28 Out 2014 | Palavra de Vida, Sem categoria
É por isso que jorra do seu coração um hino de louvor e de gratidão. Este é o primeiro passo a ser dado, o primeiro ensinamento a ser tirado das palavras do Salmo: louvar e agradecer a Deus pela sua obra, pelas maravilhas do cosmo e pelo homem vivente, aquele que é a sua glória e é a única criatura capaz de dizer-lhe: “Em ti está a fonte da vida” Mas, para o amor do Pai não foi suficiente pronunciar a Palavra com a qual tudo foi criado. Ele quis que a sua própria Palavra assumisse a nossa carne. Deus, o único verdadeiro Deus, fez-se homem em Jesus e trouxe à terra a fonte da vida. A fonte de todo bem, de todo ser e de toda felicidade veio tomar morada entre nós, para que a tivéssemos, por assim dizer, ao alcance das mãos. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), diz Jesus. Ele preencheu de si mesmo cada tempo, cada espaço da nossa existência. E quis permanecer conosco para sempre, de modo a ser reconhecido e amado sob as mais diferentes vestes. Às vezes aflora o pensamento: “Como seria bom viver no tempo de Jesus!” Pois bem, o seu amor inventou um modo de permanecer não apenas num pequeno rincão da Palestina, mas em todos os pontos da terra: conforme a sua promessa, Ele se faz presente na Eucaristia. E ali podemos matar a nossa sede para nutrir e renovar a nossa vida. “Em ti está a fonte da vida” Outra fonte onde podemos sorver a água viva da presença de Deus é o irmão, a irmã. Todo próximo que passa ao nosso lado, sobretudo o mais necessitado, quando nós o amamos, não se pode considerar um nosso beneficiado, mas um nosso benfeitor, porque nos doa Deus. De fato, amando Jesus nele – “Pois eu estava com fome (…), estava com sede (…), era forasteiro (…), estava na prisão (…)” (cf. Mt 25,31-40) –, recebemos em troca o amor de Jesus, a sua vida, porque Ele mesmo, presente nos nossos irmãos e irmãs, é a fonte desse amor. Uma fonte rica de água é também a presença de Deus dentro de nós. Ele sempre nos fala, e cabe a nós escutar a sua voz, que é a voz da consciência. Quanto mais nos esforçamos em amar Deus e o próximo, tanto mais a sua voz se torna forte e supera todas as outras. Mas existe um momento privilegiado no qual, como em nenhum outro, podemos ter acesso à sua presença dentro de nós: é quando rezamos e procuramos aprofundar o nosso relacionamento direto com Ele, que habita no fundo da nossa alma. É como um profundo veio de água que não seca jamais, que está sempre à nossa disposição e que pode saciar a nossa sede a cada momento. Bastará fechar por um instante as janelas da alma e recolher-nos, para encontrar esse manancial, mesmo estando no mais árido deserto. Até alcançarmos aquela união com Ele na qual sentimos que não estamos mais sós, mas somos dois: Ele em mim e eu Nele. Todavia somos um – por sua graça – como a água e a nascente, como a flor e a sua semente. Portanto, […] a Palavra do Salmo nos lembra que somente Deus é a fonte da vida e portanto fonte da comunhão plena, da paz e da alegria. Quanto mais nos saciarmos dessa fonte, quanto mais vivermos dessa água viva que é a sua Palavra, tanto mais nos aproximaremos uns dos outros e viveremos como irmãos e irmãs. Então se realizará, como continua o mesmo Salmo: “… e à tua luz vemos a luz”, aquela luz que a humanidade espera.
Chiara Lubich
Este comentário à Palavra de Vida foi publicado originalmente em janeiro de 2002.
27 Out 2014 | Sem categoria
Jánoshalma é uma pequena cidade no norte da Hungria, com cerca de 10 mil habitantes dos quais cerca de 3% da etnia Rom, onde a integração social é um tema candente. É a última cidade que conferiu a cidadania honorária a Chiara Lubich, ainda em vida, em fevereiro de 2008. Neste contexto, dia 7 de outubro passado foi inaugurado o Dado da Paz, como aconteceu alguns anos atrás na cidade natal de Chiara, Trento (Itália). O Dado está no parque central da cidade, diante da sede da prefeitura, quase como um símbolo da aspiração comum da cidade. Encontra-se também próximo ao centro esportivo construído há alguns anos com o trabalho da comunidade local dos Focolares e da Prefeitura, respondendo ao pedido das crianças que haviam dito ao prefeito que não tinham um local bonito e público para brincar. A proposta partiu do Movimento dos Focolares, mas a ideia foi acolhida por unanimidade pela Câmara Municipal. Na realização do Dado – que tem 120 cm de lado, colocado numa estrutura em posição diagonal – muitas pessoas trabalharam juntas, atraindo inclusive a generosidade de alguns cidadãos; a empresa que realizou boa parte dos trabalhos, por exemplo, o fez sem nenhum custo.
A originalidade desse dado é que pode ser jogado, como se jogam os de tamanho pequeno, ele pode ser girado em várias direções e depois deixar-se inspirar pela frase que sai… Na inauguração estiveram presentes 150 pessoas, entre as quais estudantes do ensino infantil e médio, e alguns ainda menores, das creches. Os representantes da escola católica, que há anos usam o dado na sala de aula, queriam que a proposta chegasse a todos os cidadãos. Estiveram presentes também os e as gen 4, as crianças que vivem a espiritualidade dos Focolares, que contaram a todos as suas experiências, de como procuram amar a todos. Na manhã seguinte, indo para a escola, algumas crianças mudaram o caminho, para poder passar pelo parque e jogar o dado. Para quem quiser aprender um pouco a língua húngara, estas são as seis frases do dado de Jánoshalma: megbocsátok a másiknak – perdoo quem me ofendeu meghallgatom a másikat – escuto a todos mindenkit szeretek – amo a todos elsőként szeretek – sou o primeiro a amar szeretem a mellettem lévőt – amamo-nos uns aos outros szeretem a másikat – amo o outro
26 Out 2014 | Sem categoria

A protagonista no workshop da EdC em Loppiano
«Ano passado eu tive o prazer de participar de um workshop da Economia de Comunhão, em Loppiano. Foi a ocasião para abrir os olhos. Até aquele momento estava projetada em entender “o que faço”, sem colocar a questão “quem sou”. Entendi que o trabalho é uma vocação, e que eu devia encontrar a minha vocação, o que me teria feito feliz. Estava para concluir o curso de engenharia biomédica. Em outubro de 2013 recebi o diploma da Escola Politécnica de Turim, depois de ter apresentado uma tese na Politécnica de Lausanne, na Suíça. Foram cinco anos passados dentro da faculdade, oito horas de aula por dia. Estudava de noite e passava dias inteiros sem estabelecer verdadeiras amizades com os colegas. Em ambientes de certa fama o individualismo é muito forte, o medo de ser suplantados, e também os professores transmitem o “anseio da primazia”. Depois de tantos sacrifícios eu iria concluir em tempo e com a nota máxima. Havia uma boa probabilidade de conseguir o doutorado na Suíça com um salário alto, casa no lago e ótimos amigos que esperavam por mim. Era um momento fundamental da minha vida, onde podia tomar grandes decisões. Mas havia algo que me dava medo: o apego à carreira e ao dinheiro. Desejava ter os instrumentos para poder começar a trabalhar de modo, eu diria, “contracorrente”. Em tempo de crise muitos jovens como eu têm dificuldades para encontrar trabalho, e eu não queria me fechar na carreira sem olhar para ninguém. Foi assim que cheguei ao workshop da EdC: com muitas perguntas. Não encontrei todas as respostas, mas um clima de abertura onde empresários, professores e jovens estavam todos juntos, como iguais, olhando para a Itália de hoje com os seus desafios. Entendi que ter tanto dinheiro teria sido o primeiro obstáculo para a felicidade, que para mim consiste em outra coisa. Tive a confirmação disso quando fui às Filipinas, antes de iniciar o doutorado (eu já estava no avião quando soube que havia sido aprovada!). Tratava-se de uma viagem social, que eu já tinha programado, e na qual conheci uma cultura bem diferente da minha.
Lá eu me encontrei com o tufão mais forte do mundo, o Haiyan, em novembro de 2013. O povo filipino, embora muitas vezes molestado por tragédias semelhantes, tinha aquela dignidade que fazia com que eu também sentisse que… tinha tudo para ser feliz! Entendi a diferença entre “pobreza” e “miséria”. A pobreza era aquela que eu via nas Filipinas, a miséria é uma pobreza sem confiança, sem esperança, que havia visto nos rostos de muitos amigos italianos depois dessa crise. Aqui na Europa entram em jogo a depressão e os psicólogos… É verdade, a crise existe. Mas temos um teto sobre a cabeça, e comida todos os dias também. A dignidade que descobri nas Filipinas é uma lição que servirá para a minha carreira profissional. Por isso renunciei à carreira na Suíça e agora trabalho em Loppiano, numa empresa da Economia de Comunhão, que quer formar os jovens não apenas no sentido relacional-social, mas também por meio do trabalho. Aqui não exerço a profissão de engenheira, mas faço um trabalho manual, onde não existem máquinas automáticas. Trabalho com a argila nas mãos. E sinto que para ser uma ótima engenheira, depois de anos vividos com os livros, é útil colocar-se do lado dos operários. Talvez para alguém pareça que estou perdendo tempo, mas gostaria de ser aquela engenheira que, quando olha para os operários, sabe que está vendo pessoas com uma dignidade, e as coloca no centro do próprio trabalho». (Maria Antonietta Casulli, 25 anos, Itália)
21 Out 2014 | Sem categoria
Responder, junto com todo o Movimento dos Focolares, às exigências da Igreja e da humanidade; experimentar caminhos novos para ir ao encontro de todos, plenamente conscientes da própria identidade e da contribuição específica a dar: «As periferias são também os nossos doentes, os idosos, aqueles que deixaram o ministério…, periferia é a própria Igreja quando está distante de ser aquela que Deus quer». Em síntese este foi o pensamento que emergiu dos «cinco dias intensos e ricos de comunhão e de grande alegria», como contou um dos presentes, descrevendo a experiência vivida no Centro Mariápolis de Castelgandolfo (Roma) com a Assembleia dos sacerdotes focolarinos. O programa previa, após a aprovação do regulamento e da programação, um dia de retiro e a relação dos seis anos passados, com a abertura às novas perspectivas. Em seguida, trabalhos por grupos temáticos e a eleição do novo responsável central. O último dia foi dedicado às orientações para os próximos seis anos e ao diálogo com a presidente dos Focolares, Maria Voce, e o copresidente, Jesùs Morán. As meditações matutinas, com trechos escolhidos de Chiara Lubich, foram momentos de aprofundamento sobre o que é específico dos sacerdotes e diáconos focolarinos. Recordou-se a figura de padre Silvano Cola, que ajudou Chiara a fundar este setor do Movimento, quando ainda não estava definido. Em 1965, no primeiro encontro para sacerdotes diocesanos focolarinos, Chiara deu a sua visão do sacerdote focolarino como de alguém que tem sempre no coração a oração de Jesus «Pai, que todos sejam um», e que «não fica em paz até quando esta não se realiza em sua paróquia […]. Não resignar-se, portanto, apenas aos bons que vão à igreja, mas tentar de tudo para aproximar todos […] é preciso movimentar-se, não ficar parados». Chiara fala de focolares projetados para a Igreja como fermento de unidade e explica que «o focolare sacerdotal é como o sal que deve desfazer-se na diocese para salgar toda a sopa, tornar toda a diocese “salgada”. Se esse sal fica por conta própria vai contra a sua vocação». Na apresentação da relação dos últimos seis anos foram analisadas as prioridades que emergiram na Assembleia precedente, entre as quais a relação com as novas gerações, a vida de família com os sacerdotes idosos e doentes, a irradiação da espiritualidade de comunhão na Igreja. O diálogo que se seguiu testemunhou o compromisso assumido e levantou questões principalmente sobre três aspectos: formação, vida em comum, necessidade de “sair”. Recordaram-se as palavras-chave das orientações vindas da Assembleia Geral do Movimento: sair, juntos, oportunamente preparados, em forte sintonia com o que augurou o Papa Francisco na audiência com os Focolares, no dia 26 de setembro. Nos trabalhos em grupo e na plenária foi traçado o caminho para os próximos seis anos.
Tendo presente tudo isso aconteceu a votação e a escolha foi para Antônio Bacelar, de Portugal, que aceitou «com a graça de Deus, pronto a dar a vida por cada um de vocês». Foi um momento de forte emoção. Pe. Antônio confidenciou: «Tenho na alma o desejo de descobrir cada vez mais o nosso sacerdócio mariano. Existem muitos “como será?”… deixemo-nos conduzir por Deus, por Jesus entre nós e encontraremos o caminho. Humanamente eu poderia assustar-me, mas com vocês será uma aventura extraordinária». Na conclusão foi lembrada uma passagem de Santa Teresa D’Ávila, recordada sempre por Pe. Antônio no dia anterior: «Se nós estivermos no amor faremos muito, em breve tempo, sem fadiga».
18 Out 2014 | Sem categoria
«Aos 80 anos de idade, no 15º ano de pontificado, Paulo VI pode olhar à sua obra pontifícia, transcorrida entre agitações sociais e intelectuais, como uma obra de rejuvenescimento da igreja [católica]. […] O Papa Montini acolheu a mensagem de “atualização” do Concílio Vaticano II, realizando, contra as frenesias da “morte de Deus”, do “cristianismo irreligioso”, do conservadorismo arcaico, uma obra de paciência, clarividência, coragem, que incluiu a atualização dos principais institutos pontifícios e a construção de novos dicastérios e serviços, entre os quais – para dar uma ideia – o “Conselho Justiça e Paz” e o “Conselho Pontifício para os leigos”. Estes, e outros organismos universais, realizam uma crescente colaboração de bispos e clero, de religiosos e religiosas, de leigos e leigas, reavivando um novo senso eclesial, senso que brota de uma nova consciência comunitária, fruto do amor evangélico, com o qual dá-se fim ao individualismo e ao ‘classismo’ religioso, e os homens se fundem nas paróquias, nas instituições locais e mundiais, na igreja e na sociedade, para atuar o desejo de Deus na terra como no céu. Isto recorda que o cristão realiza o querer de Deus seja quando reza seja quando trabalha. Os Padres da Igreja consideravam o fiel em oração também quando fazia a vontade de Deus em ocupações de todo tipo. A ação social – o serviço pelo bem comum -, se realizada com o pensamento no Pai nos céus, adquire um caráter e um resultado de autêntica religiosidade. Por isso, falando a um grupo de bispos de Cuba, Paulo VI recordava que a igreja convida constantemente os filhos a serem “homens novos” na justiça, na verdade e na caridade, porque a mesma educa a consciência social dos fieis, favorecendo neles a ativa colaboração ao bem e ensinando-os a vencer o próprio egoísmo e a jamais resignarem-se a serem “cidadãos inferiores”. Daqui a inspiração de estimular uma reforma social, o surgimento de um “mundo novo”, como o jovem G.B. Montini havia entrevisto desde os anos da colaboração no periódico católico “La Fionda”, quando propugnava uma escola livre para confrontar o nascente fascismo. Com perspectivas de uma amplidão e modernidade que explicam o desenvolvimento da socialidade cristã em curso – à qual prestam homenagens inclusive sociólogos distantes da religião – o papa pode recordar ao corpo diplomático os mais audaciosos princípios da igualdade sem distinções de origem ou de raça, no exercício dos direitos de liberdade religiosa e civil, e na condenação ao racismo, à tortura e a toda brutalidade para com opositores políticos. Manifesta-se, nos discursos do papa, aquela verdade que frequentemente, também nós católicos, esquecemos: que a religião é feita para a vida, que Deus é a vida […]. O amor: tema central da vida e do trabalho do Santo Padre; tema central do cristianismo, da criação e da redenção. Com amor ele reaproximou à igreja indivíduos e multidões, igrejas separadas e estados hostis. E a sua atividade no setor do ecumenismo, silenciosa mais do que clamorosa, realizou verdadeiramente a reaproximação de igrejas, o que faz compreender o nome familiar com que o profético Patriarca Atenágoras o designava: “Paulo segundo”». (De: Igino Giordani, Paulo VI, o papa do Concílio, “Città Nuova”, 10.7.1978, p. 26.)