Movimento dos Focolares

Enraizada entre duas margens: um diálogo entre fé e identidade

Mai 21, 2026

Por ocasião da Semana de Oração pela Unidade Cristã em alguns países do hemisfério sul, que se celebra no período de Pentecostes, compartilhamos o testemunho de uma jovem ortodoxa que vive em Trento, cidade católica.

Meu nome é Sarra Marta Lupășteanu, tenho 19 anos e nasci em Trento (Itália). Cada vez que digo essa frase me dou conta de quanto a minha história entrelace lugares, culturas e crenças que, em geral, não se encontram facilmente. Sou uma jovem ítalo-romena e, sobretudo, sou ortodoxa, filha do padre Iona, sacerdote da Igreja Romena, aqui na cidade, e da presbítera Delia Rodica. A nossa igreja encontra-se na Rua San Marco, no coração do centro histórico: um pequeno mundo romeno encastrado entre o Castelo do Buonconsiglio, ruas e casas que narram séculos de catolicismo trentino.

Desde criança, o fato de morar aqui significou viver, com naturalidade, o fato de saber que somos uma minoria. Não uma minoria fechada ou isolada, mas uma presença diferente, que muitas vezes precisa se explicar. Quando os meus colegas me perguntavam por que, na Páscoa, seguíamos um calendário diferente, ou por que haviam tantos ícones na nossa igreja, eu entendia que o meu viver cotidiano e o deles não coincidiam. Mesmo assim, jamais me senti dividida: católicos e ortodoxos, acreditamos no mesmo Deus, apenas com tradições, ritos e sensibilidades diferentes. É justamente sobre esse ponto que nasceu uma reflexão que trago sempre comigo: é necessário diálogo entre as comunidades, mas também boa vontade, porque a compreensão não nasce sozinha, é preciso desejá-la.

Hoje estudo filosofia na Universidade de Trento, e essa escolha amplificou a minha capacidade de observar e compreender o que eu vivo. Entrar num ambiente universitário, onde as identidades se misturam e se desencontram, levou-me a refletir ainda mais sobre o que significa pertencer a uma confissão percebida como “outra”, em relação a da maioria.

Às vezes sinto-me como se caminhasse em cima de uma ponte: de um lado a minha comunidade ortodoxa, com as suas raízes, os seus cantos e as tradições que absorvi desde pequena; do outro a sociedade trentina na qual nasci, estudei, cresci e que, já há dois anos, é também a minha pátria oficial, depois de ter obtido a cidadania italiana. Falo romeno, conheço as tradições do meu país de origem, e a minha família me ensinou a conservá-las, mas também sou uma jovem profundamente ligada a Trento, aos seus ritmos e aos seus hábitos. Quando entro na nossa igreja, na rua San Marco, sinto-me envolvida por uma familiaridade que nenhum outro lugar me dá: os ícones dourados, as vozes do coro durante a liturgia, a comunidade que cumprimenta meu pai chamando-o de “Părinte”. De qualquer modo, essa diferença nunca me fez sentir estranha. Ao contrário, ensinou-me a olhar o mundo de vários pontos de vista. Numa cidade com fortes tradições católicas, a presença de outras confissões cristãs demonstra que a fé pode ser pluralidade, sem perder a verdade.

Hoje, como jovem que constrói o próprio futuro, sei que a minha identidade nasce do encontro de duas dimensões: é uma lente através da qual leio a mim mesma e o mundo. É a consciência de que as raízes não impedem crescer em outro lugar. Sou uma “ponte”, e já deixei de temer permanecer suspensa: é justamente lá, entre duas margens, que aprendi a habitar. E neste espaço descobri a minha liberdade mais autêntica: a de levar comigo ambos os mundos, sem precisar escolher, deixando que dialoguem, que se completem e me tornem inteira: enraizada e em caminho, com o coração aberto ao futuro.

di Sarra Marta Lupășteanu
Artigo publicado no jornal das Paróquias dos Santos Pedro e Paulo, e de São Martinho, em Trento, dezembro de 2025
Foto: Chiesa romena di Trento – e Magda Ehlers by Pexels

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