Movimento dos Focolares

Evangelho vivo: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12)

É possível imitar o Pai praticando um amor que vai até o perdão? Isso é realmente complicado, mas a verdadeira condição que nos permite fazer um gesto tão grande é ter recebido na vida “a graça da vergonha”, como diz o Papa Francisco, e a consequente alegria de ter sido perdoado. Este é um caminho misterioso no qual a Quaresma nos pede para caminhar, para que, no final, possamos desfrutar de paisagens maravilhosas. Feridas curadas Um dia, uma pessoa me atirou uma censura que, de acordo com meu orgulho, eu não merecia. Durante algum tempo, essa falta de respeito ardeu em mim. Fui tentado a limitar a relação, porque não queria ter mais nada a ver com aquela pessoa indesejada, mas isso não seria coerente com minha escolha de viver o Evangelho. Como eu poderia curar a ferida? Voltei-me para Jesus e pensei imediatamente: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fosse feito a você”. Durante dias eu pratiquei com aqueles com quem eu tinha negócios, inclusive aqueles que me machucaram, e em vez de pensamentos problemáticos eu sentia algo curar dentro de mim. Essa sensação de alívio que só o perdão pode dar. (R. – Itália) Amor incondicional Já há algum tempo, as discussões entre minha esposa e eu haviam se intensificado. Quem sabe por que, bastava um pequeno desacordo, uma palavra fora de lugar, um pouco de nada para começarmos a levantar nossas vozes e a refazer velhas histórias. Uma dessas noites, quando a atmosfera se tornou elétrica, nossa filha de nove anos parecia estar brincando de atirar aviões de papel das escadas do andar de cima. Ela estava sorrindo e seu irmãozinho parecia estar tendo o momento de sua vida. Intrigado, peguei alguns deles e os mostrei à minha esposa. Em uma inspeção mais detalhada, cada um dos aviões foi decorado com corações e mensagens como: “Nós te amamos tanto”, “Vocês são os pais mais bonitos do mundo” e “Queremos te ouvir cantar”. Enquanto minha esposa as lia, lágrimas inundavam seu rosto. Olhamos um para o outro com vergonha, depois nos abraçamos, prometendo encontrar nossa unidade naquele “sim” amoroso que dissemos anos atrás. (M. – Portugal) O primeiro passo A partir da adolescência, meu pai e eu não podíamos suportar um ao outro. Minha mãe sofreu, mas ela não viu nenhuma solução para nossa família. Durante uma viagem ao exterior, conversei sobre isso com um amigo meu que estava envolvido em um movimento católico. Em casos difíceis, ele costumava fazer a pergunta: “Se eu não amo essa pessoa, quem a amará em meu lugar?” Voltei daquela viagem valorizando estas palavras fortes e, estranhamente, fui lembrando de tantas oportunidades perdidas quando eu poderia ter feito um gesto de amor para com meus pais. Para reparar as minhas faltas, comecei com pequenas coisas, serviços simples relacionados à minha competência, que eu evitava… Em suma, algo mudou em mim. Décadas se passaram desde então, e agora que tenho família e filhos, compreendo a importância de dar o primeiro passo, como se a alegria da outra pessoa dependesse apenas de mim. (R.T. – Hungria)

Por Maria Grazia Berretta

(extraído de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, ano VIII, nº 2, março-abril de 2022)

Chiara Lubich: misericórdia sem limites

Na oração do Pai nosso, Jesus nos convida a pedir a Deus que perdoe as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. É a Palavra de vida que procuramos colocar em prática durante este mês de março de 2022. O nosso amor para com os irmãos deve ser pleno de misericórdia ao ponto de chegar ao perdão. Jesus afirma que devemos ser sempre nós a tomar a iniciativa para que seja constante a harmonia, para que se mantenha a comunhão fraterna, Desta forma, faz com que o mandamento do amor ao próximo atinja a sua raiz mais profunda. Na verdade, ele não diz: Se te lembrares de ter ofendido o teu irmão, mas: se te lembrares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti. Para Jesus, o próprio fato de alguém ficar indiferente em relação à desarmonia com os irmãos – mesmo sem ser responsável por ela – já é um motivo para não sermos bem-aceitos por Deus, para sermos repelidos por Ele. Jesus quer nos precaver não somente contra as mais graves explosões de ódio, mas também contra toda e qualquer expressão ou atitude que de alguma forma denote falta de atenção, de amor para com os irmãos. (…) Devemos procurar não ser superficiais nos relacionamentos, mas penetrar nos mais escondidos recantos do nosso coração. Fazendo de tudo para eliminar também a simples indiferença, ou qualquer falta de benevolência, qualquer atitude de superioridade, de desleixo em relação a quem quer que seja. Esforçando-nos ainda para reparar uma indelicadeza com um pedido de desculpas ou um gesto de amizade. E se às vezes isso parece não ser possível, o importante será a mudança radical da nossa atitude interior. Um gesto de rejeição instintiva para com o próximo deve dar lugar a uma atitude de total acolhimento, de aceitação completa do outro, de misericórdia sem limites, de perdão, de participação, de atenção para as suas necessidades. Se agirmos assim poderemos oferecer a Deus todos os dons que quisermos e Ele os aceitará e os levará em consideração. O nosso relacionamento com Deus se tornará mais profundo e chegaremos àquela união com Ele que é a nossa felicidade presente e futura.

Chiara Lubich

 (Chiara Lubich, in Parole di Vita, Città Nuova, 2017, pag. 283)

República Dominicana: De braços e coração abertos

Um projeto de trocas culturais derruba as barreiras entre migrantes haitianos e a comunidade de La Romana na República Dominicana. A República Dominicana é um país que fica no centro do mar do Caribe e compartilha o território da ilha Hispaniola com o Haiti. Historicamente, tem um valor cultural para todo o continente americano, dado que foi ali que Cristóvão Colombo desembarcou em sua primeira viagem. Ambos os países compartilham raízes culturais e históricas, mas também há contrastes que os separaram por séculos. O Haiti é o país mais pobre das Américas. A instabilidade política e a violência interna causaram a migração de milhares de pessoas para outros países. Todos os anos, milhares de migrantes atravessam as fronteiras do Haiti para a República Dominicana em busca de um futuro melhor, criando tensões entre as duas nações. “Estima-se que na República Dominicana haja cerca de 2 milhões de haitianos. Eles vêm sobretudo para trabalhar no cultivo da cana de açúcar, porque aqui há vários canaviais”, diz Modesto Herrera, um médico que faz parte da comunidade do Movimento dos Focolares na República Dominicana. Apesar de haver uma troca recíproca entre esses povos vizinhos, também há tensões latentes e discriminações contra os haitianos que moram na República Dominicana. Uma das maiores barreiras é a língua, porque na República Dominicana o idioma é o espanhol, enquanto no Haiti, fala-se crioulo. Há alguns anos, a comunidade do Movimento dos Focolares de La Romana começou um projeto que busca criar vínculos de fraternidade com os migrantes haitianos que moram nas cidades vizinhas. “Trabalhamos na paróquia em que se encontra um Batey, que é uma pequena comunidade povoada sobretudo por haitianos”, diz Sandra Benítez, uma dona de casa. Apesar de muitos nunca terem visitado o Batey porque é uma região remota da cidade onde vivem sobretudo migrantes haitianos, juntamente a jovens e outros membros da comunidade, decidiram romper a barreira que os dividiu por anos e começaram a visitá-lo para se conhecerem. Gradualmente, descobrem que a comunidade haitiana precisava ser integrada na sociedade. La Romana é conhecida por sua indústria têxtil. “Vimos o potencial dos jovens e decidimos trabalhar no setor têxtil”, diz Cristian Salvador Roa, que dá aula de costura para a comunidade haitiana. E acrescenta: “Tenho grande satisfação em ver que um jovem não está mais gastando a sua juventude, mas é um jovem produtivo, que está aproveitando ao máximo a sua vida, fazendo algo produtivo”. “O maior testemunho que podemos dar é que, apesar de haver a barreira da língua, a barreira da pré-disposição social, quando se derrubam essas barreiras, se descobre a grande riqueza que pode-se encontrar em uma cultura ou que pode-se encontrar na convivência humana com outra pessoa”, conclui Concepción Serrano, engenheira industrial.

Clara Ramirez

https://www.youtube.com/watch?v=hwFoTdv2E10&list=PL9YsVtizqrYufFaAuD5lSHqAOZYXBq3vT&index=2

Chiara Lubich: somente o Evangelho

Tudo passa, até mesmo a vida. Somente o Evangelho permanecerá para sempre, por não sofrer o desgaste do tempo. Hoje, 14 de março de 2022, 14 anos após a morte de Chiara Lubich, publicamos este trecho em que ela entrega o Evangelho àqueles que a seguem no caminho da unidade. É um convite para viver a Palavra em todas as nossas ações cotidianas. Percebo na alma um pensamento que se repete: “Deixa a quem te segue somente o Evangelho”. Se fizeres assim, o Ideal permanecerá. É claro que no tempo em que vives e os outros vivem, foram úteis os conceitos, as frases, os slogans que tornavam o Evangelho apropriado à época moderna, mas esses pensamentos, esses ditos, essas como que ‘palavras de vida’, passarão. Quando a unidade entre os cristãos estiver praticamente realizada, o ecumenismo o não será mais uma meta distante; quando certa unidade no mundo for alcançada, não se falará mais em homem-mundo como um ideal a ser perseguido; quando o mundo, predominantemente ateu, for permeado pela realidade de Deus, o ateísmo não virá mais tão em evidência; A própria Espiritualidade da Unidade, que hoje é um remédio para os tempos atuais, uma vez atingida sua finalidade, será posta ao lado de todas as outras espiritualidades que surgiram dos vários carismas doados por Deus à Igreja, no correr dos séculos. O que permanece e permanecerá sempre é o Evangelho, que não sofre o desgaste do tempo: ‘Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão’ (Mt 24,35). Aqui se trata de todas as palavras de Jesus”. Percebo que devemos, sem dúvida, adequar-nos com todas as forças ao tempo no qual vivemos, seguindo as inspirações particulares que Deus nos dá a fim de levarmos e cultivarmos, em nós e naqueles que nos foram confiados, o Reino de Deus. Mas devemos fazer tudo isso sabendo da transitoriedade da vida, sabendo que existe a Vida eterna, anunciada por Jesus com o seu Evangelho. Devemos, no nosso coração, subordinar todas as ideias e os modos de fazer úteis, mas não puramente evangélicos e renovar constantemente a nossa fé no Evangelho, que não passa.

Chiara Lubich

(Chiara Lubich, A Palavra de Deus, Cidade Nova 2012, págs. 146 e 147)

A linha que une: um Concílio e um Carisma

A linha que une: um Concílio e um Carisma

Nos dias 11 e 12 de março se realizará, no coração da cidade de Florença (Itália), o Encontro intitulado “O Concílio Vaticano II e o carisma da unidade de Chiara Lubich”, evento que partiu da colaboração entre o Centro Chiara Lubich e o Instituto Universitário Sophia e que poderá ser acompanhado por streaming, em italiano e inglês. Florença, o berço do Renascimento, será a moldura que receberá o encontro “O Concílio Vaticano II e o carisma da unidade de Chiara Lubich”, nos dias 11 e 12 de março de 2022. A conferência, partindo de uma atenta análise do evento conciliar, deseja ir ao coração deste caminho que prossegue, um momento que, após se ter fixado na história, realiza-se no tempo. Dois dias intensos que, graças a presença de numerosas personalidades e autoridades, abrirão uma trajetória de verificação e aprofundamento, delineando a ligação vital entre o carisma da fundadora do Movimento dos Focolares e o Vaticano II. Três sessões com títulos significativos: Uma coincidência cronológica e Kairológica: um Concílio e um carisma; A Palavra se faz Igreja; A Igreja se faz Palavra. Entre os relatores do encontro estão Vincenzo Di Pilato, docente de Teologia Fundamental na Faculdade Teológica Pugliese, e Florence Gillet, do Centro Chiara Lubich, teóloga e estudiosa da fundadora dos Focolares, que responderam a algumas perguntas sobre o evento. Prof. Di Pilato, o que é, de modo especial, que este momento de intercâmbio deseja evidenciar? Na sua intenção originária, o encontro se inseria no Centenário de nascimento de Chiara Lubich (1920 – 2020). Todavia, devido à emergência sanitária mundial, foi adiado até hoje. O seu objetivo era, e continua a ser, o de sondar a reciprocidade fecunda entre o carisma da unidade e as duas Constituições promulgadas pelo Concílio Vaticano II, sobre a Revelação de Deus e sobre a Igreja: Dei Verbum e Lumen gentium. Quanto os dois documentos encontraram, como seu espaço fecundo de interpretação e desenvolvimento, na experiência eclesial suscitada pelo carisma da unidade? E, vice-versa: quanto o florescimento da vida eclesial promovida pelo carisma da unidade tornou-se possível precisamente pelo horizonte descortinado pelo extraordinário evento do Concílio? São as questões básicas que acompanharão o diálogo entre os participantes. É preciso recordar, no entanto, que foi o Vaticano II que reafirmou esta unidade essencial entre dons hierárquicos e dons carismáticos (cf. Lumen gentium, n.14). Seja João Paulo II que Bento XVI consideraram esses dons “coessenciais”, e o Papa Francisco salientou, recentemente, quanto a ação do Espírito Santo produza “harmonia” entre os vários dons, chamando as agregações carismáticas à abertura missionária e à sinodalidade. Dra. Gillet, a partir de quais interrogações vocês começaram a organizar esta conferência? É possível perguntar-se se não seria ousado demais fazer um paralelo entre dois eventos tão diferentes. Que relação poderia haver entre um Concílio ecumênico, que contou com a presença de 3000 bispos e grandes teólogos, com visões proféticas para a Igreja, e um carisma nascido de uma jovem mulher vinte anos antes, do qual nasceu um Obra espalhada no mundo inteiro? Para responder, notamos, em primeiro lugar, a sintonia na origem: o Espírito Santo que quis falar ao mundo no início do terceiro milênio. Depois, trata-se de dois eventos que prosseguem e que, cada vez mais, deverão fecundar-se mutuamente. O Concílio Vaticano II ainda não foi plenamente implementado, ainda que sua recepção esteja agora significativamente em curso, no processo sinodal desejado pelo Papa Francisco. Haverá ainda surpresas. O carisma da unidade deve ainda revelar toda a sua potencialidade, deve traduzir-se em vida no povo de Deus, enfim, está só no início, como disse o Papa Francisco na sua visita à Loppiano, em 2018. Prof. Di Pilato, qual leitura do carisma da unidade de Chiara Lubich pode ser feita diante daquilo que está acontecendo hoje no mundo? Se a pandemia parecia um contexto funesto, no qual, inicialmente, o evento deveria acontecer, a opção de adiá-lo nos lançou improvisamente em outro cenário, não menos dramático. Neste sentido, a experiência paradigmática de Chiara Lubich, e das suas primeiras companheiras, em Trento, durante o segundo conflito mundial, nos oferece uma chave de leitura do encontro. Todos conhecem o papel que a Palavra de Deus assumiu para aquelas jovens mulheres num tempo marcado pelo desmoronamento dos ideais nos quais tinham crescido. A luz que brotava das palavras do pequeno Evangelho que levavam consigo durante os bombardeios, as conduziu a sanar feridas físicas e existenciais, a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo, e a envolvê-las na realização do sonho de Deus: a fraternidade universal, “que todos sejam um”. E foi a Palavra de Deus transformada em compromisso social em favor dos mais pobres e mais necessitados que gerou uma Igreja viva, o que foi confirmado, com grande maravilha e alegria, pelo bispo de Trento daquele tempo. E também hoje, quando tudo parece novamente desmoronar sob os golpes de uma política míope e sem memória, nada nos resta de seguro entre as mãos a não ser a Palavra de Vida, a única capaz de gerar a Igreja. E é por este testemunho de vida que a Igreja poderá tornar-se, para o mundo inteiro, uma palavra autorizada de paz e de unidade. Para acompanhar a transmissão em streaming do evento: https://live.focolare.org/firenze2022 .

Maria Grazia Berretta

COMUNICADO DE IMPRENSA