13 Out 2022 | Sem categoria
Em 11 de outubro de 1962, foram abertos os trabalhos do Concílio Vaticano II. Sessenta anos depois, uma reflexão e uma visão deste acontecimento histórico e excepcional na vida da Igreja. “O Concílio que está começando surge na Igreja como um dia brilhante da mais esplêndida luz. Mal amanhece: mas como os primeiros raios do sol da primavera já estão tocando nossas almas”! Com estas palavras, o Papa João XXIII concluiu a solene celebração na Basílica de São Pedro em 11 de outubro de 1962, inaugurando uma nova era. Sessenta anos se passaram desde a abertura do Concílio Vaticano II, um Concílio ecumênico, ou seja, universal, e um momento de grande comunhão para enfrentar, à luz do Evangelho, as novas questões colocadas pela história e responder às necessidades do mundo. O trabalho, realizado sucessivamente por Paulo VI, durou até dezembro de 1965 e apenas um mês antes do final do evento conciliar Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, escreveu: “Oh! Espírito Santo, fazei-nos, através do que já sugeristes no Concílio, uma Igreja viva: este é o nosso único anseio e todo o resto é para isto”[1]. Estas palavras foram fruto do crescente fervor que já animava os movimentos e as novas comunidades eclesiais pré-conciliares; um sinal indelével daquela “circularidade hermenêutica que, em virtude da ação do Espírito Santo na missão da Igreja, se estabelece entre o magistério de um Concílio como o Vaticano II e a inspiração de um carisma como o da unidade”[2]. Mas com que olhos, hoje, devemos olhar para este aniversário? Vincenzo Di Pilato, professor de Teologia Fundamental na Faculdade de Teologia da Púlia (Itália), nos fala sobre isso. Professor Di Pilato, que sonhos animaram o desejo de iniciar este Conselho? A partir da decisão resoluta de convocar um Concílio universal, em 25 de janeiro de 1959, último dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Papa João XXIII tentou explicar suas intenções usando termos que hoje se tornaram altamente significativos, tais como: atualização, sinais dos tempos, reforma, misericórdia, unidade. Nos meses que antecederam a abertura do Concílio, o Papa esperava que fosse uma epifania do Senhor (cf. Ex. ap. Sacrae Laudis, 6 de janeiro de 1962), o que levaria Roma a tornar-se uma nova Belém. Bispos de todo o mundo, como fizeram os Reis Magos, viriam a adorar Jesus no meio de sua Igreja. Roncalli sonhava com uma Igreja sinodal, uma Igreja que saísse “do recinto fechado de seus cenáculos” (10 de junho de 1962); uma “Igreja de todos, especialmente dos pobres” (11 de setembro de 1962) porque o “propósito” do Concílio coincidia com o da Encarnação e Redenção, ou seja, “a união do céu com a terra… em todas as formas de vida social” (4 de outubro de 1962). Por que fazer hoje uma pausa para refletir sobre este aniversário? Não é um aniversário como qualquer outro, mas a ocasião imperdível para uma consciência renovada de um tempo de graças especiais. A Igreja – talvez um pouco sobrecarregada por seus dois mil anos – é encorajada a voltar a “sonhar”, isto é, a reviver ainda hoje esse acontecimento no Espírito do Ressuscitado, com a certeza de que Ele está aqui e estará “até o fim do mundo” (Mt 28,20). O que mais poderia significar o processo sinodal transmitido pelo Papa Francisco se não o de perpetuar o Pentecostes em todos os tempos e lugares? Além disso, no período antes e, sobretudo, depois do Concílio, a vitalidade crescente de novos movimentos, como o Movimento dos Focolares e outras agregações de fiéis e comunidades eclesiais, fomentou uma maior compreensão do princípio da co-essencialidade entre as dimensões institucional e carismática da Igreja. É importante lembrar esta sinergia do Espírito que garante que a Igreja nunca seja deixada sozinha diante dos imensos desafios que surgem de tempos em tempos no caminho da história. Em uma palavra: a Igreja é o lugar da fraternidade onde começa o Reino de Deus, cujos limites vão para muito além dos limites visíveis da própria Igreja. A “corresponsabilidade” dos leigos na Igreja, uma palavra que pode ser rastreada até o Concílio, é um caminho que ainda está aberto… Sim, certamente é um discurso em gestação, e equivale a reconhecer a igualdade fundamental de todos os batizados; a rever a relação presbíteros-leigos; a apreciar a circularidade das vocações; a implementar todas as estruturas de comunhão e formas de sinodalidade já possíveis; a focalizar a colegialidade episcopal e no próprio presbitério (entre o clero e com o bispo); descobrir a co-essencialidade dos ministérios e carismas; promover a plena reciprocidade homem-mulher na Igreja; engajar-se no diálogo ecumênico e inter-religioso; abrir-se em uma relação autenticamente dialógica com o mundo ao redor, com a(s) cultura(s), aumentando a capacidade e a disposição para escutar, que a familiaridade com Cristo nos dá e nos refina; promover novas tentativas de dar vida a pequenas e animadas comunidades locais. Em uma palavra: deixar Cristo emergir não apenas no que dizemos, mas nas relações que construímos com cada próximo e em todos os níveis.
Maria Grazia Berretta
[1] C. Lubich, Una nuova Pentecoste, do diário, 11 de novembro de 1965, em La Chiesa, por B. Leahy e H. Blaumeiser, Città Nuova, Roma 2018, p. 69. [2] Piero Coda, por ocasião do Simpósio “O Concílio Vaticano II e o carisma da Unidade de Chiara Lubich”, Florença, 11-12 de março de 2022.
12 Out 2022 | Senza categoria
Ser testemunhas autênticas sem nunca nos resignar. Viver o Evangelho na vida de cada dia requer isso: deixar de lado nossos medos e ir além dos nossos limites ou nossas convicções; confiar nos dons que Deus nos deu porque é lá que reside nossa força. Sem rancor A missa havia chegado ao fim. Enquanto o padre Carlo, nosso pároco, dava uma bênção particular a um dos paroquianos que estava fazendo 90 anos naquele dia, eu estava concentrada em tirar algumas fotos daquela cena. Também estava presente na cerimônia a irmã dele, que veio da Suíça francesa para o evento. Na saída da igreja, me aproximei dela e pedi seu número de celular para enviar-lhe uma série de fotos. Ela me passou, agradecendo. Mais tarde, ligou para minha casa, mas eu não estava; meu marido atendeu e me disse quando voltei: “Mas você fala com aquela pessoa, apesar de tudo o que ela nos fez?”. Ele se referia a antigos dissabores que ocorreram entre aquela senhora e nós. “Claro!”, respondi. “Não quero partir deste mundo tendo rancor de ninguém! A verdade é que somos todos irmãos, mesmo se às vezes nos esquecemos.” Meu marido não respondeu, mas o vi um pouco pensativo por um momento. (Loredana – Suíça) A prova Moro em Florença com mais quatro amigos que também são estudantes universitários e, como eu, querem viver segundo o exemplo dado por Jesus. O apartamento em que moramos é muito úmido e para nos aquecer usamos um aquecedor a lenha. Essa não é a única dificuldade, que, porém, se torna um incentivo para nos gostarmos de verdade. Por exemplo, eu estava me preparando para uma prova com um colega e temos tempos e métodos de estudo diferentes. Queria desistir e propor que estudássemos separadamente. Mas quando falei com meus amigos, me aconselharam a insistir, tentar compreender melhor meu colega de estudo. Entendi que devia continuar a amá-lo. Não faltam momentos de tensão e de desencorajamento, mas ele me disse que gosta de vir estudar conosco porque respira outro ar. No fim, a prova foi ótima e ele quis festejar em uma pizzaria, não só comigo, mas com todos nós e disse: “a prova em que passamos foi fruto do querer-se bem de vocês e também da compreensão dos seus amigos”. (Gioacchino – Itália)
Por Maria Grazia Berretta
(trecho de O Evangelho do dia, Città Nuova, ano VIII, n.2, setembro-outubro de 2022)
30 Set 2022 | Sem categoria
A intensa experiência vivida por Jenny López, responsável pelo Centro para Idosos Chiara Lubich, em Lámud, na Amazônia peruana. A história de seu encontro com L. Naquela manhã eu estava em meu escritório, na prefeitura, e recebi uma carta pedindo ajuda para internar uma idosa no nosso Centro. O arquivo trazia apenas o nome da pessoa, L., e o número do documento. Solicitei, então, um relatório mais completo e um diagnóstico atualizado do seu estado de saúde. O município de proveniência me explicou que a idosa tinha sido vítima de violência por parte da sua própria família. Era uma pessoa vulnerável, tinha os braços machucados, não podia se movimentar e estava em estado de total abandono. Era prudente que fosse afastada da sua casa e do vilarejo onde morava. Como responsável pelo Centro para Idosos “Chiara Lubich”, pedi às autoridades locais que acelerassem as práticas para este caso, que parecia muito urgente. O tribunal deveria emitir uma sentença para que a senhora pudesse deixar sua casa, mas o juiz estava de férias. Decidi, então, que estaríamos disponíveis para acolhê-la imediatamente, assumindo todas as responsabilidades. Para chegar até ela precisamos fazer sete horas de viagem em estradas acidentadas. Nós a encontramos sozinha em sua casa, adormecida, quase moribunda. Eu me aproximei, chamando-a pelo nome, mas ela não me respondeu. Assinei logo o documento para poder transferi-la e passamos aquela noite em um hotel. Eu não conseguia dormir, a minha mente e a minha alma estavam concentradas naquilo que poderia acontecer. Eu me levantei bem cedo e, na oração, ofereci todos os meus temores. No dia seguinte pedi a ajuda de uma assistente social, para que pudesse finalmente voltar para casa, para meu marido, minhas filhas e meus pais idosos, mas não havia nenhuma disponibilidade. Foi difícil decidir, mas interiormente eu sentia que não devia desistir. A vida de L., que estava por um fio, dependia apenas de um nosso pequeno esforço. E assim passou mais um dia. Eu sussurrei a L.: “Você sofre, como Jesus sobre a cruz, e eu estou aqui com você. Se tiver que ir para o Paraíso não estará sozinha, eu lhe acompanharei”. Passei a noite inteira com ela, depois, na manhã seguinte, chegaram os médicos que cuidaram dela, a hidrataram, e somente depois pudemos transferi-la para o Centro, onde foi acolhida com muito afeto. Ela precisava 23 ampolas de um remédio muito forte. Girei por muitas farmácias e, finalmente, uma delas tinha algumas caixas, mas a funcionária duvidava que chegasse àquele número. Quando abrimos as caixas havia exatamente 23 ampolas. Ela ficou surpresa, e eu lhe disse: “É assim, quando caminhamos com Deus”. Depois daquela longa viagem, L. pode repousar. Há alguns dias Deus a chamou para si, circundada pelo amor e as orações de todos nós, e com a unção dos enfermos. Mesmo na dor, permaneceu em todos a alegria por ter amado essa querida idosa que sofreu tanto, mas que deixou um rastro de amor e de orações de pessoas do mundo inteiro. A sua breve presença foi como um presente, que nos deixou muito apreensivos, mas com uma confiança renovada em Deus. Jenny López Arévalo (Lámud, Amazonas, Peru)
Testemunho colhido por Gustavo E. Clariá
29 Set 2022 | Sem categoria
O Movimento dos Focolares publicou um Balanço de Comunhão do período 2020-2021, instrumento de informação para apresentar as principais ações dessa realidade no mundo; é um documento detalhado que serve para todos para viver e caminhar juntos em direção à realização da unidade e da fraternidade.
Pela primeira vez, o Movimento dos Focolares publica um balanço da missão e decide fazê-lo em meio a este tempo de crises e incerteza, que traz consigo os rastros da pandemia e as feridas ainda abertas dos tantos conflitos no mundo. Mas é justamente quando as problemáticas parecem maiores e mais comuns que parece emergir um sentimento popular de verdadeira fraternidade e solidariedade. Portanto, esse Balanço de Comunhão, mais do que ser um simples relatório, se propõe a restituir ao leitor uma narrativa explicativa das ações do Movimento dos Focolares, trazendo à luz o que une e o que ainda precisa melhorar. O Balanço dá uma importância particular ao elemento-chave que carrega o mesmo nome: a comunhão. O estilo de vida proposto pelo Movimento, de fato, tem como base a intenção de colocar em prática o amor que obtém suas raízes no Evangelho. Um amor que – como dizia a fundadora do Movimento dos Focolares Chiara Lubich (1920-2008) – pede para amar a todos, amar por primeiro, “colocando-se no lugar do outro”, de modo que esse amor se estenda até se tornar recíproco, até se tornar, exatamente, comunhão. Sob essa ótica, o documento quer esclarecer os efeitos da comunhão, daquilo que se tem e daquilo que se é, uma partilha voluntária e livre. Ao mesmo tempo, quer fazer com que esse mesmo instrumento se abra ao diálogo e à comunhão, como afirmou a Presidente Margaret Karram em suas palavras introdutórias: “É com esses sentimentos que desejo oferecê-lo a todos vocês para que também ele possa se tornar um instrumento de diálogo, para construir pontes e difundir uma cultura e prática de fraternidade. Tenho muito no coração que possamos aprender a viver sempre melhor essa comunhão, essa troca, em um relacionamento recíproco que nos torna irmãs e irmãos e promove uma autêntica família na qual as diversidades nos enriquecem e nos ligam em uma unidade harmônica.”
Stefania Tanesini
Para ler o Balanço de Comunhão em italiano, clique aqui
27 Set 2022 | Senza categoria
Em 24 de setembro de 2022, o Papa Francisco viajou a Assis para conhecer os jovens economistas, empresários e changemakers (operadores de mudança, N.D.T.) da Economia de Francisco que vieram de mais de 100 países de todo o mundo para a terceira edição do evento, a primeira em presença. Paz, cuidado, serviço, proteção, amizade, aliança, reconhecimento, dignidade, partilha, felicidade. Estas são as dez palavras da economia da vida que os jovens economistas, empresários, changemakers decidiram encarnar na realidade, a convite do Papa Francisco. Não uma utopia, “porque já estamos construindo”, conclui o “Pacto” assinado em 24 de setembro no Teatro Lirick, em, Assis por Lilly Ralyn Satidtanasarn, de 14 anos, em nome de todos os participantes da The Economy of Francesco, EoF, (Economia de Francisco, N.D.T.), e pelo próprio Papa Francisco. Uma adolescente tailandesa e o bispo de Roma são os guardiões deste “frasco do futuro”. Uma ânfora de papel e tinta na qual os jovens recolheram seus compromissos pessoais, nascidos e amadurecidos ao longo de três anos de sessões de trabalho on-line. “Juntamente com o texto do Pacto, vamos confiá-los à terra como raízes da economia de amanhã, no jardim das rosas da Porciúncula, de onde os filhos de Francisco partiram para o mundo”, disse Lourdes, um dos três apresentadores que se revezaram no palco, no qual havia cerca de trinta pares, incluindo as oito testemunhas. Sonhadores com seus pés firmemente plantados no chão, porém, capazes de revolucionar o mundo com “amor, com engenhosidade e com suas mãos”. Como Facundo Pascutto, um argentino de Lomas de Zamora, uma enorme cidade satélite de Buenos Aires, que, junto com a Faculdade de Ciências Sociais, transforma associações de bairro, sindicatos, universidades, cooperativas, cantinas comunitárias, unidades prisionais e empresas em “pequenas Assises”, ou seja, espaços de encontro para diferentes atores sociais. Ou Henry Totin, de Benin, que, com a associação Javev, transformou uma erva daninha – o jacinto de água ou togblé – em um recurso econômico para os agricultores do vale do Ouémé. Ou Maryam, uma ativista dos direitos da mulher que fugiu do Afeganistão, detido pelo Talibã, graças à rede de contatos estabelecida pela The Economy of Francesco. É impossível resumir o caleidoscópio de histórias e histórias em que se baseiam os doze pontos do Pacto. Algumas delas são muito novas, como “A Fazenda de Francisco”, inventada por Mateusz Ciasnocha, um agricultor do norte da Polônia, que precisamente no decorrer do processo desencadeado pelo Papa encontrou uma forma de combinar agricultura e justiça. “Como? Respeitando os campos e aqueles que os trabalham. Agora criamos um novo empreendimento na Nigéria, para apoiar a produção familiar de cinco vilarejos na área de Ibadan”, disse ele. Outros são antigos. A Comunidade de Paz de San José de Apartadó tem vinte e cinco anos de existência. “Foi fundada em 23 de março de 1997, quando ninguém falava de economia circular e agricultura sustentável. Nós também não sabíamos muito sobre isso. Tudo isso aconteceu por ‘chiripa'”. José Roviro repetiu esta palavra várias vezes. “Significa ‘sorte’ ou ‘providência'”, explica ele. Formada por um grupo de camponeses deslocados pelo conflito colombiano, a Comunidade optou por dizer não à violência. “Porque tínhamos experimentado em nossa própria pele”, acrescentou Sayda Arteaga, “decidimos não infringi-la aos outros”. Agora a iniciativa – apoiada pela Operação do Pombo – produz alimentos sustentáveis através de um sistema de trabalho conjunto. Outros caminhos irradiam do modelo pioneiro. “A recém-criada Fundação Rut começará da Comunidade o processo de escuta para desenvolver uma grande plataforma digital (Inter Zona) sobre violações de direitos humanos e formas de resistência não violenta”, enfatizou Annamaria De Paola e Giovanna Martelli. Pequenos e grandes exemplos de outra possível economia na qual os jovens de Eof acreditam e, alguns deles, “em manhãs particularmente brilhantes, já vislumbraram o início da terra prometida”. Quanto tempo leva para alcançá-la? Muito tempo, argumentam os céticos, muitas vezes não exatamente desinteressados. O povo da Eof não se importa com isso e agora continua a viagem com a abertura da The Economy of Francesco 2.0. Nisso eles são proféticos: habitam na noite, como a sentinela na passagem de Isaías. Eles não têm respostas para os transeuntes angustiados que perguntam quanto tempo antes do nascer do sol, mas os escutam. Eles são mulheres e homens do diálogo noturno. Porque – ressoou fortemente ontem da etapa de Assis – “não há amanhecer mais belo do que aquele que nos surpreende na companhia dos profetas”.
Por Lucia Capuzzi
Fonte: Papa Francesco assina o “patto” com jovens: «Uma nova economia não é utopia» (edc-online.org) Discurso do Papa Francisco: Visita do Santo Padre Francisco a Assis por ocasião do evento “Economy of Francesco” (24 de setembro de 2022) (vatican.va)