14 Jul 2021 | Sem categoria
“Na fé, o homem mostra claramente que não conta consigo mesmo, mas se confia àquele que é mais forte do que ele”, escreve Chiara Lubich meditando sobre uma passagem do Evangelho. Momentos de escuridão, apatia, memórias dolorosas podem se tornar uma oportunidade para aprofundar nosso relacionamento com Deus, para mostrar a Ele nossa confiança nEle, mesmo nas dificuldades. A necessidade de um pai Com meus pais separados desde os meus três anos de idade, minha vida foi marcada pela falta de um pai. Apresentado e rebelde, descarreguava em todos. Não sabia a quem recorrer para falar sobre meus assuntos, tinha a impressão de que nem minha mãe me entendia mais. Eu tinha 15 anos quando meu professor de religião, sem fazer sermões para mim, apresentou-me para um grupo de jovens comprometidos. Comecei a participar de algumas de suas iniciativas em favor de crianças em bairros pobres. Eu me dei tão bem com eles que nunca mais os deixei. Depois, uma experiência de alguns meses em O’Higgins, a cidadela dos Focolares, na Argentina, abriu-me novos horizontes e trouxe-me um propósito para viver: contribuir para tornar o mundo mais bonito. A proposta de amar a todos despertou lentamente um pensamento em mim: “E o pai? O que será que ele faz agora? Será que ele sente a minha falta, depois de tantos anos de silêncio?” Eu não tinha paz até que fui procurá-lo em nossa antiga casa. Ele quase não me reconheceu. Era idoso, um homem cansado. Olhamos nos olhos um do outro e o passado ficou atrás. (Luis – Argentina) Eu estava me apaixonando Sendo uma cantora-compositora mal sucedida, eu estava mergulhada na apatia total. Naquele período escuro, neguei tudo em que acreditava. Deus foi uma bola acorrentada ao meu pé, tanto como música quanto como mulher, então quis livrar-me dele vivendo como se ele não existisse. Isto é, até receber um telefonema do Carmine, um ator, amigo meu, que precisava da minha colaboração para uma peça na qual ele estava trabalhando. Quando ele estava viajando para Bolonha, convenceu-me a pegar o trem junto com ele para falar sobre isso durante a viagem. Mas eu o inundei com toda a minha história: eu queria me abrir, e ele soube escutar-me tão bem, que… comecei a apaixonar-me. Trabalhamos juntos naquele ano. Eu escrevi a música e ele dirigiu a peça. Então, de repente, Carmine ficou doente. Com medo de perdê-lo, eu me encontrei cara a cara com o Deus que eu estava fingindo ignorar. Mas agora eu não me sentia mais como uma estranha. O amor amaciou meu coração e aquela dor o irrigou, deu-lhe toda aquela fecundidade que eu costumava cantar em minhas canções. (Chiara – Itália) Livre de um fardo Uma ofensa recebida há anos atrás, e depois esquecida, retornou-me à memória ao encontrar a pessoa “culpada”. Eu não me lembrava tanto daquele homem, mas sim do meu marido que não tinha me defendido. Os sentimentos de dor e humilhação ainda estavam vivos sob as cinzas e eu não conseguia conter meu surto sobre ele. Então um pensamento: “Seja misericordioso como seu Pai é misericordioso”. Parecia que Jesus estivesse me dizendo: “Como você gostaria de me doar tudo se ainda está cheia dessas lembranças dolorosas”? Palavras fortes, mas verdadeiras. Finalmente Deus com Sua graça ajudou-me a dar o passo de perdoar. A misericórdia do Pai libertou-me deste fardo. (Bernadette – Suíça)
Por Lorenzo Russo
(extraído de Il Vangelo del Giorno (O Evangelho do dia), Città Nuova, ano VII, n.4, julho-agosto de 2021)
13 Jul 2021 | Sem categoria
A música dele ecoava na sala do aeroporto entre a indiferença das pessoas. Um jogo de olhares e sorrisos. São os mistérios dos relacionamentos bons, capazes de gerar reciprocidade. Pequenos gestos que lhe fazem compartilhar algo com o próximo e se sentir parte de uma mesma humanidade.
Eu estava voltando ao Paraguai depois de ter passado muitos anos na Europa. E me comovi quando entrevi a terra vermelha e o verde, tão típicos, enquanto o avião começava a descida para a aterrissagem. O aeroporto internacional, Silvio Pettirossi, não tinha mudado muito. A primeira sensação, ao sair do avião, foi o calor sufocante que me trazia lembranças distantes e muito amadas. Acolhi a falta de ar como um abraço caloroso de tantas pessoas queridas que encontraria.
Enquanto esperava a minha bagagem na grande sala reservada para as partidas e chegadas, na área de pegar as malas, onde tem o duty free e um bar, meus ouvido foram invadidos pelas notas maravilhosas de uma harpa paraguaia. Procurei a origem da música. E lá estava: sentado na frente do bar, meio que abraçado ao seu grande instrumento musical, um homem de semblante sereno e traços indígenas: o harpista paraguaio. Sua música ecoava pela sala, enchendo-a de harmonia e notas alegres de uma polca paraguaia. Fui tocado pela discrição dele e pela indiferença das pessoas, como se estivessem habituadas à música do harpista. Como se fizesse parte do cenário, como o bar, as lojas ou a área de pegar as malas. O homem parecia conformado em tocar notas tão bonitas sem que ninguém – aparentemente – notasse a presença dele. Instintivamente, procurei nos bolsos e me lembrei de ter separado cinco dólares para dar a quem, na saída, se oferecesse (geralmente algum garoto) para levar minha mala até o carro que viria me buscar. Aproximei-me do harpista discretamente, o olhei com gratidão, e deixei os cinco dólares no chapéu que estava diante dele, com o temor de ferir a sua sensibilidade, consciente de que aquela música valia muito mais. Foi um gesto simples, mas o fiz com a intenção de agradecê-lo e reconhecer o talento dele, também em nome de quem não o notava. Passaram-se três semanas inesquecíveis, cheias de encontros com pessoas tão amadas e… me vi na mesma sala do aeroporto, dessa vez, porém, esperando o avião que me levaria de volta a Montevideo, onde eu morava. Ainda estava me despedindo dos meus amigos que, pelo vidro, via que continuavam acenando, quando meus ouvidos foram surpreendidos pelas notas de… La cumparsita! O tango que ganhou popularidade graças à incomparável voz de Carlos Gardel. Mas o que estava acontecendo? Estávamos no Paraguai, onde se executa e se escuta música paraguaia. De onde vinham as notas daquele tango? Procurei com os olhos já com um palpite. E estava ali, na frente do bar, sentado com a sua inseparável harpa, me olhando com um sorriso cúmplice, como se dissesse: “Gostou da surpresa?”. Respondi: “Estou muito contente”, com outro sorriso cúmplice, mas o olhar interrogador, perguntando como havia me reconhecido – entre as tantas pessoas que passam por aquela sala –, e ainda como havia adivinhado que eu sou argentino! São os mistérios dos relacionamentos bons, capazes de gerar reciprocidade. São pequenos gestos que lhe fazem compartilhar algo com o próximo e se sentir parte de uma mesma humanidade. Desde então, todas as vezes que me vê entrar na sala de chegadas e partidas, com a área de pegar as malas e o duty free… interrompe sua polca e começa a tocar um tango sempre diferente, dedicado ao seu amigo argentino.
Gustavo E. Clariá
12 Jul 2021 | Sem categoria
Em junho de 1944 Chiara Lubich se encontra sozinha em Trento depois que sua família, após o bombardeio de 13 de maio de 1944 que danificou sua casa, se deslocou para as montanhas do Trentino. Chiara tinha ficado na cidade para acompanhar as jovens que tinham seguido o seu ideal. As cartas desse período foram o primeiro elo na nascente comunidade do Movimento. Irmãzinha minha no Imenso Amor de Deus! Ouve, te peço, a voz deste pequeno coração! Tu foste ofuscada comigo pela luminosidade ardente de um Ideal que tudo supera e tudo resume: pelo Infinito Amor de Deus! Irmãzinha minha: é Ele, Ele é o meu e o teu Deus que criou entre nós um laço comum mais forte do que a morte, porque jamais se deteriora; uno, como o espírito; imenso, infinito, dulcíssimo, tenaz, imortal como o Amor de Deus! É o Amor que nos torna irmãs! Foi o Amor que ao Amor nos chamou! Foi o Amor que falou fundo em nossos corações e nos disse assim: “Olha à tua volta: tudo no mundo passa; cada dia tem a sua noite, e cada noite chega sem demora; cada vida tem o seu crepúsculo, e logo chegará o crepúsculo da tua vida! Contudo, não te desesperes. Sim, é verdade, tudo passa, porque nada do que vês e amas te é destinado a durar eternamente! Tudo passa e só deixa saudade e nova esperança!” Contudo não desesperes: a tua Esperança, que ultrapassa os limites da vida, te diz: “Sim, o que procuras existe. Existe em teu coração um anseio infinito e imortal; uma Esperança que não morre; uma fé que rasga as trevas da morte e é luz para aqueles que acreditam. Não é à toa que esperas, que acreditas! Não é à toa”. Tu esperas, tu acreditas – para Amar. Eis o teu futuro, o teu presente, o teu passado. Tudo se resume nesta palavra: Amor! Sempre amaste. A vida é uma busca contínua de desejos amorosos que nascem no fundo do coração! Sempre amaste! Mas amaste mal demais! Amaste aquilo que morre e é vão, e no coração só restou a vaidade. Ama aquilo que não morre! Ama Aquele que é o Amor! Ama Aquele que no anoitecer de tua vida olhará apenas o teu pequeno coração. Naquele instante, estarás sozinha com Ele: terrivelmente infeliz aquele que tiver o coração cheio de vaidade, imensamente feliz aquele que tiver o coração repleto do infinito Amor de Deus! […]
Chiara Lubich
(Chiara Lubich, C’è quel che tu cerchi, giugno 1944, in Lettere dei primi tempi, Città Nuova, 2010, pag. 48-50)
9 Jul 2021 | Sem categoria
Ajudar o próximo sem nada em troca, mas fazer isso com fé. É o que também nos permite levar a salvação, “tocando” com tenacidade quem está ao seu redor no sofrimento, na necessidade, no escuro, na perda. “Dai…” Minha avó foi muito generosa ao me dar um valor significativo para os meus gastos. Eu já tinha feito os cálculos de como usar aquele dinheiro quando um amigo me falou dos problemas em família: com o pai desempregado, começaram a fazer apenas uma refeição ao dia. Mais tarde, quando nos despedimos e eu levava comigo a dor dele, me vieram à mente no caminho de volta algumas experiências que li em um livro que ficava rodando na minha casa. Eram citadas algumas palavras do Evangelho às quais nunca tinha dado atenção, ou melhor, nunca tinha levado a sério: “Dai e vos será dado”. Eu me dizia: “Que palavras estranhas. Quem as disse só poderia ser um louco… ou um Deus!”. Aquele “dai” ficava martelando na minha cabeça. Na noite seguinte, fui encontrar meu amigo e lhe dei tudo o que tinha na carteira. Ele ficou surpreso e feliz; eu provei uma alegria que não conseguia conter. Mas não acaba aqui. Alguns dias depois, recebi um telefonema inesperado de uma revista importante: aceitaram publicar alguns textos meus, pelos quais me pagarão um valor justo. (Vincenzo – Itália) No hospital Uma paciente muito idosa estava delirando e fazendo discursos absurdos. Dada a idade e as condições de saúde, entre nós, colegas, fizemos um acordo de fazê-la sentir mais a nossa proximidade. Assim, em uma manhã, deixei sobre a mesa de cabeceira um cartão em nome de todos. Ao passar em seu quarto para a visita de rotina, a encontrei serena. Ela me disse: “Meu filho, essa noite senti que a morte estava perto e pensei que levaria comigo toda a minha maldade”, e pegando a minha mão, “peço perdão a você e a todos porque nunca me julgaram”. Parecia outra pessoa. Aquela velhinha nos ajudou a viver melhor o nosso serviço. (K.V. – Hungria) Projeto “Fagotto” Com o agravamento da pandemia, alguns trabalhadores de um grande centro agrícola perderam o emprego. Sabendo disso, com alguns amigos do sul da Califórnia (EUA), iniciamos um projeto chamado “Fagotto” que consistia em arrecadar roupas, livros, jogos de tabuleiro, pequenos eletrodomésticos e outras coisas úteis que, quando fossem distribuídos àquelas famílias penalizadas, aliviariam algumas despesas e mitigariam os transtornos causados pelas circunstâncias. Essa iniciativa de compartilhar, vivida com grande entusiasmo, não envolveu apenas a nossa comunidade, mas também colegas de trabalho e outras pessoas que nos conhecem. Em três dias, conseguimos encher um furgão com os objetos arrecadados e foi possível levar às comunidades do centro da Califórnia. Em troca, recebemos uma caixa imensa de cerejas que distribuímos novamente entre os nossos amigos e vizinhos. Essa experiência nos deixou entusiasmados e felizes. Foi ver a frase do Evangelho “Dai e nos será dado” se realizar. (G.S. – EUA)
Por Lorenzo Russo
(trecho de O Evangelho do Dia, Città Nuova, ano VII, nº4, julho-agosto de 2021)
7 Jul 2021 | Sem categoria
O encontro com a presidente Margaret Karram e o Copresidente Jesús Morán foi uma ocasião de conhecimento mutuo e profunda comunhão no compromisso comum para a unidade.
Sábado, 26 de junho uma delegação da Igreja Luterana Alemã visitou o Centro Internacional do Movimento dos Focolares em Rocca di Papa (Itália). Acolhidos pela Presidente dos Focolares Margaret Karram e o Copresidente Jesús Morán, os membros da delegação também se reuniram com o Centro “Uno” para a unidade dos cristãos e alguns membros do Conselho Geral do Movimento. Integravam a delegação o Bispo Frank-Rotfried July, Presidente da Seção Alemã da Federação Luterana Mundial (DKN/FLM), os Bispos Ralf Meister e Karl-Heinrich Manzke, respectivamente Presidente e responsável pelas relações com a Igreja católica da União de Igrejas Luteranas Alemãs (VELKD). Foi uma ocasião de conhecimento recíproco e profunda comunhão. A escuta recíproca permitiu que todos se sentissem como irmãos e irmãs já unidos em Cristo. O encontro com a Presidente Karram e o Copresidente Morán, em especial, foi um momento de intercâmbio sobre como enfrentar os desafios do mundo de hoje.
Emergiu do diálogo uma consonância na “paixão pela unidade em Cristo” que, no entanto, deve estender-se a toda a humanidade: o amor evangélico impele-nos a procurar a irmã e o irmão que está ao nosso lado. A partilha de exemplos concretos de vida evangélica, de reconciliação, mesmo em pequenos episódios, de escolha de Deus na vida quotidiana, ofereceu aos participantes, esperança no caminho da unidade que está sendo percorrido também no âmbito teológico e institucional. “Mudar de perspectiva, disse um dos Bispos, significa concretizar mais o que representa seguir o Messias. Começando por nós mesmos, não nos perguntemos o que eu quero receber? Ao invés, pensemos o que eu quero dar, o que eu posso dar? Quem vive assim é inspirado pelo Espírito e quem é inspirado pelo Espírito é sinal de esperança para mundo.” A delegação esteve em Roma por ocasião da comemoração dos quinhentos anos da excomunhão de Martinho Lutero pelo Papa Leão X que marcou, quatro anos após o início da Reforma (1517), a ruptura definitiva dentro da Igreja do Ocidente. Um aniversário celebrado hoje, porém, não para consolidar a ruptura, mas para ressaltar, aprofundar e desenvolver os mais de “cinquenta anos de constante e frutuoso diálogo ecumênico entre católicos e luteranos” que, como diz o documento escrito para a Comemoração Conjunta Católico-Luterana da Reforma de 2016, “nos ajudaram a superar muitas diferenças e aprofundaram o entendimento e a confiança entre nós”[1]. Na véspera da visita aos Focolares, o Papa Francisco, reunido com representantes da Federação Luterana Mundial no aniversário do Confessio Augustana (25 de junho de 1530), havia dito entre outras coisas: “Queridos irmãos e irmãs, no caminho do conflito à comunhão, no dia da comemoração do Confessio Augustana vocês vieram a Roma para que a unidade cresça entre nós. (…) Eu disse “no caminho do conflito à comunhão”, e este caminho só é feito em crise: a crise que nos ajuda a amadurecer naquilo que estamos buscando. Desde o conflito que vivemos durante séculos e séculos, até a comunhão que desejamos, e para isto entramos em crise. Uma crise que é uma bênção do Senhor”[2]. Durante sua estadia em Roma, a delegação da Igreja Luterana Alemã teve várias reuniões no Vaticano, como a do Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, na qual eles também trataram de questões pastorais prementes como, por exemplo, casamentos mistos, a admissão à Eucaristia do parceiro não católico. Entre os compromissos previstos, além do encontro com o Movimento dos Focolares, havia também um com a Comunidade de Santo Egídio. [1] Dichiarazione Congiunta in occasione della Commemorazione Congiunta cattolico-luterana della Riforma, Lund (Svezia), 31 ottobre 2016 in https://www.vatican.va/content/francesco/it/events/event.dir.html/content/vaticanevents/it/2016/10/31/dichiarazione-congiunta.html [2] Discorso di Papa Francesco ai rappresentanti della Federazione Luterana Mondiale, Roma (Italia), 25 giugno 2021 in https://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2021/june/documents/20210625-federazione-luterana.html