Movimento dos Focolares
Budistas e cristãos, caminhos para o nosso tempo

Budistas e cristãos, caminhos para o nosso tempo

2014 12 11 Meeting group 2Uma Europa um pouco cansada e pessimista? Pode ser. Também o Papa Francisco falou nestes termos durante a recente visita ao Conselho da Europa em Estrasburgo. Os desafios que a Europa deve enfrentar, com o mundo inteiro, são muitos.

O encontro de diálogo entre budistas e cristãos, realizado no dia 10 de dezembro na Pontifícia Universidade Urbaniana, teve como meta uma mensagem comum de esperança para que o mundo não gire em torno do interesse econômico, mas tenha uma orientação antropológica que afirme a sacralidade de cada pessoa.

O evento foi promovido pelo Gabinete Nacional para o Ecumenismo e o Diálogo inter-religioso da Conferência Episcopal Italiana (UNEDI), o Pontifício Conselho para o diálogo inter-religioso, a União Budista Italiana, com vários organismos cristãos e budistas.

A crise vista de várias perspectivas: a antropológico-teológica para por as bases e a econômica financiaria para oferecer inputs. Vincenzo Giorgino da Universidade de Turim, e Luigino Bruni da Universidade Lumsa de Roma, em duas vozes, budista e cristã, aprofundaram a crise e a incerteza do homem contemporâneo. Emergiram elementos de estudo e de reflexões sobre o capitalismo que pode ser superado com novos paradigmas, como aquele de uma economia de comunhão.

A seguir foram apresentados muitos testemunhos da luta contra a crise. A Comunidade de Santo Egídio sobre como prosseguem a sua estrada de oração, pobreza e paz; as Irmãs de Madre Teresa de Calcutá sobre como assistem às mães adolescentes na Itália; o Movimento dos Focolares sobre o socorro aos imigrantes em Lampedusa e um percurso de fraternidade iniciado com muçulmanos na Sicília. Pela parte budista, a Rissho Kosei-kai do Japão testemunhou como angariam fundos com a campanha Skip a meal (salta uma refeição) para situações de pobreza, socorro urgente, educação, ambiente, refugiados, onde seja necessário. A Fundação Tzu-chi de Taiwan, iniciada a partir de um pequeno grupo de monjas budistas e de donas-de-casa, hoje conta com 10 milhões de voluntários e doadores e já enviou ajudas a 85 países.

CG1_2836No dia seguinte, a delegação da Fundação Tzu-chi, guiada pelo porta-voz Rey-Shen Her, foi recebida na sede internacional do Movimento dos Focolares para um encontro de conhecimento recíproco. Estiveram presentes alguns amigos budistas de Roma e membros dos Focolares empenhados em vários setores. Tzu-chi, em chinês “compaixão e socorro”, é a maior organização budista para as obras de caridade no mundo. Foi fundada em 1966, por Cheng Yen, monja budista, vencedora do Prêmio Niwano pela Paz 2007.

«Das respectivas apresentações de espiritualidade e atividades, mesmo se muito sintéticas, seguidas por um diálogo aberto, pode-se colher algumas características comuns», refere Christina Lee, do Centro para o diálogo inter-religioso dos Focolares: «ambas são fundadas por uma mulher, propõem a vivência da cultura do dar, o senso de ser família, o amor recíproco e o altruísmo», por exemplo.

Respondendo às perguntas, o prof. Her afirmou que «as atividades de compaixão para com os necessitados nos purificam». «Devemos ser conscientes de que o nosso encontro com o outro é cheio de humanidade e de compaixão, ou a sua missão fracassa: a missão de levar Deus aos homens de hoje, num modo discreto e às vezes escondido, mas não menos verdadeiro e significativo»,  conclui Pe. Cristiano Bettega, diretor do UNEDI.

«São palavras – afirma Christina Lee – que nos fazem recordar as palavras de Chiara Lubich, isto é, que “vamos a Deus através dos irmãos”. São elementos que nos unem no caminho comum rumo à fraternidade universal e pelo bem da humanidade».

Budistas e cristãos, caminhos para o nosso tempo

Igino Giordani: “O esperado”

20130812-01A maravilha da Redenção inicia-se com o nascimento do Redentor: o rei da criação que não encontra um quarto para vir ao mundo, assim como depois não encontrará uma pedra para pousar a cabeça.

Foi o verdadeiro homem. E a sua apresentação à humanidade, pela qual veio ao mundo, acontece sob as formas de uma criança, que repousa numa manjedoura.

Também os romanos esperavam o Salvador do mundo na aparência de um menino, que iniciaria um novo ciclo dos séculos. E também os gregos, e também os persas.

Os judeus esperavam-no na luz das profecias, fixando na Sua vinda as esperanças messiânicas de um renascimento do passado com uma mudança da realidade.

E a mudança configurou-se naquele na­scimento proletário, que punha o Filho de Deus na mesma categoria das vítimas das guerras e das aluviões, entre os sem teto e os sem dinheiro, no extrato inferior da misé­ria universal, assim como morreria no patíbulo da maior infâmia.

Uma apresentação surpreendente do divino: nuvens de anjos no céu e pequenos grupos de pastores na terra. Mas o mais surpreendente foi o canto entoado dentro da negra noite, iluminada pelo fulgor dos Anjos, naquele nascimento singular: – Glória a Deus no alto dos céus; paz aos homens na terra.

Aquele que é a glória para Deus – soava a mensagem – é a paz para os homens. A paz de Deus é a sua glória. A glória dos homens é a sua paz.

O nexo é vital, e por si só ele investe o relacionamento de valores divinos e humanos inclusive na Encarnação, onde a natureza divina e a natureza humana unem-se numa única pessoa, feita por isso elo de ligação e meio do infinito no finito, do eterno no transitório, da glória na paz.

Tal nexo faz com que não se possa separar a glória de Deus da paz dos homens. Se uma existe também existe a outra; se aquela não existe, esta também falta.

Mas como é grande e cheio de consequências este primeiro anúncio evangélico, que preanuncia o efeito in­dividual e social do amor, lei constitutiva da nova ordem, assumida por aquele Menino proletário! O efeito é a paz. E se a paz existe, quer dizer que age, no espírito de cada um e nos relacionamentos com todos, aquele lume divino que é a caridade; quer dizer que os homens se sentem irmãos porque sentem a presença do único Pai.

A maior glória que os homens podem render a Deus no mais alto dos céus é assegurar, com a boa vontade, a paz dos seres racionais no mais raso dos planetas, esta pastagem onde somos tão maus, uns para com os outros.

Pela paz a nossa vida na terra se diviniza. Se ao invés de perder tempo a odiar, ganha-se vida em amar, obtém-se acolhendo Deus em si, porque deste modo habita na sua essência, – a sua atmosfera: – o amor. Deus – en­sinam os místicos – não habita senão na paz.

É assim que, pela presença de Cristo, um estábulo torna-se um Paraíso; e até mesmo uma cabana pode-se tornar uma igreja. E o mesmo pode acontecer com cada casa; e também com cada escritório; e até mesmo com um Parlamento.

 

(Igino Giordani, Parole di vita, SEI, Torino, 1954, pp. 21-23)

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Justiça, um exercício contínuo

20141210-01Eu trabalho no âmbito da justiça penal há vinte anos, na província de Santa Fé. O meu trabalho não é um bom cartão de visita na Argentina de hoje, ferida nas relações e onde instituições e funcionários tornaram-se objeto de contínuo suspeito, com ou sem razão.

A espiritualidade da unidade, desde a minha primeira experiência nos Focolares com os gen, deu sentido à minha presença no meu ambiente de trabalho, aonde mais vem em evidência o delito, a violência, o não-amor e não ‘o amor que é a plenitude da lei’, como afirma São Paulo. Nestes anos de desafios contínuos eu procurei direcionar a formação profissional, ética, a carreira e relações sociais ao serviço das pessoas e certos passos, difíceis, dados nesta direção marcaram um momento decisivo da minha caminhada.

Quando, com minha mulher, decidimos adotar uma criança, não quisemos nos aproveitar das pessoas que conhecíamos e que poderiam ajudar-nos a completar o processo de adoção de maneira mais rápida, passando na frente de outros casais que, talvez, viviam na solidão o sofrimento da suspensão. Depois, finalmente, fomos convocados e a funcionária que nos atendeu me conhecia. Ela ficou muito surpresa pela nossa atitude de espera por muitos anos. Com a chegada da nossa filha adotiva, tivemos a confirmação de que os planos de Deus são perfeitos e se realizam somente se fazemos a Sua vontade.

Certa vez eu tive que me ocupar de um processo no qual o acusado estava decidido a fazer justiça com as próprias mãos caso não obtivesse a sentença favorável. Nesse ínterim eu continuei a receber preocupantes mensagens anônimas em relação ao aspecto perigoso do réu e as suas estreitas relações com o poder local. Não obstante tudo, eu permaneci fiel às exigências do processo e, algumas vezes, eu tive que advertir, seriamente, o acusado sobre as obrigações inerentes ao andamento processual. No julgamento a sentença final não o favoreceu, mas, eu tive a possibilidade de estabelecer uma relação de confiança com o advogado dele, esta relação dura até hoje. Quando terminou o meu trabalho naquele processo, a pessoa em questão me procurou e, ao cumprimentar-me, confidencialmente, reconheceu as suas atitudes violentas, e que, em tal situação, quando se dava conta das próprias atitudes violentas, confiava ao seu filho a solução das questões que ele considerava irresolúveis.

Como os processos são documentados por escrito, os muitos casos produzem montanhas de papel que, naturalmente, para consultar tudo é muito difícil e desta forma, muitas vezes, os acusados e os seus familiares sentem-se impotentes e sofrem com isso. E, é justamente nestas circunstâncias que, criar espaços de escuta e acolhimento, permite evidenciar a dignidade de cada pessoa, e é o primeiro passo em direção a esperança de uma vida melhor.

Muitas vezes, somente o fato de escutar uma pessoa, com todo coração e toda mente, pode nos oferecer uma luz que vai muito além da práxis processual do interrogatório formal a um detento, e cria as condições para que o acusado possa exprimir o próprio drama e que, por sua vez, o funcionário do tribunal possa ter um conhecimento adequado dos fatos para tomar uma decisão que seja, efetivamente, realmente humana. Isto me aconteceu várias vezes, por exemplo, com um detento, depois de muito escutá-lo, profundamente, decidi que ele deveria passar por uma consulta psiquiátrica. De fato, existia o perigo de que ele poderia tentar suicido e aquela minha decisão, determinou o reequilíbrio da situação.

Vocês sabem muito mais que eu: sempre, em todo lugar, o que faz a diferença é o amor, também na prática da justiça”.

(M.M. – Argentina)

 

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Evangelho vivido: Congo, uma visita surpresa

201411Panie-1«Domingo, 22 de novembro. À tarde toca a campainha do focolare de Kinshasa. Na frente da porta está estacionado um carro imponente, escreve Edi. Vemos sair uma senhora empenhada num dos partidos políticos mais importantes do governo congolês. Vem acompanhada pelos seus seguranças e traz um grande pacote.

Alegramo-nos ao ver que se trata de Georgine, uma ex-deputada, que conhecemos há pouco tempo. Ainda é comprometida na política e agora trabalha com as mães indigentes. O pacote pesado que traz está cheio de panie congolês, um tecido típico do qual são feitos os trajes tradicionais tanto masculinos como femininos.

“Quis vir até vocês – diz-nos – porque soube que perderam uma mala… Pois bem, com estes panie podem fazer roupas novas”. Aquela senhora partilha panie de alto valor, correspondente ao menos a dois salários mensais, suficientes para nós e para ainda outras pessoas.

201411Panie-2Alguns dias atrás, uma de nós, ao regressar de um congresso em Roma, tinha perdido a bagagem de mão dentro do avião. A mala continha não só as suas roupas, mas também a “comunhão dos bens” que tinha recebido na Itália para os pobres. Tinha sido um grande sofrimento para nós. Agora, ficamos estupefatas com a atitude da senhora e espontaneamente começamos a dançar ao seu redor! Qual o motivo de um gesto deste gênero de uma pessoa que nos conhece tão pouco?».

Tinha acontecido o seguinte: ao ir à missa pela manhã, a senhora tinha notado que uma delas, ao invés de tirar o pó apenas do lugar onde pretendia sentar-se, limpava todos os bancos da igreja sem que ninguém tivesse pedido. Tinha ficado curiosa e quis conhecer a vida destas jovens, ficando muito impressionada.

«Depois de termos dançado ao seu redor, para agradecê-la – escrevem – Georgine explica-nos o motivo do seu gesto: “Queria agradecer ao nosso Deus por vocês e partilhar a alegria que sinto porque vocês existem! Aquele que vocês seguiram não se esquece das suas filhas. Neste mundo de trevas onde reinam as forças do mal, vocês vivem como anjos no meio dos lobos. Não é fácil viver no meio do mundo e ser doadas a Deus. Mas tenham coragem, vocês são uma luz no mundo”. Então, fomos juntos à nossa pequena capela para agradecer ao Senhor».

Do Focolare de Kinshasa (Congo)

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Em Chipre, apresentação de textos de Chiara Lubich em grego

20141129Cipro2«Saber perder, um binômio “chocante”». Assim definiu o metropolita Chrisostomos di Kyrinia, referindo-se ao título de um dos primeiros volumes de Chiara Lubich traduzidos em grego e apresentado durante um evento em Nicósia, no dia 31 de outubro passado.
Chocante e paradoxal porque «na vida, todos querem vencer, mas, na realidade, a vida do cristão é cheia de paradoxos, é feita de martírio e testemunho. Chiara, com palavras simples, consegue falar deste mistério ajudando-nos a vivê-lo no nosso dia-a-dia». A sede do metropolita de Kyrinia patrocinou o evento, no qual discursaram também o arcebispo católico-maronita Youssef Soueif e o padre Dimostenis, ortodoxo. Entre os oitenta participantes do evento estava o embaixador da Itália em Chipre, Guido Cerboni.

O metropolita e o arcebispo, em vários momentos, demonstraram grande alegria pela ocasião de apresentar o Movimento dos Focolares de maneira oficial em Chipre. E essa alegria era também de muitas outras pessoas que conhecem os Focolares há muitos anos. Relembrar juntos as etapas históricas do encontro de Paulo VI e Atenágoras, trouxe à lembrança dos participantes uma história que caminha em direção à unidade visível entre as Igrejas cristãs.

20141129Cipro1«A mensagem de Chiara é um apelo dirigido ao mundo inteiro que tende a fechar-se em si mesmo – afirmou o arcebispo Youssef Soueif. A mensagem de Chiara é a da unidade que reforça a vontade de abrir-se uns aos outros… Para nós, aqui em Chipre, o apelo à unidade é uma responsabilidade comum». E continuando, em uma conversa já na conclusão do evento, ele afirmou: «No carisma de vocês é inato o fato de caminhar em direção ao outro, isto é diálogo e é isto que o nosso Oriente Médio tem extrema necessidade hoje».  O arcebispo colheu neste evento um passo significativo para a comunhão entre as duas igrejas, ao afirmar: «Nós temos necessidade destes gestos!».

Muito apreciado o discurso de Florence Gillet sobre o liame do pensamento de Chiara Lubich com a profundidade dos Padres orientais.

Muito significativo também o testemunho de Lina, cipriota que, há anos, apóia a pequena comunidade do Movimento na ilha. Por meio do carisma da unidade Lina redescobriu Deus Amor e Pai, e isto a impulsionou a conhecer mais profundamente a sua igreja grego-ortodoxa e a retornar aos sacramentos. Entre outras coisas, ela disse: «Vivendo o Evangelho eu encontrei uma relação vital com os Padres da Igreja e com os ensinamentos deles, que eu nunca havia aprofundado. Dei-me conta que vivenciava quanto afirma São João Crisóstomo: “Vendo o meu irmão, vejo o meu Deus”».