22 Dez 2019 | Sem categoria
Figura de primeiro plano do budismo theravada tailandês, o Venerável Phra Phron Mongkol faleceu dia 12 de dezembro passado aos 97 anos. De grande valor a experiência de diálogo budista-cristão entre ele e Chiara Lubich. Na metade dos anos 1990, graças a Phramaha Thongratana, monge que havia tido a ocasião de encontrar-se com João Paulo II e conhecer o Movimento dos Focolares e Chiara Lubich, o Grã-Mestre transcorreu um período na Mariápolis permanente de Loppiano, juntamente com o seu jovem discípulo, conhecido, no âmbito católico, com o nome de Luz Ardente. Após os primeiros encontros deste com a fundadora dos Focolares nasceu o desejo de um diálogo entre budismo e cristianismo na Tailândia, que, segundo as palavras do monge, deveria ser realizado “docemente, com uma caridade refinada, com muito amor e envolvendo nele o coração”. E acrescentava uma consideração fundamental para o diálogo: “estes dois termos – budismo e cristianismo – são somente duas palavras […], o bem, o amor, é o que une todos os homens, de qualquer raça, religião, língua, e faz com que todos possam encontrar-se e viver juntos”. Partia daqui o seu empenho decidido e, por vezes, surpreendente: “Até que terei respiro, até que terei vida, buscarei construir relacionamentos verdadeiros e belos com todos no mundo”. Chiara Lubich confirmava estes sentimentos com um convite que era também profecia: “Continuemos a preparar o caminho vivendo segundo a Luz que recebemos, e muitos nos seguirão”. Com esta preparação o ancião e venerável monge havia chegado à Mariápolis de Loppiano, onde fora alojado no Centro de Espiritualidade Cláritas, que recebe regularmente religiosos de várias congregações com o intuito de viverem uma experiência de comunhão entre carismas. Dois monges theravada ao lado de franciscanos, salesianos, jesuítas, dominicanos e outros: uma verdadeira profecia. O venerável Phra Phrom Mongkol ficara profundamente tocado pela acolhida recebida e, ao encontrar Chiara Lubich, comentara: “o fato de você ter convidado dois monges budistas a estarem aqui, no meio do seu povo, é algo extraordinário”. Tudo isso não era apenas formalidade e gentileza, aspectos típicos da cultura tailandesa. Tratava-se dos primeiros passos de uma profunda experiência espiritual, da qual os dois monges estavam plenamente conscientes. Chiara Lubich havia confirmado a sua expectativa por aquele primeiro encontro com uma atitude de escuta, voltada a aprender mais do que a ensinar: “Eu estou feliz por essa visita, inclusive para aprender algo belo. Qual é o coração do ensinamento de vocês?”. Iniciou assim um percurso imprevisível. No início de 1997, com efeito, a líder católica foi convidada por estas personalidades do monaquismo budista a ir à Tailândia, e não se tratava apenas de uma visita de cortesia. Chiara foi convidada a dirigir a sua palavra de testemunho cristão a vários grupos de monges, monjas e leigos budistas, seja em Bancoc, seja, principalmente, em Chiang Mai. Justamente ali, no templo Wat Rampoeng, o Grã-Mestre a introduziu com palavras surpreendentes: “Todos vocês, meus seguidores, se perguntam porque a Mamãe, que é uma mulher, foi convidada. Gostaria que vocês, monges e seminaristas, esquecessem essa pergunta e não pensassem que ela é uma mulher. Quem é sapiente e é capaz de indicar o caminho certo para a nossa vida, seja mulher ou homem, merece respeito. É como quando estamos no escuro: se alguém vem trazer-nos uma lâmpada para nos guiar ficamos muito gratos, e não nos importa se aquela pessoa é uma mulher ou um homem, uma criança ou um adulto”. Nestas palavras parece condensar-se a grande sabedoria deste homem, capaz de caminhar sem medo na estrada do diálogo, arrastando outros nesta experiência. A própria Chiara Lubich, impressionada por esta abertura e sensibilidade, captou algo superior nesta relação, e dirigiu-se ao Grã-Mestre com palavras que parecem proféticas: “Continuemos a preparar o caminho vivendo segundo a Luz que recebemos e muitos no seguirão”. E assim aconteceu. Há 25 anos esta experiência de diálogo continua e se desenvolve. Até na morte há algo que parece acomunar este ancião monge da milenar tradição Theravada com a mulher católica fundadora de um movimento eclesial deste tempo. No último dia 7 de dezembro, com efeito, foram abertas, em Trento, as comemorações do centenário do nascimento de Chiara Lubich, que serão concluídos com um evento inter-religioso no dia 7 de junho de 2020. O venerável Grã-Mestre havia expresso o desejo de estar presente naquela ocasião. Uma amizade destinada a continuar pela eternidade.
Roberto Catalano (Corresponsável pelo Diálogo Inter-religioso do Movimento dos Focolares)
Em conversa com o Grande Mestre Ajahn Thong, um serviço da Collegamento CH de 13 de fevereiro de 2016 https://vimeo.com/155673663
20 Dez 2019 | Sem categoria
O centro “Nueva Vida”, dos Focolares, há 15 anos desenvolve uma importante ação social de apoio a crianças e suas famílias, num bairro da periferia de Montevideo. Uma conversa com Luis Mayobre, diretor do Centro. “O motor do ‘Nueva Vida’ são os jovens, e esta ação social nos interpela e estimula a não perder de vista o mais importante, isto é, o amor mútuo que gostaríamos que fosse a única lei do nosso Centro”. Assim inicia Luis Mayobre, presidente do Centro desde quase o seu início, em 2004, quando o arcebispo de Montevideo pediu aos Focolares que continuassem a administrar uma obra social iniciada por uma religiosa num bairro de periferia da capital uruguaia. Nasceu assim “Nueva Vida”, cujos objetivos estão inscritos em seu próprio nome: abrir à esperança de um novo início todos aqueles que passam pelas portas do Centro. Este é parte da associação CO.DE.SO (Comunhão para o Desenvolvimento Social, instituída pelo Movimento) e colabora com o INAU, Instituto da Criança e do Adolescente, órgão público que gerencia as políticas para a infância e a adolescência no Uruguai. “O ano de 2018 foi marcado por um clima de violência no bairro Borro – conta Mayobre -. Foram meses de angústia. Por causa das brigas entre duas famílias rivais, de narcotraficantes, qualquer pessoa arriscava a vida. A população, junto com os educadores e funcionários do Nueva Vida, enfrentou com coragem os constantes tiroteios, de dia e de noite. Tivemos que dobrar a nossa presença no Centro porque as famílias o solicitavam, muitas delas foram roubadas e tiveram suas pobres habitações ocupadas pelos traficantes”.
Como vocês se comportaram numa situação tão hostil? “Procuramos o Ministério do Interior, mas como a resposta custava a chegar, precisamos acolher e proteger algumas famílias que, em seguida, direcionamos aos serviços públicos de quem receberam novas casas. Uma dessas famílias – dois de seus filhos participam das atividades do centro juvenil – havia sido ameaçada de morte. A nossa coordenadora contatou uma filha do casal, mesmo se não era simples ter sua ajuda pois tinha uma relação problemática com os pais. No final tudo se resolveu da melhor maneira porque ela colocou à disposição parte de um terreno de sua propriedade para a construção de uma nova casa, mais digna e segura. Lembro também de um caso de violência familiar que a nossa equipe acompanhou e que precisou da intervenção das autoridades para garantir a segurança das crianças e da mãe. Apesar de receber ameaças e insultos nós fomos adiante, consentindo à família reencontrar paz e segurança”. A quem o Centro se dirige e quais serviços vocês oferecem? “Levamos para frente três projetos: o CAIF, o Clube Crianças e o Centro Juvenil. Neste clima de violência nos propomos ser construtores de paz, de esperança e principalmente de alegria, para vencer o ódio e o medo. O ambiente favorável que se criou permitiu que 48 crianças entre 2 e 3 anos, e 60 ainda menores – de 0 a 2 anos – participassem de vários workshops junto com suas mães. Organizamos também excursões didáticas para criar espaços de beleza e harmonia. Foi uma experiência positiva, da qual participaram inclusive famílias, assim chamadas, “rivais”, e que permitiu que os relacionamentos melhorassem notavelmente. No Clube Crianças cuidamos de 62 crianças em idade escolar (de 5 a 11 anos). Estamos atuando na luta contra o abandono escolar e trabalhamos para garantir que todos avancem para as classes seguintes. Atualmente apenas 5% das crianças abandona a escola, diante dos 36% de 2004. Incentivamos os workshops de arte, música, recreação, para sensibilizar as crianças a desenvolverem os valores culturais da convivência, da atenção ao outro e para aprender a ‘cultura da partilha’. E os ajudamos a excluir a violência dos estilos de comportamento. Além disso, as aulas de natação favorecem a aprendizagem do cuidado com o corpo e a higiene. No Centro Juvenil recebemos 52 adolescentes e jovens, de 12 a 18 anos. Este ano cerca de 95% participa das atividades que desenvolvemos no contraturno escolar, uma meta que tínhamos desde o início. Entre eles há seis jovens que frequentam o ensino médio, um grande sucesso visto que no bairro a média não supera os primeiros anos de escola. Organizamos ainda cursos complementares para a formação deles, como manufatura de tecido, marcenaria e comunicação. Essas oficinas são conduzidas, de modo voluntário, por pessoas do Movimento dos Focolares”. Qual é a relação do Centro com as outras associações que atuam nessa região? “Com os anos foi construída uma rede com todas as instituições que trabalham no Borro, com quem colaboramos, em ajuda recíproca. Participamos inclusive da vida da paróquia, Nossa Senhora de Guadalupe. O pároco e um outro sacerdote, nos visitam uma vez por semana. Com frequência chegam voluntários de outros países, como aconteceu este ano com Elisa Ranzi e Matteo Allione, italianos, que nos marcaram muito com sua presença. Agradecemos sempre a quem nos ajuda. A colaboração deles é muito importante para sustentar parte das atividades que desenvolvemos. Cada ajuda, por menor que seja, é preciosa”.
Stefania Tanesini
18 Dez 2019 | Sem categoria
Em novembro de 2019, concluem-se a fase diocesana das causas de beatificação de Chiara Lubich e do padre Oreste Benzi, respectivamente, fundadores de um Movimento e de uma nova Comunidade eclesial. No fervilhar do ano 1968, um fenômeno revolucionário do século XX atingiu países de várias latitudes. Neste contexto, nasceram, suscitadas por carismas, muitas novas Comunidades eclesiais fundadas por leigos, que irromperam na vida de jovens mulheres e de jovens homens e imediatamente enraizaram-se, envolveram e difundiram-se na sociedade. Essas comunidades também trouxeram uma revolução, mas evangélica. E deste modo, a oração ao Espírito Santo dos Padres que tinham participado no Concílio Ecumênico Vaticano II, concluído em 1965, revelou-se sem demora. Já nos inícios dos anos 1900 brotavam novas realidades carismáticas na Igreja. Por volta da metade do século, portanto vinte anos antes do Concílio, surgiu o Movimento dos Focolares trazendo consigo algumas novidades: a inspiração foi “entregue” a uma jovem trentina leiga, Chiara Lubich. Nascida em 1920, ela destacou-se por uma fé generosa e realizou o seu sonho de doar-se a Deus, na aurora do dia 7 de dezembro de 1943, no cenário da Segunda Guerra Mundial. A predileção pelos pobres, a vida comunitária substanciada por uma espiritualidade coletiva, baseada na Palavra de Deus, foi a base onde se encarnou o carisma da unidade que, em breve, se abriu para o mundo inteiro. O padre Oreste Benzi nasceu em 1927 em São Clemente, uma aldeia no interior de Rimini, Itália. Foi ordenado sacerdote aos 24 anos e dedicou-se aos adolescentes. Fazer “um encontro simpático com Cristo”, foi o leitmotiv da sua vida. Com os adolescentes transcorria os períodos de verão na Casa Madonna delle Vette dos Canazei, onde, em 1968, nasceu a Associação Papa João XXIII, com o compromisso de amar o mais pobre dentre os pobres em estreito relacionamento com Cristo porque: “somente quem sabe estar de joelhos pode estar em pé ao lado dos pobres”. Realizou obras consideradas irrealizáveis: desde a partilha quotidiana com os marginalizados até ao combate do tráfico de seres humanos. Chiara e padre Benzi foram duas pessoas diferentes: uma mulher e um homem, uma leiga e um sacerdote, uma mulher das montanhas e um homem das colinas perto do mar, ambos fundadores de obras geradas por um carisma, luz que entra na história. Realidades inéditas na Igreja, reproduzem a proclamação antiga e nova de Jesus, envolvendo quem adere a elas num caminho renovado de fé e de humanidade. O testemunho adamantino do Evangelho, não se limita aos fundadores, mas se alarga aos membros. É também graças a Movimentos e novas Comunidades que ao fim do segundo milênio, e a seguir, a santidade de povo avança, inserindo-se na quotidianidade. Chiara lançou o simpático slogan dos 6 S, para seguir Jesus: “Serei santo se sou santo subito” (imediatamente). Nos Focolares, há várias causas de beatificação em andamento. Em 2004, ao receber o Decreto eclesial de reconhecimento definitivo da sua Associação, o padre Benzi afirmou: “É uma dádiva inestimável” para que “os irmãos e as irmãs membros da Comunidade (…) possam viver alegres e serenos na certeza absoluta de que a vocação da Comunidade é uma caminho seguro para santificar-se (…).” Na Associação Papa João XXIII foi iniciada a causa de beatificação da Serva de Deus Sandra Sabattini. Em 2 de outubro passado, foi anunciado que a proclamação da sua beatificação ocorrerá em 2020. Num dos últimos telefonemas de padre Oreste, em 31 de outubro de 2007, ao Centro internacional do Movimento dos Focolares, com sua voz suave manifestou a urgência de informar Chiara da iniciativa que a Associação estava organizando, perguntando se ela pretendia apoiá-la. Infelizmente, não teve tempo de saber a resposta positiva de Chiara: na noite seguinte, entre o dia 1 e o dia 2 de novembro, ele deixou esta terra. Em 2008, no dia 14 de março, também Chiara retornou à casa do Pai. Agora, este mês de novembro, parece ser o símbolo dos dois percursos, distintos mas muito próximos.
Lina Ciampi
16 Dez 2019 | Sem categoria
Cada pequeno gesto de amor, cada gentileza, cada sorriso dado transforma nossa existência em uma espera contínua e fecunda. Coral das crianças Em preparação das festas de natal, fomos a um hospital com um belo grupo de crianças para alegrar Jesus presente nos jovens pacientes com nossos cantos. Não nos deixaram ir até a ala deles, mas permitiram que nos apresentássemos na recepção do hospital. Foi surpreendente assistir à transformação dos visitantes: às vezes, entravam com uma expressão séria e, assim que viam as crianças cantando, esboçavam um sorriso. Depois, vários voltaram para escutar juntamente com os pacientes que vieram encontrar. Outras pessoas internadas que não esperavam visitas pediram para ir ao hall para assistir à apresentação e muitos se juntaram ao coral. Os funcionários do hospital também ficaram contentes com essa atmosfera insólita. A diretoria do hospital já nos convidou para vir no próximo ano, prometendo nos deixar entrar também na ala reservada às crianças. (N.L. – Holanda) Na cozinha Trabalho na cozinha de uma escolinha, e não economizava energias no trabalho. Um dia, enquanto escutava uma funcionária contando que para ela cada criança era um tesouro a ser protegido, percebi que, de fato, eu não pensava em colocar amor em tudo o que fazia. Agora, considerar que cada refeição é uma nutrição para pessoas que um dia terão o mundo nas mãos tornou-se um verdadeiro incentivo para a criatividade. Comecei a colocar nos pratos alguns enfeites de surpresa, a arrumar a comida de um modo sempre novo. A alegria e a surpresa das crianças confirmaram que não é possível saber o que pode nascer de um simples gesto de amor. (K.J. – Coreia) O incidente O trabalho no centro de recuperação para dependentes químicos havia se tornado alienante. Presa pelas muitas coisas a fazer, sentia sempre mais uma sensação de vazio e Deus cada vez mais longe. Uma noite em que chovia muito, o carro em que eu estava indo para a casa perdeu o controle, bateu em um muro e foi parar na outra pista. Quando cheguei ao pronto-socorro, ver um crucifixo pendurado na parede me deu coragem. Enquanto os médicos me atendiam, eu experimentei uma paz sutil, como não sentia há muito tempo. Por sorte, apesar das feridas e contusões leves, não aconteceu nada de grave, por isso recebi alta quase imediatamente. Por semanas, ao lado da cama em que fiquei de repouso, houve um vai e vem de pessoas, entre telefonemas e presentes. As visitas frequentes dos meus dependentes químicos foram emocionantes: “Você sobreviveu porque faz boas ações”. Meus colegas de trabalho também ficaram bem próximos: evidentemente havia construído com eles um laço sólido. Graças àquele repouso forçado, reencontrei também o gosto pela oração e acho que entendi porque Deus não me levou dessa vez. (Lucia – Itália) Louça para lavar Depois de uma festa da paróquia organizada para dar uma refeição quente aos mendigos, eu estava no meio de uma bagunça de restos, panelas e louça suja. Na cozinha, o pároco já estava lavando a louça, feliz com a noite. Tocado pela sua frase, “tudo é oração”, lhe perguntei: “até mesmo lavar a louça?”, e ele: “o maior tesouro é entender que tudo tem um valor imenso porque por trás daquela panela, há um irmão que precisa de mim”. Desde aquele momento, meu trabalho pesado de pedreiro, levar os filhos à escola, consertar o lustre… tudo se tornou uma ocasião para tornar a ação sublime e sagrada. (G.F. – ltalia)
Aos cuidados de Stefania Tanesini (retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, anno V, n.6,novembre-dicembre 2019)
15 Dez 2019 | Sem categoria
O fenômeno das migrações forçadas em direção à Europa permanece um dos temas irresolvidos do debate entre os países da UE. Demasiadamente divididos por interesses particulares para identificar uma política comum, inspirada em princípios de solidariedade e sustentabilidade. Falamos disso com Pasquale Ferrara, embaixador italiano na Argélia. Segundo o ACNUR*, de 1º de janeiro a 21 de outubro de 2019, desembarcaram pelo mar nas costas Europeias da Itália, Malta, Chipre, Espanha e Grécia 75.522 migrantes. A estes se acrescentam os 16.322 que chegaram por terra na Grécia e Espanha num total de 91.844 pessoas, das quais 9.270 na Itália, 2.738 em Malta, 1.183 em Chipre, 25.191 na Espanha, 53.462 na Grécia. Dados que seguem uma tendência em queda e arquivam a fase de emergência, mas não bastam à Europa para encaminhar um diálogo alargado e construtivo sobre o tema: a perspectiva da criação de um sistema europeu de gestão dos fluxos permanece assaz remota, e em geral o confronto em nível institucional não leva em consideração a perspectiva dos países africanos. Em Argel nos encontramos com o Embaixador italiano, Pasquale Ferrara: (2ª PARTE) Faz tempo que se diz que é necessário estruturar uma colaboração com os países do Norte da África, mas também com os de trânsito. Bons propósitos, mas poucos fatos concretos… Para passar aos fatos concretos é preciso tomar consciência da realidade, do fato de que os países africanos, sobretudo os do Norte, que consideramos países de trânsito são, eles próprios, países de destino da emigração. O Egito acolhe mais de 200 mil refugiados no próprio território, enquanto que em toda a Europa, em 2018, chegaram pouco mais de 120 mil pessoas. As poucas centenas de migrantes irregulares que chegam da Argélia são todos argelinos, não subsaarianos que transitam pela Argélia, porque frequentemente estes migrantes permanecem aqui. Além disso, estes países não aceitam programas que tendem a criar “hotspot” (centros de reunião) para os migrantes subsaarianos. Aqui não funciona o modelo da Turquia, à qual a União Europeia deu 6 bilhões de euros para administrar campos onde acolher mais de 4 milhões de refugiados sírios e não só. Com a Turquia, a operação funcionou porque havia a guerra na Síria e pelos interesses estratégicos da Turquia. Na África, os fenômenos são muito diferentes. É preciso encontrar outros modos. Quais poderiam ser as formas de colaboração? Não servem colaborações assimétricas, mas parcerias de igual para igual. Devemos considerar que não somos somente nós, europeus, que temos o problema migratório e, portanto, é necessário respeitar estes países com as suas exigências internas, inclusive em termos de migração. Só depois se pode procurar juntos administrar o fenômeno. Por exemplo, já existem acordos de cooperação entre a Itália e a Argélia que remontam a 2000 e a 2009 e que funcionam bem. O que preveem? A gestão conjunta do fenômeno migratório em termos de luta contra a exploração e o tráfico de seres humanos, contra a criminalidade transnacional que utiliza o fenômeno para se financiar, contra o perigo de infiltrações terroristas. Existem também disposições para a repatriação concordada, ordenada e digna dos migrantes irregulares. Fala-se do fato de que os países ocidentais devem sustentar aqueles africanos para criar condições de vida melhores, tais que desencorajem as partidas. O quanto é viável esta estrada? Nas condições atuais da economia e da cultura política internacional, vejo pouco viável e, tudo somado, pouco eficaz. Em primeiro lugar, já estamos falando de um bilhão de africanos: nenhum “plano Marshall” europeu ou mundial poderia enfrentar tais dimensões demográficas. Entre outras coisas, a África é muito diversificada, existem países em condições de desenvolvimento avançadas: Gana tem uma taxa de inovação tecnológica superior a vários países desenvolvidos; Angola é um país riquíssimo de recursos que está tentando reorganizar a sua estrutura econômica de modo mais participativo. Temos líderes, como o novo prêmio Nobel para a paz, o Primeiro Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, que tem 42 anos e olha para as novas gerações. Já fez plantar 350 milhões de árvores em um programa de reflorestamento mundial chamado “Trillion Tree Campaign”. Uganda vive uma fase de forte desenvolvimento. O problema, antes, são as disparidades econômicas, dramáticas e injustas, e neste caso o Ocidente pode intervir ajudando a melhorar a governança destes países, para que seja mais inclusiva e participada. Mas lembremos de que são os mesmos problemas de polarização socioeconômica que temos na Europa: infelizmente, não podemos dar muitas lições neste campo. Nas reflexões sobre o fenômeno migratório em nível institucional, em primeiro plano está a dimensão econômica, enquanto é transcurada a humana. O que significa pôr o homem no centro do problema migratório? Por detrás de cada migrante existe uma história, uma família, um percurso acidentado, o esforço de conseguir o dinheiro e, talvez, dívidas com organizações criminais. Certamente não podemos admitir a imigração irregular porque tudo deve se realizar no respeito às leis, mas dar valor à dimensão humana significa levar em consideração este passado e não ver nestas pessoas números que chegam a bordo de barcaças ou por terra. Fiquei profundamente impressionado com a história daquele adolescente de 14 anos, proveniente do Mali, encontrado no fundo do mar com um boletim costurado dentro da jaqueta, com ótimas notas. Essa é uma história que nos deixa sem palavras. E por detrás há uma tragédia familiar, humana, um tecido social dilacerado. Aconselho o bom livro de Cristina Cattaneo, “Naufraghi senza volto. Dare un nome alle vittime del Mediterraneo [Náufragos sem rosto. Dar um nome às vítimas do Mediterrâneo]”. Porém, não esqueçamos também das histórias da nossa Marinha militar – em especial daquela da comandante Catia Pellegrino – que salvou milhares de náufragos. Pessoas, rostos, eventos reais. * https://data2.unhcr.org/en/situations/mediterranean (leia a 1ª parte da entrevista)
Elaborado por Claudia Di Lorenzi