25 Jul 2023 | Sem categoria
“Quem der apenas um copo de água fresca a um desses pequenos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá sua recompensa” (Mt 10,42) é a Palavra de Vida deste mês e é a missão para a qual cada um de nós é chamado, precisamente como os discípulos: ser testemunhas críveis do Amor de Cristo, na concretude dos gestos que fazem parte da nossa vida cotidiana, um amor que circula, que se dá com alegria e, com surpresa, se recebe em abundância. No estacionamento Quando cheguei no estacionamento encontrei o carro novo, que meu pai me havia emprestado, riscado. O que fazer? Muito chateado pelo sofrimento que eu lhe causaria, pensava na despesa que teria com o reparo. Foi quando notei, preso no painel, um pequeno objeto com esta frase: “… lançai Nele toda a vossa preocupação, porque Ele cuida de vós”. Tentei fazer assim. E logo senti paz, o que eu precisava para entender o que fazer. Estava distraído quando escutei alguém bater na janela do carro. Uma senhora queria falar comigo. Era ela que tinha riscado o carro e tinha ido embora pensando em se esquivar, mas o remorso fez com que voltasse. Então, deu-me seu número de telefone e disse que estava disposta a pagar as despesas. Surpreso e agradecido, contei a ela como eu tinha encontrado paz lendo aquela frase no painel. Pensativa, ela disse: “Foi mesmo Ele que me fez voltar atrás”. (Z. X. – Croácia) O lugar certo Quando fui transferida para a unidade de terapia intensiva percebi que minha missão de médica teria sido colocada à prova, mas, ao mesmo tempo, sentia que aquele era o “meu” lugar. Durante os meus anos de profissão, ainda não tinha acontecido de trabalhar num setor deste tipo, onde todo dia o sofrimento das pessoas se apresenta das formas mais trágicas: acidentes graves, problemas neurológicos… e geralmente de pessoas jovens. Em suma, eu não me sentia segura de estar à altura. Encontrava a força na ideia de colocar-me à serviço de Jesus que se identificava também com eles: “a mim o fizestes”, Ele havia dito. Depois de seis meses de trabalho naquele local, a direção do hospital me indicou como responsável do departamento. As motivações dessa indicação: minha capacidade de integração com os colegas, minha atitude de calma e paz, minha atuação profissional. No dia seguinte, estando na capela, agradeci a Jesus: tinham sido as Suas palavras a tornar-me aquilo que os outros precisavam, especialmente ali, naquele lugar. (J. M. – Espanha) A prova Eu estava estudando para uma prova difícil, na universidade, quando veio me encontrar um amigo que passava por um momento difícil com sua namorada. Eu o recebi e, enquanto preparava um lanche para ele, começamos a conversar. A lembrança da prova me preocupava muito, mas procurei afastá-la para me concentrar em escutar meu amigo, tão agitado e sofrido que não percebia que o tempo passava e já era hora de ir dormir. No final lhe convidei para passar a noite. Já era muito tarde e eu não tinha nem a força de abrir o livro. No dia seguinte acordei com um telefonema: um colega me avisava que eu estava sendo aguardado para a prova. Ainda meio adormentado, eu me preparei rapidamente para sair, enquanto meu amigo continuava a dormir. Eu esperava tudo, menos passar naquela prova! Muito feliz, voltei para casa e encontrei um bilhete em cima da mesa: “Não sei como lhe agradecer. Você me demonstrou que eu tenho valor. E me deu uma força nova. Eu também quero ser ‘tudo para os outros’”. (G. F. – Polônia)
Aos cuidados de Maria Grazia Berretta
(retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, ano IX – n.1° julho-agosto de 2023)
13 Jul 2023 | Sem categoria
Entrevista com o autor sobre a última obra literária. Um livro pensado para dar esperança, para manter intacta a fé no carisma da unidade. Algumas perguntas ao co-presidente do Movimento dos Focolares sobre seu último livro, publicado pela Città Nuova, intitulado “Fidelidade Dinâmica”. Jesús, vamos começar pelo título: “Fidelidade dinâmica”… Quis usar a expressão que o Papa Francisco usou em seu discurso aos participantes da Assembleia do Movimento dos Focolares, em 2021. Naquela ocasião, ele falou de fidelidade dinâmica. Na minha opinião, é um pensamento muito próximo do conceito de fidelidade criativa. Com a vantagem de que “dinâmica” se refere ao conceito grego dynamis que significa força de movimento. Portanto, a fidelidade dinâmica é uma fidelidade em movimento, que não é estática e isso é muito caro ao Papa Francisco. Quando ele nos falou em outras ocasiões, ele enfatizou que os movimentos devem ser realmente “movimento”. Naquele momento, pareceu-me que este título estava mais próximo do que vivemos hoje na nossa realidade… O livro é dividido em capítulos. O primeiro: “sentir o pulsar do tempo”. Quais são as perspectivas do carisma da unidade de Chiara Lubich para hoje? Como atualizar a identidade e a história do carisma?
Eu penso que o carisma da unidade de Chiara Lubich é sempre muito atual. No que diz respeito à sinodalidade, o Papa Francisco insiste em nos redescobrir como povo de Deus em caminho, onde todos somos protagonistas. Sínodo significa “caminhar juntos”. Ele quer uma Igreja onde cada um dê o seu melhor como parte integrante do povo de Deus, o corpo de Cristo. Bem, nesse sentido, acho que o carisma da unidade de Chiara Lubich pode trazer muito, com sua espiritualidade de comunhão, a espiritualidade da unidade. Por outro lado, hoje existem tantos conflitos, guerras, polarizações massivas em todos os lugares – no campo político, moral, social – e talvez mais do que nunca estamos testemunhando oposições quase irreconciliáveis. Creio que também aqui o carisma da unidade possa contribuir muito com sua trama dialógica. Portanto, hoje o carisma da unidade deve ser atualizado, redescobrindo sua verdadeira identidade, indo ao essencial, ao núcleo fundador do carisma. Esta atualização exige a realização de dois momentos, não em sentido cronológico, mas em sentido profundo. Por um lado, escutando os sinais dos tempos, as questões do mundo, da sociedade contemporânea. Por outro, ir até o fundo, haurir de todos os recursos que o carisma possui, alguns dos quais nem sequer foram expressos. Eu realmente gosto desse conceito de expressar o “inexpresso” que está dentro de nós. É assim que a identidade é atualizada. Numa fidelidade dinâmica. Junto com o processo de purificação da memória que estamos vivenciando nesta fase pós-fundacional, creio que estamos prontos para dar este passo. A atualização de um carisma se realiza com a contribuição de todos e com uma mudança de mentalidade, de uma forma mentis. Além da esperar na ajuda do Espírito Santo, o que podemos fazer para atuar isso? Sem dúvida a ajuda do Espírito Santo é fundamental porque estamos no contexto de uma obra de Deus, mas é preciso inteligência para atualizar o carisma. Não no sentido acadêmico. Mais no sentido da sabedoria. É preciso talento e habilidade para ouvir o clamor da humanidade. É importante o que diz o documento da Assembleia Geral de 2021: hoje a questão da humanidade que devemos ouvir é o grito de Jesus Abandonado. Portanto, além do Espírito Santo, é necessária a inteligência do carisma e a Sabedoria que vem da vida. E não é um exercício que se faz numa escrivaninha, um exercício acadêmico. Pode-se ouvir o grito de Jesus Abandonado quando se está em contato com o sofrimento de nossos contemporâneos. O que é a “teologia do ideal de unidade”? Por que é importante a fidelidade ao carisma? A própria Chiara Lubich disse que a teologia seria importante para o futuro do Movimento dos Focolares e do carisma. Isso significa aprofundar o carisma da unidade à luz da Revelação, de onde veio, e da pesquisa teológica. É um exercício de inteligência do carisma que é fundamental, senão não se encarna e sobretudo não se universaliza. Sem a teologia do ideal, o carisma permanece dentro do Movimento. Com uma teologia do ideal de unidade, o carisma também pode ir para fora, assim como encontrar um fundamento sólido. A teologia do Ideal da unidade ajuda a compreendê-lo bem para poder transmiti-lo às gerações futuras. A vida e o testemunho vão sempre em primeiro lugar, mas este trabalho também é decisivo. A teologia do Ideal da unidade previne possíveis desvios. O querigma original, encerrado nos Evangelhos, exigiu o árduo trabalho dos Padres da Igreja, grandes teólogos, para ser salvo em sua integridade. Com a atualização, não há o risco de fazer o carisma perder sua identidade? Ao contrário. É precisamente a não atualização que faz com que o carisma perca sua identidade, porque a identidade de um carisma é sempre dinâmica e criativa. É sobre ser sempre o mesmo sem nunca ser o mesmo. Foi isso que tentei expressar. A estática faz justamente com que se perca a identidade do carisma porque faz com que ele perca sua conexão com a realidade. Para mim isso é muito claro: é necessária uma atualização constante para que o carisma mantenha sua identidade. E isso Chiara fez ao longo de sua vida.
O segundo capítulo, “a casa do autoconhecimento”, parte de uma carta de Catarina de Siena. Aqui descobrimos os nossos limites, os nossos fracassos, a auto referencialidade, o rosto de Jesus Abandonado. O que podemos fazer para passar no “teste do autoconhecimento”? O segundo capítulo é fundamental nesta fase que vivemos, na qual tivemos que reconhecer nossos defeitos e nossos erros na encarnação do carisma. O que podemos fazer para passar no teste? Devemos vivê-lo ao máximo, porque se trata de reconhecer que não estamos à altura do carisma. Nenhum de nós está à altura do carisma. Disso nasce não um sentimento de desânimo, mas uma nova confiança em Deus, no Espírito Santo, autor do carisma. Assim, o teste do autoconhecimento é superado aceitando a humilhação de falhar e colocando toda a nossa confiança em Deus. O terceiro capítulo: “o discernimento à luz do carisma da unidade”. O Papa nos pede para nos tornarmos artífices do discernimento comunitário. Como proceder? E, sobretudo, o carisma da unidade de Chiara Lubich é um carisma de discernimento? Para o Papa Francisco, discernimento e sinodalidade caminham de mãos dadas, tanto individualmente quanto em comunidade. É um processo muito delicado, porque exige inteligência, mas sobretudo escuta do Espírito Santo. O discernimento pede tudo de nós e tudo de Deus, e isso não é simples, não é um exercício de consenso. É ir a fundo para buscar a vontade de Deus em todos os momentos. Creio que o dinamismo típico do carisma da unidade, que chamamos de Jesus no meio, ou seja, de merecer a presença de Jesus entre nós, seja um exercício de discernimento. Chiara Lubich explicou muito bem: para merecer esta presença é preciso um desapego total de nós mesmos e uma escuta do Espírito Santo. É preciso amor mútuo. Chiara desenvolveu até a ideia das relações trinitárias, que transformam o discernimento comunitário em “discernimento trinitário”. Quando almejamos ter Jesus em nosso meio, fazemos uma experiência trinitária, com todas as fragilidades, fragilidades de nossa humanidade, corporeidade, psicologia. Mas nós fazemos isso e é aí que o discernimento acontece. Podemos ler esta prática de relações trinitárias à luz da grande ideia de discernimento e sinodalidade do Papa Francisco. No livro você fala de dois desvios: “o sequestro do Um” e “a dissolução do Um”. O que são e como evitá-los? Essas tentações são realmente dois desvios da espiritualidade da unidade. Na primeira acontece que alguém assume a missão da Comunidade e até a missão de cada um. Existe alguém que centraliza tudo, que sem perceber toma o lugar do Espírito Santo na dinâmica da unidade. Neste caso apreende-se o “nós”, o necessário para que todos possam florescer e dar o seu contributo. Aqui ocorrem abusos de autoridade, abusos de consciência, abusos espirituais e, portanto, é um risco forte. Na dissolução do Uno acontece o contrário, perde-se o espírito de Comunhão. Prevalece um individualismo exagerado. Se primeiro alguém tomava conta do nós, nesse caso o “nós” desaparece e o individualismo de todos toma conta. A vida comunitária torna-se uma organização onde cada um procura o seu espaço, a sua realização pessoal. Também aqui desaparece o Espírito Santo, que é o dinamismo da vida cristã. Como evitá-los? É preciso um momento de autoconsciência: para entender os erros cometidos. Ao mesmo tempo, voltar ao Evangelho vivido e a uma autêntica vida de unidade. Acima de tudo, penso que seja preciso humildade, capacidade de descentralização, amor ao próximo, pensar que a pessoa é sempre um absoluto que não pode ser anulado de forma alguma. Então acho que a solução é um plus de amor, verdade, transparência e doação concreta na vida de unidade, na vida de comunhão. A unidade é um dom do Espírito, ninguém pode sequestrá-la com o seu poder ou dissolvê-la com o seu individualismo. A unidade é uma experiência de Deus que abrange todos nós. Devemos entender isso. Para finalizar, o que podemos fazer para garantir que todos esses argumentos no livro não sejam apenas boas intenções? Acho que seria útil falar sobre isso na comunidade. Reservar momentos para ler algumas passagens, dedicar momentos de retiros e examinar nossas vidas à luz dessas indicações. O livro pretende dar esperança, manter intacta a fé no carisma da unidade e, se se perdeu, recuperá-la. Espero que através da partilha de experiências se possa restaurar uma vida autêntica onde já não existe, porque em muitos lugares a vida floresce, há generatividade, há mjuitas coisas bonitas.
Lorenzo Russo
12 Jul 2023 | Sem categoria
Sábado, 24 de junho, foi realizado em Loppiano (Incisa Valdarno, Florença, Itália) um seminário teológico intitulado “Participar/presidir/decidir. Raiz sacramental e dinâmica de comunhão no caminho do povo de Deus em missão”. Mais de 100 estudiosos responderam ao convite do Centro Evangelii Gaudium (CEG) do Instituto Universitário Sophia, para elaborar uma proposta de revisão do direito canônico, com o objetivo de reequilibrar – como pede o documento-base (Instrumentum laboris) da XIV Assembleia do Sínodo dos Bispos – “a relação entre o princípio de autoridade, fortemente afirmado pela normativa vigente, e o princípio de participação”. Sendo que “não todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais – assegura-nos o Papa Francisco – devem ser resolvidas com intervenções do magistério” (Es. ap. Amoris laetizia, n. 3), é decisiva a escuta do sensus fidelium de todo o povo de Deus (pastores e fieis) na variedade das culturas que o compõem. O diálogo entre teologia e direito é, portanto, animado por um processo sincero de inculturação, sem o qual existe um risco real de lançar as bases de uma violação prática dos princípios gerais enunciados pela Igreja. “A questão – observa o prof. Vincenzo Di Pilato, coordenador acadêmico do CEG – é exatamente esta: como tornar efetiva a participação ativa de todos os fieis dentro das nossas assembleias sinodais? Continuará apenas consultiva? Ou será também deliberativa? Isso significará chegar a uma tratativa por uma ‘concessão’ jurídica ou ‘reconhecer’ a capacidade de decisão do sujeito coletivo, da ação eclesial assim como emerge da eclesiologia do Vaticano II e do magistério pós-conciliar? E assim sendo, será necessária uma atualização do Código de Direito Canônico?”.
Na saudação inicial aos participantes, o cardeal Mario Grech, Secretário geral do Sínodo, evidenciou que o caminho sinodal entra numa nova fase: é chamado a tornar-se uma dinâmica generativa, e não simplesmente um evento entre outros. De fato, não se pode escutar o Espírito Santo sem escutar o povo santo de Deus, na “reciprocidade” que constitui o “Corpo de Cristo”. Neste liame de comunhão toma forma aquela metodologia especial da conversa no Espírito, bem descrita por ocasião da apresentação do Instrumentum laboris. Daqui a necessidade – por várias vezes acenada pelo card. Grech – de articular melhor o princípio da restituição. Em outras palavras, isso significa que a unidade do processo sinodal é garantida pelo fato que ele retorna ao ponto de onde partiu, à Igreja particular, e é um momento importante do “reconhecimento” do que amadureceu ao se escutar aquilo que o Espírito diz hoje à Igreja. O caminho sinodal parece colocar-se como um momento significativo da vida eclesial, capaz de estimular e ativar o entusiasmo criativo e de anúncio evangélico que vem da redescoberta da relação com Deus que inerva a relação entre os crentes, um sinal para um contexto cultural em que há um grito silencioso de fraternidade na busca do bem comum. Na aula proferida pelo prof. Severino Dianich, “Os problemas da sinodalidade entre eclesiologia e direito canônico”, emergiu a recuperação da eclesiologia paulina do ‘ser corpo de Cristo’ e a valorização da co-essencialidade dinâmica dos dons hierárquicos e carismáticos. Para o prof. Alphonse Borras, por sua vez, tal reviravolta necessita de uma explicação canônica, que defina uma prática processual flexível, capaz de acompanhar os processos de decisão e de participação através dos vários organismos já existentes (conselho episcopal, presbiteral, pastoral diocesano, pastoral paroquial…). O cardeal Francesco Coccopalmerio, ex-presidente do Conselho Pontifício para os textos legislativos, em sua palestra “Sinodalidade eclesial: existe a hipótese de uma rápida passagem do consultivo ao deliberativo?”, manteve-se na mesma linha. Na sua opinião, é possível encontrar uma definição clara de sinodalidade no direito canônico, entendida como “a comunhão de pastores e fiéis na atividade de reconhecer o bem da Igreja e na capacidade de decidir como implementar o bem identificado”. Na conclusão do seminário, muitos propuseram que os resultados fossem disponibilizados através da publicação dos discursos. O CEG trabalhará para que isso seja feito até setembro, como mais um contributo para o próximo Sínodo.
Antonio Bergamo
27 Jun 2023 | Sem categoria
O nível ao qual a inteligência artificial chegou nos coloca diante de novas questões éticas: como promover um desenvolvimento tecnológico na medida humana? Call to action (chamado à ação) para desenvolvedores e inovadores do mundo digital. Um horizonte que inclui todos. Junho de 2023, Instituto Universitário Sophia: na tela da aula magna, uma anfitriã digital abre com elegância o seminário “Em direção a um juramento digital | Towards a Digital Oath”. Estamos atravessando uma porta: a preparação começou faz tempo, mas
a aceleração dos últimos meses significa algo novo. Promovido por uma plataforma de temas – o centro de pesquisa Sophia Global Studies, o Movimento Politico per l’Unità, NetOne, New Humanity e Digital Oath –, o encontro quer abordar os assuntos mais urgentes do mundo digital por várias perspectivas: filosóficas, tecnológicas, éticas, sociais, políticas, até discutir a proposta de um “juramento” que possa representar para os responsáveis pelos trabalhos no mundo digital algo análogo ao Juramento de Hipócrates para os médicos. De onde vem essa exigência? Quais são os objetivos? O mundo tecnológico tende a mudar rapidamente e, cada vez mais frequente, a uma velocidade superior à nossa capacidade de adaptação. A complexidade das máquinas e dos sistemas que estruturam a realidade influencia não só o nosso modo de viver, mas também o modo de ver o mundo e de pensar no futuro. O nível atingido pelas “inteligências artificiais” – IA, vê emergir, ao lado do entusiasmo por suas capacidades operacionais, uma preocupação geral sobre novas possibilidades abertas por esses sistemas e os efeitos que podem derivar da sua má utilização.
A recente difusão do ChatGPT (novembro de 2022) e de todos os seus derivados aproximou massivamente as IAs do nosso cotidiano, fazendo nascer novas questões ligadas à compreensão do que é humano e do que não é. No panorama mundial, a evolução desses aparatos produziram uma certa desorientação, não só porque a sua utilização está ao alcance de todos, mas sobretudo porque demonstram fazer algo que antes era prerrogativa dos seres humanos, com capacidade quantitativamente superior. O fato de nos encontrarmos diante de sistemas que não são “inteligentes” no sentido humano do termo e que gerenciam sua base de conhecimento por meio de cálculos estatísticos não muda o resultado final: a sensação de não sermos mais autores de escolhas fundamentais, desafiados por máquinas que são menos “instrumentos” e mais “companheiras de trabalho”. A essas questões, o seminário “Em direção a um juramento digital | Towards a Digital Oath” acrescentou um tema central: perguntar-se sobre a ética das tecnologias significa se questionar sobre o humano. Inclusive, muitos parecem considerar o desenvolvimento tecnológico como a atividade humana que mais nos caracteriza. Efetivamente, as tecnologias digitais e em particular as IAs são aquelas que refletem mais que as outras, como um espelho, o nosso modo de ser e de entender a existência. As crises do último século (de valores, ambientais, sociais e políticas) estão estritamente relacionadas a esse modo e nos dizem que ao desenvolvimento tecnológico deve ser adicionado um empenho educativo já determinado, de modo que cada forma de progresso possa ser guiada por uma profunda conscientização ética. O sentido de um “juramento” para o mundo digital vai justamente nessa direção. O programa dos primeiros dias de junho contou com especialistas qualificados (link do programa). Depois de um primeiro panorama geral sobre tecnologias digitais de hoje, o debate explorou riscos e regulamentações legais da utilização na Itália e na EU, nos EUA, no Brasil e na China, entrelaçando soluções tecnológicas e questões políticas, reflexões filosóficas e fenômenos sociais.
“É necessário tornar visível e aceitável um empenho concreto e universalmente compartilhado”, explica Fadi Chehadé, ex-CEO da ICANN (Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números) e promotor do “juramento” para ética no mundo digital, professor visitante no Instituto Sophia, “com o qual desenvolvedores, técnicos e usuários das tecnologias digitais possam ancorar de maneira saudável o seu trabalho com uma abordagem humanocêntrica”. Fadi Chehadé acompanhou as primeiras etapas do percurso desde novembro de 2019, quando um primeiro grupo se encontrou em Trento (Itália) para dar forma ao projeto. Depois, o grupo promotor envolveu estudiosos em vários países e participou da consulta pública promovida pela ONU para o Global Digital Compact (Pacto Digital Global) 2024. Hoje o objetivo do Digital Oath (Juramento Digital) é necessário: sugerir linhas-guias e motivar eticamente os desenvolvedores e inovadores do mundo digital a colocar no centro a dignidade e a qualidade de vida das pessoas e das comunidades, o sentido humano da existência, o respeito aos direitos fundamentais e ao meio-ambiente. “A proposta de traduzir, por assim dizer, o Juramento de Hipócrates para o mundo digital”, lembram os promotores do encontro, “já surgiu em vários estudos internacionais, que evidenciam a urgência do tema e a responsabilidade de quem cria e administra serviços digitais, administra dados. O pensamento não vale somente para as novas redes neurais, mas também para as redes sociais ou para as criptomoedas… O nosso trabalho se junta ao de outras redes: agora é preciso unir os esforços para uma coalisão entre universidades, setor privado e organizações empenhadas na escrita de um código ético, um protocolo de autorregulamentação que possa beneficiar pessoas, sociedade e meio-ambiente”. No novo site de Digital Oath, há uma primeira formulação do juramento à disposição de todos e as inscrições estão chegando: o texto está aberto a sugestões e modificações com elaboração progressiva. O site reportará em breve também as inscrições e os documentos do Seminário. Apesar de a estrada ser certamente uma subida, somos muitos caminhando: é um horizonte que envolve a todos.
Andrea Galluzzi
23 Jun 2023 | Sem categoria
A Comissão Internacional Conjunta para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa realizou sua décima quinta sessão plenária, de 1 a 7 de junho de 2023, em Alexandria, Egito, hospedada pelo Patriarcado Ortodoxo Grego de Alexandria e toda a África, chegando a um acordo sobre um novo documento intitulado “Sinodalidade e primazia no segundo milênio e hoje”. Nossa entrevista com o teólogo Piero Coda, presente no encontro. Padre Coda, pode nos dizer que evento foi esse, quem participou e qual era o objetivo principal? A 15ª sessão plenária da “Comissão Conjunta Internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa” foi realizada em Alexandria do Egito sob a presidência do Metropolita Job da Pisídia (Patriarcado Ecumênico de Constantinopla) e do Cardeal Kurt Koch (Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos), com a cordial hospitalidade do Patriarca de Alexandria Teodoro II. Tratava-se de completar a etapa do diálogo inaugurado pelo documento de Ravenna (2007), que previa, após o desenvolvimento do quadro teológico compartilhado por ortodoxos e católicos sobre a interdependência da sinodalidade e primazia na vida da Igreja, o exame histórico da situação vivida no primeiro milênio, proposta pelo documento Chieti (2016), para chegar à descrição da situação vivida no segundo milênio, objeto do documento aprovado em Alexandria. Devido às conhecidas vicissitudes que afligem o mundo ortodoxo, o Patriarcado da Rússia abandonou o trabalho da Comissão. Também ausentes em Alexandria estiveram os representantes dos Patriarcados de Antioquia, Bulgária e Sérvia, enquanto estavam presentes as restantes 10 delegações dos outros Patriarcados (Constantinopla, Alexandria, Jerusalém, Roménia, Geórgia) e Igrejas autocéfalas (Chipre, Grécia, Polónia, Albânia, República Checa e Eslováquia). Em que termos é possível falar de sinodalidade no âmbito ecumênico e que considerações surgiram olhando também para o passado?
O tema foi ilustrado na Introdução: “Este documento considera a conturbada história do segundo milênio (…) vários pontos, a fim de promover a compreensão e a confiança recíprocas, requisitos essenciais para a reconciliação no início do terceiro milênio”. O resultado é uma compreensão mais clara e compartilhada das razões que levaram – não raro por razões de natureza histórico-política, mais do que teológica – a promover um distanciamento que não só impediu que as tentativas de reconciliação feitas ao longo dos séculos alcançassem êxito, mas exacerbou a interpretação polêmica em relação à outra parte e o endurecimento apologético de sua posição. Note-se a intensificação da abertura a uma situação nova marcada pela aproximação ocorrida no século XX: o que favorece uma avaliação mais pertinente do significado atual e do peso teológico daquilo que ainda impede a unidade plena e visível. Quais são as perspectivas futuras? O documento sublinha que são decisivos o “retorno às fontes” da fé e a estratégia do diálogo da caridade entre as “Igrejas irmãs” promovidas, na esteira do Concílio Vaticano II, por Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras. Também o compromisso da Igreja Católica hoje, tenazmente desejado pelo Papa Francisco, para redescobrir e reativar o princípio da sinodalidade estimula a esperança. Para onde apontar o olhar? O documento especifica que “a Igreja não é corretamente compreendida como uma pirâmide, com um primado que a governa de cima, mas também não é corretamente compreendida como uma federação de Igrejas autossuficientes. Nosso estudo histórico da sinodalidade e primazia no segundo milênio mostrou a inadequação de ambos os pontos de vista. Da mesma forma, é claro que para os católicos a sinodalidade não é meramente consultiva e para os ortodoxos a primazia não é meramente honorífica”. A interdependência entre sinodalidade e primazia, portanto – este é o ponto firme adquirido -, é “um princípio fundamental na vida da Igreja. Está intrinsecamente relacionado com o serviço da Igreja em nível local, regional e universal. No entanto, o princípio deve ser aplicado em contextos históricos específicos (…) o que é exigido nas novas circunstâncias é uma nova e correta aplicação do mesmo princípio”. Essa perspectiva abre caminho para a continuação da jornada e a abertura de uma nova fase.
Carlos Mana e Maria Grazia Berretta (fotos: ©Dicastero per la promozione dell’Unità dei cristiani)