14 Jul 2020 | Sem categoria
Cinco anos após a publicação da Encíclica do Papa Francisco, o paradigma da ecologia integral orienta a leitura deste tempo de pandemia. Entrevista com Luca Fiorani, coordenador de EcoOne.
Desde a publicação de Laudato Si, a Encíclica do Papa Francisco sobre os cuidados do planeta, passaram cinco anos. Falamos sobre este assunto com Luca Fiorani, professor nas universidades de Lumsa, Marconi e Sophia, investigador da Agência nacional para as novas tecnologias, energia e desenvolvimento económico sustentável (Enea, Italia) e coordenador da EcoOne, rede ecológica do Movimento dos Focolares. Em tempos de pandemia, que lições podem vir da Laudato Si e do seu paradigma de ecologia integral? Eu penso no “tudo interligado”. Antes da pandemia, o Papa fez-nos saborear o seu lado positivo, isto é, a maravilhosa relação que existe entre os elementos naturais, incluindo a pessoa. A pandemia, por outro lado, sublinhou o lado negro deste “tudo interligado”, porque a atividade humana, que levou à destruição de habitats naturais, e o salto de espécies do vírus de animal para homem estão ligados. Qual é o fundamento evangélico do compromisso com o cuidado da Criação? É o “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Um dos conceitos-chave do Laudate é “ouvir tanto o grito da terra como o grito dos pobres”. É verdade que para o Evangelho a natureza tem valor em si mesma, mas também é verdade que cuidar da natureza significa assegurar um planeta saudável para os mais desfavorecidos e para os nossos filhos. Significa lembrar-nos dos “milhões mais baixos”, esses milhões de pessoas que são vítimas de uma “pandemia crônica” devido a 17 doenças tropicais negligenciadas. O conceito de ecologia integral pode orientar os caminhos futuros? Este é o conceito fundamental de todo o ensino do Papa Francisco, que nos convida a superar o atual sistema sócio-econômico. Hoje vivemos no paradigma da revolução industrial, que considera os recursos naturais ilimitados. Estes recursos, pelo contrário, são limitados e, por conseguinte, precisamos encontrar um modelo diferente de desenvolvimento que também tenha em conta as necessidades dos povos esquecidos pelas sociedades ditas “evoluídas”. O Laudate apela a uma “conversão ecológica”. O que significa viver os princípios da ecologia integral? A ecologia integral diz respeito não só ao ambiente, mas a todos os aspectos da vida humana, à sociedade, à economia e à política. Portanto, cada um de nós deve tentar mudar as suas vidas a partir, por exemplo, das escolhas dos consumidores. Depois podemos também escolher governadores sensíveis aos cuidados da natureza e fazer campanhas de pressão para o desinvestimento em combustíveis fósseis em favor dos renováveis. Neste ano especial das celebrações da Laudato Si, com que iniciativas estará presente o Movimento dos Focolares? O Movimento participa nas iniciativas da Igreja Católica e nos eventos promovidos pelo Movimento Católico Global pelo Clima, ao qual adere. Além disso, organiza a conferência “Novos caminhos para a ecologia integral” que será realizado em Castel Gandolfo (RM) de 23 a 25 de outubro, cujos pormenores estão disponíveis em www.ecoone.org. O seu último livro intitula-se “Il sogno (folle) di Francesco”. Um pequeno manual (científico) de ecologia integral”. Porque é que se fala de um sonho louco? Porque parece verdadeiramente impossível mudar o curso deste planeta, para um mundo onde todos nos sentimos irmãos e construímos mais pontes do que muros, mas – como disse a fundadora do Movimento dos Focolares Chiara Lubich – “só aqueles que têm grandes ideais fazem história”!
Claudia Di Lorenzi
13 Jul 2020 | Sem categoria
Estar confinado muitas vezes testou a nossa caridade. De fato, não é fácil estar fechados em casa e viver lado a lado. Quando estamos muito próximos, tocamos os limites uns dos outros e eles nos pedem um “algo mais de amor”, que se chama “suportação”. É consolador saber que Chiara Lubich também encontrou esse tipo de dificuldade na sua vida comunitária. (…) Dias atrás, peguei um livro (…) intitulado O segredo de Madre Teresa, de Calcutá, naturalmente. Eu o abri no meio, na parte em que fala da «mística da caridade». Li esse capítulo e outros. Eu me absorvi com muito interesse naquelas páginas. Tudo o que se refere a essa futura santa me interessa pessoalmente, pois, durante anos, ela foi uma preciosíssima amiga minha. Veio-me em relevo, de modo claro, o radicalismo extremo da sua vida, da sua vocação sem meias medidas, que impressiona e quase assusta. Mas, sobretudo, me impulsiona a imitá-la naquele típico empenho radical e sem meias medidas que Deus exige de mim. (…) Animada por essa convicção, retomei o nosso Estatuto, convencida de que encontraria nele a medida e o modelo do radicalismo de vida que Deus pede a mim. Eu o abri e, logo na primeira página, levei um pequeno choque espiritual, como se tivesse feito uma descoberta naquele momento (e faz quase 60 anos que eu o conheço!). Trata-se da «norma das normas, da premissa de qualquer outra regra» da minha e da nossa vida: gerar – assim se exprimia o Papa Paulo VI – e manter antes e acima de tudo (…), Jesus entre nós por meio do amor recíproco. (…) Imediatamente proponho viver essa norma, primeiro no meu focolare e com quem está mais próximo de mim. Nós sabemos: “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra”[1]. Também na nossa casa nem sempre tudo é perfeito: uma palavra a mais, minha e de outras, um silêncio prolongado demais; um julgamento apressado, algum pequeno apego, um sofrimento mal suportado. Tudo isso, certamente incomoda Jesus entre nós, quando não impede a Sua presença. Sei que devo ser a primeira a dar espaço a Ele, aplainando tudo, preenchendo tudo, temperando tudo com a máxima caridade; “suportando” tudo, nas outras e em mim. Uma palavra que geralmente nós não usamos, mas que é muito aconselhada por São Paulo. Suportar não é um ato qualquer de caridade. É uma caridade especial, a quintessência da caridade. Eu começo. E a experiência até que não vai mal; aliás, funciona! Em outros momentos eu teria convidado logo as focolarinas, que moram comigo, a fazerem o mesmo. Agora não. Sinto o dever de fazer primeiro toda a minha parte; e surte efeito. Além do mais, preenche o meu coração de felicidade, talvez porque, assim, Ele volta a tornar-se presente e permanece entre nós. Mais tarde, direi a elas o que vivo, mesmo consciente de que devo continuar a agir assim, como se eu fosse a única a fazê-lo. E a minha alegria chega ao ápice, quando me vêm à mente as palavras de Jesus: “Misericórdia eu quero e não sacrifício”[2]. Misericórdia! Eis a caridade refinada que nos é pedida e que vale mais do que o sacrifício, porque o melhor sacrifício é este amor que sabe também suportar, que sabe, quando necessário, perdoar e esquecer. (…) Este é o radicalismo, esta é a atitude sem meias medidas, que se exige à nossa vida.
Chiara Lubich
(em uma conexão telefônica, Rocca di Papa, 20 de fevereiro de 2003) Tirado de: “Per essere una piccola Maria”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, pag. 650. Città Nuova Ed., 2019. [1] Cf. Jo 8, 7. [2] Mt 9, 13.
11 Jul 2020 | Sem categoria
“O diálogo inter-religioso de Chiara Lubich – diz Maria Voce, Presidente do Movimento dos Focolares – foi uma verdadeira profecia que está se realizando agora como uma resposta concreta às necessidades da humanidade”. O Copresidente Jesús Morán explica como a ética do cuidado é a base do novo Pathway, que será lançado no dia 20 de junho de 2020 pelos jovens dos Focolares. https://vimeo.com/429994305
10 Jul 2020 | Sem categoria
As duas crises que estão abalando o país, pandemia e racismo, poderiam levar a um futuro melhor. Uma participação de Susanne Janssen, diretora da revista Living City.
O racismo é um vírus que nunca foi erradicado dos Estados Unidos. Depois da Guerra Civil (1861-1865), a escravidão foi abolida no papel, mas ainda hoje pessoas negras e brancas não são tratadas da mesma maneira. A morte de George Floyd trouxe à tona o problema. Após os oito minutos atrozes em que Floyd implorou pela sua vida serem filmados, não era mais possível afirmar que a culpa fosse somente da vítima; esse vídeo, juntamente com outras tantas pessoas (não só afro-americanas) que se uniram durante as manifestações contra o racismo, representam um sinal que dessa vez havia algo diferente. Esperamos que o que aconteceu não acabe sendo somente uma onda de protestos, mas que traga uma verdadeira mudança. O papel da Igreja Depois de alguns dias de silêncio, a Igreja se posicionou a favor daqueles que protestam contra o racismo. O cardeal de Boston, Sean O’Malley, escreveu que o homicídio de George Floyd “é uma prova dolorosa daquilo que é e foi para os afro-americanos o fracasso de uma sociedade que não está preparada para proteger a vida deles e de seus filhos. As manifestações e os protestos desses dias foram pedidos de justiça e expressões agonizantes de uma profunda dor emocional da qual não podemos nos distanciar”. A conferência episcopal dos Estados Unidos afirmou que o racismo é como o pecado original dos Estados Unidos, que acompanha o crescimento da nação e a impregna até hoje. Os espaços de reflexão estão se intensificando na igreja e na sociedade. Os primeiros passos Com o slogan “cortar os recursos”, pretende-se ir além de uma simples operação de reestruturação da polícia. A intenção é começar tudo de novo e dar vida a uma polícia mais sintonizada com os cidadãos. Nos últimos anos, fala-se muito da sua progressiva militarização, mas, na verdade, também deve-se dizer que muitos dos deveres que cumpre caberiam aos assistentes sociais. Diferentemente dos casos de violência contra afro-americanos que ocorriam no passado, atualmente muitas pessoas procuram aprender, escutar e confrontar o passado, concentrando a reflexão nos problemas estruturais que permaneceram depois da abolição da escravidão e naqueles ligados à segregação, como as assim chamadas leis de Jim Crow e a lei sobre direitos civis de 1964. Sim, porque encarar os preconceitos que estão dentro de cada um e os privilégios sociais de que gozam os brancos já é um primeiro passo. Dois autores, Ibram X. Kendi e Robin DiAngelo, afirmam que é necessário um passo que vá além de “ser uma boa pessoa”. É preciso, em vez disso, combater as estruturas de opressão. Ainda hoje, em uma situação cotidiana como uma blitz policial, a cor da pele pode fazer a diferença entre a vida e a morte. A contribuição do Movimento dos Focolares Em primeiro lugar, as comunidades do Movimento dos Focolares estão examinando se internamente há discriminação e racismo. O pensamento do Movimento sobre a justiça racial é um ponto de partida para começar um diálogo sincero entre nós e com as pessoas ao nosso redor. Vamos dar espaço para os testemunhos dolorosos de racismo, mas também para as experiências de quem cresceu em um contexto de privilégio dos brancos e tenta começar um processo de reconhecimento dos próprios limites. Essas conversas não são fáceis, mas são necessárias para reconstruir relacionamentos verdadeiros. “Se não ficarmos atentos, acabaremos aceitando os princípios da retórica comum sobre a diversidade que muitas vezes apoia os privilégios e acentua as diferenças”, afirma uma docente latina negra. Um acadêmico de mais de 80 anos contou como teve de aprender a ser mais aberto em sua vida, sobretudo quando uma de suas filhas se casou com um jamaicano: “Pensei que seus filhos sofreriam discriminação. Mas agora vejo como são um exemplo luminoso para muitas pessoas”. O papel dos jovens Os jovens estão na linha de frente e pedem uma mudança de mentalidade. Uma jovem mestiça diz: “Quero ajudar meus irmãos e irmãs para que sejamos mais ouvidos, do contrário, me arrependerei por toda a minha vida…”. O slogan “Black Lives Matter”, que uniu tantas pessoas e encheu as ruas, também é alvo de polarização. Não raramente, nos deparamos com mensagens que procuram desacreditar quem luta por mais justiça, mas pouco a pouco nota-se uma mudança na opinião pública. De fato, muitas pessoas condenam o modo com o qual o presidente Donald Trump lidou com as crises recentes: a pandemia e o racismo estrutural. Por enquanto, o candidato do Partido Democrático, Joe Biden, tem uma vantagem nas sondagens de 13%, mas ainda é cedo para dizer como estará a situação em novembro, quando os estadunidenses irão às urnas.
Susanne Janssen, diretora da revista Living City
9 Jul 2020 | Sem categoria
As organizações sociais dos Focolares atendem mais de 3.500 famílias e criam redes de solidariedade durante a pandemia
Distribuídas em todo o território nacional, as vinte e uma organizações sociais inspiradas no carisma do Movimento dos Focolares estão dando um importante testemunho de solidariedade e de fraternidade em tempos de pandemia.

Foto: Obra Lumen
O relacionamento estabelecido com as famílias em vulnerabilidade social durante anos permitiu que essas organizações tivessem conhecimento dos muitos desafios enfrentados neste período tão difícil. E a lista é extensa. As comunidades relatam o medo de se expor ao vírus; a situação de suas casas pequenas e muitas vezes insalubres, onde praticar o isolamento social é quase impossível; dificuldade em receber o auxílio do governo; hospitais públicos lotados; transportes públicos lotados; além das enormes taxas de desemprego que, de acordo com um estudo publicado pelo jornal Nexo, nas favelas, em 7 de cada 10 famílias existem pessoas que ficaram desempregadas durante a pandemia. Por tudo isso, sabemos que a pandemia não é democrática. “Mesmo em meio às dificuldades, temos o desejo de continuar agora com maior vigor a ‘dar a vida’ pela nossa gente. Por isso, as organizações sociais continuam a atender de uma nova forma nas comunidades onde estão inseridas. Não há atividades presenciais, mas o trabalho incessante continua”, destaca Virgínia Tesini, responsável nacional pelas obras[1] sociais do Movimento dos Focolares. 
Foto: Instituto Mundo Unido
Todas as organizações realizaram ações solidárias nesse período. E gostaríamos de compartilhar com vocês alguns números dessa rede de generosidade, graças ao contributo de muitos membros e amigos do Movimento dos Focolares e dessas organizações. A criatividade é grande e até mesmo cestas básicas com alimentos típicos de festas juninas estão sendo entregues reforçando também a nossa cultura. “Além disso, diversas das nossas organizações fizeram “lives” para recolher arrecadações, gincanas solidárias, doação de obras de arte de artistas com venda pelas redes sociais e doação dos valores para a organização, atendimento virtual com equipe de profissionais para pessoas que sofrem de depressão e ansiedade, cursos, ações de prevenção ao coronavírus e, inclusive, geração de emprego e renda com a confecção de máscaras, para citar apenas algumas iniciativas”, completou Tesini. Diante de realidades tão desafiadoras e respostas tão imediatas e humanas, não nos resta senão concordar com o Papa Francisco em sua carta aos movimentos populares, da qual reproduzimos um trecho abaixo: “Se a luta contra o COVID-19 é uma guerra, vocês são um verdadeiro exército invisível que luta nas trincheiras mais perigosas. Um exército sem outra arma senão a solidariedade, a esperança e o sentido da comunidade que reverdecem nos dias de hoje em que ninguém se salva sozinho. Vocês são para mim, como lhes disse em nossas reuniões, verdadeiros poetas sociais, que desde as periferias esquecidas criam soluções dignas para os problemas mais prementes dos excluídos.” Confira algumas fotos das ações. __________ Se você deseja contribuir, mesmo que à distância com alguma ação de solidariedade das obras sociais do Movimento dos Focolares, confira a lista abaixo com seus pontos de comunicação. Região Sul Porto Alegre (RS) – AFASO-RS – Associação de Famílias em Solidariedade do Rio Grande do Sul. Florianópolis (SC) – IVG – Instituto Vilson Groh Curitiba (PR) – Anpecom (com atuação nacional) -> campanha extraordinária Covid-19 Região Sudeste Vargem Grande Paulista (SP) – Mariápolis Ginetta – SMF – Sociedade Movimento dos Focolari Itapetininga (SP) – ANSPAZ – Associação Nossa Senhora Rainha da Paz (com atuação nacional) Guaratinguetá (SP) – Fazenda da Esperança – Campanha emergencial para abrigar moradores de rua (organização com atuação internacional) São José do Rio Pardo (SP) – MAPEAR – Associação Mobilizando Amigos pelo Amor Rio Grande da Serra (SP) – PROFAVI – Promoção a Favor da Vida São Paulo (SP) – AFAGO-SP -Associação de apoio à família, ao grupo e à comunidade – São Paulo Rio de Janeiro (RJ) – Grupo Pensar Rio de Janeiro (RJ) – CMSMA – Casa do menor São Miguel Arcanjo (com atuação internacional) Juiz de Fora (MG) – Casa Bethanea Região Centro-Oeste Brasília (DF) – AFAGO-DF – Associação de apoio à família, ao grupo e à comunidade do Distrito Federal Região Nordeste Maceió (AL) – IMU – Instituto Mundo Unido Recife (PE) – Escola Santa Maria Recife (PE) – AACA – Associação de apoio à criança e ao adolescente Recife (PE) – Comunidade Católica Lumen Teresina (PI) – NAV – Núcleo de Ação Voluntária Itapecuru-Mirim (MA) – SERCOM – Serviço Comunitário – Projeto Magnificat Região Norte Elém (PA) – Mariápolis Glória – NAC – Núcleo de Ação Comunitária Manaus (AM) – ACACF – Associação Comunitária de Apoio à Criança e à Família – Projeto Roger Cunha Rodrigues Fonte: http://www.focolares.org.br [1] Aqui também colocaria organizações sociais Se quiser dar a sua contribuição para ajudar aqueles que sofrem os efeitos da crise global da Covid, vá a este link
8 Jul 2020 | Sem categoria
Se por um lado o governo demonstra incapacidade de conduzir os brasileiros para a superação dessa crise sanitária e econômica, por outro, uma impressionante rede humanitária está sendo tecida em favor daqueles mais vulneráveis à pandemia da Covid-19. A análise do editor-chefe da Revista Cidade Nova. Quando esta matéria começou a ser redigida, mais de 51 mil pessoas já tinham falecido no Brasil, vítimas da Covid-19, desde que a doença chegou ao país, no mês de março. Além disso, a estimativa era de que mais de 1 milhão de habitantes já tinham sido contaminados. Isso sem considerar os casos não notificados oficialmente. Nas cidades onde recentemente foi permitida alguma abertura para a circulação, em geral, o número de novos casos aumentou de forma significativa. À parte a boa notícia de que a maioria dessas pessoas sobreviveu ao novo coronanvírus, o número de mortes é assustador. Para os especialistas em geral, as posturas do governo federal no combate à doença e a falta de uma consciência de muitos cidadãos brasileiros a respeito do perigo da Covid-19, combinadas, explicam essa performance desastrosa.

Foto: Magnificat
Em relação ao comportamento da população, parece que muitas pessoas só têm se convencido da facilidade de contágio ou mesmo do perigo à vida quando sabem de alguém próximo que foi vítima da doença. Outros se arriscam à exposição pública, mesmo conscientes do problema, porque não encontram outra forma de sustentar a própria família. Afinal, nem todo mundo consegue trabalhar home office. Com efeito, o índice de desemprego cresce aceleradamente e um agudo quadro de recessão tende a ser inevitável, assim como o colapso da economia. Quanto à postura do governo federal, o presidente Jair Messias Bolsonaro é cotidiana e duramente criticado por não agir em favor da população tanto no sentido de protegê-la quanto como aquela que é vitimada pelo contágio, sobretudo a grande massa da população mais vulnerável economicamente. Na contramão do que defendem especialistas do mundo inteiro, ele insiste em conclamar as pessoas que saiam do isolamento social e voltem às suas atividades normais, sob a justificativa de que todos “morreremos de fome se a economia parar”. Na esteira dessa postura, Bolsonaro tem criticado governadores estaduais e prefeitos municipais por insistirem no confinamento social; tem hostilizado a imprensa sob a justificativa de que a divulgação dos dados da doença é deturpada e chegou a incentivar seus apoiadores mais radicais a invadirem hospitais para provarem que sobram leitos, ao contrário do que a mídia em geral tem difundido. Até mesmo o atraso na divulgação dos números de mortos parece refletir essa atitude do presidente em combater o isolamento social, até o momento, única prática segura e recomendável para evitar o contágio do corononavírus. Soma-se ao fato que, após perder dois médicos que ocupavam o cargo de ministro da saúde, neste momento, esse ministério crucial para o atual contexto é dirigido provisoriamente pelo general de exército Eduardo Pazzuelo, paraquedista de formação e sem qualquer conhecimento ou experiência no âmbito da saúde pública ou privada. Vale salientar que o Brasil conta com um sistema público de saúde considerado modelo por especialistas do mundo todo, o SUS (Sistema Único de Saúde). No entanto, há bastante tempo fragilizado pela falta de investimento e de políticas públicas adequadas, esse sistema tem se mostrado insuficiente para atender a população, sobretudo a mais carente. Os defensores mais aguerridos do presidente brasileiro seguem a cartilha de Bolsonaro, argumentado que ele foi eleito democraticamente (e isso deve ser respeitado), que a mídia só aponta para o que considera negativo no seu governo (e nunca mostra o que de bom esse tem feito) e, pior, não apresenta a realidade dos fatos. No final das contas, o saldo final desse embate é que, de fato e mais uma vez, quem está perdendo é a população brasileira em geral, sobretudo a população pobre. Com efeito, a histórica desigualdade social brasileira tem se potencializado com a crise sanitária e econômica provocada pela pandemia de Covid-19. Um consolo e esperança ante esse quadro difícil nasce de uma rede silenciosa de heróis anônimos que se arriscam e não medem esforços para ajudar quem mais precisa e sofre em razão dessa crise sem precedentes. 
Foto: Centro Social Roger Cunha Rodrigues
Solidariedade em rede Assim que teve início a pandemia de Covid-19, muitas pessoas, grupos e instituições civis e religiosas no Brasil, a exemplo do que aconteceu em outras regiões do mundo, arregaçaram as mangas e começaram a se mobilizar para ajudar os mais vulneráveis ante essa situação: idosos, doentes, pobres e outros. Uma grande rede de solidariedade tem sido tecida ao redor do país, protagonizada por heróis anônimos, entre os quais muitos acabaram se tornando verdadeiros mártires, vítimas fatais da doença. Isso sem contar o trabalho de profissionais da saúde e outros (como da segurança, do transporte, do comércio de alimentos e medicamentos) que se colocam na linha de frente dessa luta contra o coronavírus. Esses gestos de solidariedade podem ser simples, originais e acontecem em diferentes proporções: vale tanto fazer as compras para a vizinha idosa quanto distribuir alimentos para moradores em condição de rua. O professor universitário Vidal Nunes, da cidade de Vila Velha (Estado do Espírito Santo) fez uma panela grande de sopa e resolveu oferecer aos vizinhos. A iniciativa contagiou uma dessas pessoas que propôs formarem um grupo de ajuda mútua entre os moradores do condomínio. 
Foto: Instituto Mundo Unido
Também entidades que se dedicam a obras sociais passaram a concentrar esforços em ajudar os mais atingidos por essa crise. Um exemplo desse trabalho diz respeito à iniciativa conjunta da Obra Lumen e da Fazenda da Esperança, às quais se uniram várias outras entidades, que passaram a acolher moradores em condição de rua, em diferentes regiões do Brasil. Outras organizações – como Associação Nacional para uma Economia de Comunhão (Anpecom) – tem mobilizado empresas e empreendedores associados e simpatizantes a realizar uma comunhão de recursos em ajuda a famílias pobres. Já no Distrito Federal e cidade de Goiânia, na região centro-oeste do País, um grupo de pessoas de diferentes idades, ligadas ao Movimento dos Focolares, se organizou e iniciou o Projeto Sejamos Luz, por meio do qual tem levado ajuda material e orientações a famílias em dificuldade e também a uma aldeia indígena da região. A revista Cidade Nova apurou que 1,1 bilhão de reais em doações foram feitas por bancos e empresas entre o final de março e final de abril deste ano, segundo cálculos da Associação Brasileira de Captadores de Recursos. 
Foto: Associação de Atendimento a Criança e ao Adolescente
A solidariedade não se dá apenas em termos de ajuda material. Há também quem resolveu se mobilizar para ajudar os amigos a assumirem uma conduta saudável durante o confinamento. É o caso da professora de Educação Física, Renata Castilho Leite, da cidade de São José dos Campos (Estado de São Paulo) que resolveu gravar mais de 40 pequenos vídeos com orientações de exercícios físicos que todos pudessem fazer em casa. Há ainda quem é capaz de se arriscar ou superar obstáculos para agir em solidariedade. Um desses exemplos vem da diretora de escola pública Cleusa Regina de Vargas Araújo, da pequena Garuva (interior do Estado de Santa Catarina, região sul do Brasil). Ao constatar que vários de seus alunos não tinham acesso à Internet e não poderiam dar continuidade aos estudos a distância durante o período de isolamento social, Cleusa não teve dúvida: passou a percorrer até 6 quilômetros para entregar material e merenda escolar de casa em casa. Além desse gesto de doação material, a diretora pode doar seu tempo e atenção aos alunos e familiares que encontraram nela alguém capaz de acolhê-los. A julgar por essa e milhares de outras experiências (que nunca serão notícia), em tempos de distanciamento social, esse encontro entre as pessoas nunca foi tão importante para um país que precisa virar o jogo contra o coronavírus.
Luís Henrique Marques
Editor-chefe da revista Cidade Nova
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