14 Dez 2021 | Sem categoria
Após a Assembléia Geral do Movimento dos Focolares, no início de 2021, a Escola Abbà (Centro de Estudos do Movimento dos Focolares) recomeçou com uma nova configuração. Para saber mais, entrevistamos seu diretor, Dom Piero Coda, ex-reitor do Instituto Universitário Sophia em Loppiano (Itália), recentemente nomeado pelo Papa Francisco como Secretário Geral da Comissão Teológica Internacional. Você estava no primeiro grupo convocado por Chiara Lubich para formar a Escola Abba: quais são os objetivos deste grupo de estudo? Como tem sido sua experiência intelectual e espiritual em contato com o pensamento e a vida da Lubich? Certamente, por uma dádiva singular de Deus, eu me vi participando do início desta experiência com Monsenhor Klaus Hemmerle, em 1989, antes do início oficial da Escola Abba, em 1990. O objetivo que Chiara Lubich confiou a este Centro de Estudos original, desde o início, foi o de estudar e analisar as implicações teológicas, culturais e sociais do carisma da unidade. Mas, antes de tudo, o de ter uma experiência vivida e compartilhada do Evangelho de Jesus na luz que flui do carisma. Tanto que uma das
últimas instruções que Chiara deu à Escola Abba em 2004 foi: «Sejam um cenáculo de santidade!» Esta é a dádiva e a tarefa da Escola Abba: aprender a habitar com a própria vida, e assim também com o próprio pensamento, naquele lugar onde a presença de Jesus ressuscitado no meio nosso meio no coloca, aquele lugar que é a vida de Deus, o seio do Pai. Esta vida – Chiara nos ensinou de acordo com o Evangelho e a fé da Igreja – é a própria vida da Santíssima Trindade, não somente no céu, mas no nosso meio: “na terra como no céu”. Para mim foi e é uma experiência única. Eu poderia descrevê-la com as palavras da primeira carta de João: «meus olhos viram, minhas mãos tocaram, meus ouvidos ouviram… a Palavra da vida»: os sentidos da alma se acenderam e experimentaram a luz de Jesus abandonado e ressuscitado, com a qual olhar para a realidade de uma nova maneira. Assim, mais do que antes, a teologia tornou-se para mim um fato vital e fascinante e, ao mesmo tempo, uma vez que especialistas de todas as disciplinas estão presentes na Escola Abbà, visando viver a unidade também na comunhão de pensamento, abriu-se o horizonte da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade, ou seja, da descoberta da raiz e do objetivo comum de todas as formas de conhecimento que, portanto, são chamadas concretamente a dialogar umas com as outras. A teologia que pratico tem sido extraordinariamente enriquecida neste diálogo conduzido não apenas no plano interpessoal, mas também no plano das relações entre disciplinas.
Recentemente, a Escola Abba passou por algumas mudanças e você se tornou o novo diretor em março de 2021. Poderia nos dizer em que consistem estas mudanças? A Escola Abba tem agora mais de 30 anos e, ao longo deste tempo, ela foi se desenvolvendo e enriquecendo. Quase 50 pessoas ingressaram na Escola em diferentes momentos, até 2004, com a presença constante e decisiva de Chiara. Em seguida, nasceram grupos de várias disciplinas em torno de seus membros: psicologia, sociologia, política, economia, ciências naturais, arte, diálogo… atualmente mais de 300 pessoas no mundo inteiro. Em conjunto com a Assembléia Geral da Obra de Maria e como fruto de um dia inteiro de discernimento comunitário, foi observado que a “flor” da Escola Abba nestes anos floresceu com “quatro pétalas”: e assim procuramos dar-lhes uma configuração unitária e distinta, que reconhece e promove este desenvolvimento a serviço da missão da Obra de Maria. Uma “pétala” é formada por aqueles (cerca de quinze pessoas) que são chamados a continuar o estudo específico do significado carismático e cultural do evento de 1949, como expressão peculiar do carisma da unidade na experiência vivida por Chiara, Foco (Igino Giordani), as primeiras companheiras e depois gradualmente por todos aqueles que participam do carisma, um evento de graça do qual guardamos um precioso testemunho escrito pela própria Chiara. Uma segunda “pétala” é aquela comprometida com a transmissão deste patrimônio de luz e doutrina para as novas gerações: um grupo de 27 jovens estudiosos, com diferentes habilidades disciplinares, de várias partes do mundo. A terceira “pétala” reúne aqueles que fizeram parte da Escola Abba até agora, e que continuam fazendo parte dela (um bom grupo de 29 pessoas), com o objetivo de realizar projetos de pesquisa inspirados no carisma e a serviço da Obra, com base em suas respectivas habilidades e experiência. Finalmente, a quarta “pétala” é a dos grupos disciplinares com alcance internacional. Que projetos vocês têm para o futuro? Estamos colocando projetos sobre a mesa para discernir o que fazer e como fazê-lo. Algumas coisas interessantes já estão surgindo. A primeira é dar forma a um “léxico” da vida da unidade: uma espécie de vademecum, no qual as idéias e as forças liberadas pelo carisma da unidade são apresentadas de forma universal e enriquecidas à luz de todos os progressos realizados até o momento. Uma outra coisa é oferecer uma contribuição, partindo da especificidade do carisma, para o caminho sinodal da Igreja que o Papa Francisco acabou de lançar. De fato, acreditamos que neste sentido há algo importante: porque Chiara, em 1949, disse que a «Alma» – este novo sujeito, pessoal e comunitário ao mesmo tempo, que nasce do pacto de unidade – está «vestida de Igreja» que é acolhida no seio da Trindade e é um «grupo» que caminha. E sínodo, de fato, é o nome da Igreja que caminha lado a lado com todos, começando pelos mais pobres e descartados e com todos aqueles em quem reconhecemos o rosto e o grito de Jesus Abandonado. Depois, há o grande tema antropológico que desafia nosso tempo: em particular, a relação entre as pessoas e, especialmente, entre os homens e as mulheres e entre culturas diferentes. E, finalmente, a relação entre as religiões: um sinal dos tempos e um propósito específico do carisma da unidade. Uma pessoa que faz parte do Movimento dos Focolares poderia perguntar: como posso participar da Escola Abba? Toda a Obra de Maria é uma Escola Abba! Como Chiara mesma dizia, o Movimento nasceu como uma escola. Na Escola Abba, e portanto também na Obra, é preciso colocar-se naquela mesma atitude de aprender algo novo e viver, como Deus fez com Chiara, Foco, as primeiras focolarinas e os primeiros focolarinos, especialmente em 1949. O compromisso, portanto, é que a Escola Abba não seja uma casa com as portas fechadas, mas que seja toda ela de janelas e portas, para que todos possam participar. Vejo, por exemplo, a pequena experiência que estamos tendo em Loppiano em oferecer alguns insights para que todos possam participar dessa luz. É algo extremamente positivo: também porque quando esta luz chega às pessoas em suas diferentes situações, em suas diferentes habilidades, em suas diferentes sensibilidades, desperta alegria e criatividade. A Escola Abba não é uma realidade unidirecional: no sentido de que ela parte apenas da luz que é oferecida. Não! A luz começa e retorna enriquecida pela experiência, pelas perguntas, pelas soluções que a vida do povo de Chiara ganha e oferece. Uma circularidade virtuosa, portanto, que deve ser cada vez mais e cada vez melhor ativada e promovida.
Carlos Mana
13 Dez 2021 | Sem categoria
Todos os anos, enquanto aguardamos o Natal, ouvimos o convite para “preparar o caminho para o Senhor”. (Is 40,3) Deus, que sempre demonstrou um desejo ardente de estar com seus filhos, vem “habitar entre nós”. Chiara Lubich nesta passagem sugere como nos preparar para Sua vinda, como abrir nossos corações a Jesus que nasce. Frequentemente nós mesmos sentimos o desejo de encontrar Jesus, de tê-lo como companheiro no caminho da vida de sermos inundados pela sua luz. Mas, para que ele possa entrar na nossa vida, é preciso remover os obstáculos. Já não se trata mais de abrir o caminho, mas de abrir-lhe o coração. O próprio Jesus enumera algumas das barreiras que fecham o nosso coração: “roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades, fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho…” (Mc 7:21-22) Às vezes é o rancor contra os parentes ou conhecidos, são os preconceitos raciais, é a indiferença diante das necessidades de quem está ao nosso lado, a falta de atenção e de amor na família… (…) Como podemos preparar concretamente o caminho para Jesus? Pedindo-lhe perdão toda vez que nos damos conta de que levantamos uma barreira, dificultando a comunhão com Ele. É um ato sincero de humildade e de verdade com o qual nos apresentamos a Ele tais como somos, declarando a nossa fragilidade, os nossos erros, os nossos pecados. É um ato de confiança com o qual reconhecemos o seu amor de Pai “misericordioso e rico em bondade”. (Sl 102:8) É a expressão do desejo de melhorar e de recomeçar. Esse pedido de perdão pode ser feito à noite, antes de nos recolhermos: é o momento mais propício para dar uma parada, rever o dia que passou e pedir-lhe perdão. Também podemos viver com maior consciência e intensidade o momento inicial da Celebração Eucarística quando, junto com a comunidade, pedimos perdão pelos nossos pecados. Podemos ainda contar com a enorme ajuda da confissão pessoal, que é o sacramento do perdão de Deus. É um encontro com o Senhor, ao qual podemos doar todos os erros cometidos. Dali saímos salvos, com a certeza de termos sido renovados e com a alegria de nos redescobrirmos verdadeiros filhos de Deus. É o próprio Deus que, com o seu perdão, elimina cada obstáculo, que “aplaina os caminhos” e que estabelece novamente o seu relacionamento de amor com cada um de nós.
Chiara Lubich
(Chiara Lubich, in Parole di Vita, a cura di Fabio Ciardi, Opere di Chiara Lubich, Città Nuova, 2017, pag. 766-768)
10 Dez 2021 | Sem categoria
Concluiu-se no dia 08 de outubro de 2021, em Gênova (Itália), a fase diocesana do processo de beatificação de Alberto Michelotti e Carlo Grisolia. A história deles é um caminho compartilhado, uma amizade verdadeira e capaz de superar tudo. Como fazer para nos tornarmos santos juntos? Não é simples. É preciso tempo e, sobretudo, caminhar na mesma direção, olhar para a mesma fonte de luz. É essa a história de Alberto Michelotti (Gênova, 1958 – Monte Argentera, 1980) e Carlo Grisolia (Bolonha, 1960 – Gênova, 1980), dois jovens de Gênova (Itália) muito diferentes em alguns aspectos e, mesmo assim, ligados por uma grande amizade e um desejo único: colocar Deus no centro da própria vida. O ideal e o carisma do Movimento dos Focolares os atraiu fortemente e os uniu em um relacionamento construído com uma verdadeira partilha e fraternidade. Ambos partiram para o céu em 1980, com a diferença de 40 dias um do outro: Alberto, durante um passeio nas montanhas e Carlo, por conta de um tumor. Dois amigos e um único processo de canonização, iniciado pelo cardeal Tarcisio Bertone, arcebispo de Gênova em 2005, que no último dia 08 de outubro viu sua fase diocesana ser concluída. Mas quem realmente são esses dois jovens? Alberto tem o perfil de líder, de vencedor, mas sua liderança é de “serviço”, o que o aproxima sempre mais do próximo, sobretudo dos mais necessitados e dos jovens. Nascido e criado com a sua família em Gênova, frequenta com os pais a paróquia de São Sebastião. Participa de maneira ativa da vida paroquial e, depois de um envolvimento inicial na Ação Católica, conhece graças ao sacerdote Mario Terrile a espiritualidade de Chiara Lubich que o envolve. É justamente durante a Mariápolis de 1977, encontro do Movimento dos Focolares, que Alberto recebe como presente uma notícia nova, algo que mudará para sempre a sua vida: “Deus Amor”. No mesmo ano começa a fazer parte dos Gen (Geração Nova), o setor jovem do Movimento, e é aqui que conhece Carlo, com quem experimentará uma profunda unidade, capaz de superar as diferenças de caráter que os distinguem. Carlo, diferentemente de Alberto, é um garoto mais introvertido e poético. Estuda agronomia e gosta de ler, tocar violão e compor músicas. É um sonhador, um tipo com asas nos pés, nada a ver com a grande paixão de Alberto pelas montanhas e a racionalidade matemática, típica do estudante de engenharia que é. E mesmo assim, há algo grande que os une: o desejo de levar aos outros o ideal evangélico do mundo unido com alegria e entusiasmo e, sobretudo, a vontade de colocar sempre em prática a mensagem de Jesus “onde dois ou mais estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:15-20). Carlo aprende a estratégia de “tornar-se santos juntos” do Movimento dos Focolares, que conhece desde pequeno graças aos seus pais. É um convite lançado por Chiara em uma mensagem sua que se torna uma ideia fixa para ele, em particular depois de ter se mudado para Gênova por conta do trabalho do pai. Vir, “verdadeiro homem, homem forte”, não é apenas o nome que a fundadora do Movimento dos Focolares lhe atribui, mas se torna com o tempo um programa de vida para Carlo que tira suas forças de Jesus, a única fonte de energia possível, como escreve em uma de suas músicas: “E respira no ar o amor que esse novo sol que nasce em você lhe doa”. A amizade entre esses jovens dura três anos e, entre as duas almas, parece que se vê realmente a maturidade de quem compartilhou muito, de quem tem a experiência verdadeira da vida, explorando-a, aquela maturidade que geralmente é dos sábios. No caminho de busca ao Amor autêntico descobrem a pureza como instrumento para chegar juntos à verdadeira liberdade e compartilhar esse ideal com os amigos. Pensamentos profundos se entrelaçam em uma trama toda colorida, em cartas que, há um tempo, substituiam nossas mensagens pelo whatsapp. “Provavelmente será o ano de militância para você”, escreve Alberto a Carlo no dia do seu 19º aniversário. “Talvez com novas dificuldades, novas alegrias. Um pouco como o dia de hoje, que começou com um sereno fantástico e agora, às 16h, se transformou em um cinza invernal (…). Mas sabemos muito bem que, por trás dessas nuvens, está o Sol.” Alberto e Carlo se espelham um no outro, reconhecendo alegrias e medos, lutas e conquistas e, com a confiança naquele Amor que tudo pode, estão prontos a viver a frase do Evangelho: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (João 15:13). Alberto perde a vida nas montanhas do Cuneo, no dia 18 de agosto de 1980, ao cair durante uma escalada em uma ravina congelada nos Alpes Marítimos. Carlo não consegue participar do seu funeral. No dia 16 de agosto, volta ao militar para investigar uma série de desmaios e paralisia nos membros que teve. Em poucas horas e, depois da consulta com um médico que não esconde a gravidade da situação, é hospitalizado. Trata-se de neoplasia. Contam a ele sobre a morte de Alberto, mas o tempo é curto e precisa correr ao hospital. Serão esses os 40 das que separam os dois amigos antes de se reencontrarem mais uma vez, unidos para sempre. Nos últimos dias passados no hospital, Carlo, mesmo sem forças, acolhe todos com um grande sorriiso: “Sei para onde vou”, diz a uma enfermeira. “Vou encontrar um amigo meu que partiu há alguns dias em um acidente na montanha.” Carlo sente fortemente a presença de Alberto ao seu lado e não vê a hora de completar aquele “salto em Deus” do qual fala com a mãe no hospital. Um mergulho na imensidão que o leva de volta à casa do Pai no dia 29 de setembro de 1980. Hoje, a 40 anos de distância, aquele pacto invisível selado na amizade de Alberto e Carlo é mais forte que nunca e vive uma nova fase. O que impressiona é a extraordinariedade do evento. Na história da Igreja nunca aconteceu de a verificação canônica de duas causas distintas ser conduzida em paralelo e que envolvesse dois amigos. Para que Alberto e Carlo sejam definidos primeiro beatos e em seguida santos, são necessários dois milagres pela intercessão deles, mas visto que a oração é única para ambos, serão, de qualquer modo, “santos juntos”. A confirmação de uma amizade espiritual como possível caminho de santidade; a realização na vida daquele “assim na terra como no céu” e daquela alegria verdadeira, fruto de uma inspiração profética de Chiara: “Desejo que sejam santos, grandes santos, que sejam santos logo. Tenho a certeza de entregar a felicidade nas mãos de vocês”[1].
Maria Grazia Berretta
[1] Mensagem de Chiara Lubich no “GEN”, Anno XV (1981), n. 4, p. 2-3
8 Dez 2021 | Sem categoria
Sempre pronta, disponível, próxima e, ao mesmo tempo, capaz de ver a perspectiva global. Ela nos deixou no dia 5 de dezembro passado. Desde 2014, foi conselheira no Centro Internacional do Movimento dos Focolares. Nos dias de hoje, saber olhar e conter um horizonte que está se tornando “cada vez mais amplo” é um talento necessário para aqueles que ocupam cargos de direção em organizações internacionais que expressam a grande complexidade que caracteriza este tempo. Friederike Koller tinha esta capacidade.

Friederike Koller com a fundadora dos Focolares Chiara Lubich
Ela nos deixou em 5 de dezembro passado, após uma vida intensa e uma doença fulminante. Passou principalmente na Europa e na África, mas viveu ao lado de muitas pessoas em todos os continentes. De 2014 a 2020, Friederike, focolarina alemã, desempenhou o papel de conselheira no centro internacional do Movimento dos Focolares como delegada central, juntamente com Ángel Bartol. Foram os colaboradores mais próximos da presidente e co-presidente do Movimento, com uma ocupação importante e delicada: trabalhar para manter a unidade das comunidades do Movimento dos Focolares no mundo. Foi uma tarefa ‘glocal’, poderíamos dizer, com desafios constantes e extremamente variados, onde as diversidades culturais, sociais e políticas exigiam uma visão global de povos inteiros, sem esquecer a atenção às pessoas singulares. Friederike era médica de profissão e – como disse Peter Forst, um focolarino alemão – ” estava sempre preocupada em curar, nunca em infligir novas feridas. Escutar, saber esperar, deixar-se tocar profundamente pelas perguntas, colocar-se sempre na linha, estar perto, não evitar conflitos, ganhar confiança: estes foram alguns de seus grandes pontos fortes”. Sua preocupação com cada pessoa e seu desejo de fazer algo grande caracterizaram as escolhas de Friederike desde muito cedo: antes de tudo, música e dança porque, como ela explicou, isso a faziam “entrar num mundo que não passa, que tem gosto de eternidade”. Mas com sua adolescência, as grandes questões sobre o sentido da vida começaram a surgir. Foi uma busca que a levou primeiro a inscrever-se na Faculdade de Filosofia e depois a mudar seu campo de estudo: optou pela Medicina porque pensava que poderia ajudar muitas pessoas e talvez compreender melhor o “segredo” da vida. Depois, um episódio trágico marcou mais um passo para a descoberta do significado que ela procurava: paradoxalmente, a morte absurda de uma amiga após um grave acidente abriu uma porta para a presença de Deus dentro dela e a uma conversa com ele. Pela primeira vez”, conta ela, “aquele Deus, que eu sentia ser apenas um ‘juiz’, tornou-se vida, beleza e harmonia”. Desta forma, descobriu Nele a Verdade que tanto tinha procurado. O primeiro contato com a espiritualidade dos Focolares coincidiu, para Friederike, com a descoberta de um Evangelho “possível” e praticável. “Minha concepção individualista de pensar e fazer”, conta ela, “caiu e, pouco a pouco, comecei a olhar para as pessoas ao meu redor como verdadeiros irmãos e irmãs, confiando no Amor do Pai por cada um”. A vida tornou-se intensa e rica: no trabalho, com os jovens, no cuidado com os mais pobres. “Senti dentro de mim o desejo de me entregar totalmente a Deus, mas ao mesmo tempo, tinha um medo louco de perder minha liberdade”. Naquele tempo, ela aprofundou seu conhecimento sobre Maria, a mãe de Jesus: “Um dia lembrei-me daquele ‘sim’ que ela havia dito contra toda razão humana, mesmo com todos os medos que ela também sentia. Isso me deu a coragem de dizer meu Sim também”. Após a escola de formação das focolarinas em Loppiano (Itália), voltou a morar na Alemanha, primeiro em Colônia e depois em Solingen. Trabalhou como médica durante quinze anos, o que ela descreveria como “uma escola de humanidade, de partilha e também de humildade e de profundo respeito diante da vida de tantas pessoas com desafios inimagináveis”. 
Friederike com jovens na Nigéria
Em 2010, o Movimento dos Focolares estava procurando uma focolarina responsável pela Nigéria, em um momento difícil para a situação social do país, com a eclosão de atos terroristas. Friederike, então co-responsável pelos Focolares no noroeste da Alemanha, não pediu a outras, mas ofereceu-se para ir até lá. Ela amava verdadeiramente o povo nigeriano”, recordam as focolarinas daquela terra, “com seus enormes desafios de geografia, etnia e religião. Ela foi capaz de compartilhar nossas dificuldades, acompanhando cada situação até o final. Ela nos acompanhou e nos encorajou a escolher sempre os últimos”. Tinha um amor de predileção por que é descartado, pobre, esquecido, mas também prestava atenção a todos que encontrava, o que nunca mudou, mesmo quando ocupou cargos importantes. Nos últimos anos, de quinze em quinze dias, anni, prestava serviço voluntário no Centro Astalli em Roma (Itália) que acolhe mulheres migrantes. Preparava o jantar e, quando necessário, ajudava a limpar a cozinha. Às vezes, conversava espontaneamente com as hóspedes da estrutura e, em alguns casos, a sua experiência de médico foi preciosa. Ficava acordada até que a última hóspede voltasse para casa, muitas vezes tarde da noite. E, na manhã seguinte, ia bem cedo para Rocca di Papa, diretamente para o trabalho no Centro internacional dos Focolares. Também viveu a vida cotidiana da comunidade com simplicidade e naturalidade. “Fazia tudo com muito cuidado. Com ela foi muito difícil amar primeiro, inevitavelmente você sempre era o segundo”. “Foi um presente conhecer Friederike”, lembra Conleth Burns, um jovem irlandês com quem Friederike compartilhou o trabalho para o projeto Pathways. “Ela estava sempre pronta, disposta, próxima, capaz de ver o quadro em uma perspectiva global. Para ela, a unidade sempre foi tanto grande quanto pequena, diária e estratégica, pessoal e social. E acho que a melhor maneira de lembrá-la é seguir seu exemplo e vivê-lo ao máximo”.
Anna Lisa Innocenti e Stefania Tanesini
6 Dez 2021 | Sem categoria
Estamos no período litúrgico do Advento. Um tempo de espera, de preparação para o Natal. Um tempo de vigilância e oração. Mas como podemos fazer isto? Também nesta ocasião, somos ajudados pelas circunstâncias, pelos irmãos e irmãs que preenchem os nossos dias: o amor que seremos capazes de dar será a nossa oração, agradável ao Céu. “Vigiai e orai” (…) Nestas duas palavras se encerra, portanto, o segredo de como enfrentar não só as mais dramáticas adversidades da nossa vida, mas também as inevitáveis provações quotidianas. Mas hoje, para nós, no ritmo frenético e envolvente da vida moderna, que esperança podemos ter de não nos deixarmos entorpecer pelo canto de tantas sirenes? Contudo, aquelas palavras do Evangelho são feitas também para nós… Nem mesmo hoje em dia Jesus pode nos pedir alguma coisa que esteja além da nossa capacidade. Assim, enquanto nos faz essa recomendação, Ele não pode deixar de nos indicar também o que fazer para conseguir viver de acordo com a Sua palavra. Então, como podemos permanecer vigilantes e alertas? Como podemos permanecer numa atitude constante de oração? Talvez tenhamos feito todo o esforço possível para nos fecharmos numa atitude de defesa contra tudo e contra todos. Mas, não é este o caminho, e logo percebemos que, cedo ou tarde, teremos que nos render. O caminho é outro; e nós o encontramos no Evangelho e na própria experiência humana. Quando se ama uma pessoa, o coração mantém-se sempre vigilante à sua espera; e cada minuto que passa sem ela é vivido em função dela. Vigia bem quem ama. A vigilância é própria do amor. Age assim quem ama Jesus. Faz tudo em função dele, sabendo que o encontra nas simples manifestações de sua vontade em cada momento e que o encontrará solenemente no dia de Sua vinda. (…) Dar um sorriso a alguém, realizar um trabalho, dirigir aquele carro, preparar aquela refeição, organizar aquela atividade, derramar aquelas lágrimas pelo irmão ou pela irmã que sofre, tocar aquele instrumento, escrever aquele artigo ou carta, compartilhar festivamente aquele acontecimento alegre, lavar aquela roupa… Se o fizermos por amor, tudo, tudo, poderá se tornar oração. Portanto, para sermos vigilantes, para rezarmos sempre, precisamos estar no amor, ou seja, amar a Sua vontade e amar cada próximo que Ele colocar ao nosso lado. Hoje amarei. Assim irei vigiar e rezar a cada momento.
Chiara Lubich
(Chiara Lubich, in Parole di Vita, a cura di Fabio Ciardi, Opere di Chiara Lubich, Città Nuova, 2017, pag. 634-636)