28 Nov 2014 | Palavra de Vida, Sem categoria
Neste período de Advento, o tempo que nos prepara para o Natal, nos é proposta a figura de João Batista. Ele tinha sido mandado por Deus a preparar os caminhos para a vinda do Messias, e exigia uma profunda mudança de vida de todos os que acorriam: “Produzi frutos que mostrem vossa conversão” (Lc 3,8).
E àqueles que lhe perguntavam: “Que devemos fazer?” (Lc 3,10), ele respondia:
“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!”
Por que devo dar ao outro algo do que me pertence? Porque o outro, criado por Deus como eu, é meu irmão, minha irmã; portanto, é parte de mim. “Não te posso machucar sem me ferir”, dizia Gandhi. Fomos criados como dom, um para o outro, à imagem de Deus que é Amor. Temos a lei divina do amor inscrita no nosso sangue. Jesus, vindo habitar entre nós, revelou-nos isso com clareza quando nos deu o seu mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (cf. Jo 13,34). É a “lei do Céu”, a vida da Santíssima Trindade trazida à terra, o coração do Evangelho. Assim como no Céu o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem na comunhão plena a tal ponto que são uma só coisa (cf. Jo 17,11), também na terra nós realizamos o nosso eu na medida em que vivemos a reciprocidade do amor. E assim como o Filho diz ao Pai: “Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu” (Jo 17,10), assim também entre nós o amor é atuado em plenitude lá onde se compartilham não só os bens espirituais, mas também os bens materiais.
As necessidades de um próximo nosso são como se fossem necessidades de todos. Alguém está desempregado? Sou eu que estou. Alguém está com a mãe doente? Vou ajudar como se fosse a minha mãe. Existe gente com fome? É como se eu estivesse com fome: vou tentar providenciar comida para eles como faria para mim mesmo.
Foi a experiência dos primeiros cristãos de Jerusalém: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum” (At 4,32). Comunhão de bens que, embora não sendo obrigatória, era de fato vivida intensamente entre eles. Não se tratava, como haveria de explicar o apóstolo Paulo, de “pôr em aperto uns para aliviar os outros”, mas “o que se deseja é que haja igualdade” (2Cor 8,13).
São Basílio de Cesareia diz: “Ao faminto pertence o pão que tu reténs. Ao homem nu, o manto que tu guardas nos teus cofres; ao miserável, o dinheiro que guardas escondido”.
E Santo Agostinho: “Aquilo que é supérfluo para os ricos pertence aos pobres”.
“Também os pobres têm a possibilidade de se ajudarem uns aos outros: um pode colocar suas pernas a serviço do que é aleijado; o outro, seus olhos, para guiar o que é cego; um outro, ainda, pode visitar os doentes”.
“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!”
Também hoje podemos viver como os primeiros cristãos. O Evangelho não é uma utopia. É o que demonstram, por exemplo, os novos Movimentos Eclesiais que o Espírito Santo suscitou na Igreja para fazer reviver, com exuberância, o radicalismo evangélico dos primeiros cristãos e para responder aos grandes desafios da sociedade de hoje, na qual são tão marcantes as injustiças e a pobreza.
Lembro-me dos primeiros tempos do Movimento dos Focolares, quando o novo carisma infundia nos nossos corações um amor muito especial pelos pobres. Quando os encontrávamos na rua, tomávamos nota de seus endereços numa caderneta, para depois irmos visitá-los e ajudá-los; para nós, eram Jesus: “Foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Depois de tê-los visitado nos seus barracos, nós os convidávamos para almoçar em nossas casas. Para eles colocávamos a toalha mais bonita, os melhores talheres, os alimentos mais selecionados. No primeiro focolare sentavam-se à nossa mesa uma focolarina e um pobre, uma focolarina e um pobre…
A um certo ponto pareceu-nos que o Senhor pedisse a nós mesmas que nos fizéssemos pobres para podermos servir os pobres e a todos. Então, cada uma de nós colocou no meio de um quarto, no primeiro focolare, aquilo que considerava ser-lhe supérfluo: uma blusa, um par de luvas, um chapéu, até mesmo um casaco de pele… E hoje, para ajudar os pobres, temos até empresas que oferecem empregos e que cedem seus lucros para serem distribuídos!
Mas sempre há muito ainda a fazer pelos “pobres”.
“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!”
Temos muitas riquezas a serem colocadas em comum, mesmo que não pareça. Temos sensibilidades a aprimorar e conhecimentos a adquirir para podermos ajudar concretamente, para encontrarmos o modo de viver a fraternidade. Temos afeto no coração a ser dado, cordialidade a ser manifestada, alegria a ser comunicada. Dispomos de tempo a ser colocado à disposição, orações, riquezas interiores a serem colocadas em comum, falando ou escrevendo; mas às vezes temos também objetos, bolsas, canetas, livros, dinheiro, casas, carros que podemos colocar à disposição… Talvez estejamos acumulando muitas coisas com a ideia de que um dia elas nos poderão ser úteis, enquanto ao nosso lado está alguém que precisa delas com urgência.
Assim como cada planta absorve da terra somente a água de que necessita, assim também nós procuramos ter somente aquilo de que precisamos. E é até melhor que de vez em quando percebamos que nos falta alguma coisa: é melhor sermos um pouquinho pobres do que um pouquinho ricos.
“Se cada um conservasse apenas o necessário”, dizia são Basílio, “e dedicasse o supérfluo aos indigentes, não haveria mais nem ricos nem pobres” (Pobreza e riqueza, Cidade Nova, São Paulo, 1989, p. 7).
Vamos experimentar, vamos começar a viver assim! Com certeza Jesus não deixará de nos mandar o cêntuplo, e assim teremos a possibilidade de continuar doando. No fim, Ele nos dirá que tudo aquilo que tivermos doado, seja a quem for, foi a Ele que doamos.
Chiara Lubich
Este comentário à Palavra de Vida foi publicado originalmente em dezembro de 2003.
28 Nov 2014 | Sem categoria
Sabe-se que Chiara Lubich estabeleceu um relacionamento privilegiado com Atenágoras, naquela época, Patriarca de Constantinopla. Poucos dias antes da histórica viagem de Papa Montini a Istambul, ela se encontrou com o Patriarca. A Rádio Vaticana entrevistou Chiara em 18 de julho de 1967:
Quais as suas primeiras impressões deste recente encontro com o Patriarca Atenágoras?
Quando me encontrei com esta grande personalidade do nosso tempo, tive a impressão de estar diante de um coração completamente aberto, de um pai, de alguém que ama as pessoas e que, não obstante a sua veneranda idade, possui um espírito jovial, rico de grande esperança e fé. A primeira impressão não foi a de me encontrar diante de um irmão separado de mim, mas com alguém que parece morar na nossa mesma casa.
Durante todo o tempo demonstrou sempre grande estima pelo Papa Paulo VI. Notei que ele acompanha todos os acontecimentos da Igreja Católica, especialmente as atividades do Papa, com extrema atenção e veneração.
Refletindo sobre este seu recente momento de diálogo com Atenágoras, qual é o seu pensamento sobre o iminente encontro entre Paulo VI e o Patriarca?
Devido à profunda fé de Atenágoras na caridade para com Cristo e os irmãos como essência do cristianismo, creio que o ato do Papa de convidar o Patriarca para visitar Roma, seja o gesto mais apropriado para demonstrar que a Igreja Católica é a Igreja da caridade, na qual o Papa, sucessor de Pedro, é aquele que mais ama.
Na sua opinião, depois deste encontro, as perspectivas e expectativas serão positivas?
Acredito que o Patriarca Atenágoras manifestará a sua convicção de que a caridade é o caminho para alcançar a unidade na verdade; caminho também indicado pelo Papa Paulo VI em um recente discurso dirigido a um grupo de estudantes ortodoxos. Com esta identidade das mesmas perspectivas sobre o caminho para alcançar a unidade, podemos esperar que o Santo Padre e Atenágoras encontrem soluções muito eficazes para dar início a colóquios teológicos e creio que neste clima podemos esperar tudo.
Por outro lado, a figura desta grande sentinela, que se ergue em Constantinopla como um profeta com a sua fé e o seu amor, não pode deixar de exercer uma grande influência no mundo ortodoxo, que ele mesmo em breve visitará antes de chegar a Roma.
Como o Patriarca Atenágoras expressou a sua visão sobre a questão ecumênica durante o encontro que tiveram?
A visão ecumênica do Patriarca, cuja humildade e santidade transparecem em todas as atitudes e palavras, era evidente na última parte do longo encontro, quando nos falou da sua recente mensagem pascal. Disse: “Na Páscoa, tenho o hábito de publicar uma mensagem. A última diz: ‘Os dez primeiros séculos do cristianismo foram marcados pelos dogmas e pela organização; após dez séculos aconteceram as desgraças, os cismas, a divisão. A terceira época – esta – é a do amor. Neste caminho da caridade nos encontraremos no único cálice. Obviamente – continuou -, precisamos dos teólogos, mas as diferenças são muito pequenas e inexpressivas diante do sol do amor. As diferenças perderam a sua importância graças ao sol da caridade. Nos primeiros mil anos vivemos na comunhão, depois nos separamos’.” Portanto, aludindo à recente anulação das recíprocas excomunhões por parte da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa, ele afirmou: “Agora desapareceu o cisma; por que não voltarmos ao único cálice? Cremos na mesma Mãe, na Virgem, Mãe da Igreja, como disse o Papa; temos o mesmo batismo: a porta de entrada da Igreja. Por que não voltarmos ao único cálice?”
27 Nov 2014 | Sem categoria
A iniciativa é encampada por mais de 100 organizações, entre elas a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Clique aqui para entender melhor e participar. Para aprofundar leia também: Revista Cidade Nova, setembro 2104 http://www.cidadenova.org.br/
25 Nov 2014 | Sem categoria
Estamos a poucos quilômetros de Postumia, na Eslovênia, na encruzilhada entre o oriente e o ocidente europeus. Atualmente meta turística, com paisagens de tirar o fôlego, com uma história que deixa às costas a tragédia vivida na Europa com os milhões de mortos das duas guerras mundiais. O horror da guerra é bem retratado, por exemplo, em algumas obras do artista esloveno Ivan Rupnik, e nos seus “mosaicos nos bosques” próximos a algumas foibes.
Com o pano de fundo dessa consciência histórica, os três dias passados juntos pelos “Amigos de Juntos pela Europa” assumiram um novo significado de reconciliação europeia diante de dolorosas feridas ainda abertas, evidenciando o relacionamento de amor mútuo atuado entre cristão de diferentes confissões e proveniências.
Eram 14 os países representados, de Portugal à Rússia, da Suécia à Croácia. É de todos o compromisso em favor de uma Europa reconciliada, na convicção que 500 anos de separação entre as Igrejas “são suficientes” e que deve-se mirar à atualização do sonho dos Padres fundadores da União Europeia, construindo a fraternidade entre os povos.
O programa do encontro concentrou-se na preparação de um grande evento previsto para 2016 em Mônaco da Baviera (Alemanha), como desejo de poder oferecer à sociedade civil e religiosa um forte testemunho de reconciliação realizada, visível, fruto de conhecimento, estima e colaboração em muitas iniciativas sociais comuns, que cresceu a partir de 2002, quando iniciou a experiência de Juntos pela Europa.
Os 108 participantes, de 41 Movimentos e Comunidades de várias Igrejas exprimiram uma autêntica “paixão pela unidade” e plena adesão ao projeto, oferecendo disponibilidade na partilha de ideias, responsabilidades e encargos organizativos.
«Ao lado da surpresa sempre nova e da alegria pelo caminho feito – escreve um dos participantes -, evidente na grande capacidade de escuta e acolhimento recíproco, era geral o entusiasmo e a convicção de que, com a ajuda de Deus e “juntos” é possível mirar na realização do “sonho” de uma Europa sem divisões, que recupere as suas raízes e possa ser modelo para outros continentes».
24 Nov 2014 | Sem categoria

“Criar uma rede que une as mulheres indo além da diversidade de religiões e de culturas; aprofundar os textos sagrados para recuperar o lugar da mulher na sociedade atual e promover o diálogo inter-religioso com uma dimensão humana”, eis algumas das conclusões do Simpósio internacional que se realizou nos dias 12 e 13 de novembro passado, em Rabat, capital do Marrocos.
Organizado pelo Centro de Estudos das Mulheres no Islam (Centre for Women’s Studies in Islam), filiado ao Conselho Ulema do Marrocos (Moroccan Council of Ulama), o simpósio aconteceu no âmbito do Diálogo Estratégico entre o Marrocos e os Estados Unidos, sob o patrocínio do Rei Mohammed VI.
As participantes, uma centena de especialistas, eram provenientes de vinte e cinco nações, a maioria muçulmana, e, também, cristãs e hebreias, estudiosas e comprometidas no campo jurídico e nas organizações em prol dos direitos das mulheres.
O encontro, cujo título foi “Mulheres no coração do monoteísmo: uma história plural” tinha o objetivo de tratar a importante contribuição das mulheres no diálogo inter-religioso no qual, muitas vezes, a voz delas permanece marginalizada.
No início houve um aprofundamento do papel da mulher na história das três religiões monoteístas. Foi evidenciada a importância de iniciar dos textos sagrados e não da lógica da divisão, com o objetivo de encontrar a dignidade da mulher mirando a uma maior igualdade entre homem e mulher, tanto no campo espiritual quanto moral e social. E por isso a necessidade de interpretações corretas dos textos no que diz respeito à figura feminina, frequentemente condicionadas pelo costume do tempo e por outros fatores: políticos, econômicos e sociais.

Christina Lee, corresponsável do diálogo inter-religioso dos Focolares, narrou a experiência do Movimento, fundado por Chiara Lubich, na perspectiva do diálogo inter-religioso. Ela falou sobre o “gênio feminino” – como foi definido por João Paulo II – ou seja, a capacidade que as mulheres têm de viver pelos outros, de dedicar-se e de estabelecer relações entre as pessoas. Esta visão da mulher foi apreciada pela profundidade, espiritualidade e pelas perspectivas futuras.
Houve também outros importantes discursos a respeito das várias formas de diálogo conduzidas pelas mulheres da atualidade, com as próprias dificuldades, esperanças e testemunhos. A professora Aicha Hajjami, do Marrocos, questionou o motivo da persistência ainda hoje, em muitas nações islâmicas, de certas leis injustas em relação às mulheres.
“É uma situação que exige uma profunda reflexão – acrescentou – sobre a maneira de conseguir modificar tais leis com os valores sustentados pelo Islã”. Yolande Iliano, presidente de Religiões pela Paz Europa (Religions for Peace Europe), ofereceu o testemunho de como a sensibilidade feminina dá origem a compromissos coletivos inter-religiosos no âmbito social e político.
Não faltaram as jovens que evidenciaram, com as próprias experiências e expectativas, a função crucial que a mulher deve exercer para construir a unidade da família humana. Como afirmava a professora Asma Lamrabet, diretora do Centro de Estudos, “o simpósio foi já algo real e um desafio, não mais apenas um sonho”.