Movimento dos Focolares
Família, a revolução silenciosa

Família, a revolução silenciosa

Foto © CSC

Existe uma “grande sintonia” entre a espiritualidade do Movimento dos Focolares e a vida dos cônjuges bem-aventurados Maria e Luigi Beltrame Quattrocchi – ainda que não haja uma ligação direta – e são “muitos os pontos de contato”. “Não só porque a santidade é o grande denominador comum de todos os cristãos, a meta para a qual todos miram na Igreja, mas também porque a trajetória deles, de vida de leigos, é comum à grande maioria daqueles que fazem parte do Movimento”. Afirmou Maria Voce, presidente dos Focolares, ao falar, nos últimos dias, durante um encontro organizado no dia da memória litúrgica dos dois beatos, e no décimo aniversário de sua beatificação. O encontro realizou-se na Sala da Promoteca, no Capitólio, e teve como título: “Cristãos, cidadãos autênticos: nas pegadas de Maria e Luigi”. Foi numerosa a participação do público, proveniente de 15 cidades italianas e de vários outros países. Presentes também autoridade civis, representantes da Pastoral familiar da diocese de Roma, além de expoentes de movimentos eclesiais, que tomaram a palavra, salientando, cada um em diferentes perspectivas, aspectos da espiritualidade dos dois cônjuges. Pais de quatro filhos, Maria e Luigi Beltrame Quattrocchi são o primeiro casal a ser beatificado pela Igreja católica. Foi João Paulo II que levou a termo a causa de beatificação. “Não pode ser aceitável – disse naquela ocasião – que seja negado o justo reconhecimento à santidade silenciosa e normal de tantos pais e mães”.

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“Vi refletida na vida de Maria e Luigi – disse Maria Voce –, na autenticidade de seu testemunho de cristãos e, portanto, também de cidadãos, a vida daqueles milhões de leigos que desejam viver a espiritualidade trazida por Chiara Lubich, e que por isso procuram viver, com uma coerência por vezes heroica, cotidianamente, o próprio compromisso como cidadãos, ser – ou ao menos esforçar-se para ser – um tecido sadio no corpo social e eclesial que compõem. Trata-se de pais e mães de família, operários, profissionais, jovens, adolescentes e crianças (sem excluir sacerdotes, religiosos e bispos, mas obviamente a parte eclesiástica é a minoria), comprometidos na linha de frente em levar adiante uma silenciosa, mas incisiva, revolução de amor, em todas as cidades do mundo”. A família – salientou Maria Voce – é “a raiz sadia de suas vidas: um amor terno e jamais apagado entre os esposos, que gera cidadãos capazes de coerência. Conheço muitas famílias que comprometem-se e lutam para que o amor conjugal nunca se apague, justamente por isso encontram a força não só para não romper, mas para abrir-se a realidades maiores”. Maria Voce recordou o movimento Famílias Novas, que inspirando-se no carisma da unidade de Chiara Lubich, conta hoje com mais de 300 mil aderentes e quatro milhões de simpatizantes, nos cinco continentes. “São famílias – ela continuou – que assumiram um pressuposto educativo primordial: os filhos, mais do que de dois pais que os amem, necessitam de dois pais que se amem”.

Família, a revolução silenciosa

Na Sardenha é a hora da paz

Orgosolo é uma cidade no coração da Sardenha (Itália), muito conhecida pelos murais pintados nas casas, que ilustram os problemas, as expectativas e as esperanças de um povo que vive prevalentemente de agricultura e pecuária; um povo que conhece também o medo pelos atos criminosos, muito difundidos naquela região. Foi lá que, na madrugada do dia 24 de dezembro de 1998, foi morto o vice-vigário, padre Graziano Muntoni. Um único tiro de fuzil e um sofrimento que abalou a comunidade inteira. Mesmo na raiva e numa consternação compreensível, a população local intuiu logo que não podia se limitar a condenar, mas que era necessário fazer alguma coisa. O que fazer numa situação como essa? A comunidade começou a refletir sobre palavras do Evangelho que convidam a unir-se para pedir qualquer coisa a Deus. Nasceu a ideia de marcar um encontro todas as noites, em lugares diferentes, para pedir a Deus a paz para a cidade, numa oração unânime: era a “Hora da paz”. Mas a realidade era mais complexa do que se previa, porque a paz deve ser gerada, guardada, exige comprometimento em viver a fraternidade, com cada pessoa, todos os dias. Com essa consciência tiveram início as mais diferentes iniciativas para difundir a proposta da “Hora da paz”, entre o maior número de pessoas possível, inclusive os estudantes das escolas e faculdades, em vários encontros. Houve também a participação em um programa de televisão, na principal rede nacional. A “Hora da paz” trouxe uma nova esperança à cidade, muitas pessoas se reconciliaram após anos de tensão. Como G., uma senhora que num dos encontros confidenciou: «Devo encontrar a força de perdoar quem matou dois de meus filhos, e mandou para a cadeia outros dois». No encontro sucessivo, ela mesma contou: «Perdoei, a oração da “Hora da paz” que vivemos tirou o ódio do meu coração. Durante a Missa aproximei-me de uma pessoa inimiga e apertei a sua mão». Outros ainda estão encontrando a força de perdoar em situações igualmente graves, com atitudes que absolutamente não se dão por descontadas. Como Anna, que em 2008 teve um filho sequestrado e morto, e que está reaprendendo a viver, a trabalhar, mais serena e pacificada, não obstante a tragédia. Quando ela veio a saber sobre um suspeito pelo homicídio do filho, não pediu para ele a punição, mas que tivesse um verdadeiro encontro com Deus. A escolha da fraternidade nos leva a assumir este abismo de sofrimento no qual vive parte do nosso povo, e com frequência também a assumir a responsabilidade por aquilo que propomos, inclusive diante das instituições. Foi assim que, a partir da nossa experiência, uma escola de ensino superior elaborou um projeto por uma cultura de paz e de perdão entre os jovens, e os resultados dessa ação serão reunidos em um livro a ser avaliado pelas Nações Unidas. Os nossos esforços para construir a paz, até mesmo lá onde parece quase impossível, estão produzindo resultados concretos, que dão um rosto novo às nossas cidades. Da Comunidade do Movimento dos Focolars de Orgosolo (Nuoro – Itália)

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Na cadeia: a força do perdão

Provenientes de toda a Itália, Eslovênia e com representantes da Argentina, Alemanha, Holanda, Portugal e África do Sul, os mil participantes do congresso anual dos aderentes ao Movimento dos Focolares refletiram e partilharam experiências sobre o tema da Palavra de Deus, o principal assunto aprofundado este ano. Entre os testemunhos apresentados houve a experiência de um grupo de evangelização no Benin, o país que recebeu, de 18 a 20 de novembro, a visita de Bento XVI, na sua segunda viagem apostólica ao continente e para a entrega da exortação pós-sinodal sobre a Igreja na África, a serviço da reconciliação, da justiça e da paz. Há diversos anos um grupo dos Focolares organiza encontros com presidiários, para levar a luz da Palavra de Deus. Muitas vezes os presos são rejeitados pela sociedade e até pelas próprias famílias. A leitura da Palavra de Deus consegue abrir espaços inesperados nas pessoas, fazendo brotar relacionamentos profundos, que dizem respeito não só à fé, mas também as suas experiências de vida, sempre dolorosas, que raramente os presos conseguem contar, como, por exemplo, o motivo de sua detenção. Isso permite que os voluntários interfiram junto ao tribunal, para que os casos de alguns deles sejam revistos. De fato, existem pessoas há 10 e até há 15 anos na prisão sem nunca terem sido escutadas por um juiz. Muitos casos encontraram solução e os que haviam sido presos injustamente foram libertados. Entre as várias histórias destaca-se a de Paula, presa injustamente por causa do marido e sem nenhuma notícia dos filhos. Paula abriu-se, num relacionamento profundo com uma das voluntárias que ia encontrá-la na prisão, para os encontros sobre a Palavra. Lentamente encontrou, dentro de si, a força do perdão, até que o tribunal a chamou para comunicar a sua libertação. E Paula sabia que voltava para casa com o coração liberado do peso do ódio e da vingança.   Do site do Vaticano: Benin 2011

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Oriente Médio, Europa, América Latina: o caminho dos Movimentos

Como expressões do amor de Deus, os carismas colocam-se no momento atual da história quase como respostas às necessidades emergentes, e não raramente acontece encontrá-los no centro de importantes acontecimentos que tocam a humanidade. Iniciemos pelo Mediterrâneo, tão atual por tudo o que está acontecendo na sociedade, especialmente entre os jovens. Passado breve tempo do Sínodo dos bispos do Oriente Médio, a Igreja local interroga-se e começa a traçar linhas, a fim de concretizar o que brotou dele. Entre as 44 proposições escritas no documento final do Sínodo, uma, em especial, diz respeito à colaboração dos Movimentos com a Igreja local. Durante a viagem à Terra Santa, de fevereiro passado, a presidente do Movimento dos Focolares, Maria Voce, encontrou os responsáveis dos Movimentos, e o diálogo entre eles continuou nos messes sucessivos, com os representantes do Movimento em Jerusalém. No Egito também teve início um diálogo mais vivo entre as realidades carismáticas e a Igreja institucional. Uma proposta inicial, nesse sentido, aconteceu no Líbano, onde a Assembleia dos patriarcas e dos bispos católicos do país (APECL) deteve-se justamente na reflexão sobre a colaboração dos Movimentos com a Igreja local. América Latina. A Conferência de Aparecida traçou importantes linhas para o continente latino-americano, que deverão ser atuadas com as características dos diversos países. No México, dia 27 de agosto de 2011, mais de 350 presidentes e dirigentes de 34 realidades carismáticas presentes no país, reuniram-se no auditório do Centro Universitário. O evento foi realizado com a contribuição de seis importantes instituições católicas. A imprensa fez uma cobertura vasta e positiva, salientando o desejo de participação na vida do país, movidos pela nova certeza de estar juntos para construir. O tema principal foi a família, vista sob três perspectivas: formação, ação social e comunicação. O intercâmbio de ideias e propostas, emergidas no fórum, foi elaborado e assinalado no manifesto final, “Juntos pelo México”. E movimenta-se também a Europa. A comunhão entre os Movimentos católicos, iniciada em 1998, suscitou o interesse inclusive de Movimentos de várias outras igrejas cristãs e de novas comunidades, que já em 2000 quiseram conhecer Chiara Lubich e estabeleceram uma amizade sempre mais estreita com ela. Entre os iniciadores dessa “amizade carismática” recordamos Helmut Nicklas (responsável pela ACM de Munique, associação ecumênica de jovens cristãos). O que os uniu foi o desejo de realizar alguma coisa para que a Europa possa reencontrar a força de suas origens, por meio da contribuição dos próprios carismas e da vida permeada pelo Evangelho que, como uma grande rede unida, dê testemunho dele. Um projeto que se exprimirá no dia 12 de maio de 2012, na manifestação internacional “Juntos pela Europa”, em Bruxelas (Bélgica), com eventos locais simultâneos, em toda a Europa. A palavra-chave dessa amizade é “Pentecostes 1998”, a recordação do primeiro encontro mundial com João Paulo II. A promessa de Chiara Lubich, de contribuir para realizar o desejo do Papa de que exista uma comunhão cada vez mais profunda entre os Movimentos e novas comunidades, é o mandato transmitido a todos os que partilham da espiritualidade da unidade.

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Histórias de uma professora

«Estava dando aula para a minha nova turma, uma classe do primeiro ano do ensino fundamental com 26 crianças super vivazes. Tinha acabado de conquistar, com grande esforço, a atenção deles, quando bateram à porta. Uma das serventes me avisava de um telefonema. Era a mãe de Paulo, separada de modo conflituoso do marido, com o qual briga constantemente. Nestes dias ambos os pais estão lutando pelo filho, com atitudes discutíveis, e enchem também os professores com muitos telefonemas. Eu teria todos os motivos para dizer que não podia atender o telefone, estou dando aula e já imagino do que se trata. Mas naquele instante, entre os legítimos raciocínios de uma professora interrompida no seu trabalho, abre caminho a frase da Palavra de Vida: “Faz com que eu sempre fale como se fosse a última palavra que digo”. É uma ocasião para vigiar! Sorri para a servente, deixei-a tomando conta da turma e fui atender o telefone com um coração novo. Escutei o que já imaginava… mas até o fim, sem julgar, sem fazer pesar que tinha sido importunada. No final consegui dizer à mãe de Paulo que a entendo, que compreendo o seu estado de espírito, mas que acredito que pelo bem de Paulo é possível colocar de lado o orgulho ferido e o rancor, e agir unicamente pelo bem da criança. Depois de umas duas horas, passando pelo corredor, encontrei a servente que se aproximou e me disse: “Sabe, aquela mãe voltou a telefonar… ela me disse apenas para lhe dizer ‘obrigada’”. Dias atrás estava saindo da escola correndo, com mil coisas para fazer, inclusive as compras, e encontrei Flora, uma servente que veio do Brasil e que há poucos meses trabalha conosco. Ela precisava fazer um requerimento à diretora e não sabia por onde começar, inclusive pela dificuldade com a língua. Comecei a pensar porquê, entre tantos professores, ela estava pedindo justamente a mim que estava tão ocupada! A Palavra de Vida mais uma vez me convidou a “vigiar”. É Jesus que está pedindo! Será que vou responder a Ele que estou com pressa e que se dirija a outro? Sentei ao lado de Flora e ajudei-a a escrever o requerimento. Depus propus que digitasse no computador, para que ficasse mais apresentável, mas ela não sabia usá-lo. Fomos juntas até a sala de informática e digitei para ela, sem olhar para o relógio. Duas semanas depois, quando estava entrando na sala dos professores, Flora me chamou e deu-me um lindo cachecol azul. “Você não precisava fazer isso”, disse-lhe, e ela me respondeu: “Mas eu também quero mostrar que lhe quero bem, como você fez comigo”». (B. O. – Itália)

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Histórias de empresários: a Unitrat, de Bari, Itália

Franco Caradonna,

Com 35 anos de vida a Unitrat tem uma história a contar. Desde o desafio pela perda de postos de trabalho até o respeito pela concorrência; da partilha de experiências técnicas ao “contrato de solidariedade”, até o nascimento de uma cooperativa social para portadores de deficiência, um centro sócio-sanitário e uma escola de verão de Economia Civil. Caradonna ajuda-nos a entrar nas dinâmicas da empresa, que levaram a estas escolhas corajosas. «Estudei e casei-me em Turim, para onde tinha me transferido, da Puglia, minha terra natal, com minha família. Após várias experiências como dependente, eu e seis amigos lançamo-nos numa aventura maior, reunindo economias, capacidades profissionais, ideias e tempo livre. Como alguns de nós provinham do sul da Itália, decidimos abrir uma empresa perto de Bari, a Unitrat s.r.l. Eu trabalho como administrador dessa empresa, na qual hoje trabalham 25 funcionários e que lida com cerca de 600 clientes, num raio de 500 km. Nos últimos dois anos os lucros reduziram-se a 50%, efeito da crise do setor no qual atuamos, metalúrgica mecânica. Quando Chiara Lubich lançou a Economia de Comunhão, em 1991, sentimos que ela confirmava a nossa experiência e isso foi um impulso para prosseguir. As dificuldades que encontramos com frequência são ligadas às infraestruturas insuficientes, mas também a uma “pobreza sociocultural” que tem raízes profundas, e que interfere na participação e na responsabilidade. Apesar das dificuldades procuramos estabelecer relacionamentos de gratuidade, de confiança e reciprocidade, com dependentes, clientes, fornecedores e concorrentes e com as instituições. Um exemplo. O proprietário de uma empresa, nosso fornecedor, teve um enfarte, o que provocou sérios problemas à sua empresa. Ao invés de nos dirigirmos a outros, como seria prudente, continuamos a comprar dele, antecipando os pagamentos para que pudesse pagar os salários e as dívidas mais urgentes. O seu consultor administrativo o abandonou. Então, um dos nossos colaboradores se ofereceu para atualizar os seus papeis que estavam atrasados. Como não conseguiu, de qualquer modo, evitar a falência, assumimos dois de seus dependentes e ajudamos um terceiro a iniciar um próprio negócio. Saímos dessa operação sem perdas, porque tendo aceito a sugestão do proprietário de adquirir o seu maquinário a preço de avaliação, revendendo alguns, recuperamos mais do que havíamos investido. Convencidos de que os resultados não dependem apenas dos investimentos, mas principalmente das pessoas, procuramos envolver os dependentes na participação acionária e na distribuição extracontratual de parte dos lucros, enquanto uma outra parte é destinada às finalidades da EdC. Em 2000 ajudamos na criação de uma cooperativa social para portadores de deficiência, e estipulamos uma convenção entre cerca de 10 empresas e a prefeitura de Bari, para inserir nas nossas empresas menores em situação de risco. Organizamos estágios para estudantes das escolas médias e instituímos prêmios e bolsas de estudos para estudantes universitários do Instituto Politécnico. A Conferência Episcopal da Puglia propôs, em 2008, o renascimento de uma associação formada por empresários, profissionais e artesãos, a UCID. Foi confiada a mim a responsabilidade por essa nova associação, o que recebi como um fruto dos relacionamentos construídos nesses anos. Este ano a UCID-Puglia contribuiu na preparação da “Escola de Verão de Economia Civil”, que envolveu 50 jovens da nossa região, e que continuará por todo o ano, com quatro cursos de formação, sendo que o primeiro já foi realizado no último mês de setembro». Fonte: www.edc-online.org