Movimentos eclesiais, encarnação do Evangelho

Marc St. Hilaire. dos Focolares

Salvatore Martinez, Aurelio Molè, P. Marmann, D. Angelo Romano
Segundo Pe. Angelo Romano, Reitor da Basílica de S. Bartolomeu em Roma, e do departamento de relações internacionais da Comunidade de Sant’Egídio, “existem alguns setores em que a caminhada comum deve crescer: como cristãos não podemos deixar de nos interrogar sobre o fenômeno das migrações e promover iniciativas comuns. Outro tema a ser aprofundado é o dos conflitos, geradores de pobreza e sofrimento e de uma mensagem contrária ao Evangelho pela qual se somos diferentes não podemos viver juntos, enquanto que nós acreditamos que o Evangelho é fermento de unidade e paz e os cristãos são chamados a suscitar perspectivas novas”. Além do mais, a obra dos movimentos é uma encarnação do Evangelho: “Nós somos a resposta – afirma Martinez – àquela dicotomia que muitos gostariam de pôr entre doutrina e misericórdia, porque a teologia do espírito se faz com a vida”. E a proposta de uma Igreja pobre e missionária não está em antítese com a doutrina, mas parte dela: “É aquele diálogo com o mundo e a modernidade que o Vaticano II tinha profetizado – diz Martinez –, que Paulo VI antes de todos procurou encarnar e, depois, todos os pontífices que acompanharam a nossa história. É esta síntese original que o Papa nos pede que testemunhemos: uma doutrina que se encarna na história”. Nesta perspectiva, a vinte anos da investidura de 1998, os movimentos eclesiais se mostram cada vez mais como “a resposta providencial às necessidades do nosso tempo”. Uma resposta que implica um trabalho constante pela unidade, para levar o rosto de Cristo às periferias do humano. Claudia Di Lorenzi
Dubai: no topo
O Burj Khalifa, edifício de 830 metros e 160 andares com um mirante, até o momento, ainda é a construção mais alta realizada pelo homem, diante de uma enorme fonte iluminada por raios laser que dançam ao ritmo da música. Até que este primado seja superado, provavelmente da Torre do Reino de Jeddah (200 andares), ou de um outro dos grandes arranha-céus em construção em várias partes do mundo, estar “no topo”, olhando do alto os edifícios de luxo e as construções ultramodernas, continua sendo uma característica peculiar de Dubai. Nos últimos anos, a cidade teve a uma taxa migratória altíssima, entre as mais elevadas do mundo, com uma grande afluência de pessoas provenientes de todas as partes do mundo, principalmente à procura de trabalho. O resultado é um original laboratório de cosmopolitismo, não isento de dificuldades, especialmente para os trabalhadores estrangeiros. Nesta “selva” de arranha-céus e cimento, vive uma pequena comunidade do Focolare, composta principalmente por pessoas que, como muitas outras, tiveram que deixar para trás as incertezas que viviam nas suas respectivas nações e foram para Dubai em busca de uma maior segurança para a própria família. No último mês de fevereiro, esta comunidade recebeu com grande alegria a chegada de Romè (das Filipinas), Fadia e Susanne (da Jordânia) e Murad (da Síria), juntamente com Alessandro (da Italia), que se uniu ao grupo por alguns dias. O grupo foi a Dubai para um “focolare temporário” de três semanas.
Contam: «Fomos recebidos no aeroporto por um pequeno grupo de pessoas radiantes que entregaram a cada um de nós uma flor! Sentimo-nos imediatamente em casa. Na manhã seguinte, recebemos por e-mail uma carta da Maria Voce, presidente dos Focolares: “Que Jesus, sempre presente entre vocês, seja o maior presente para todas as pessoas que encontrarão”. Este tornou-se um programa claro para aquelas nossas semanas de imersão no coração de uma comunidade. Com muita atenção começamos a aproximar-nos de uma pessoa de cada vez, marcando encontros nas casas, na igreja, nas estações de metrô, nos restaurantes e em alguns centros comerciais mais próximos. Levamos muitas coisas materiais para partilhar com as pessoas. Todos os momentos do dia, até à noite, e qualquer lugar era uma boa ocasião para construir o refúgio temporário de Jesus entre nós. Era isso que queríamos levar a todos. Cada encontro era uma explosão de alegria!». No programa das três semanas houve uma Mariápolis de dois dias. «Sabíamos que estávamos em Dubai para por-nos ao serviço. Com esta finalidade, chegamos à reunião preparatória da Mariápolis com o grupo dos “animadores”, caracterizado pela internacionalidade e a diversidade cultural. Cada um dos setenta participantes da Mariápolis, de onze nacionalidades, deu um contributo concreto. A herança de Chiara Lubich, “ser sempre família”, foi palpável». «Falando com uma pessoa e outra – continuam – demo-nos conta de quantas preocupações e pesos elas levam no coração: a discriminação, o medo de perder o trabalho, o alevado custo de vida com salários baixos, nenhuma residência permanente, nem clareza ou segurança a longo prazo. Todavia, por detrás de tudo isso, é evidente como cada um procura guardar um tesouro no fundo do coração: a escolha de Deus como o ideal da própria vida». Concluem: «A vida de unidade na comunidade é a característica delas. Procuram ser sempre unidos apesar dos desafios que devem enfrentar diariamente». A corrida para estarem sempre no topo, no caso deles, não é uma questão de metros. Chiara Favotti
Síria: retornar ao diálogo
A ação da força militar na noite entre 13 e 14 de abril trouxe para o centro das preocupações internacionais o conflito na Síria. Depois do veemente apelo do Santo Padre, a presidente dos Focolares, Maria Voce, reafirmou, em nome dos membros do Movimento no mundo, a sua proximidade, solidariedade e oração pelo povo sírio que, há sete anos, vive sofrimentos terríveis. “Estando em constante contato com as nossas comunidades da Síria – diz Maria Voce –, não podemos deixar de assumir como própria a dolorosíssima impressão delas de serem vítimas de uma guerra por procuração, causada e realizada por outros interesses”. “O Movimento – ressalta a presidente – faz um apelo aos líderes políticos do mundo inteiro para que voltem a um diálogo profundo e verdadeiro, guiados pela busca sincera de uma solução pacífica em prol do povo sírio e de todos os povos do Oriente Médio”. Rocca di Papa (Italia), 15 de abril de 2018
Mais do que irmãs
«Nunca seremos capazes de avaliar a ajuda que os irmãos nos dão. Quanta coragem infunde em nós a fé que eles têm, quanto calor o seu amor, como nos arrasta o exemplo deles!». Chiara Lubich (1920-2008), autora destas linhas, é conhecida como aquela que soube arrastar atrás de Cristo centenas de milhares de pessoas, que entretece relacionamentos com budistas, muçulmanos, é seguida por pessoas sem convicções religiosas e dá um novo alento de vida à política, à economia. Sobre a balança das contribuições que tornaram Silvia Lubich simplesmente “Chiara”, pesa não pouco a amizade com as suas primeiras companheiras. Tudo começou com uma escolha de Deus, e com a consagração na virgindade em 1943, em Trento. Mas bem cedo não é um “eu”, mas um sujeito coletivo que se move, age, reza e ama: Chiara e as suas primeiras companheiras poderiam ter se tornado pessoas quaisquer, ao invés foram faróis nos cinco continentes. Esta história beira ao inacreditável e, no entanto, é simples. Podemos entender se abrirmos o Evangelho no capítulo 13 de João: «Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros» (João, 13, 34). Um mandamento que só pode ser posto em prática juntos. Quando, nos refúgios antiaéreos, ouvem esta passagem, trocam entre si um olhar de entendimento, enquanto avaliam o compromisso exigido. Não hesitam em se declararem reciprocamente: «Eu estou pronta a te amar até dar a vida por ti». Chiara considerará isto a pedra angular sobre a qual apoiará o edifício do Movimento dos Focolares. Certamente não é uma coisa inédita na história da Igreja. Mas há talvez algo novo. Chiara transmite às companheiras aquilo que vive e tudo o que o Espírito Santo lhe inspira. Entre elas existe um vínculo sólido como a rocha, e eu gostaria de ilustrar a qualidade deste relacionamento que valoriza, liberta as potencialidades e edifica uma obra de Deus.
Estamos em 1954. Já se passaram uns dez anos. Em Roma, com Chiara, vivem Giosi, Graziella, Natalia, Vittoria (chamada Aletta), Marilen, Bruna, Giulia (Eli). Um dia, enquanto Chiara se detém as observando, lhe vem em mente uma frase do livro dos Provérbios: «A Dama Sabedoria construiu sua casa, talhando sete colunas» (Provérbios 9, 1). Vê sete jovens mulheres, cada uma com um talento, unidas e enraizadas em Deus. Eis as sete colunas da sabedoria, as sete cores do arco-íris que brotam de uma única luz, o amor. Sete aspectos do amor, interdependentes, fluentes uns dos outros e uns nos outros. A Giosi, Chiara confia a gestão da comunhão dos bens e dos salários, além do cuidado pelos pobres: o vermelho do amor. A Graziella, confia «o testemunho e a irradiação», o alaranjado. Natalia foi a primeira companheira: a ela cabe personificar o coração deste ideal, o grito de Jesus abandonado a ser amado. Levará este segredo para além da Cortina de ferro. Era a espiritualidade e a vida de oração, o amarelo do arco-íris. Aletta será lembrada como aquela que infundiu entre os membros do Movimento o empenho de cuidar da saúde, para formar uma comunidade unida no amor: fez isso no Oriente Médio em guerra. Chiara lhe confiou a natureza e a vida física, o verde. A Marilen, que viveu quinze anos na floresta da Rep. dos Camarões, no meio de uma tribo e testemunhou um respeito incondicional pela cultura deles, Chiara confiou o azul: a harmonia e a casa. Bruna era uma intelectual e Chiara a viu como aquela que devia desenvolver o aspecto dos estudos: o anil. A Eli, que sempre estava ao lado de Chiara, cuidando para que todos os membros no mundo vivessem em uníssono, foi confiado o aspecto da «unidade e meios de comunicação», o violeta. Outras companheiras terão, sucessivamente, funções particulares: Dori, Ginetta, Gis, Valeria, Lia, Silvana, Palmira.

1959: Lia, Marilen, Bruna
