Movimento dos Focolares

Senhor, dá-me todos os que estão sós

As estatísticas que nos mantêm diariamente informados sobre a propagação da pandemia no mundo e as imagens que nos chegam dos países mais atingidos, despertam em nós sentimentos semelhantes aos expressos na seguinte oração de Chiara Lubich. Até mesmo o nosso planeta, cada vez mais sofredor, chama e espera o nosso amor ativo e decisivo. “Senhor, dá-me todos os que estão sós… Senti no meu coração a paixão que invade o teu por todo o abandono em que se encontra imerso o mundo inteiro. Amo cada ser doente e que está só: também as plantas sem viço me causam dó…, também os animais que estão sós. Quem consola o seu pranto? Quem tem compaixão de sua morte lenta? E quem estreita ao próprio coração o coração desesperado? Dá-me, meu Deus, que eu seja no mundo o sacramento tangível do teu Amor, do teu ser Amor: que eu seja os braços teus que estreitam a si e consumam em amor toda a solidão do mundo.”

 Chiara Lubich

Escrito de 1 de setembro de 1949, in Chiara Lubich, Ideal e Luz, Editoras Cidade Nova e Brasiliense São Paulo, 2003, pag 86.

Von der Leyen à New Humanity e MPPU dos Focolares

“Para alcançar os objetivos dos pais e das mães que fundaram uma verdadeira aliança, na qual a confiança mútua torna-se força comum, devemos fazer as coisas certas juntos e com um único grande coração, não com 27 pequenos corações”. Assim Ursula Von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, em uma carta à ONG internacional New Humanity e ao Movimento Político pela Unidade. Os responsáveis pela ONG New Humanity e a sua seção política, MPPU, componentes civil e política do Movimento dos Focolares, haviam escrito à Presidente da Comissão Europeia para encorajar o trabalho comum no enfrentamento à pandemia de Covid 19, e para garantir o apoio de ideias e projetos inclusive na fase de construção da Conferência sobre o futuro da Europa. A presidente Van der Leyen salientou, em sua resposta, como a União Europeia tenha garantido a maior resposta já dada a uma situação de crise e de emergência da União, com a mobilização de 3.4 trilhões de euros. A presidente afirmou ainda que “a atual mudança de contexto geopolítico oferece à Europa a oportunidade de reforçar o seu papel único de liderança global responsável”, cujo sucesso “dependerá da adaptação, nesta época de desagregação rápida e de crescentes desafios, ao modificar-se da situação, permanecendo porém fiel aos valores e aos interesses da Europa”. Com efeito, a Europa, salienta a presidente em sua carta, “é o principal prestador de ajuda pública ao desenvolvimento, com 75,2 bilhões de euros em 2019. Na sua resposta global à luta contra a pandemia, a EU comprometeu-se em garantir inclusive um apoio financeiro aos países parceiros, com um valor superior a 15,6 bilhões à disposição para a ação externa. O que inclui 3,25 bilhões de euros para a África. A UE apoiará ainda a Ásia e o Pacífico com 1,22 bilhões de euros, 918 milhões de euros em apoio à América Latina e Caribe, e 111 milhões de euros em apoio aos países ultramarinos”.  Além disso, prossegue a presidente da Comissão UE, “a União Europeia e os seus parceiros lançaram o Corona Vírus Global Response, que até agora registra compromissos assumidos de 9,8 bilhões de euros de doadores em todo o mundo, com o objetivo de aumentar ulteriormente o financiamento ao desenvolvimento da pesquisa, diagnose, tratamentos e vacinas contra o corona vírus”. A carta da Presidente Ursula Von der Leyen a New Humanity e o Movimento Político pela Unidade se conclui com o convite à confiança mútua entre os países da União Europeia e a ser um único grande coração.

Stefania Tanesini

Peru – Nada foge do olhar de Deus

Peru – Nada foge do olhar de Deus

A história de Ofélia, emigrada com a família da Venezuela ao Peru, e hoje comprometida, com a comunidade dos Focolares, a ajudar seus conacionais em dificuldade, agravada com a pandemia. No contexto da campanha solidária que nós, do Movimento dos Focolares, estamos desenvolvendo com os imigrantes venezuelanos no Peru, neste período devemos encontrar novas estratégias para conseguir visitá-los em suas casas. Constatamos que o que mais necessitam é de escuta. Às vezes não é fácil, porque não se trata de uma ou duas famílias, mas de muitas, e aumentam a cada dia. A Palavra de Vida do mês de me ajuda, porque me leva a ir ao encontro do irmão lembrando que em cada um eu encontro o próprio Jesus. Uma manhã recebi a chamada de uma senhora venezuelana que me contou a situação da sua filha. Devia dar à luz nos próximos dias, mas estava sendo despejada. A escutei por uma hora, até que se acalmasse. Queria dizer alguma coisa, mas pensei: “devo somente amá-la, ela precisa desabafar”. No final ela me disse: “Bem, eu me aliviei”. Naquele momento pude orientá-la sobre onde encontrar a ajuda que precisava. Eu pensava que durante a quarentena o nosso trabalho pelos imigrantes teria parado, mas foi exatamente o oposto. Por exemplo, o trabalho que fazemos com a CIREMI (Comissão Inter-religiosa para os Migrantes e Refugiados) nos envolve bastante, e esta foi a ocasião para nos conhecermos melhor. Dessa comissão fazem parte alguns religiosos Scalabrinianos, cristãos de várias denominações, a Comunidade Hebraica, alguns muçulmanos, uma religiosa católica e nós, dos Focolares. Nós estávamos nos perguntando como chegar aos mais vulneráveis quando começaram a chegar pedidos de roupas e cobertores. Não podendo sair, mandamos com um táxi, até um ponto da cidade onde pudessem recebê-las, as roupas doadas pela comunidade dos Focolare de Lima. E no momento certo chegaram também roupas de bebê para duas famílias com crianças recém-nascidas. Com os cobertores enviados pela ACNUR (Agência das Nações Unidas para os Refugiados), entidade com a qual temos uma estreita colaboração, conseguimos cobrir outras necessidades. É surpreendente ver como chega aquilo que as pessoas pedem: nada foge do olhar de Deus! Um dia me telefonou Carolina, dirigente da Comunidade Hebraica, e me disse que algumas famílias judias estavam partindo para Israel e deixavam roupas e outros objetos. Quando ela soube que o nosso Centro repassa esses objetos para os venezuelanos ficou feliz, porque não sabia a quem dar aquilo que tinha guardado. E não só: ela mesma quis pagar o táxi para nos mandar tudo. Durante o nosso telefonema sentia que devia me interessar por ela, perguntar sobre suas filhas gêmeas, e tivemos uma conversa que me fez recordar um parágrafo da Palavra de Vida: “É uma amizade que se torna uma rede de relações positivas e que tendem a fazer com que se torne realidade o mandamento do amor recíproco, que constrói a fraternidade”. Na partilha com essa irmã judia eu percebia que isso se realizava entre nós. É maravilhoso ver que a fraternidade é contagiosa, porque as pessoas às quais mandamos as roupas e cobertores nos enviam fotos e escrevem: “A minha vizinha precisava de roupas e eu dividi com ela parte do que vocês me mandaram”. Assim se cria uma corrente que pensa na necessidade do outro e desse modo a fraternidade avança, inclusive durante a quarentena.

De Ofélia, recolhido por Gustavo Clariá

Por que não escolhi a eutanásia

Um diagnóstico que não dava esperanças e uma mãe que, corajosamente, escolheu dizer não à eutanásia. Mas como explicar essa decisão à filha que só tem dois anos e meio? Nos últimos dias de vida, escreveu-lhe uma carta que a filha lerá quando for mais velha. Hoje, que essa mãe não está mais aqui, a família, que nessa experiência encontrou ajuda também na espiritualidade do Movimento dos Focolares, permitiu a publicação de suas palavras, oferecendo-as como testemunho e ponto de partida para reflexão sobre um tema complexo, doloroso e muito atual. “Meu docinho, Faz um tempinho que não escrevo. Aconteceram tantas coisas nesse período e infelizmente são ruins. Minha saúde piorou em apenas um mês. Eu estava esperando alguns resultados, mas o mal está progredindo rapidamente. Fiquei internada no hospital por três semanas e perdi o movimento completo das pernas. Este é um texto muito complicado. Trata de um tema difícil que é a eutanásia. Quero deixa-lo para quando você for grande e talvez você mesma se fará perguntas sobre a morte e sobre como morrer. Na semana que vem, farei a última sessão de quimioterapia que parece que não está me ajudando e talvez uma cirurgia que me permitirá, já que não consigo mais me alimentar. Se essa operação não der certo, não haverá mais muito o que fazer. As opções são como e onde decidirei morrer. Digo brevemente que escolhi morrer em casa. Não me deterei nesses detalhes tão dolorosos, mas é o modo em que me sinto mais à vontade. Todo o resto será explicado pelo seu pai quando você for maior. Voltarei ao assunto só para lhe dizer porque não escolhi a eutanásia para morrer. Pensei muito e, no fim, decidi que deixarei que Deus me acompanhe nessa viagem e se devemos passar pela morte, esse é o modo, sem atalhos, sem covardia. Tenho certeza de que Deus nos ensina algo naquele momento de passagem e que devemos enfrenta-lo como se enfrenta o nascimento. Escrevo a você porque me pergunto se algum dia virão na sua cabeça tais pensamentos quando pensar sobre esses fatos da vida e como gastei tanto tempo analisando tudo de diversos pontos de vista, talvez uma das minhas dicas possa lhe ajudar. Portanto, tudo partiu da ideia de que se a morte está próxima, por que seria necessário esperá-la por tanto tempo? Se todas as esperanças de cura se foram, por que deixar um ser humano sofrer, abandonando-o a um jogo sem empatia? Porque aprendi que esse é um processo e é um processo de preparação, sem ele, não estaremos à altura de dar o passo que devemos dar depois e saber onde nos levará. Deixemo-nos guiar por Deus que sabe tudo. Ultimamente tenho na cabeça o pensamento sobre aquelas pessoas que não conseguiram cumprir corretamente essa passagem e tenho a impressão de que estão perdidas em um limbo, entre o nosso caminho terreno a o além, incapazes de dar um passo em direção ao paraíso ou de voltar à Terra, entre seus entes queridos. Por isso, no fim, percebi que a estrada da eutanásia não é para mim. Tenho medo de morrer com dor e rogo a Deus que seja clemente e misericordioso quando chegar o momento. Esperemos que me leve, aliviando-me das dores e do corpo. E essa é a parte que cabe a mim, aquela que deverei enfrentar sozinha. E é aqui que me encontro hoje, meu amor; é um caminho difícil. Mesmo assim, tenho o suporte de muitas e muitas pessoas que ajudam a mim e minha família. O suporte espiritual que recebo de um amigo sacerdote é muito forte. Mas os momentos de medo e temor se fazem presentes. Mesmo se devo dizer que não são tantos como imaginei. Sinto-me apoiada por uma força que não sei de onde vem. Vejo com clareza o fim dos meus dias e, apesar disso, não me sinto abatida. É óbvio que não é fácil viver assim, mas o medo não faz parte da minha jornada.”

Por Anna Lisa Innocenti

O que realmente tem valor

Quantas pessoas, inclusive renomadas, enfatizaram nos últimos meses que um dos efeitos da pandemia é o de nos colocar diante do essencial, daquilo que tem valor e permanece. Muitos de nós perderam parentes ou amigos e experimentaram a proximidade da morte. Este escrito de Chiara Lubich aborda esses dois aspectos tão em sintonia com o que estamos vivenciando no mundo. (…) O início da aventura divina do nosso Movimento (…) nasceu numa circunstância bem específica: a guerra, a guerra com suas bombas, suas ruínas e mortos. (…) Creio que não nos será possível viver com perfeição e intensidade o nosso Ideal, se não tivermos sempre presente aquele clima, aquele ambiente, aquelas circunstâncias. E ainda hoje, após mais de quarenta anos, Deus não nos deixa faltarem  ocasiões: as frequentes «partidas» dos nossos (…) são um contínuo apelo ao «tudo passa», ao «tudo desmorona», cenário indispensável para se compreender o que realmente tem valor. Impressiona-nos o que estes nossos irmãos que «estão partindo» nos mandam dizer com insistência. (…) Nas situações em que se encontraram, enxergaram mais longe, como acontece quando, à noite, se podem ver as estrelas. Captam, por uma iluminação especial, o valor absoluto de Deus e o declaram Amor. Também nós, enquanto estivermos aqui na terra, se quisermos fazer da vida uma verdadeira Santa Viagem, devemos ter, como eles tiveram, as ideias claras: considerar transitórias e passageiras todas as coisas que não são Deus. Todavia, nossa fé e nosso Ideal não se detêm na meta da morte. O grande anúncio do cristianismo é: «Cristo ressuscitou». E o nosso Ideal nos chama sempre a ir «para além da chaga» a fim de viver o Ressuscitado. Somos chamados, portanto, a pensar principalmente no «depois». E é neste «depois», o misterioso mas fascinante «depois», que eu gostaria de me deter desta vez. Acontece frequentemente comigo, e talvez também vocês, de eu me perguntar: Onde estarão os nossos? (…) Esses pensamentos passam pela minha mente porque, aqui na terra, até há pouco tempo, eu sabia onde eles estavam, o que faziam. Agora tudo me é desconhecido. Com certeza a fé responde a essas nossas perguntas e nós conhecemos sua resposta. Uma palavra de Jesus, trouxe-me, nesses últimos dias, luz e conforto, grande conforto. Jesus dirigiu-a ao bom ladrão:  «Hoje estarás comigo no Paraíso»[1]. Hoje. Portanto, logo, logo depois da morte.(…) Que conclusão tirar, então, desses pensamentos? Procuremos viver de tal modo que também para nós seja pronunciado aquele «hoje»: «Hoje estarás comigo no Paraíso». Mas sabemos que será dado a quem tem: «a quem tem será dado»[2]. Se aqui na terra, por amor a Deus, formos paraíso para os nossos irmãos, se formos alegria, conforto, consolação e ajuda para cada pessoa, para a nossa Obra, para a Igreja, para o mundo, Deus nos dará o paraíso. (…)

Chiara Lubich

(em uma conexão telefônica, Rocca di Papa, 10 de maio de 1990) Tirado de: “Essere per tutti causa di letizia”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, pag. 399. Città Nuova Ed., 2019. [1]              Lc 23, 43. [2]              Mt 13, 12.