“Esta iniciativa faz meu coração vibrar”. Após ter vivido 24 anos em Jerusalém, Margaret Karram volta à Cidade Santa para participar da inauguração do Fórum “Within Your Gates”, promovido pelo Patriarca Pizzaballa e pela Universidade de Notre Dame. O Fórum pretende ser um espaço aberto a estudiosos, intelectuais, líderes de movimentos e pessoas de diversas religiões, convidados a se reunirem e a trabalharem em conjunto. O objetivo é audacioso e necessário: recuperar a missão universal de Jerusalém: cidade de reconciliação e de paz para toda a humanidade.
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Para ver a gravação completa da inauguração do Fórum «Within Your Gates», promovido pelo Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e organizado em colaboração com o centro académico da Universidade de Notre Dame em Jerusalém, clique aqui
Kalera é um pequeno vilarejo do Alto Catanga na República Democrática do Congo, terra natal do abade Jean Baptiste Ilunga Binsela, sacerdote e animador do Movimento Laudato Si’.
Está localizado em uma região extraordinariamente rica de minerais como cobalto e coltan, recursos que alimentam tecnologias e economias no mundo todo. Mesmo assim, Jean Baptiste cresceu em uma realidade muito diferente. Seu vilarejo não tinha eletricidade, tinha poucos postos de saúde e acesso limitado a água e serviços sanitários e nenhuma escola local ou ruas asfaltadas. Inundações atingiram a comunidade repetidamente no decorrer dos anos.
Jean Baptiste deixou Kalera para continuar os estudos e se tornar sacerdote. Depois, voltou ao vilarejo onde, em 2023, algo começou a mudar.
Por meio da formação dos Animadores do Movimento, Jean Baptiste aprofundou uma das mensagens centrais da encíclica Laudato Si’:
Tudo está conectado: fé e criação, pobreza e energia, dignidade humana e economia. Os minerais debaixo da terra e a vida das pessoas que vivem sobre eles.
Essa conversão ecológica levou Jean Baptiste a se fazer uma pergunta difícil: como podia uma comunidade rodeada de recursos que ajudam a alimentar o mundo permanecer sem energia?
A resposta nos lembra que a conversão não pode permanecer só como uma experiência espiritual pessoal.
A água viva é feita para escorrer: escorre quando a contemplação se torna compaixão, quando a fé nos ajuda a ver as ligações entre a Terra e as pessoas que dependem dela, e quando aquela consciência nos leva a agir.
Em Kalera, aquele fluxo se manifestou na forma de energia renovável. Jean Baptiste começou a trabalhar para um vilarejo sem combustíveis fósseis e a instalação de energia solar abriu gradualmente novas possibilidades. As crianças agora podem estudar depois do pôr do sol. As famílias podem recarregar os celulares e continuar conectadas. O posto de saúde local pode refrigerar os medicamentos. A Capela de Santa Ana Rita tem energia elétrica, reforçando a vida pastoral da comunidade.
Para as pessoas de Kalera, essas mudanças pareceram quase um milagre. Jean Baptiste diz que inclusive começaram a comparar o vilarejo delas com Cafarnaum, citado no Evangelho como um lugar de cura e transformação.
A energia solar trouxe luz. Mas algo mais profundo também começou a fluir: a esperança.
Quando a conversão interior se estende para o exterior, de fato, pode nutrir as relações, restabelecer a dignidade, reforçar as comunidades e fazer emergir novos caminhos em lugares esquecidos.
A história de Jean Baptiste diz respeito a um riacho em um rio muito maior: no mundo inteiro, muitas são as comunidades que estão encontrando seu modo de se imergir na Água Viva. E, assim, alimentar um rio que leva cura, unidade e esperança para toda a nossa casa comum neste Tempo da criação 2026.
O Movimento dos Focolares é parceiro do Movimento Laudato Si’. O Tempo da Criação começou em 1989 por iniciativa do Patriarca ecumênico ortodoxo Dimitrios I, que instituiu a Jornada da Oração pela Criação no dia 01 de setembro. Em 2007, a Terceira Assembleia Ecumênica Europeia estendeu essa celebração, transformando-a em um período de um mês que se concluiu em 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis. Enfim, em 2015, o Papa Francisco inseriu oficialmente a recorrência no calendário da Igreja Católica Romana, consolidando o caráter ecumênico global. Em 2026, várias igrejas inseriram no próprio calendário litúrgico a nova festividade “Festa da criação em Cristo” e o Papa Leão XIV aprovou a “Missa pela custódia da Criação”para o dia 01 de setembro, início do Tempo da Criação.
Para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado no dia 1º de setembro, o Papa Leão XIV escreveu uma mensagem intitulada “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Isaías 2, 4).
É um texto que merece ser lido e meditado várias vezes, partindo justamente do título que retoma uma das imagens mais célebres da Bíblia. Isaías imagina que um objeto construído para a guerra é transformado num instrumento agrícola. O que servia para destruir torna-se um utensílio para a produção da vida. É um modo esplêndido para descrever a paz; ligado à atualidade. Atualmente persistem relações delicadas, com conflitos armados que destroem o ambiente e ameaçam a vida de milhões de pessoas.
O Papa Leão invoca a profunda ligação entre paz, cuidado com a criação e dignidade humana, convidando a orientar os recursos à vida e à sustentabilidade. “Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direcionados para a violência e a guerra”, escreveu o Pontífice. A guerra “deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria frequentemente um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar. Isto faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais que podem contribuir para o surgimento de mais conflitos”.
A criação é a “natureza”, ou seja, tudo o que nos circunda! E o homem não é um observador, ele faz parte dela. E o desejo de Isaías se torna hoje apelo a “transformar o que é mal em vida”. Uma conversão que não pode prescindir de um retorno, não apenas ao coração, mas a quem o cura: o Senhor. Porque lá onde o indivíduo se renova, abrem-se novas possibilidades.
“O que tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da criação – afirma o Papa. Este é o caminho da autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia. A paz, então, começa no coração e flui para as nossas relações, comunidades e para o mundo inteiro”.
O dia 1º de setembro marca, todos os anos, o início do Tempo da Criação, o caminho ecumênico de oração e compromisso pelo cuidado com a Casa Comum, que termina no dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. Trata-se de um tempo no qual a Igreja, com outras comunidades cristãs, é convidada a renovar o próprio empenho, deixando-se guiar pela oração, pela conversão e por gestos concretos de cuidado. O tema deste ano, “Água Viva”, toma em consideração Ezequiel 47, 9-12, como uma potente visão bíblica de esperança e cura ecológica. A imagem da água viva que escorre do santuário de Deus simboliza a cura divina que regenera.
O empenho das comunidades do Movimento dos Focolares
O Tempo da Criação é também uma manifestação de gestos concretos. E dentre as muitas iniciativas de que temos notícias, vamos nos deter em duas, da América Latina: Brasil e Uruguai.
No Brasil, o projeto Descarbonize está transformando as escolas em locais onde os jovens podem conhecer, compreender e enfrentar concretamente os desafios ambientais do nosso tempo.
Estudantes e professores são envolvidos num percurso de formação sobre as mudanças climáticas, a sustentabilidade e a justiça ambiental, desenvolvendo não apenas conhecimento, mas a capacidade de participar e assumir responsabilidades na própria comunidade.
A experiência provem do programa internacional “Decarbonize” do Centro Global de Educação, realizado em parceria com a Universidade de Alberta, no Canadá. Ponto central é a liderança dos jovens, a justiça climática, a luta contra o racismo ambiental e a participação política, em sintonia com a Agenda 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a Carta da Terra e os direitos humanos.
Os jovens não se limitam e escutar ou estudar: pesquisam, compartilham o que descobriram e participam da vida pública.
A experiência tornou-se ainda mais significativa quando os estudantes tiveram a possibilidade de participar de momentos institucionais, como as conferências COP, o Congresso Nacional brasileiro e as assembleias legislativas estaduais.
Descarbonize mostra que educar para a sustentabilidade significa também dar aos jovens voz, instrumentos e confiança., para que possam tornar-se cidadãos ativos e protagonistas do cuidado com a casa comum.
O Centro Mariápolis ‘O Pelicano’ a poucos quilômetros de Montevidéu, no Uruguai, propõe uma maneira concreta e envolvente de educar na ecologia integral. O Centro, nascido da experiência do Movimento dos Focolares, está mergulhado no verde, e oferece às crianças um espaço em que a natureza se torna lugar de aprendizagem e descobertas. Por meio de ações educativas, feitas ao ar livre, as crianças menores podem entrar em contato com o ambiente: observar, conhecer e aprender a respeitá-lo.
Em 2022 esta experiência deu um passo adiante graças ao projeto “O Pelicano: centro de recursos ecológicos para a educação na primeira infância”, apoiado pelo Seed Funding Program, de New Humanity.
A ideia é transformar o Centro em um local de recursos para a educação ambiental das crianças menores. Laboratórios, excursões na natureza, uma horta biológica e atividades de reciclagem tornam-se ocasiões para aprender enquanto se faz. Uma criança que cultiva uma horta, observa uma planta, anda pelo bosque ou aprende a dar vida nova a um material descartável não está somente adquirindo noções: está construindo uma relação com a natureza.
A experiência não termina nas crianças. Por meio delas o projeto quer envolver também as famílias, a fim de que aquilo que experimentam e aprendem possa continuar na vida de todos os dias.
O Pelicano nos ensina uma lição preciosa: a ecologia pode ser educada desde a infância, através da beleza, da concretude e da participação, ajudando as novas gerações a sentirem-se parte da casa comum e responsáveis pelo seu cuidado.
Sem dúvida, este momento da humanidade é muito difícil: guerras que se prolongam, polarizações de todos os tipos, muitas pessoas que deixam suas terras em busca de um futuro melhor que lhes é negado, mudanças climáticas, catástrofes naturais…
Chiara Lubich, no final de 2001, escreveu esta oração à Nossa Senhora Desatadora dos Nós a pedido de uma pessoa que lhe enviara um cartão postal com a imagem de uma pintura do século XVIII conservada na igreja de são Pedro, em Augsburgo (Alemanha). Parece ter sido escrita para os momentos atuais que o mundo está atravessando.
Ontem, com uma das minhas colaboradoras, vivi um daqueles momentos que não se esquecem facilmente. É uma jovem mulher que tem um filho portador de deficiências e um ex-marido violento, com quem existe um processo em andamento.
Ela se esforça muito no trabalho e tinha concluído, com muita dedicação, uma tarefa que eu lhe havia confiado, por isso pensei em lhe dar um bônus financeiro. Ainda que ela falte algumas vezes, devido ao processo com o ex-marido ou por alguma dificuldade com o filho, está sempre disposta a trabalhar. Quando eu lhe dei o prêmio em dinheiro ela começou a chorar. Durante o fim de semana tinha sido assaltada, num caixa eletrônico, e aquela soma ia servir para compensar a perda; e o valor era maior do que havia sido roubado. Foi uma ocasião para falar da Providência, e depois me lembrei do que havia escutado num encontro da Economia de Comunhão, que “devemos antecipar as necessidades dos outros”. Eu lhe dei também um adiantamento do salário, que ela, por discrição, não ousava pedir. Somos apenas administradores.
CK (Argentina) (da “Notícias de familia”)
Solidariedade
Sou um sacerdote idoso, e colaboro em uma paróquia em Milão, na Itália.
Acompanho algumas pessoas necessitadas, que vivem sozinhas, e ajudo com as ofertas que recebo. Ultimamente uma situação se agravou. Eu já tinha reservado lugar numa pousada, para alguns dias de férias no verão, e para as despesas extras havia reservado 140 euros. Depois de um momento de oração decidi dar a metade para a pessoa que precisava e eu ficaria com o resto.
Hoje de manhã, depois da Missa, um senhor se aproximou e me deu um envelope com 150 euros. Mais uma vez eu estive apenas administrando a solidariedade.
PL (escreveu-nos de Milão, Itália)
Reconhecer-se
Faz algum tempo que comecei a prestar atenção naquelas pessoas que poucos notam e a quem ninguém dirige nem um cumprimento. Um dia, enquanto eu estava correndo para pegar um ônibus, perdi a carteira e voltei atrás para procurá-la. Encontrei um varredor de rua que a tinha encontrado e já estava me procurando. Samuel não quis aceitar nenhuma recompensa e desde então já nos vimos muitas vezes para tomar um café juntos.
Fátima é do Marrocos, é muçulmana, e trabalha com a limpeza em um restaurante do bairro. Com o passar do tempo ela me contou muitas coisas de sua família e da sua terra. Falamos sobre as crenças, sobre a fé e o respeito; ela demonstra seu afeto por mim cada vez que me vê, porque ninguém se detém para falar “com aquela moça da limpeza”.
Chaouki é um cozinheiro da Tunísia que trabalhou na Itália e na Alemanha, fala muitas línguas e é uma pessoa de grande cultura. Ele assumiu o controle de um restaurante que se chama “Cidadão do Mundo”: um verdadeiro programa de respeito e tolerância. Eu disse que pensava como ele e que me agradava muito compartilhar suas ideias e ações por um mundo melhor. Um dia fui tomar o café da manhã com algumas amigas e, como tinha acontecido comigo, elas se surpreenderam ao ver pessoas de várias proveniências que pensam como ele. É fantástico sentir-se cercados por pessoas ótimas, que não fazem barulho.