar não é sempre fácil manter o discernimento, defender a legalidade, apoiar as boas práticas de gestão ou simplesmente ser coerente com os princípios de honestidade (inclusive intelectual), retidão, cooperação e solidariedade com os colegas. Mas a experiência de trabalho, no decorrer dos anos, me confirmou que, cada vez que fui fiel a estes valores, descobri sempre novos horizontes, novos modos de fazer, as situações se resolveram e a unidade entre instituições e pessoas foi possível». Paolo, dirigente na Prefeitura de uma grande cidade italiana, acrescenta: «Não devemos esquecer que, como funcionários públicos, a nossa função primária é a de nos dedicarmos ao bem da coletividade em todos os seus aspectos, assumindo o peso das responsabilidades que derivam disso. Cada ação deve ser conforme a princípios e valores sem os quais não se pode viver juntos, favorecendo o bem-estar e o progresso humano de todos os cidadãos». Luta contra a corrupção, portanto, mas não só. Difusão de boas práticas, respeito pelos direitos do cidadão e pelas suas necessidades, mas também acolhida, capacidade de se pôr em rede com outras instituições: são estes os grandes desafios para quem trabalha na Administração Pública. Disto estão convencidos os participantes do congresso, que os assumiram como próprios para continuar a levá-los em frente cada dia. Sementes de uma cultura da legalidade que frutificará, sem fazer barulho, nos seus países.

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