Movimento dos Focolares

A Palavra de Deus

Com esta convicção e em sintonia com a igreja, Chiara Lubich doa sua experiência da Palavra de Deus, evidenciando seu poder e fecundidade. A presente coletânea revela a tenacidade de Chiara em querer vivê-la e dela extrair todas as consequências. E mostra como a palavra gera entre os homens relações verdadeiras, dando ao mundo a unidade. “Deus amou tanto o nosso mundo que nos deu seu filho. Ele anuncia a boa nova do Reino aos pobres e aos pecadores. Por isso, nós […] queremos e devemos proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo. Anunciamos a nossos povos que Deus nos ama,  […]. Os cristãos portadores de boa novas a humanidade” (Aparecida, 29). O livro responde à essência da evangelização apontado pelos bispos latino-americanos. Editora Cidade Nova

Uma luz na doença

Uma luz na doença

«Há cerca de quatro anos, quando foi diagnosticada em Fernando a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), um arrepio percorreu toda a minha pessoa – conta Maria -. Fiquei amargurada e cheia de medo. Intuindo o meu estado de alma ele sussurrou: “Eu estou pronto, você vai ver que Deus nos dará a graça para esse momento precioso”. Eu senti que estava renascendo; eu também queria aderir ao desígnio de amor que Deus preparara para nós. E foi assim que começamos esta aventura.

Depois de algum tempo Fernando foi levado a uma UTI, por causa de uma crise respiratória, mas o nosso modo sereno de enfrentar a doença e a atitude de amor que ele tinha para com os médicos e enfermeiros, fez com que a aproximação, rigidamente profissional, se tornasse familiar e amorosa.

Toda a família do Movimento dos Focolares, e as pessoas conhecidas durante a nossa vida, estão ao nosso lado. E existe uma verdadeira competição de amor: jamais precisei tomar um ônibus, foi organizado um turno para levar-me ao hospital e para desembaraçar o grande protocolo necessário para ativar a assistência domiciliar.

Quando voltamos para casa enfrentei as dificuldades da vida diária, para dar assistência a Fernando dia e noite, e aprendi a usar os instrumentos necessários para garantir a sua vida. Durante a noite os meus ouvidos estão sempre atentos e o meu sono facilmente se interrompe. Mas, se algumas vezes fico um pouco tensa, o olhar amoroso de Fernando sempre me sustenta.

Nesses quatro anos experimentei constantemente que Deus é Pai e se faz presente cada dia, nos modos mais inesperados, principalmente através dos irmãos. Uma manhã, a médica que veio para o tratamento encontrou-me de cama, eu não estava bem. Depois de fazer o seu trabalho ela preparou uma sopa, colocou as roupas para lavar na máquina e deu a comida para Fernando.

E pequenos fatos como esse acontecem todo dia. Um domingo tinha se acabado a reserva de luvas, necessárias para os serviços de assistência, e naquele momento, sem saber de nada, a minha vizinha chegou com uma caixa de cem luvas. Até os pequenos deveres de sempre encontram uma solução, porque alguém toca a campainha e diz: “Você tem alguma conta para pagar?”.

Fernando nunca faz o papel de doente. Com os seus 87 anos predominam nele a alegria e o grande ânimo para com todos. Mantêm-se atualizado e continua sempre a acompanhar a política, principalmente a escola do Movimento Político pela Unidade. Ele, que foi prefeito de Ghilarza (Oristano) por três mandatos, e diretor do CED (Centro de Elaboração de Dados, da Região Sardenha), tem no coração especialmente os jovens, sugere que eles se comprometam na política, e recomenda: “É preciso fazer a purificação do pensamento”.

Entretanto a doença progride e impede as ações mais simples e elementares, mas ele vive essa realidade numa dimensão “celestial”, buscando fazer a vontade de Deus com simplicidade, como quando estava bem, e a sua fé sustenta todos nós que estamos com ele. Se alguém o visita e demonstra pena, ele depois me diz: “Eles falam de morte, eu sinto que a vida transborda!”. E não hesita em comunicar, a quem acredita ou não, a sua experiência e filosofia de vida: “Entrego-me inteiramente a Deus, como Jesus. Quando tenho medo não temo. O medo destrói a vida”».

Uma luz na doença

Guatemala: no coração da América Latina

Um tapete colorido, feito com pétalas de flores segundo a antiga tradição religiosa, acolheu Maria Voce e Giancarlo Faletti, em um clima de festa, no Centro Mariápolis “Maria dos Focolarinos”, na capital guatemalteca. Esta é a primeira etapa de uma longa viagem que estão fazendo à América Latina. Vieram aqui para encontrar – como tinham prometido – a “família de Chiara” que povoa também esta parte do planeta. Uma viagem intensa, com encontros com as autoridades civis e eclesiais e representantes das organizações leigas locais. Membros e amigos do Movimento dos Focolares. O fruto de uma história de relacionamentos e de vida, semeados nestes anos e alimentados pelo carisma da unidade. Para a ocasião estiveram presentes, além de toda a Guatemala, pessoas de Honduras, El Salvador, Nicarágua e Belize. Através deles puderam ser revividas as culturas milenárias que atravessam estas regiões: maias, garifunas, xincas e mestiços. As crianças e adolescentes que frequentam o Centro Educativo Fiore, da Cidade da Guatemala, apresentaram uma coletânea de danças. O Centro traz o nome de Fiore Ungaro, a primeira focolarina enviada por Chiara para trazer a Espiritualidade da unidade até aqui. Atualmente conta 210 alunos e 28 entre professores e funcionários. Aqui, como em todos os países centro-americanos, a educação constitui um fator determinante, capaz de sanar as chagas da sociedade, e esta atividade quer ser uma concreta resposta de amor a esta necessidade. No encontro com os representantes de cerca de dez movimentos, que fazem parte da “Comissão dos Movimentos Leigos e Novas Comunidades”, órgão da Conferência Episcopal Guatemalteca, esteve presente o bispo de Escuintla, D. Victor Hugo Palma Paúl. Foi ele que recebeu Maria Voce e Giancarlo Faletti: «Os Focolares são uma das escolas mais vivas», ele disse, «vocês têm um carisma que acende, acolhe e aquece a vida cristã, acentuando a unidade». São cerca de 40 as focolarinas e os focolarinos que vivem nessas nações, com nacionalidades argentina, equatoriana, mexicana, colombiana, italiana. São o “coração” do Movimento dos Focolares e, como este, possuem particularidades diversas: etnias, profissões, sensibilidade política, social e econômica. Após escutá-los Maria Voce lançou uma ideia: a unidade deve passar através de uma “cultura da confiança”. «Trata-se – explicou – de ter confiança total no outro, no irmão. O outro quer aquilo que eu quero, ou seja, a unidade. O que cada um realiza não o faz para ser admirado, para afirmar-se ou sobressair. O faz pela unidade. Cada um trabalha de modo diferente, mas também ele trabalha pela unidade. Confiar em Deus e no outro é, portanto, imperativo. Significa acreditar que Deus está trabalhando: não lhe servem pessoas perfeitas, mas aquelas pessoas de quem ele precisa». Danças folclóricas, trajes com cores exuberantes, músicas ritmadas e envolventes. O auditório do Centro Mariápolis recebeu mais de 600 pessoas, todas membros das comunidades dos Focolares nos vários países. A história do Movimento na América Central teve início em 1954 e tem traços extraordinários, pelas condições adversas impostas pela guerra, pelas dificuldades econômicas e as distâncias. Mas é também uma história que exprime um senso de gratidão a Deus. «Parece-me que os povos de vocês – disse Maria Voce, no final – têm um destino: mostrar como seria a humanidade se levasse em consideração as riquezas de cada pessoa. Cada experiência é necessária aos outros, para constituir um mosaico de beleza incomparável». Imediata foi a relação profunda que se criou com os 200 jovens, entre 15 e 25 anos, e juntamente com a alegria de estar juntos emergiu também o esforço de uma conduta contracorrente: «Vocês não estão sozinhos – disse-lhes Maria Voce – todas as vezes que tiverem que fazer uma escolha pensem que não estão sós, todos os jovens que optaram pelo mundo unido estão com vocês».

O homem pacífico não ignora a luta

Uma cidade que partisse do nada chegaria ao nada, movida por impulsos que levam à nulidade. Uma sociedade que partisse da cobiça por dinheiro levaria ao combate para conquistá-lo. Uma que partisse só do estômago terminaria num esgoto. Mas, a vida parte da vida. A política é guiada pela justiça. Mas se fosse apenas justiça permaneceria estéril para aqueles cidadãos que fossem vencidos nas competições da existência. Se é o contrário aperfeiçoa-se com a caridade, e dessa autoridade faz-se serviço; um serviço realizado com respeito à pessoa humana e com um sentimento de débito para com a miséria. Concebida assim a política sente-se responsável pelo bem de todos os cidadãos, inclusive dos últimos: não cessa de impedir o mal, de manter a ordem externa, mas esforça-se em suscitar o bem, com uma ordem diferente, tornando-se uma atividade supremamente benéfica. A política, fora da lei de Deus, transforma-se em uma maldição para os administradores; na lei de Deus torna-se uma ajuda vigorosa para alcançar fins individuais, familiares, profissionais. E se executa a lei de Deus, edifica a cidade de Deus. Nela a caridade exclui o egoísmo de manter-se à parte e dá a cada um o dever de assistir a comunidade, e vê o interesse público não como uma categoria externa, mas como interesse comum, no qual estão incluídos os destinos das respectivas famílias e pessoas. Chama-se, de fato, “bem comum”. O homem pacífico não ignora a luta, o homem da caridade não ignora o ódio. Logo que sai da “cela do próprio eu” encontra o adversário. É um irmão, mas reduzido a inimigo. E com frequência recebe tanto mal pelo tanto que faz de bem. E a cada passo é instigado à vingança, e talvez por dez, dezesseis, vinte horas, nada mais faz do que viver dentro de estímulos de ambição e seduções de corrupção. Sim, porque o seu é só um combate contra a luxúria, a guerra e o ódio: mas combater é viver como sinal de contradição. Igino Giordani, Le due città, Città Nuova, 1961.