Movimento dos Focolares

Evangelho vivido: fazer-se um

“Para amar de modo cristão é preciso “fazer-se um” com cada irmão (…): entrar o mais profundamente possível na essência do outro; entender realmente seus problemas, suas exigências; compartilhar seus sofrimentos, suas alegrias; debruçar-se sobre o irmão; de certa forma, fazer-se ele, fazer-se o outro. Isto é o cristianismo: Jesus se fez homem, fez-se nós para fazer-nos Deus; dessa maneira o próximo se sente compreendido, reerguido” . (Chiara Lubich) Um aluno para reprovar Uma colega me confidenciou a preocupação com um aluno, que eu também conheço por outras matérias, que deve ser proposto para a reprovação. Pergunto se há matérias nas quais ele vai bem: “Não seria o caso de ajudar e apoiar?”. A colega muda o tom da conversa: “Bem, na verdade em algumas é realmente muito bom”. Refletimos juntas sobre como e o que fazer. Depois convidamos o aluno para uma conversa e explicamos a ele a situação. Em poucas semanas as coisas mudam de modo impensável. Encontrando-me, um dia, com a mesma colega ela me diz: “Esta história me ajudou inclusive com meus filhos. Eu estava tremendamente aborrecida com o mais velho que perde tempo com o violão e transcura todo o resto. Depois desse apoio ao aluno eu comecei a encorajá-lo. Cantou para mim duas poesias que tinha musicado: uma surpresa não só para mim, mas também para meu marido. Os seus irmãos, cúmplices, já sabiam do seu talento. Se você faz algo por alguém o seu coração se abre e vê aquilo que antes não via”. (C. A. – Polônia) Esposa e sogra Um amigo falou-me do sofrimento por não conseguir colocar harmonia entre sua esposa e a sogra: brigas e ressentimentos causavam mau-humor na família, e os filhos sofriam com isso. Eu o escutei longamente. Consegui apenas dizer-lhe que não tomasse partido, mas escutasse uma e outra. Depois procuramos estar próximos daquela família em dificuldade, com alguma sobremesa e outras atenções. Passado algum tempo o amigo veio me ver no trabalho. Tudo havia se resolvido de maneira imprevisível. “Foi a sua escuta que me deu a força para agir da mesma forma”. (J. F. – Coreia) Presente atrai presente Eu tinha dado a um morador de rua uma garrafa que enchia de água e levava sempre no carro comigo. Um dia, estando com sede, parei numa fonte, mas não era fácil beber, era preciso ter uma garrafa e eu havia dado a minha. Estava quase indo embora quando um velhinho que estava carregando seu carro com algumas garrafas perguntou se eu estava com sede. “Sim, mas, como vê, eu não tenho como pegar a água”. E assim, desejando-me felicidades, deu-me uma de suas garrafas que estava acabando de colocar no carro, e que agora me enche de otimismo, porque me recorda que presente atrai presente. (R. A. – Albânia) A força de uma amizade Conversando um dia com uma amiga da paróquia, escutei dela que eu deveria dedicar-me mais à minha família. O que ela entendia disso se não era nem casada? De qualquer modo aquela frase me perturbou e não me deixou mais tranquila. Refleti sobre a relação que tinha com meus quatro filhos. Parecia-me tudo certo, mas… com M. algo não ia bem. Enquanto ele estava no quarto, escutando música, com uma desculpa qualquer fui até ele e pedi sua opinião sobre uma certa situação. Depois de um pouco ele começou a chorar. Estranho para mim, que o conhecia como um rapaz forte e seguro. Logo em seguida apareceu o nó: tinha tido uma grande desilusão com sua namorada e não tinha estado distante da ideia do suicídio. Fiquei petrificada. A amiga havia aberto os meus olhos. Esta “atenção” eu dirigi também aos outros filhos. Acreditava ser uma mãe perfeita, que garantia tudo, mas faltava alguma coisa: faltava um amor atual, disposto aos imprevistos. (F. G. – Filipinas)

Aos cuidados de Stefania Tanesini (retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, anno V, n.6,novembre-dicembre 2019)

Agir para realizar a unidade

Agir para realizar a unidade

A contribuição do Movimento dos Focolares para o diálogo entre as Igrejas cristãs. A intervenção de Maria Voce no Angelicum, em Roma, a 25 anos da Encíclica Ut unum sint “Tudo parte da descoberta de que Deus é Amor.” Maria Voce, presidente do Movimento dos Focolares, identifica assim o ponto de partida do percurso que levou à progressiva intuição e definição da espiritualidade da unidade, que dá vida ao Movimento fundado por Chiara Lubich. Em sua fala na Universidade São Tomás de Aquino, em Toma, na ocasião de um ciclo de conferências dedicado aos 25 anos da Encíclica Ut unum sint, a presidente do Movimento dos Focolares evidenciou a contribuição que o carisma doado por Deus a Chiara Lubich, e a espiritualidade de comunhão que nasceu, oferecem ao caminho de unidade entre as igrejas cristãs. Os pontos principais dessa espiritualidade identificam os passos da estrada que leva à unidade da família humana. Agir para realizar a oração de Jesus na cruz “…que todos sejam um”, “que tornou-se o objetivo do Movimento dos Focolares”. A descoberta do Amor de Deus que é pai, suscita a consciência de que somos todos irmãos. Portanto, explicava Chiara Lubich, “Amar Deus como filhos significava amar os irmãos”. Deriva disso – afirma Maria Voce – outro ponto da espiritualidade da unidade: o amor ao próximo. Concretamente se move seguindo os caminhos do Evangelho. “O carisma da unidade”, cita Lubich, “logo o percebemos como (…) luz para compreender melhor o Evangelho, fonte de amor e de unidade, e força para vive-lo com decisão”. Logo percebemos – conta – que o mandamento novo de Jesus, “que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34), indicava a medida do amar. Aquele “como” significava “dar a vida até estar pronto a morrer pelo próximo”, como fez Jesus Cristo. Assim, os primeiros focolarinos começaram a viver no amor recíproco, estipulando entre eles aquele pacto de unidade que constitui “o começo do estilo de vida particular que o Espírito Santo propunha: um estilo comunitário”. Colocando em prática o amor recíproco, Chiara e suas companheiras fizeram a experiência da presença de Jesus entre elas. A presidente do Movimento dos Focolares cita Lubich: “Notamos na nossa alma um salto de qualidade: uma nova paz (…) Percebemos o que estava acontecendo quando lemos as palavras no Evangelho: ‘Onde dois ou três estão reunidos no meu nome, eu estou no meio deles’ (Mt 18,20). A caridade recíproca tinha nos unido (…). Jesus presente selava entre nós a unidade”. E dessa busca pela presença de Jesus – explica Maria Voce – que nasce o nome pelo qual é conhecido o Movimento dos Focolares: “Obra de Maria”, como expressão do desejo de ter um modelo. Como Maria gerou Cristo, também os focolares vivem procurando gerar entre eles e com os outros a presença de Jesus. Vivendo a espiritualidade da unidade, logo perceberam que ela poderia encontrar aplicação em vários contextos. “No início dos anos 60”, conta, “Chiara Lubich entrou em contato com irmãos e irmãs da Igreja luterana, depois com anglicanos, batistas, metodistas, ortodoxos e membros das Igrejas orientais ortodoxas, e descobriu-se que essa presença de Jesus no meio poderia ser estabelecida entre cristãos de Igrejas diversas”. É a descoberta que dará início a percursos de diálogo, seja a nível teológico, seja no plano “da vida”, suportados pela experiência concreta de unidade entre cristãos de Igrejas diversas que entre os membros do Movimento já era realidade. Todavia, não é raro fazer a experiência de falta de unidade. Uma condição que para os focolares é a ocasião para “trabalhar” e reconstruí-la. E “a estrada para realizar a unidade”, explica Maria Voce deixando a palavra a Chiara Lubich, “é Jesus Abandonado na Cruz: ‘Porque Jesus se cobriu com todos os nossos pecados, podemos descobrir por trás de cada dor (…) seu vulto, abraça-Lo, de certo modo, naqueles sofrimentos (…) e dizer-lhe o nosso sim como Ele fez. (…) e Ele viverá em nós, como Ressuscitado’. Mais tarde”, continua, “Chiara distinguirá Jesus Abandonado também nas divisões entre as igrejas cristãs: agir, também aqui para curar a unidade despedaçada é ‘a principal obra do Movimento dos Focolares’”. Nessa prospectiva, Maria Voce evidencia enfim a contribuição que uma experiência de unidade entre teólogos de várias igrejas “poderia oferecer ao diálogo ecumênico”: “Se os teólogos se deixarem guiar pelo ser um em Cristo”, Jesus “facilitará a compreensão dos diversos pontos de vista teológicos” e “descobriremos a verdade juntos”. Uma última passagem foi dedicada ao carisma da unidade como caminho de santidade. Maria Voce recordou que acabou de se concluir a fase diocesana do processo de canonização de Chiara Lubich, agora em estudo no Vaticano.

Claudia Di Lorenzi

A comunidade acadêmica de Sophia recebida em audiência pelo Papa

A comunidade acadêmica de Sophia recebida em audiência pelo Papa

A exortação de Francisco ao instituto universitário: «Eu lhes deixo três palavras, os exortando a continuar com alegria, visão e decisão o caminho de vocês: sabedoria, pacto, saída». «Estou contente com o caminho que vocês fizeram nestes doze anos de vida. Vão em frente! O caminho só começou», iniciou o Papa Francisco, saudando a comunidade acadêmica do Instituto Universitário Sophia, que recebeu hoje em audiência privada. «No percurso que está diante de vocês não lhes faltam os pontos de referência: em especial, a inspiração do carisma da unidade do qual nasceu a Universidade de vocês e ao mesmo tempo as linhas que tracei na Constituição apostólica Veritatis gaudium, na qual o projeto acadêmico e formativo de vocês quer se refletir. Também a participação de vocês na preparação e nos desenvolvimentos do Pacto Educativo Global vai nesta direção».

© Servizio Fotografico Vaticano

Da audiência, que se realizou no dia 14 de novembro passado na sala do Consistório, participaram o Cardeal Giuseppe Betori, Arcebispo Metropolita de Florença e Grã Chanceler do Instituto, a doutora Emmaus Maria Voce, Vice Grã Chanceler do Instituto e Presidente do Movimento dos Focolares, toda a comunidade acadêmica do Instituto Universitário Sophia, uma representação do grupo de trabalho de “antropologia trinitária” do CELAM e os docentes da futura sede local de “Sophia” na América Latina e Caribe. «Eu lhes deixo três palavras, os exortando a continuar com alegria, visão e decisão o caminho de vocês: sabedoria, pacto, saída» disse o Papa Francisco a eles. A Sabedoria que, explicou o Santo Padre, ilumina “todos os homens”, com os quais “somos chamados a caminhar juntos”. O Pacto, porque “é o elemento determinante da criação e da história”, “o pacto entre Deus e os homens, o pacto entre as gerações, o pacto entre os povos e as culturas, o pacto – na escola – entre os docentes e os discentes e também os pais, o pacto entre o homens, os animais, as plantas e até mesmo as realidades inanimadas que fazem bela e multicolorida a nossa casa comum”. O Papa Francisco exortou a comunidade acadêmica de Sophia a viver este pacto para “abrir as estradas do futuro a uma civilização nova que abrace na fraternidade universal a humanidade e o cosmo”. Enfim, “saída”: «Devemos aprender com o coração, com a mente, com as mãos a “sair do acampamento” – como diz a Carta aos Hebreus (13,13) – para encontrar, precisamente lá fora, o rosto de Deus no rosto de cada irmão e cada irmã».

© Servizio Fotografico Vaticano

No final da audiência, Piero Coda, Reitor do Instituto, comentou: «Somos gratos ao Papa Francisco que apreciou a participação de estudantes provenientes dos cinco continentes e também de diferentes tradições religiosas, e o nosso compromisso de não olhar do terraço, mas de pôr as “mãos na massa” para caminhar como protagonistas por estradas novas de fraternidade». A audiência com o Papa Francisco chega apenas poucos dias após a cerimônia de inauguração do ano acadêmico de 2019/2020 (segunda-feira, 11 de novembro de 2019), com a outorga do doutorado h.c. em Cultura da Unidade ao filósofo e teólogo prof. Juan Carlos Scannone S.J., expoente da “teologia do povo” e professor do jovem seminarista Jorge Mario Bergoglio.

Tamara Pastorelli

Relacionamento entre homem e mulher: juntos para desafiar o futuro

“Desafiar o futuro. Homens e mulheres em diálogo” foi o título do encontro que ocorreu de 18 a 20 de outubro de 2019 em Castelgandolfo, promovido pelo centro do diálogo com pessoas de convicções não-religiosas do Movimento dos Focolares. Dar voz às exigências, aspirações e ideais pelas perspectivas culturais diferentes por meio de um diálogo em todos os campos entre pessoas sem uma referência religiosa específica e cristãos católicos; também estavam presentes dois jovens muçulmanos. Esse foi o objetivo do encontro “Desafiar o futuro. Homens e mulheres em diálogo”, que ocorreu em Castelgandolfo (Roma, Itália) de 18 a 20 de outubro passados, promovido pelo Movimento dos Focolares. Uma escolha temática ditada pelo esforço de ler o profundo das mulheres e dos homens de hoje, adultos e jovens, pertencentes a diversas crenças e convicções. O que os mantêm juntos? Qual é a contribuição específica da sinergia homem-mulher para um futuro de paz e para trabalhar pelo bem-comum? Quando e como se inicia a educação para o relacionamento homem-mulher? “Cada um é diferente, mas, às vezes, os adolescentes são excluídos por sua aparência. Os verdadeiros heróis não fazem isso, mesmo que não seja sempre fácil.” É o incipit de Verdadeiros Heróis, o curta-metragem do diretor belga Erik Hendricks que abriu o congresso. Gravado com um elenco de estudantes, o documentário abriu o caminho às múltiplas contribuições que foram a alma e a riqueza desses três dias. No centro do encontro, o aprofundamento de uma peculiaridade do estilo do Movimento dos Focolares: o trabalho conjunto e a corresponsabilidade de homens e mulheres. Foi muito importante também a contribuição de Piero Taiti, médico, pioneiro no diálogo entre pessoas de convicções não-religiosas, sobre a contribuição profética de Chiara Lubich. Moreno Orazi, arquiteto, que poderíamos definir como um cristão inquieto, em busca e com muitas perguntas de fé, apresentou testemunhos aos homens e mulheres no âmbito social: “Mesmo revelando uma grande diferença de impacto do pontos de vista psicológico entre o corpo feminino e o masculino, constato uma reciprocidade substancial de sentimentos do ponto de vista da condição existencial e afetiva a nível profundo, para ambas a solidõe e a falta de reconhecimento do próprio ser e das próprias expectativas e aspirações é fonte de um profundo sofrimento. Há uma voz interior que emana do corpo das mulheres, diante da qual o homem se colocou de modo ambíguo no passado, amplificada ou não ouvida segundo o próprio interesse do momento, mas nunca percebida como a chave para colher a essência da feminilidade”. Para Giuseppe Auriemma, médico psiquiatra, a reciprocidade que nasce do relacionamento entre homem e mulher é uma fonte para superar as diferenças. “A reciprocidade requer esforço e pede empenho, pede que se supere a rigidez do contraste, que se bloqueie a tentação de resolver as diferenças na identidade do mais forte, superar a mentalidade do possuir e do apropriar-se. É, na verdade, um caminho duro de libertação. Homens e mulheres deveriam ter mais consciência de suas características peculiares, seja como dons e riquezas, seja como limites. Só então poderão viver uma relação, um encontro, porque cada um terá algo para dar a algo para receber”. Donatella Abignente, professora de teologia moral, ilustrou o ponto de vista católico: “Na Igreja católica há um debate muito vivaz. No sínodo sobre a Amazônia, o Papa pediu que fosse reconhecido oficialmente o ministério da mulher sobre a Palavra. Há resistência por parte de pessoas que dão muita importância aos direitos individuais e dos mais fortes, por isso as mulheres só se tornaram importantes quando adquiriram força para fazer valer os próprios direitos. O direito se afirma na base da comunhão. Quanto à reciprocidade, ela se constrói com a gratuidade que não é não se preocupar com a plena realização de si, o voluntariado da mortificação ou um altruísmo muito símile à busca da própria perfeição por meio do serviço. Não se trata de se tornar mulher ou homem, mas ser pessoa na comunhão gratuita, comprometendo nós mesmos em uma transformação que dura toda uma vida”. Não faltaram contribuições de pessoas provenientes dos continentes não-europeus, como Vania Cheng, que falou do relacionamento entre homem e mulher na China, de Ray Asprer na sociedade filipina e Mounir Farag, Haifa Alsakkaf e Giovanna Perucca sobre a mulher nos países islâmicos. No seu relatório “Chaves interpretativas da história dos relacionamentos homem-mulher”, a socióloga Giulia Paola Di Nicola apresentou um panorama histórico, enquadrando as mudanças que aconteceram no decorrer dos séculos e a divisão dos papéis, hierarquias e valores que caracterizaram, nos milênios, uma certa ordem social e de pensamento.

Da redação

Brasile: Na Amazônia, a minha bússola é o amor

Brasile: Na Amazônia, a minha bússola é o amor

Entrevista com frei Gino Alberati, missionário desde 1970 entre os povos da Amazônia. Agora que os refletores da mídia sobre o pulmão verde da terra se apagaram, porque os incêndios foram controlados e o Sínodo da Amazônia da Igreja católica divulgou o documento final, nos parece importante continuar a dar voz a quem vive na Amazônia e contribui para o seu desenvolvimento todos os dias. O risco de ver esse pedaço de terra como um cartão exótico, distante da vida das nossas metrópoles é muito forte. Trata-se de um dos maiores laboratórios multiculturais do planeta, um aspecto que seguramente faz menos barulho que a questão ambiental, mas cujo respeito e proteção são também centrais para a sobrevivência de sua população. Por isso, assumir o desafio cultural na Amazônia e apoiar a educação e a formação humana é de importância vital.

© ACN Kirche in Not

Também fazem parte da sua população várias comunidades do Movimento dos Focolares: famílias, adolescentes e religiosos como frei Gino, como é chamado por todos. Frei Gino Alberati é um missionário capuchinho italiano que mora e trabalha na Amazônia desde 1970, servindo dezenas de comunidades ao longo do rio Solimões, na fronteira brasileira com a Colômbia e o Peru. Viaja com um barco que lhe foi doado e é ele quem cuida de sua manutenção. O barco lhe permite celebrar missas e levar a palavra de Deus às comunidades deslocadas em um território muito vasto e também lhe dá a oportunidade de salvar vidas humanas porque o médico mais próximo geralmente fica a um dia de viagem. Foi difícil entrar em contato com ele, mas conseguimos entrevista-lo por Whats App. Sobre a sua preparação para a missão, frei Gino conta que passou dias inteiros no hospital S. Giovanni em Roma. “Por nove meses, eu entrava nos laboratórios de análise e nas salas operatórias; fazia isso para aprender alguma coisa de medicina, porque sabia que na missão à qual eu estava destinado não haveria nenhuma estrutura sanitária e teria de improvisar como médico. Eu tinha 29 anos quando cheguei na Amazônia e as distâncias ou meios de transportes precários que usava não me importavam”, explica frei Gino, “a minha bússola era o amor. Nesses anos, fiz realmente de tudo e agora sigo uma paróquia que cobre um território de 400 quilômetros, no Rio Amazonas e Rio Icá”. Quando lhe perguntamos como as pessoas vivem, responde que o rio é a vida deles. “No rio, viajam e pescam; a água fertiliza as terras mais baixas. Atualmente, sigo 40 comunidades, além da paróquia da cidade de Santo Antônio do Içá. Também sou conselheiro municipal da saúde pública e levo à administração da cidade as necessidades sanitárias das comunidades que visito. Não vivemos de perto o drama dos incêndios porque nesta região estamos longe dos grandes interesses; isso, apesar da diminuição do território coberto pela floresta, está sob os olhares de todos. Também fazem parte da população índios da etnia Ticunas; são aproximadamente 45.000 e vivem da agricultura, caça e pesca. Trabalhamos muito para dar a eles uma formação humana, cultural e espiritual de base. Há pouco tempo, entregamos a 200 líderes de 24 comunidades a bíblia traduzida na língua Ticuna.” Frei Gino insiste no papel fundamental dos índios para a conservação do planeta: “Com certeza, foram feitos muitos esforços para combater o risco de poluição, como o uso dos motores a hidrogênio nos meios de transporte, mas, apesar disso, os grandes do mundo veem só o ‘deus-dinheiro’ e querem pegar as terras dos nativos para extrair minerais e petróleo. O estilo de vida dos índios segue o ritmo da natureza; pegam da terra só o essencial, trabalham em pequenos pedaços de terra e por isso não são necessários grandes desmatamentos”. Quando lhe perguntamos qual era a coisa mais preciosa de que os homens e mulheres da Amazônia precisam, depois das necessidades materiais, responde que com certeza é o amor, “o amor recíproco que leva à fraternidade”, capaz de transformar pessoas e territórios em qualquer latitude.

Stefania Tanesini

Chiara Lubich: concluída a fase diocesana de beatificação

Chiara Lubich: concluída a fase diocesana de beatificação

Concluiu-se domingo, 10 de novembro, a fase diocesana da Causa de canonização e beatificação de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares. Mais de 500 pessoas lotaram a Catedral de Frascati (Roma), onde se realizou a última sessão do inquérito diocesano. Entre os participantes, o cardeal Tarcisio Bertone, a presidente dos Focolares Maria Voce (Emmaus) e o copresidente Jesús Morán, alguns parentes de Chiara Lubich, dois representantes da Igreja Ortodoxa, vários prefeitos da região do Lácio, sacerdotes, leigos e religiosos e muitos amigos que conheceram Chiara e o carisma da unidade dos Focolares. Diante do altar, a mesa com as 75 caixas contendo a documentação coletada e que será entregue à Congregação para as Causas dos Santos na Santa Sé, onde prosseguirá o estudo e a avaliação do que foi coletado.

As últimas 3 das 75 caixas estão seladas

A cerimônia foi presidida por Dom Raffaello Martinelli, bispo de Frascati, que resumiu esses anos de coleta de testemunhos e de material do seguinte modo: “A Santa Sé e o processo diocesano devem destacar o heroísmo das virtudes, não simplesmente a bondade de uma pessoa, mas o heroísmo. Foi o que pedi desde o início, inclusive nos testemunhos. Devemos demonstrar como Chiara viveu as virtudes cristãs de modo heroico, ou seja, as virtudes Teologais (fé, esperança, caridade), Cardeais (prudência, justiça, fortaleza, temperança) e toda uma série de virtudes derivadas”. Em seu relatório, o Delegado Episcopal Mons. Angelo Amati evidenciou que foram ouvidas 166 testemunhas também em várias viagens, como por exemplo, às dioceses de Roma, Albano e Fiesole (Itália), Lausanne-Genebra-Friburgo (Suíça), Augsburg-Ottmaring e Bamberg-Nuremberg (Alemanha), Westminster (Inglaterra), Gand e Bruxelas (Bélgica) e duas cartas rogatórias: à Bangcoc (Tailândia) e Liubliana (Eslovênia). “O inquérito verificou a vida, as virtudes, o carisma e a espiritualidade específica de Chiara, – ressaltou Amati -, unidos às temáticas teológicas apresentadas, tais como: a Unidade, Jesus abandonado e Jesus no meio, sobre a fundação da Obra de Maria (Movimento dos Focolares) e os contatos interconfessionais e inter-religiosos. Total de páginas coletadas: 35.057 em 102 volumes”, que contêm vários tipos de material (testemunhos, cartas, documentos publicados e não publicados, escritos, diários, etc …). A seguir, a declaração do Promotor de Justiça Sac. Joselito Loteria – que juntamente com o notário Adv. Patrizia Sabatini e o Delegado Episcopal formam o tribunal diocesano instituído para a Causa de Chiara Lubich -, depois, o bispo Martinelli leu o decreto de conclusão da fase diocesana e nomeou “Portitore” o Dr. Daniel Tamborini, que terá a tarefa de entregar a documentação à Santa Sé. Em seguida, os juramentos do Portitore, do bispo Martinelli e de todos os membros do tribunal diocesano e da Postulação – Postulator Sac. Silvestre Marques, Vice-Postulador, Dra. Giuseppina Manici, Vice-Postulador, Dr. Waldery Hilgeman, e a assinatura do verbal da sessão de encerramento. O momento central foi o fechamento e a colocação do selo nas últimas 3 das 75 caixas contendo as 35.000 páginas. “O nosso único desejo agora é oferecer à Igreja, através desta ampla documentação, o dom que Chiara foi para nós e para muitíssimas pessoas – afirmou Maria Voce, presidente do Movimento dos Focolares, na sua saudação na Catedral -. Acolhendo, dia após dia, de modo coerente, o carisma que Deus lhe deu, caminhando e tendendo para a plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade, Chiara se prodigalizou para que esse caminho de vida evangélica fosse percorrido por muitas pessoas, com a renovada determinação de ajudar todos os que encontrava a colocar Deus em primeiro lugar e a “santificarem-se juntos”. O seu olhar e o seu coração, como agora demonstrado, eram movidos por um amor universal, capaz de abraçar todos os homens para além das diferenças, sempre propensa em realizar o testamento de Jesus: Ut omnes unum sint. É motivo de alegria para todos saber que, agora, a Igreja vai estudar e analisar a vida e as virtudes da serva de Deus, a nossa amadíssima Chiara”. O processo diocesano A data 7 de dezembro de 2013 marca o início da fase diocesana da Causa de canonização e beatificação de Chiara Lubich – pouco mais de cinco anos após sua morte em 14 de março de 2008 – quando foi assinada em Castel Gandolfo a petição oficial para o início da Causa. As primeiras a serem ouvidas foram as testemunhas oculares que a conheceram desde os primeiros tempos da fundação do Movimento dos Focolares. Posteriormente, Dom Raffaello Martinelli consultou a Conferência Episcopal da região do Lácio sobre a oportunidade de iniciar a Causa, obtendo um parecer positivo. O bispo constituiu, assim, uma comissão de 3 especialistas em matéria histórica e arquivística que tinha a tarefa de reunir todo o material não publicado relativo a Chiara. Martinelli nomeou depois três Teólogos que examinaram os escritos publicados. Em 29 de junho de 2014, a Santa Sé concedeu o seu Nulla Osta à abertura oficial da Causa. Em 27 de janeiro de 2015, na Catedral de Frascati, realizou-se a cerimônia de abertura da fase diocesana, concluída em 10 de novembro de 2019.

Lorenzo Russo Departamento de Comunicação do Movimento dos Focolares

Texto: Saudação conclusiva de Maria Voce