5 Out 2020 | Sem categoria
8 de maio de 2004, Estugarda, Alemanha. Chiara Lubich encontrou-se diante de quase 9 mil pessoas, na primeira edição do “Juntos pela Europa”. Foi um momento histórico, onde ela ofereceu a chave para a construção da paz no continente-mosaico, que é a Europa, e no mundo inteiro: construir pedaços de fraternidade universal. A fraternidade universal é e foi uma aspiração profundamente humana, presente, por exemplo, em grandes almas. Martin Luther King revelava: «Tenho um sonho: que um dia os homens (…) se darão conta de que foram criados para viver juntos como irmãos (…); e que a fraternidade (…) se tornará a ordem do dia de um homem de negócios e a palavra de ordem de um homem de governo.»[2] O Mahatma Gandhi, a propósito de si, afirmava: «A minha missão não é simplesmente a fraternidade do povo indiano. (…) Mas, através da atuação da liberdade da Índia, espero atuar e desenvolver a missão da fraternidade dos homens.»[3] A fraternidade universal foi também o programa de pessoas não inspiradas por motivos religiosos. O próprio projeto da Revolução Francesa tinha por lema: «Liberdade, igualdade, fraternidade». Mas se depois inúmeros países, ao construírem regimes democráticos, conseguiram realizar, pelo menos em parte, a liberdade e a igualdade, certamente não ocorreu o mesmo com relação à fraternidade, mais anunciada do que vivida. Quem, ao invés, proclamou a fraternidade universal e nos deu o modo de realizá-la foi Jesus. Ele, nos revelando a paternidade de Deus, abateu os muros que separam os “iguais” dos “diferentes”, os amigos dos inimigos. E libertou cada homem das mil formas de subordinação e de escravidão, de todo relacionamento injusto, realizando, assim, uma autêntica revolução existencial, cultural e política. Além disso, muitas correntes espirituais, no decorrer dos séculos, procuraram atuar essa revolução. Uma vida realmente fraterna foi, por exemplo, o projeto audaz e obstinado de Francisco de Assis e dos seus primeiros companheiros[4], cuja vida é um exemplo admirável de fraternidade que abraça, com todos os homens e as mulheres, também o cosmo, com irmão sol e lua e estrelas. O instrumento que Jesus nos ofereceu para realizar essa fraternidade universal é o amor: um amor grande, um amor novo, diferente daquele que habitualmente conhecemos. Ele, Jesus, de fato, transplantou na Terra o modo de amar do Céu. Esse amor exige que se ame a todos, portanto, não só os parentes e os amigos. Pede que amemos o simpático e o antipático, o concidadão e o estrangeiro, o europeu e o imigrante, aquele da própria Igreja e aquele de outra, da própria religião e de uma diferente. […] Esse amor pede que amemos também o inimigo e que o perdoemos, se, por acaso, ele nos fez algum mal. […] Portanto, aquele de que falo é um amor que não faz distinção e leva em consideração aqueles que estão fisicamente ao nosso lado, mas também aqueles de quem falamos ou de quem se fala, aqueles aos quais é destinado o trabalho que nos mantém ocupados dia após dia, aqueles de quem ficamos sabendo alguma notícia pelos jornais ou pela televisão. Porque é assim que Deus Pai ama, que manda sol e chuva sobre todos os seus filhos: sobre os bons, sobre os maus, sobre os justos e sobre os injustos (cf. Mt 5,45). Uma segunda exigência desse amor é que sejamos os primeiros a amar. Com efeito, o amor que Jesus trouxe à Terra é desinteressado; não espera que o outro ame, mas, ao contrário, toma sempre a iniciativa, como fez o próprio Jesus, dando a vida por nós, quando ainda éramos pecadores e, portanto, não amávamos. […] E ainda, o amor trazido por Jesus não é um amor platônico, sentimental, feito de palavras, é um amor concreto, exige que se vá aos fatos. Isto é possível se nos fizermos tudo a todos: doente com quem está doente; alegres com quem está na alegria; preocupados, desprovidos de segurança, famintos, pobres com os outros. E, sentindo em nós o que eles experimentam, agir de modo consequente. […] Depois, quando esse amor é vivido por várias pessoas, ele se torna recíproco e é o que Jesus ressalta mais do que tudo: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34). É o mandamento que ele diz ser seu e “novo”. Não só os indivíduos são chamados a viver esse amor recíproco, mas também os grupos, os Movimentos, as cidades, as regiões, os países. De fato, os tempos atuais exigem que os discípulos de Jesus adquiram uma consciência “social” do cristianismo. É mais do que nunca urgente e necessário que se ame a pátria alheia como a própria: […] Esse amor, que atinge a sua perfeição na reciprocidade, exprime a potência do cristianismo, porque atrai a esta terra a própria presença de Jesus entre nós, homens e mulheres. Não foi ele que disse: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles» (Mt 18,20)? E não é esta sua promessa uma garantia de fraternidade? Se ele, o irmão por excelência, está conosco, como poderíamos, de fato, não nos sentirmos irmãos e irmãs uns dos outros? […] Que o Espírito Santo ajude a todos nós a formarmos, no mundo, lá onde vivemos, espaços de fraternidade universal cada vez mais extensos, vivendo o amor que Jesus trouxe do Céu para nós.
Chiara Lubich
[2] Cf. Martin Luther King, Discorso della Vigilia di Natale 1967, Atlanta, cit. in Il fronte della coscienza, Turim 1968. [3] M. K. Gandhi, Antichi come le montagne, Milão 1970, p.162. [4] Cf. Cardeal R. Etchegaray, Homilia por ocasião do Jubileu da Família Franciscana, in “L’Osservatore Romano”, 12 de abril de 2000, p. 8. https://vimeo.com/465801263
2 Out 2020 | Sem categoria
Dez anos de guerra, os limites devidos ao embargo e à pandemia do Coronavírus, impuseram à população síria, condições de vida no limite da pobreza favorecendo a reaparição do fenômeno da exploração do trabalho infantil. “Depois de quase uma semana de quarentena, fiquei surpresa ao ver um dos nossos alunos vender verduras no tráfego”. Da experiência de uma das professoras das atividades extraclasse “Geração de esperança” de Homs, do programa “Emergência Síria”, nasce a atenção para com o fenômeno em crescimento da exploração do trabalho infantil. Segundo o que foi relatado pelos nossos agentes, no passado eram conhecidos alguns casos em que os adolescentes eram empregados em trabalhos manuais, mas hoje, diminuiu a idade dos adolescentes empregados para a venda de verduras nos mercados ou como operários, barbeiros, garçons nos fast foods ou em fábrica. Quando os pais são interpelados, as respostas evidenciam como esta prática seja quase inevitável, tendo em vista as condições econômicas e a grande incerteza do futuro. Alguns consideram que hoje seja mais importante aprender um trabalho ao invés de ficar em casa (por causa da pandemia), ou então explicam como aquelas atividades sejam necessárias para ajudar o balanço familiar, não mais sustentável só com o trabalho, frequentemente ocasional, dos pais. Durante a quarentena imposta para enfrentar a Covid-19, os agentes e os professores das atividades extraclasse de Homs se empenharam em acompanhar os adolescentes inclusive à distância, apesar de nem sempre ter sido fácil: muitos vivem em casas superlotadas e a disponibilidade de dispositivos digitais e da rede não está ao alcance de todos. Esta separação alimentou a fragilidade dos adolescentes e a escolha por parte dos pais de empregá-los nestes trabalhos. Por esta razão, no breve período de retomada, em julho, as atividades extraclasse de Homs organizaram alguns encontros para investigar o fenômeno e fazer entender o quanto seja importante preferir a instrução ao trabalho infantil, inclusive em condições de grave dificuldades econômicas. Daqueles encontros veio à tona que as crianças, embora não querendo trabalhar, sentem a responsabilidade de contribuir nas despesas familiares, além do medo de que os empregadores, diante de uma recusa delas, possam machucar os pais. O centro foi novamente fechado por causa da expansão do Coronavírus, mas, assim que for possível, agentes e professores retomarão o seu trabalho, conscientes do quanto isto possa contribuir para combater a prática do trabalho infantil e garantir aos adolescentes de Homs o apoio para receber a instrução adequada para construir o próprio futuro.
Do site Amu – Ação por um mundo unido
30 Set 2020 | Sem categoria
O seu sorriso, a sua alegria de viver, o seu compromisso com a justiça e a paz. Estas são as palavras que continuam a evocar Myriam Dessaivre, 26 anos, que perdeu a sua vida no domingo, 9 de agosto no Níger. Juntamente com ela cinco outras jovens francesas foram mortas, para além do condutor e guia nigeriano que as acompanhava naquele dia para visitar a reserva de girafas em Kouré, localizada 60 km a sudeste da capital Niamey. As jovens francesas participavam numa missão humanitária com a ONG Acted, num país que sofre de múltiplas crises e ocupa o último lugar em termos de desenvolvimento humano. Licenciada em Comunicação e Informação pelo Instituto Católico de Toulouse e Mestre em estudos de paz em Paris-Dauphine, Myriam, uma mártir pela paz, era especializada na resolução de conflitos políticos. O tema da sua tese é “O Estado colombiano e as FARC: rumo a uma possível reconciliação? A sua formação desenvolvia-se também neste campo e trabalhava na Colômbia, Tunísia e Chade. Em 18 de junho de 2016, ela explicou a sua escolha dos estudos durante o Conselho Nacional da Associação Movimento da Paz. Tinha então 21 anos de idade. Estamos impressionados com a força de suas palavras e a ressonância que elas assumem hoje. Citamos seu discurso no final deste artigo. “Pessoalmente, tenho a impressão de que uma parte crescente de nossa geração queira promover a paz. Então eu acho que as redes sociais também ajudem nesta tendência: não apenas por causa da profusão de más notícias, mas há um aumento de uma espécie de “solidariedade global”. A indignação pelos horrores atuais (ataques terroristas, guerras no Oriente Médio, fome) é transmitida instantaneamente nas redes sociais, e nos vemos diretamente afetados por estas notícias, chegando ao ponto de dizer “Quando eu vou lá?” É por isso que não me surpreende que cada vez mais jovens queiramos exercer profissões de paz, talvez simplesmente para dar-nos a possibilidade de viver em um mundo melhor. Ela tinha aprendido a construir este mundo melhor também graças à espiritualidade do Movimento dos Focolares e ao seu compromisso com os jovens do Movimento. Seu pai, Jean-Marie, que morreu em 2014, era um volontario. “Ela era minha melhor amiga”, diz Sophie, muito triste. “Eu a conheci quando tinha 13 anos, durante uma Mariápolis em Lourdes, na França. Você poderia rir de tudo com ela”, acrescenta. “Ela tinha grandes convicções e defendia os valores da paz e da justiça social. O seu trabalho não foi, mas ela foi apaixonada, em seu lugar, realizada”, testemunha. “Aquece meu coração saber que por mais injusta, terrível e violenta que tenha sido sua morte, não foi sem sentido. Ela deu sua vida pelo que ela acreditava ser certo.” Outro amigo, Carl, viu Miriam “como uma pessoa radiante, humilde e linda, que deu sua vida a serviço da vida, da paz, dos outros”. Para ele, este é o significado de sua morte: “Percebo que ao longo de sua vida ela construiu uma mensagem que nos é entregue através de sua partida para o céu. É o martírio do mal do qual, de uma forma ou de outra, cada um de nós se alimenta diariamente de más ações e/ou inação”. “Myriam realizou seu sonho, sua paixão unindo a sua experiência e o seu compromisso”, compartilha Anne-Marie, uma focolarina que a conhecia. “Tornou-se evidente para os 120 representantes Gen de todo o mundo, reunidos para um congresso on-line de 7 a 14 de agosto, que Miriam será o precioso anjo da guarda do Projeto #Daretocare, destinado a promover todas as iniciativas de cidadania ativa nos campos da justiça social, política e economia”. Para Anne-Marie, “é como se ela agora estivesse nos dizendo: ‘Vamos lá! Não se carregue de coisas inúteis”!
Emilie Tévané, Nouvelle Cité
28 Set 2020 | Sem categoria
O caminho por excelência para superar as diferenças de qualquer natureza e criar comunhão e unidade é – como ensina Chiara Lubich – o diálogo. Podemos vivê-lo inclusive nas horas que devemos dedicar a nós mesmos. Somos todos chamados a espelharmos em nós a vida da Santíssima Trindade, na qual as Três Pessoas Divinas estão em eterno diálogo; são eternamente uma coisa só e eternamente distintas. Na prática, para todos nós, isso significa que, toda vez que tratamos com um ou mais irmãos, irmãs, direta ou indiretamente, por telefone, por escrito ou por um trabalho voltado para eles, pelas orações que recitamos, nós nos sintamos num diálogo perpétuo, chamados ao diálogo. De que modo? Abrindo-nos a ele – ao irmão, à irmã – escutando com a mente vazia o que o irmão deseja, o que diz, o que o preocupa, o que deseja. E, depois disso, contribuirmos nós com o que for desejado e oportuno. E se eu tenho alguns momentos e horas que devo dedicar a mim mesma (para comer, descansar, me vestir, etc.), devo fazer cada ação em função dos irmãos, das irmãs, tendo em mente as pessoas que me aguardam. De tal forma e somente assim, vivendo continuamente a “espiritualidade da unidade” ou “de comunhão”, é que posso contribuir com eficácia para fazer da minha Igreja “uma casa e uma escola de comunhão”; posso contribuir para que progrida, com os irmãos de outras Igrejas ou Comunidades eclesiais, a unidade da Igreja; e suscitar, com as pessoas de outras religiões ou culturas, espaços cada vez mais abrangentes de fraternidade universal.
Chiara Lubich
Tirado de: Chiara Lubich, Chiamati a rispecchiare la Trinità, in: Città nuova, 5/2004, pag. 7.
25 Set 2020 | Sem categoria
Jesus proclama livremente a sua mensagem a homens e mulheres de diferentes povos e culturas que querem ouvi-lo; é uma mensagem universal, dirigida a todos e que todos podem acolher para se realizarem como pessoas, criadas por Deus Amor à sua imagem. Uma tragédia partilhada Há vários anos, com as nossas quatro filhas, deixamos o Líbano devastado pela guerra e fomos viver na Tasmânia, onde lutamos para nos integrarmos num mundo tão diferente do nosso: as pessoas aqui são muito reservadas e a família “nuclear” contrasta com a família “alargada” do nosso país. Nos primeiros dias após a nossa chegada, um colega do meu marido perdeu o seu filho de dois anos num incêndio. Desde então, com a sua mulher, recusava-se a receber visitas e a estar com outras pessoas, permanecendo quase segregado em casa. Não compreendíamos esta atitude deles, porque na nossa cultura as tragédias são partilhadas, e perguntávamo-nos de que maneira poder amá-los, assumindo também nós o sofrimento deles nós. Assim, durante algumas semanas, cozinhei diarimente para eles, deixando a comida fora da porta com um bilhete, sem perturbá-los. Finalmente um dia aquela porta abriu-se e desde então nasceu uma relação de amizade entre nós e eles. Ao longo do tempo, depois fizemos outros amigos que nos enriqueceram com a sua cultura. E na nossa casa agora há sempre alguém que nos vem visitar, um pouco como era no Líbano. (Carole – Austrália) Inculturação Para entrar na pele um do outro, é importante falar a sua língua. Mas não obrigatoriamente. Vejo isso com muitas pessoas que tratei (sou médico) e com as quais permaneceu uma relação, porque uma mensagem passou. Uma vez, nos Camarões, pedi conselho a um ancião da região sobre como identificar-me com o seu povo. Ele disse: “Se amas realmente com o coração, os outros compreendem. O amor é importante”. Com estas palavras ele trouxe-me de volta ao essencial do Evangelho e foi a confirmação de que partilhar os sofrimentos e alegrias dos outros vem em primeiro lugar. Se também puder aprofundar o meu conhecimento da língua e dos costumes locais, será ainda melhor… Em todos os lugares, o amor é a palavra mais eloquente para expressar a paternidade de Deus. (Ciro – Itália) O apoio para não desistir Após o divórcio, continuei a encontrar-me com as crianças. Mas com o tempo, a chantagem da minha ex-mulher, as exigências e as acusações começaram a aumentar… Tinha medo que ela tivesse pessoas que a aconselhavam de maneira que não a ajudavam. A provação mais dolorosa foi quando até as crianças, especialmente a mais velha, começaram a acusar-me de ter arruinado a vida delas. Não sabia o que fazer. Cada vez que nos encontrávamos, era um inferno. Uma grande ajuda veio-me de um amigo sacerdote, que sugeriu que eu deveria amar sem esperar nada. Seguindo o seu conselho, decidi tentar durante alguns meses. Quando a minha sogra adoeceu e estava acamada, tive o cuidado não só de a visitar frequentemente, mas também de aliviar o seu novo estado em todos os sentidos. Um dia, eu estava fazendo-lhe companhia, e a minha filha chegou. Encontrou a sua avó serena e divertida enquanto organizávamos velhos álbuns de fotografias. Naquele momento, algo deve ter mudado nela, porque nessa mesma noite ela chamou-me para pedir-me perdão. A escalada é difícil, mas sempre que tento amar, encontro o apoio para não desistir. (V.J. – Suíça) De cor Meu marido Baldwyn e eu somos de cor, uma raça mestiça que sofre frequentemente por uma grave marginalização. A minha mãe era africana e o meu pai indiano. Fiquei órfã dele após o meu nascimento e com a minha mãe fui viver com os seus parentes negros, onde fui educada segundo as suas tradições. Mas com o passar dos anos, apercebi-me que era diferente e sofria por ser ridicularizada. Quando Baldwyn e eu decidimo-nos casar, descobri que não estava registada em nenhum lugar e, portanto, não existia para o Estado. Foi um golpe para mim: mais uma vez senti-me rejeitada! Durante esse período difícil, as circunstâncias levaram-nos a conhecer algumas famílias cristãs, negras e brancas: pertenciam ao Movimento Famílias Novas e não faziam diferenças de raça. Nesse ambiente, pela primeira vez, senti-me à vontade, bem recebida pelo que era. A atenção daquelas pessoas para comigo fez-me descobrir que Deus me amava. Consegui aceitar-me a mim mesma com as minhas diferenças e aos outros também. Tornei-me livre. (Gloria – África do Sul)
por Stefania Tanesini
(extraído de O Evangelho do Dia, Città Nuova, anno VI, n.5, setembro-outubro de 2020)