Movimento dos Focolares

Trabalho a dois

É um trabalho feito a dois em perfeita comunhão, que exige de nós uma grande fé no amor de Deus por seus filhos. Essa confiança recíproca opera milagres. O que vai acontecer é que, aonde nós não conseguimos chegar, Outro realmente conseguiu, e fez muitíssimo melhor do que nós. Grande sabedoria é passar o tempo de que dispomos, vivendo com perfeição a vontade de Deus, no momento presente. Mas, às vezes, somos assaltados por pensamentos tão obsessivos, relacionados ao passado, ao futuro ou ao presente, mas ligados a lugares, circunstâncias ou pessoas, a quem não nos podemos dedicar diretamente, que custa um sacrifício enorme manejar o leme da barca de nossa vida, mantendo a rota no que Deus quer de nós, naquele momento presente. Então, para viver perfeitamente bem, é necessária uma vontade, uma decisão, mas sobretudo uma confiança em Deus que pode chegar ao heroísmo. “Não posso fazer nada naquele caso, nada por aquele ente querido, que corre risco ou está doente, nada para aquela situação intricada… Pois bem, farei o que Deus quer de mim neste momento: estudar bem, varrer direito, rezar direito, cuidar direito dos meus filhos… E Deus se ocupará de desemaranhar aquela meada, de confortar quem sofre e de resolver aquele imprevisto.” É um trabalho feito a dois em perfeita comunhão, que exige de nós uma grande fé no amor de Deus por seus filhos. Essa confiança recíproca opera milagres. O que vai acontecer é que, aonde nós não conseguimos chegar, Outro realmente conseguiu, e fez muitíssimo melhor do que nós. O ato de confiança heroico será premiado; nossa vida, limitada a um campo só, ganhará nova dimensão; sentir-nos-emos em contato com o infinito, pelo qual aspiramos, e a fé, revigorando-se, fortalecerá em nós a caridade, o amor. Não lembraremos mais o que a solidão significa. Saltará mais evidente, mesmo porque a experimentamos, a realidade de que somos de fato filhos de um Deus Pai que tudo pode.  

Chiara Lubich

(do livro Ideal e Luz, Cidade Nova, 2003, pág. 78)  

Manaus, Brasil: a pastoral dos moradores de rua

Manaus, Brasil: a pastoral dos moradores de rua

O testemunho do focolare de Manaus em ajuda aos sem-teto. Uma maneira de ser Igreja em saída e ir nas periferias existenciais procurando os mais necessitados. Há alguns meses, um focolarino de Manaus, Brasil, sentiu o desejo de fazer algo para ajudar as pessoas em dificuldade. Assim, ele entrou em contato com vários sacerdotes e religiosas para dizer que estava disponível. Após cerca de um mês, surgiu a possibilidade de dar uma mão para a “pastoral dos moradores de rua”, ou seja, para ajudar os sem-teto. Todo o focolare está envolvido: Renzo, Daniel, Francisco, Valdir e Júnior. Eles contam: Todos os domingos à noite, na praça da igreja “Nossa Senhora dos Remédios”, no centro histórico da cidade, um daqueles lugares muito lotados durante o dia e muito perigosos à noite, ajudamos na curta Celebração da Palavra, depois damos uma refeição aos desabrigados e ficamos com eles para escutá-los. Eles rezam conosco e compartilham o que experimentam durante a semana. Alguns poucos voluntários passam para entregar uma refeição e afastam-se rapidamente. Os sem-teto nos reconhecem e nos agradecem porque para eles, estar juntos, rezar, falar, compartilhar suas vidas, ser ouvidos sacia suas almas tanto quanto as refeições saciam sua fome. Eles já nos disseram isso várias vezes. Nossa presença é ditada pelo amor, por estarmos sempre disponíveis para trocar algumas palavras e criar relacionamentos com todos, inclusive com a equipe pastoral. Mas tudo isso não é suficiente. Por isso, todas as sextas-feiras à tarde, nos oferecemos para ajudar os sem-teto na possibilidade de um banho ou uma muda de roupa, doada por pessoas generosas. Também envolvemos nossos amigos da Comunidade dos Focolares para coletar roupas, sapatos, chinelos… e é ótimo ver a sensibilidade para esta ação e receber respostas muito positivas cada vez que comunicamos esta experiência: muitos nos encorajam a continuar ou começam a vir para ajudar. Com o lockdown pela Covid, infelizmente, várias atividades de ajuda aos mais pobres tiveram que ser suspensas. Então nos reunimos online para descobrir o que fazer. O Arcebispo Leonardo Steiner, que também estava presente, ficou impressionado com a situação e doou uma quantia em dinheiro para continuar oferecendo uma refeição por dia, durante 20 dias, para duzentas pessoas, divididas entre duas grandes praças no centro histórico. Certamente, trabalhar por duas ou três horas com todo o equipamento de segurança necessário e o calor de Manaus é cansativo, mas também é uma forma concreta de ir às periferias existenciais, para procurar os mais necessitados, aqueles que o Pai prefere, oferecendo a dor de poder fazer tão pouco diante desses Jesus Abandonado com tantas necessidades, quando nós não podemos fazer mais por eles, a não ser dar um sorriso, um ouvido atento, nosso amor. Providência não falta: as autoridades do Ministério Público do Trabalho nos procuraram para nos dar dinheiro e recursos para garantir trezentas refeições por mais 15 dias. Isto significa mais trabalho para nós, voluntários, mas não se pode dizer não a tal providência e então acreditamos que Deus se manifestará para nos dar energia, saúde ou outros voluntários para nos ajudar.  

Os focolarinos do focolare de Manaus

Avós e netos: como transmitir os valores da vida

Avós e netos: como transmitir os valores da vida

Aproxima-se o primeiro dia mundial dos avós e dos idosos anunciado pelo Papa Francisco para o dia 25 de julho de 2021. Os avós Sarah e Declan O’Brien nos contam como dialogam com os netos que nunca conheceram Deus. Tive uma grande influência do meu avô no meu percurso de fé. Ele vinha de uma família tradicional irlandesa que se estabeleceu em Yorkshire no fim de 1800. No fim, graças ao seu trabalho duro e sua honestidade, tornou-se um homem de negócios respeitado e bem-sucedido em Bradford. Essencialmente, era um homem de Deus e amava a igreja, mas não falava muito dessas coisas. O que notei nele era o seu amor por todos, seu amor gentil para comigo, a neta dele. Seu modo de viver teve um grande efeito sobre mim e influenciou muito as decisões que tomei mais tarde. Agora, eu e meu marido Declan somos avós! Os pais dos nossos quatro netos escolheram não educá-los na fé de Deus. Respeitamos a decisão deles ao mesmo tempo que procuramos descobrir maneiras novas de transmitir os valores da fé, oferecendo-os com criatividade, diversão e amor. Uma dessas maneiras é passar um tempo com nossos netos onde eles moram: Paris. O Papa Francisco nos disse: “O tempo é maior que o espaço”. Como nossos quatro netos moram no exterior, o tempo que passamos com eles é ainda mais importante. No tempo que passamos juntos, procuramos amar nossos netos com paciência, tenacidade, gentileza, misericórdia e perdão. Nós também experimentamos o amor e a misericórdia deles. Naturalmente, estamos longe da perfeição e cometemos muitos erros pelo caminho e, na vida familiar, não podemos nos esconder atrás de uma máscara. Nossos netos conseguem ver a nossa autenticidade ou a falta dela. Quando vamos visitá-los, nos sentamos todos juntos ao redor da mesa para o jantar. Mas, às vezes, nosso filho, uma pessoa que nos impressiona pelo seu amor a todos, começa discussões polêmicas conosco. Nossos netos podem ver como respondemos a essas situações, se procuramos apenas ganhar pontos ou se tentamos ter um diálogo verdadeiro. Muitas vezes, não conseguimos, mas quando tentamos nos colocar no lugar do nosso filho, escutando, perdoando algumas observações ofensivas, servindo-lhe mais um copo de água, trazendo uma luz positiva à discussão, quando conseguimos fazer essas coisas e nossas ações são inspiradas pelo amor, esperamos que tudo isso seja notado pelos nossos netos. O segundo modo de transmitir a nossa fé é compartilhar coisas importantes com nossos netos. Passar um tempo com eles nos permite falar, quando é o momento, “com simplicidade e carinho das coisas importantes” (Amoris Laetitia 260). Procuramos ter a coragem de dizer aquilo que é realmente importante para eles. E eles também podem falar conosco sobre coisas importantes se estamos ali para escutá-los. E assim conseguimos dialogar brevemente com eles, como entre amigos. “Nada de grandes discursos, bastam poucas palavras”, diz Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares. Um terceiro caminho é a oração. Não podemos rezar com nossos netos, mas naturalmente podemos rezar por eles. E quando saímos juntos para um passeio, às vezes, visitamos alguma igreja. Uma vez, aconteceu de ir a uma adoração eucarística onde receberam a bênção. Aproveitamos com eles o silêncio de ficar na igreja. Perceberam que vamos à missa e algumas vezes pedem para ir conosco. Nossos netos não leem as histórias da bíblia, mas no Natal ganhamos um belo livro pop-up para crianças e li a história do Natal aos nossos dois netos, que nunca a tinham ouvido. Talvez a única bíblia que possam ler seja por meio de nós. Nossa esperança, alegria, amor podem ser a notícia boa deles, “uma fonte de luz no caminho”, como escreveu o Papa Francisco na Amoris Laetitia (290).

Sarah e Declan O’Brien

  Publicado em Living City e compartilhado no Encontro Mundial das Famílias 2018 em Dublin, Irlanda.

Evangelho vivido: a misericórdia de Deus Pai

“Na fé, o homem mostra claramente que não conta consigo mesmo, mas se confia àquele que é mais forte do que ele”, escreve Chiara Lubich meditando sobre uma passagem do Evangelho. Momentos de escuridão, apatia, memórias dolorosas podem se tornar uma oportunidade para aprofundar nosso relacionamento com Deus, para mostrar a Ele nossa confiança nEle, mesmo nas dificuldades. A necessidade de um pai Com meus pais separados desde os meus três anos de idade, minha vida foi marcada pela falta de um pai. Apresentado e rebelde, descarreguava em todos. Não sabia a quem recorrer para falar sobre meus assuntos, tinha a impressão de que nem minha mãe me entendia mais. Eu tinha 15 anos quando meu professor de religião, sem fazer sermões para mim, apresentou-me para um grupo de jovens comprometidos. Comecei a participar de algumas de suas iniciativas em favor de crianças em bairros pobres. Eu me dei tão bem com eles que nunca mais os deixei. Depois, uma experiência de alguns meses em O’Higgins, a cidadela dos Focolares, na Argentina, abriu-me novos horizontes e trouxe-me um propósito para viver: contribuir para tornar o mundo mais bonito. A proposta de amar a todos despertou lentamente um pensamento em mim: “E o pai? O que será que ele faz agora? Será que ele sente a minha falta, depois de tantos anos de silêncio?” Eu não tinha paz até que fui procurá-lo em nossa antiga casa. Ele quase não me reconheceu. Era idoso, um homem cansado. Olhamos nos olhos um do outro e o passado ficou atrás. (Luis – Argentina) Eu estava me apaixonando Sendo uma cantora-compositora mal sucedida, eu estava mergulhada na apatia total. Naquele período escuro, neguei tudo em que acreditava. Deus foi uma bola acorrentada ao meu pé, tanto como música quanto como mulher, então quis livrar-me dele vivendo como se ele não existisse. Isto é, até receber um telefonema do Carmine, um ator, amigo meu, que precisava da minha colaboração para uma peça na qual ele estava trabalhando. Quando ele estava viajando para Bolonha, convenceu-me a pegar o trem junto com ele para falar sobre isso durante a viagem. Mas eu o inundei com toda a minha história: eu queria me abrir, e ele soube escutar-me tão bem, que… comecei a apaixonar-me. Trabalhamos juntos naquele ano. Eu escrevi a música e ele dirigiu a peça. Então, de repente, Carmine ficou doente. Com medo de perdê-lo, eu me encontrei cara a cara com o Deus que eu estava fingindo ignorar. Mas agora eu não me sentia mais como uma estranha. O amor amaciou meu coração e aquela dor o irrigou, deu-lhe toda aquela fecundidade que eu costumava cantar em minhas canções. (Chiara – Itália) Livre de um fardo Uma ofensa recebida há anos atrás, e depois esquecida, retornou-me à memória ao encontrar a pessoa “culpada”. Eu não me lembrava tanto daquele homem, mas sim do meu marido que não tinha me defendido. Os sentimentos de dor e humilhação ainda estavam vivos sob as cinzas e eu não conseguia conter meu surto sobre ele. Então um pensamento: “Seja misericordioso como seu Pai é misericordioso”. Parecia que Jesus estivesse me dizendo: “Como você gostaria de me doar tudo se ainda está cheia dessas lembranças dolorosas”? Palavras fortes, mas verdadeiras. Finalmente Deus com Sua graça ajudou-me a dar o passo de perdoar. A misericórdia do Pai libertou-me deste fardo. (Bernadette – Suíça)

 Por Lorenzo Russo

(extraído de Il Vangelo del Giorno (O Evangelho do dia), Città Nuova, ano VII, n.4, julho-agosto de 2021)

O harpista paraguaio

O harpista paraguaio

A música dele ecoava na sala do aeroporto entre a indiferença das pessoas. Um jogo de olhares e sorrisos. São os mistérios dos relacionamentos bons, capazes de gerar reciprocidade. Pequenos gestos que lhe fazem compartilhar algo com o próximo e se sentir parte de uma mesma humanidade. Eu estava voltando ao Paraguai depois de ter passado muitos anos na Europa. E me comovi quando entrevi a terra vermelha e o verde, tão típicos, enquanto o avião começava a descida para a aterrissagem. O aeroporto internacional, Silvio Pettirossi, não tinha mudado muito. A primeira sensação, ao sair do avião, foi o calor sufocante que me trazia lembranças distantes e muito amadas. Acolhi a falta de ar como um abraço caloroso de tantas pessoas queridas que encontraria. Enquanto esperava a minha bagagem na grande sala reservada para as partidas e chegadas, na área de pegar as malas, onde tem o duty free e um bar, meus ouvido foram invadidos pelas notas maravilhosas de uma harpa paraguaia. Procurei a origem da música. E lá estava: sentado na frente do bar, meio que abraçado ao seu grande instrumento musical, um homem de semblante sereno e traços indígenas: o harpista paraguaio. Sua música ecoava pela sala, enchendo-a de harmonia e notas alegres de uma polca paraguaia. Fui tocado pela discrição dele e pela indiferença das pessoas, como se estivessem habituadas à música do harpista. Como se fizesse parte do cenário, como o bar, as lojas ou a área de pegar as malas. O homem parecia conformado em tocar notas tão bonitas sem que ninguém – aparentemente – notasse a presença dele. Instintivamente, procurei nos bolsos e me lembrei de ter separado cinco dólares para dar a quem, na saída, se oferecesse (geralmente algum garoto) para levar minha mala até o carro que viria me buscar. Aproximei-me do harpista discretamente, o olhei com gratidão, e deixei os cinco dólares no chapéu que estava diante dele, com o temor de ferir a sua sensibilidade, consciente de que aquela música valia muito mais. Foi um gesto simples, mas o fiz com a intenção de agradecê-lo e reconhecer o talento dele, também em nome de quem não o notava. Passaram-se três semanas inesquecíveis, cheias de encontros com pessoas tão amadas e… me vi na mesma sala do aeroporto, dessa vez, porém, esperando o avião que me levaria de volta a Montevideo, onde eu morava. Ainda estava me despedindo dos meus amigos que, pelo vidro, via que continuavam acenando, quando meus ouvidos foram surpreendidos pelas notas de… La cumparsita! O tango que ganhou popularidade graças à incomparável voz de Carlos Gardel. Mas o que estava acontecendo? Estávamos no Paraguai, onde se executa e se escuta música paraguaia. De onde vinham as notas daquele tango? Procurei com os olhos já com um palpite. E estava ali, na frente do bar, sentado com a sua inseparável harpa, me olhando com um sorriso cúmplice, como se dissesse: “Gostou da surpresa?”. Respondi: “Estou muito contente”, com outro sorriso cúmplice, mas o olhar interrogador, perguntando como havia me reconhecido – entre as tantas pessoas que passam por aquela sala –, e ainda como havia adivinhado que eu sou argentino! São os mistérios dos relacionamentos bons, capazes de gerar reciprocidade. São pequenos gestos que lhe fazem compartilhar algo com o próximo e se sentir parte de uma mesma humanidade. Desde então, todas as vezes que me vê entrar na sala de chegadas e partidas, com a área de pegar as malas e o duty free… interrompe sua polca e começa a tocar um tango sempre diferente, dedicado ao seu amigo argentino.

Gustavo E. Clariá